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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Memórias da redação - Ilustrador Cláudio Duarte (1960-2026): traços e cores que ficam. Por José Esmeraldo Gonçalves



Acima, dois memoráveis trabalhos de Cláudio Duarte para a Revista Fatos: Milton Nascimento e Dom Ivo Lorscheiter 


por José Esmeraldo Gonçalves 

Em fins de 1984, Carlos Heitor Cony dirigia a Fatos& Fotos, J. A.Barros era o chefe da Arte e eu o editor executivo. A revista atravessava uma fase de desinvestimento. A Bloch enfrentava o alto custo de instalação de cinco emissoras de TV, o núcleo original da Rede Manchete, e bancava a construção de uma grade voltada para a classe A. Naturalmente as revistas sofriam alguns cortes e isso impactava a qualidade editorial das publicações.  Pra falar a verdade, havia uma falta de motivação quanto ao modelo da Fatos & Fotos que, naquele momento, julgávamos desgastado. 

Em 1985, o Brasil passava por uma grande mudança de rumo. Esperava-se a posse de Tancredo Neves, eleito presidente pelo colégio eleitoral da ditadura. Tancredo morreu e o Brasil recebeu um "presente de grego": o notório José Sarney, apoiador da ditadura. De qualquer forma os militares começavam a por o quepe fora do governo. Só a ponta do quepe, mas após 21 anos de ditadura corrupta, torturadora e assassina, era alguma coisa. 

Naquele ambiente político de fim da censura interna e externa, Cony levou a Adolpho Bloch a ideia de lançar uma revista de informação e análise com rubricas de política, economia, internacional, esporte, cultura, turismo etc. 

A experiência de uma revista de informação e hard news era inédita para a Bloch Editores. Cony convocou a mim e ao Barros para, juntos, desenvolvermos um projeto editorial e gráfico da Fatos, este era o nome da nova publicação. Lembro que um diferencial previsto para a Fatos era o uso de ilustrações. Contatamos vários chargistas, cartunistas e ilustradores, alguns experientes e a maioria iniciantes. Um deles era Cláudio Duarte. Em um dos poucos exemplares que me restaram da Fatos, revi algumas ilustrações assinadas por ele. Além do Cláudio, tinhamos uma equipe de craques ilustradores como Gil, Ique, Mariano, Petrúcio, Paulo Melo, Lapi e André Hippert. Quando a revista foi fechada em julho de 1986, após um ano e meio de existência (abatida por campanha de dedos-duros da Bloch viúvos da ditadura - o blog já contou essa essa trama) , os ilustradores se distribuíram em veículos cariocas. Cláudio Duarte foi para O Globo. Em 2001 ganhou o Prêmio Esso de Artes Visuais com o tema Horror em matéria da revista Época sobre o ataque às Torres Gêmeas. 

Cláudio Duarte faleceu no domingo, 4/1/2026, em Florianópolis, aos 66 anos, vítima de câncer. Ele deixa o filho Francisco Duarte e a namorada, a pianista Patrícia Boltroni. Nossos pêsames à família. 

Chico Duarte homenageou o pai nas redes sociais: 

"Parabéns pela vida que você teve, papai. Nasceu pobre, na periferia do Rio de Janeiro, em meio à ditadura militar, apenas com o ensino médio, para se tornar um dos maiores ilustradores da história do país, Venceu na vida apenas com suas canetas e muita força de vontade".

Atualização - 9/1/2026 - Tentei encontrar, mas não consegui, uma página que o colaborador Claudio Duarte fez para a Fatos na semana em que a Câmara dos Deputados era alvo de denúncias de corrupção. Isso em 1985 ou 1986, se não me engano. Vale contar o caso mesmo sem o "corpo de delito". O ilustrador criou uma incrível cena do plenário tomado por pequenos ratos vistos no tapete entre as fileiras de cadeiras. Puro realismo. Tivemos a intuição de que daria problema na cultura Bloch mas publicamos, não poderia ficar inédita aquele ilustração. Cony participou do fechamento, bancou a ideia mas viajou em seguida. No domingo, dia em que a revista ia para a banca, recebi um telefonema do Adolpho Bloch. Ele reclamou e perguntou como publicamos "aquilo". "A empresa pode ser fechada", dizia. Argumentei que não chegaria a tanto, a tal denúncia estava em todos os jornais e TV.  Sugeri que ouvisse a opinião de Murilo Melo Filho, o experiente e ponderado diretor que cuidava das questões políticas da editora. Realmente, nas semanas seguintes não surgiu qualquer represália da Câmara. Na redação, acreditamos que o sucursal de Brasília deve ter superestimado a crítica ao falar com o Bloch. A revista durou alguns meses ainda após o caso, mas começou a atrasar o pagamento dos colaboradores. Um sinal do fim próximo. Cláudio Duarte foi para O Globo. Creio que inicialmente ilustrava o Jornal da Família. Não demorou muito tomei o mesmo rumo. A  convite do saudoso Humberto Vasconcelos, que editou o Caderno B do JB em fase áurea e era então editor do Segundo Caderno, entrei no Globo como seu subeditor. Foi uma boa experiência, trabalhei com ótimos profissionais, mas aceitei um convite para retornar à Bloch, dessa vez para a Manchete, onde fui chefe de reportagem, chefe de redação e editor executivo na equipe de Roberto Muggiati. Em 1996, a convite de Sergio Zalis, diretor do escritório carioca da Caras, assumi como editor senior da operação Rio de Janeiro da revista de celebridades. Outra boa experiência.  Os títulos Fatos, assim como Fatos & Fotos, deixaram de existir. Essa última ainda foi para as bancas ocasionalmente em edições de carnaval. A Fatos? Ficou no nosso currículo como uma aventura passageira. Nada mais do que isso.    

sábado, 7 de outubro de 2023

Fotografia: o voo da deusa da raça

 


O Globo de hoje publica essa belíssima foto da ginasta Rebeca Andrade. Perfeita. O fundo escuro do ginásio ressalta o voo da brasileira que ontem ganhou medalha de prata. Essa foto seria uma belíssima página dupla no tempo remoto das revistas ilustradas impressas. Hoje, na prova de salto, Rebeca ganhou o ouro. E quem foi prata? Ninguém menos do que a campeoníssima Simone Biles, atleta estadunidense. A foto é da AFP, assinada pelo fotógrafo Lionel Boaventura. Os jornais não enviam mais fotógrafos brasileiros para cobertura de mundiais de atletismo, judô, ginástica, natação etc. É caro, justificam. Mesmo na Copa do Mundo do Catar foram poucos os enviados especiais. Com sorte, os editores poderão, quem sabe, valorizar a Olimpíada de Paris ano que vem. A divulgação das competições é importante para os patrocinadores que ainda apoiam o esporte e isso beneficia os atletas. Resta às confederações levarem seus próprios fotógrafos para obterem alguma visibilidade para os atletas nos veículos digitais. Não apenas para o marketing, mas para os leitores que acompanham os esportes. Pelo menos uma agência estrangeira registrou o momento único da brasileira Rebeca Andrade. Valeu Lionel.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Na capa do Globo: Paolla Oliveira é vacina contra a tradição de desfortunas de Agosto

 

por Flávio Sépia 

Em tempos sombrios o Globo enfeitou o domingo, 1° de agosto, com uma capa que destaca a  exuberante Paolla Oliveira em foto de Fe Pinheiro para a revista ELA. Um tipo de primeira página mais rara na linha do jornal carioca. Bem melhor do que uma capa com Michel Temer, Bolsonaro e, com todo o respeito, o Dalai Lama também citados no noticiário de ontem. 

É um mês que costuma aprontar. A história da política brasileira guarda decepções o ano todo, mas Agosto, que homenageia o imperador César Augusto, é campeão em crises. 

Que a bela Paolla seja a melhor vacina. 

domingo, 4 de outubro de 2020

A reportagem que foi escrita e nunca publicada...

 


por José Esmeraldo Gonçalves

Não sei se os jornais ainda fazem textos prévio, biográficos, de personalidades de idade avançada ou eventualmente hospitalizadas. Quem inventou isso, quando o digital não existia, imaginou aliviar a correria de fechamentos caso uma celebridade deixasse esse mundo a uma hora ou menos do prazo final de gráfica. Hoje, em segundos, o Google dá a ficha de qualquer um, talvez nem seja mais necessário deixar um arquivo pronto e revisado para uma eventualidade dramática.   

Já passei por um sufoco desses. Trabalhava no Segundo Caderno do Globo, quando editado por Humberto Vasconcelos, edição da terça-feira já fechando, e a Rede Globo noticia no dia 17 de agosto de 1987, pouco depois de 20h30, a morte de Carlos Drummond de Andrade. Parte da redação já estava liberada. Em minutos, todos os repórteres restantes, incluindo reforço do pessoal do esporte, estavam colhendo depoimentos de amigos do grande poeta e vários intelectuais, por telefone, enquanto um redator acessava no sistema o tal funéreo salvador. Sim, O Globo já estava informatizado, ainda não com os práticos PCs, mas com um complicado mainframe que comandava centenas de terminais. Funéreo era o nome que a redação dava à bio que já estava feita e que foi jogada na página dupla diagramada às pressas. Deu tudo certo. O Globo registrou à altura a morte de Drummond. 



Hoje, ao ler na primeira página do Segundo Caderno um belo texto do antropólogo Hermano Vianna, irmão do cantor e compositor Herbert Vianna, me senti transportado da quarentena direto para o verão de 2001. Trabalhava na revista Caras, onde os verões eram, de resto, sempre tempos de páginas agitadas e festivas. No dia 4 de fevereiro de 2001, há quase 20 anos, tivemos que virar a chave: Herbert Vianna sofreu um acidente aéreo em Mangaratiba (RJ). O cantor estava acompanhado da mulher, Lucy, que não sobreviveu. Ele ficou gravemente ferido. A tragédia entristecia o Brasil e as primeiras notícias sobre o estado de Herbert Vianna eram inquietantes, enquanto milhares de fãs torciam pela sua recuperação. Havia esperança, mas não otimismo entre os que se aglomeravam em frente ao Copa D'Or, onde ele estava internado e acabaria passando quase dois meses de luta. 

A equipe da Caras, na sucursal do Rio, foi orientada a preparar um caderno especial sobre a vida e trajetória de Herbert Vianna. Boa parte daquela redação, a ala jovem, crescera ao som do Paralamas. Sei que o jornalista pode ser visto por muitos como "frio", tantas são as tragédias que passam pelo seu caminho, mas fui testemunha do respeito com que foi feito o caderno especial. 

Aquelas foram 32 páginas sofridas, escritas, editadas, diagramadas e, felizmente, nunca publicadas. 

Na imagem acima, reproduções desse caderno que ficou no passado e só agora vem a público.   

E Herbert Vianna seguiu em frente, como registra o Segundo Caderno.  


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Brasil e Estados Unidos: enfim aliados. Na tragédia e no genocídio




A capa do New York Times, publicada no último domingo, repercutiu enormemente nos Estados Unidos e no mundo. Lista mil nomes de mortos pela Covid-19, 1% das 100 mil vítimas fatais que as estatísticas consolidariam três dias depois. Abaixo do título que lamenta a perda incalculável, um subtítulo registra que não são apenas simples nomes em uma lista, "eles são nós".

Dias antes do New York Times, O Globo publicou uma capa gráfica igualmente impactante, com os nomes e histórias de 10 mil brasileiros que se foram. Somos nós, também,

Jornais europeus, como Le Monde e Liberation comentaram a capa no NY Times e relacionaram a tragédia americana com a do Brasil. Ambas são imensas e alcançam a liderança mundial nos trágicos números. A do Brasil ainda em dramática aceleração.

A triste liderança Estados Unidos-Brasil remete a dois líderes irresponsáveis: Donald Trump e Jair Bolsonaro. Os dois desprezam a pandemia, fazem piadas e campanha contra o isolamento recomendado pelo cientistas. Ambos assumiram o papel de cientistas loucos, disseminaram fake news e recomendaram remédio que não cura, pode matar, a tal Cloroquina. Trump ultrapassou o colega brasileiro e "receitou" doses orais de detergente como preventivo da Covid-19. No dia em que foi publicada essa capa do NY Times, o presidente americano passou a fazer uma inexplicável campanha contra o uso de máscaras, segundo a CNN. O brasileiro já citou o isolamento como "babaquice" e, na mesma frase, ironizou sobre o uso de máscaras.

Tio Trump e o seu sobrinho tropical estão irmanados na prática genocida.

sábado, 16 de maio de 2020

Dia histórico para o jornalismo: O Globo publica a palavra "foder" na capa

Reprodução O Globo

por Ed Sá 
Anote essa data: 15 de maio de 2020. O Globo publica na primeira página a palavra "foder'. Claro que vem da boca suja do sociopata, e isso deu importância política à frase. 
Em todo caso, é histórico.
Vão longe os tempos em que o Pasquim era pontilhado de asteriscos para simbolizar o vocabulário cabeludo. Ainda bem que a linguagem jornalística se aproxima da vida real, embora o povão fale "fuder", bem mais orgástico. 
Mas há uma graduação aí. Leila Diniz falando "foder" era poesia pura. Ela tanto amava foder que cabe a redundância. 
Já para o autor das aspas que O Globo reproduz, tudo é ódio. Até o sentido em que usa o verbo em transitivo direto "foder". No caso, como sinônimo de "prejudicar", "lesar'", "causar dano", "deteriorar", "danar", dificultar", "tolher".

domingo, 10 de maio de 2020

A capa histórica do Globo é um memorial às vítimas da Covid-19 e uma resposta moral a quem debocha da pandemia


A capa do Globo é um choque. Um impacto gráfico à altura do momento dramático que o Brasil vive. A reportagem, que continua nas páginas internas, emociona. Dá nome e sentimento às milhares de vítimas do coronavírus. As perdas deixam de ser apenas números, ganham memórias. E uma comovente homenagem aos brasileiros que se vão. Homenagem que é um forte resposta moral a quem debocha constantemente da pandemia e desrespeita nas ruas os mortos e suas famílias. Em passeio de jet ski, hoje, no Lago Paranoá, em Brasília, o líder maior da seita chamou de "neurose" o terrível drama do brasileiros.

sábado, 4 de maio de 2019

Mídia - Dr. Pangloss e Hardy Har Har - um jornal sonha com trilhões de reais e o outro avisa que a indústria está despencando...

A EXPECTATIVA...


Carlos Heitor Cony escreveu na Folha de São Paulo, muitas vezes, que o otimista é apenas um sujeito mal informado. Parece ser  caso do Globo. Desde a ascensão de Michel Temer, o jornal se embriaga de otimismo. Compraram o discurso da reforma trabalhista como aceleradora - praticamente um Lewis Hamilton - da volta do crescimento. Não rolou. Agora estão fissurados na cifra de 1 trilhão de reais da reforma da Previdência, uma das razões explícitas da adesão do jornal à política econômica de Bolsonaro. Sonham que  a reforma trará piscinas cheias do dinheiro com que Paulo Guedes, o Tio Patinhas da "nova era", promete irrigar os bolsos já nutridos da turma do topo da pirâmide.

Na primeira página de hoje, o onírico 1 trilhão de reais, quase um fetiche, volta a inebriar os editores. Só que, aparentemente, cansado do otimismo que anuncia e que teima em não se realizar, O Globo toma a precaução de avisar que o novo 1 trilhão, dessa vez da área que o Brasil está passando o ponto, a do pré-sal, levará 30 anos para se materializar.

A Folha, embora vista a mesma camisa ideológica do concorrente, ou pensa como Cony - que dizia não abrir mão do pessimismo - ou respeita um pouco mais a inteligência de uma parcela, que seja, dos seus leitores. De qualquer forma, o jornal não esconde que a indústria recua mais 1,3% e avisa que "o pessimismo dos investidores desaquece o mercado".

Um parece a expectativa, outro a realidade. Ideologias e interesse à parte, digamos que a primeira página do Globo foi editada pelo Dr. Pangloss, o personagem "tudo beleza" de Voltaire, e a Folha por Hardy Har Har, a sábia hiena da Hanna Barbera, que tinha dois bordões imbatíveis: "eu sei que não vai dar certo" e "miséria, não sairemos vivos daqui".



... E A REALIDADE.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Bernardo Bertolucci, o adeus do inconformista e o que a manteiga da Normandia tem a ver com isso

Bernardo Bertolucci. Foto: Divulgação
Bernardo Bertolucci morreu nesta segunda-feira, aos 77 anos, em Roma, após longa enfermidade.

Se você buscar a notícia, hoje, no Google, verá centenas de tópicos que associam o diretor italiano a um filme de 1972: O Último Tango em Paris.

Bertolucci foi muito mais do que o regente da ousada contradança existencial e sexual lubrificada por manteiga e executada por Marlon Branco e Maria Schneider. Entre outros filmes, ele dirigiu O Conformista, 1900, La Luna, o Último Imperador, que lhe deu um Oscar, Beleza Roubada, O Pequeno Buda, Os Sonhadores e sua última produção, Io e Te, de 2013.

Sobre O Ultimo Tango, Bertolucci disse, há cinco anos, em entrevista ao jornalista Rodrigo Fonseca, do Globo:

"Aquele filme foi uma tsunami na minha vida. Quando comecei a rodá-lo, acreditava estar apenas contando a história de um americano velho que se envolvia com uma garota em Paris. Do nada, fui pego pela surpresa quando ele virou um sucesso sem tamanho e me permitiu fazer projetos que vieram depois, como “1900”. Sei que até hoje fico envergonhado quando esbarro com alguém dizendo “‘Último tango...’ mudou minha vida”. Isso acontece muito. A bestialidade dele moveu as pessoas. É bom ainda descobrir como ele mobiliza. Cinema não muda um país, mas toca um indivíduo".



Bertolucci tinha razão. Ninguém assistia ao Último Tango impunemente.

Carlos Heitor Cony, por exemplo, que em 2004 escreveu para a Folha de São Paulo a crônica que se segue.

Bertolucci, Marlon Brando e Maria Schneider
nos bastidores das filmagens de O Último Tango em Paris.Divulgação


CARLOS HEITOR CONY

O último tango em Paris e a ligação errada

"Revendo meu caderno de notas, encontrei seu endereço, resolvi telefonar, alô, alô, como vai você, não venha com a desculpa de que eu errei a ligação." Não parece, mas é o início de um sambinha dos anos 50, cujo autor e intérprete não lembro. Lembro o garagista onde guardava meu carro que sempre o cantava enquanto lavava os automóveis entregues à sua guarda.

Volta e meia essa letra mais ou menos infame me vem inteirinha, sobretudo quando, sem muita coisa a fazer, fico que nem o personagem desse samba, "revendo meu caderno de notas" e outros cadernos e papéis avulsos que fui guardando pelo tempo afora.

Acontece que, às vezes, ainda como o personagem do samba, erro de ligação e entro onde não devia nem queria. Foi assim que, numa tarde dessas, encontrei alguns recortes do tempo em que escrevia sobre cinema para uma revista que não existe mais e que me mandava a Paris ou Roma para ver filmes que demoravam a chegar ao Brasil ou que nunca chegavam, e quando chegavam tinham sua exibição proibida pela censura.

Num desses recortes, pomposamente datados de Paris, encontro a pequena resenha que fiz para um filme que provocava espasmos na ocasião, havia gente que atravessava o Atlântico para ver a preciosidade que, antecipadamente sabia-se, jamais seria exibida em telas castas como as nossas daquele tempo.

O filme era "O Último Tango em Paris", que outro dia passou numa das TVs a cabo, quase anonimamente e sem fazer os estragos morais que se temia. Transcrevo a resenha, tal como foi publicada ali pelos inícios dos anos 70:

"Filme inqualificável, esse de Bertolucci, mais escândalo do que sucesso em Paris e agora em Nova York. Uma temática infanto-juvenil (a exaustão do sexo como forma de diálogo) diluída num moralismo de congregado mariano e tratada por um cineasta que domina o seu ofício, mas ainda não tem nada a dizer. Seu mérito mais ostensivo é a coragem de mostrar, a ousadia de condenar aquilo que mostra - uma ousadia de cruzado medieval que nada fica a dever à simpática cara-de-pau dos membros do Exército da Salvação. 

Bertolucci abriu as porteiras - e agora o dilúvio. Como qualquer dilúvio, fará bem à humanidade, exceto aos cineastas do chamado Terceiro Mundo, que resistem a qualquer dilúvio saneador. Marlon Brando arfa durante o filme inteiro e mostra-se desinformado em matéria de certas brincadeiras. 

Utiliza-se da celebrada manteiga da Normandia para indevidos fins, demonstrando total ignorância dos macetes que qualquer menininho do Brasil conhece desde cedo.

Maria Schneider estoura na tela como ninfômana e atriz - as duas coisas em igual medida. A favor de Bertolucci, uma façanha: Jean-Pierre Léaud, aquele canastrão embrionário e obrigatório dos filmes de Godard, aqui aparece realizado, conseguindo um papel que lhe cai sob medida e para o qual não precisou fazer esforço: o do jovem idiotizado pelo cinema. Ele tem o físico, o entusiasmo e a vida pregressa para ser ele próprio o idiota, não o da família, mas o do cinema.

A música é quase excepcional. "O tango é uma maneira de caminhar pela vida" - disse Borges. E um reparo final: Marlon Brando só deixa de arfar na cena em que Maria Schneider, depois de cortar as próprias unhas, aplica-lhe uma massagem estimulante. No fundo, um filme mais inútil do que impróprio para maiores de 18 anos, que daqui a algum tempo será exibido nos colégios de freiras e nos quartéis das Forças Armadas".

É isso aí. Um escritor profissional, como o cronista, obriga-se a escrever tanto que, embora erre muito, é impossibilitado de errar sempre. É mais ou menos como nas antigas apostas da Loteria Esportiva, em que se cravava palpites em 13 jogos, nas hipóteses de vitória, derrota ou empate. Era mais fácil fazer os 13 pontos do que errar em todos, sempre se acertava em um ou dois jogos.

Anos depois, o mesmo Marlon Brando fez furor num filme ítalo-americano em que, no papel de um poderoso chefão da Máfia, aparecia com as bochechas cheias de algodão, arfando o tempo todo por outros motivos que não os provocados pela lasciva mocinha do último tango em Paris. 

Alguns atores nacionais achavam que arfar era moda e quase todos arfavam, uns mais, outros menos, até mesmo quando faziam discursos cívicos pela reforma agrária e contra o imperialismo.

Bem, voltemos ao sambinha com que inicio esta crônica. Lembro agora o nome dele, "Joãozinho Boa-Pinta", parece coisa do Haroldo Barbosa ou do Miguel Gustavo. E tem um segmento que considero um primor na poética popular: "Não sei se ainda posso lhe chamar de meu amor, não sei se ainda tenho aquela velha intimidade...".

Remexi meus papéis avulsos, tal como o Joãozinho Boa-Pinta revia seu caderno de notas. De repente, encontrei o nome e o telefone de uma intimidade que, sem ser velha, era antiga. 

Antes que caísse em tentação e discasse aquele número, pensei melhor e fiquei sem a desculpa de que errara na ligação.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Passaralhos também levam embora a qualidade do jornalismo

A Infoglobo, que edita O Globo, Extra, Época e outros impressos do grupo, faz mais "reestruturação" do que os times do Brasileirão trocam de técnicos.

"Reestruturação ", o nome que os executivos da poltrona dão ao processo, consiste geralmente em ações que parecem não dar muito certo, tanto que são repetidas ao infinito, e apenas resultam em demissões. Também atende pelo nome de passaralho. No Globo, por exemplo, não há ganho de qualidade visível em meio a tantas e sucessivas mudanças, ao contrário.

A Editora Abril, por exemplo, passou por tantas "reestruturações" que desestruturou-se.

Confirmando os rumores da última semana, a Infoglobo demitiu cerca de 40 profissionais - diz-se que o número pode passar de 100. Entre os afastados, são maioria jornalistas experientes que, ironicamente, treinaram como supervisores o grupo de estagiários que reforça as redações, compondo equipes ao lado dos remanescentes.

"Reestruturações" acompanham a visível mudança de foco na estratégia dos veículos impressos para aumentar a expectativa de vida.

Com a queda de publicidade, muitos têm apostado na promoção de eventos. São seminários, debates, feiras, palestras sobre os mais diversos campos, da saúde à educação, da segurança ao meio ambiente. Há departamentos inteiros cuidando da porção promoter em que jornais e revistas investem. E são criativos quanto aos temas que garimpam patrocinadores, geralmente governos, estatais e órgãos do chamado Sistema S, além de leis de incentivo fiscal. Dinheiro público, na maioria. A indução de eventos que muitas vezes têm efeito apenas catártico e se esgotam no evento em si, tornou-se vital para o caixa das empresas jornalísticas, mas não deixa de atingir, de certa forma, o jornalismo. Há veículos que promovem três, quatro eventos patrocinados por semana e isso costuma implicar em  retorno contratual na forma de cobertura, ocupando páginas em detrimento do noticiário. Significa faturamento, mas cobra esse preço: são tantos que os leitores e assinantes saem perdendo conteúdo.

Os passaralhos levam não apenas profissionais experientes, mas boa parte da capacidade das redações na produção de matérias relevantes, exclusivas, que vão além dos press releases, das versões oficiais e do material fornecido por assessorias.

Antigamente dava-se o nome de gillete press às matérias colhidas de fontes secundárias não apuradas diretamente e não creditadas a agências ou material adquirido de outro veículo. Pode ser apenas  coincidência, mas o Globo, hoje, tem quatro grandes reportagens da editoria internacional das quais se sabe apenas a origem geográfica mas não a fonte. Não estão creditadas a agências, nem a veículos, nem a correspondentes.

Seria internet press?

domingo, 19 de agosto de 2018

Bossa Nova, 60 anos: o Globo resgata foto histórica da Manchete


O Segundo Caderno do Globo publica hoje boas matérias especiais sobre os 60 anos da Bossa Nova. Um dos textos, o de Joaquim Ferreira dos Santos, é ilustrado com uma foto da Manchete, devida e justamente creditada. Nara Leão e outras jovens ouvem o violão de João Gilberto nas areias de Ipanema.

Reprodução Revista Manchete, 1959.

Uma "roda de violão" histórica vista em uma série de fotos de Carlos Kerr. Naquele dia, o repórter Aloísio Flores fez um dos primeiros registros da Bossa Nova em revista. A partir de 1958, a Manchete, principalmente sob a direção de Justino Martins, cobriu com regularidade o nascimento do novo gênero musical. Os arquivos sumidos da extinta Bloch guardam ou guardavam centenas de fotos dos primeiros acordes da revolução musical que embalou Ipanema e seduziu o mundo. Memória que, ainda bem, rompe o esquecimento em reprodução digital como essa que O Globo resgata.

domingo, 8 de julho de 2018

Bossa Nova - Há 60 anos, Carlos Kerr, da Manchete, fotografou Astrud e João Gilberto nas areias do Arpoador...


O Globo de hoje publica a foto acima a propósito dos 60 anos da Bossa Nova.

Um pequeno e  importante reparo. A foto não creditada faz parte de uma série de imagens feitas por  Carlos Kerr e publicadas na Manchete na primeira matéria de capa da revista (N° 398) sobre o gênero musical que conquistou o Brasil e o mundo.

Mostra Astrud e João Gilberto no Arpoador.

Curiosamente, o casal não ilustra a capa daquela edição. Justino Martins, então diretor da Manchete, que escalou Carlos Kerr e o repórter Aloisio Flores para a matéria, preferiu uma montagem que considerava de maior apelo em bancas. Os baianos João Gilberto e Astrud eram então desconhecidos do grande público. A solução foi turbinar o foto do autor de "Chega de Saudade" com uma carioca de extrema beleza: Ira Etz, 22 anos, a musa e modelo que reinava nas areias do Arpoador.  Veja, abaixo, a reprodução daquela histórica edição da Manchete. 

A reportagem de Aloísio Flores e do fotógrafo Carlos Kerr, da MANCHETE, chamava a Bossa Nova, que revolucionava a música brasileira no fim da década de 1950, de "Novocaína do Samba" e mostrava imagens hoje raras de João Gilberto em uma "roda de violão" nas areias do Arpoador. São fotos históricas que faziam
parte do Arquivo Fotográfico da Manchete, atualmente em local e condições de preservação desconhecidos..

Astrud e João Gilberto no Arpoador. Foto de Carlos Kerr/MANCHETE
Na primeira capa da MANCHETE sobre a Bossa Nova, a então musa do Arpoador, Ira Etz
reforçava a imagem do quase desconhecido João Gilberto. Na legenda, a revista lançava a pergunta "Que é o samba Bossa Nova?'. E completava: "João Gilberto explica seu 'estado de espírito' ao manequim Iracema". 

domingo, 5 de novembro de 2017

Fotografia: arte 2.0

No campo, a expressão de Marcos Jr e, na...

reprodução, o detalhe da pintura, "O Grito", de Edvard Munch

por Niko Bolontrin
O Globo de hoje destaca uma foto de Delmiro Junior/Raw Image. A cena é do jogo de ontem, Fluminense 2 X1 Botafogo, no instante em que o tricolor Marcos Jr. lamenta um passe errado ainda no primeiro tempo. No segundo tempo, ele faria um gol. Mas a imagem do jogo acabou sendo essa, publicada sob o título "O grito saiu". Arte em dobro.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Fotografia: a Costa Verde por Alex Ferro

O verão aponta na esquina e o caderno Boa Viagem, do Globo, publica hoje matéria de dez páginas sobre Angra dos Reis, Ilha Grande e Paraty, com fotos de Alex Ferro, ex-Manchete, e texto de Denis Kuck.

Ilhas, praias, referências históricas, tudo está lá relatado e registrado de frente para o mar aberto.

A região é exuberante e a matéria um exemplo idem. E com o DNA do jornalismo ilustrado.
Confira AQUI 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O "setor de inteligência" do Flamengo não combinou com os "russos"

por O.V.Pochê

É famosa a pergunta do Garrincha a Vicente Feola, técnico da seleção brasileira campeã na Suécia, em 1958.  Na véspera do jogo contra a então União Soviética, Feola traçou no quadro-negro uma instrução, quase uma bula, para cadenciada troca de passes que, na imaginação do treinador, acabaria fatalmente em um gol do Brasil. Garrincha apenas mandou uma pergunta-drible: "Mas o senhor já combinou com os russos"?

O Muralha é execrado nas redes sociais desde ontem. É campeão em memes. Com raríssimas exceções, o ex-jogador Caio Ribeiro é uma dessas, o goleiro foi detonado por comentaristas haters na TV e nos jornais em contraste com o meia Diego que, embora tenha perdido um pênalti, escapou do linchamento.

Hoje, o Globo revela que Muralha pulou todas as vezes no canto direito do seu gol por ordens da diretoria.

Flagrante da diretoria do Flamengo antes do jogo contra o Cruzeiro.
Nerds estudaram cobranças de pênaltis e, baseados em exaustivos estudos,
mandaram que o goleiro Muralha pulasse todas as vezes
no seu canto direito do gol

O jornal informa que o "setor de inteligência" do Flamengo baixou o decreto após nerds e tecnocratas do clube analisarem em computadores as estatísticas de cobrança de pênaltis dos jogadores do Cruzeiro. Como se sabe, o Flamengo tem sua diretoria hoje formada por oriundos do mercado financeiro e aliados. Dizem que a turma não entende porra nenhuma de futebol mas botou as finanças em dia. Título que é bom, esse ano só o Carioca e, há saudosos quatro anos, uma Copa do Brasil.

Mas eu dizia que Muralha pagou o pato. E foi leal, não caguetou: deu entrevistas desde a derrota e não entregou os nerds que traçaram o plano "brilhante' no computador mas esqueceram de combinar  com os "russos" do Cruzeiro.

Na véspera do jogo, o mesmo Globo publicou um infográfico de cobranças de pênaltis que também trazia o mapa da mina para derrotar o time mineiro. Hoje, Cruzeiro com a mão na taça, o infográfico também virou piada.

Dizem que a diretoria do Flamengo e o "setor nerd de inteligência" voltaram aos computadores: o objetivo agora é a Sul-Americana e uma das vagas do Brasileirão para a Libertadores.

Sob pressão da torcida, o departamento Flanerd estuda modelos matemáticos, simulações, Google, faz pesquisas no site de encontros Tinder, investigações na deep web e pede ajuda do Wikileaks para estudar todos os movimentos de cada um dos cerca de 180 jogadores adversários que o Flamengo enfrentará até a última rodada do Brasileirão, além dos jogos da Sul-Americana.

A NASA vai emprestar alguns supercomputadores.

ATUALIZAÇÃO 

OLHA SÓ O QUE A DIRETORIA DO FLAMENGO COMEMORA. PRA ELES ISSO É MELHOR DO QUE UM TÍTULO? VIBRAM MAIS COM LIKES E EMOJIS DO QUE COM BOLA NA REDE.



EM RESPOSTA AO DIRETOR, ALGUMAS INVERTIDAS DOS TORCEDORES







sexta-feira, 28 de julho de 2017

Fotografia & Justiça: a importante vitória de Orlando Abrunhosa





por Sérgio Rodas (do site Consultor Jurídico - Conjur)


O fato de uma imagem ser famosa não afasta os direitos do autor sobre ela. Este foi um dos fundamentos da 22ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para negou apelação da Infoglobo e condenar a empresa a pagar indenização por danos materiais e morais de R$ 93,7 mil a Carlos Orlando Novais Abrunhosa autor da icônica foto de Pelé comemorando um gol na Copa do Mundo de 1970 com um soco no ar. Segundo a decisão, reproduzir fotografia sem prévia e expressa autorização do autor configura a prática de contrafação, proibida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998).

O autor foi à Justiça após os jornais O Globo e Extra, publicados pela Infoglobo, reproduzirem a imagem em sete ocasiões, entre 2009 e 2014, sem pedir autorização nem remunerá-lo. Segundo ele, a companhia violou seus direitos autorais sobre a fotografia, que foi publicada sem indicação de autoria.

Em contestação, a Infoglobo alegou que as reportagens tinham cunho informativo, de cunho social, sem fim lucrativo. Por isso, não teria cometido danos materiais e morais a publicar a imagem. Além disso, a empresa sustentou que teria havido prescrição, uma vez que já se passaram três anos das veiculações da foto, como estabelece o Código Civil.

Efeito pedagógico
O juiz de primeira instância deu razão ao fotógrafo, mas a empresa recorreu. No TJ-RJ, o relator do caso, desembargador Marcelo Lima Buhatem, entendeu que a reiterada publicação sem autorização das imagens configura danos continuados. Dessa maneira, o prazo prescricional para a ser contado a partir da data da última veiculação – no caso, 5 de janeiro de 2014. Como a petição inicial foi distribuída em 21 de maio daquele ano, não houve prescrição, destacou o relator.

A fotografia é uma obra protegida por direitos autorais, como estabelece o artigo 7º, VII, da Lei 9.610/98, apontou Buhatem. Assim, disse, a sua reprodução sem prévia autorização configura a prática de contrafação. E o fato de ser uma imagem famosa, comumente reproduzida, não afasta o direito do autor sobre ela, ressaltou o desembargador.

Para ele, a Infoglobo infligiu danos morais a Abrunhosa, e o mero pagamento de retribuição autoral não é suficiente. O valor da indenização, a seu ver, deve “desestimular o comportamento reprovável de quem se apropria indevidamente da obra alheia”. Considerando que a imagem foi reproduzida sete vezes, durante cinco anos, Marcelo Buhatem avaliou que a reparação de 100 salários mínimos – o que dá R$ 93,7 mil – fixada pela primeira instância é adequada.

Ele também concluiu que a Infoglobo gerou danos materiais ao fotógrafo, uma vez que usou indevidamente um patrimônio dele. Dessa forma, o magistrado decidiu que o ressarcimento deve ser feito com base no valor de mercado normalmente empregado para utilização de espaço nos jornais O Globo e Extra, a ser apurado na liquidação de sentença. O voto de Buhatem foi seguido por todos os seus colegas da 22ª Câmara Cível do TJ-RJ.

À ConJur, Marcelo Buhatem afirmou que a decisão reitera e potencializa os direitos do autor. De acordo com ele, o acórdão também serve para encorajar profissionais que estejam na mesma situação que Carlos Orlando Novais Abrunhosa — tendo suas obras reproduzidas sem autorização nem remuneração — a buscar a Justiça.


Fonte: Conjur


A FOTO SÍNTESE DA COPA DE 1970




Originalmente em preto&branco, a histórica foto de Orlando Abrunhosa foi colorizada para a capa da  Paris Match, em 1970. A revista francesa foi uma das publicações internacionais que não resistiram à icônica "pirâmide" dos craques do Tri. Antes, na versão p&b autêntica, foi capa da Fatos & Fotos 
A premiada foto do genial Abrunhosa foi alvo de muita pirataria. 
Em vida, ele lutou exemplarmente pelos seus direitos. Desde o uso não autorizado da foto em um selo dos Correios passando por capa de fita de vídeocassete e até inclusão ilegal em catálogo de uma agência internacional. 
Foi em torno da foto-símbolo da Copa de 1970 que o cineasta e jornalista Eduardo Souza Lima, o Zé José, fez o documentário "Três no Tri" sobre a trajetória de Orlando Abrunhosa. 
No caso em questão, a justiça agora feita vale como uma homenagem ao profissionalismo e talento do  grande fotógrafo. (José Esmeraldo Gonçalves)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Fato & Foto no Rio 40 graus: cidadania não dispensa sombra


Reprodução O Globo

Ser manifestante no Rio de Janeiro sob uma calor de mais de 40° não é pra qualquer um.

Mas é tão cabeluda a situação e tão sério o drama dos funcionários com salários atrasados ou preocupados com privatizações anunciadas que a turma encara o sufoco. Mas há limites. E, afinal, sombra não é coisa que se despreze.

A foto de Ana Branco no Globo, hoje, retrata bem a situação. Em frente ao Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa, funcionários da Cedae que protestam com a proposta de privatização da empresa se abrigam no único recorte de sombra possível. A bem-vinda projeção de um prédio aliviou a dureza da tarde.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cícero Sandroni e Fidel: o jornalista e o comandante


O Globo, hoje, na coluna do Ancelmo Gois, publica o texto e a foto que reproduzimos acima. O próprio repórter, Cícero Sandroni, conta os bastidores da cobertura da primeira visita de Fidel Castro ao Brasil, em 1959. Na época, ele trabalhava no Globo.

Sandroni, que hoje integra a Academia Brasileira de Letras, passou por vários e importantes veículos cariocas: O Cruzeiro, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, entre outros. Após o AI5, como tantos jornalistas, sofreu perseguição política e foi impedido de atuar no jornalismo diário. Adolpho Bloch, como Roberto Marinho, recebeu nas redações vários desses profissionais visados pelos militares. Sandroni foi um deles, no caso da Bloch.

No Russell, foi redator-chefe das revistas Fatos e Fotos, Manchete e Tendência. Em 1974, ele dirigia a Tendência quando a recém-criada revista de economia ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, na categoria de Melhor Contribuição à Imprensa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Jornal tem repetido que a Olimpíada do Rio "é a primeira realizada na América Latina". Não é. Em 1968, o México sediou os Jogos. Sem falar que "América Latina" é um rótulo racista...




por Ed Sá

O Globo tem feito um excelente caderno especial dedicado à Rio 2016.

Só precisa corrigir um pequeno erro: o jornal insiste em dizer, como na edição de hoje, que a Olimpíada carioca é a "primeira realizada na América Latina".

Só eu já li isso mais de uma vez. Há poucas semanas, escreveram: "é a estreia da América Latina como anfitriã".

Isso, sem falar que "América Latina" é um termo racista. Pretende ignorar que antes da chegada de portugueses e espanhóis havia povos não latinos na América do Sul. Esta, aliás, é a expressão mais adequada.

A Rio 2016 é a primeira Olimpíada realizada na América do Sul. Em 1968, o México, país que integra a "América Latina" mas fica na América do Norte, sediou os Jogos.

Informação esportiva esquecida à parte, registre-se que o termo é tão inadequado que não é comum, ou se ouve muito raramente, a identificação "Europa Latina" para países como Itália, Portugal, Espanha...

"América Latina" nem define um espaço geográfico, tanto que Suriname e Guiana, colonizados por Inglaterra e Holanda, não fazem parte do tal grupo. Nunca foi oficializado e, em 1948, gerou divergência quando uma comissão da ONU, a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), adotou o termo associado ao subdesenvolvimento.

Mas se popularizou antes, durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Departamento de Estado norte-americano montou um programa de propaganda na América do Sul em contraposição à influência nazista na região.

Passou a ser amplamente adotado na mídia, na geopolítica e na cultura dos Estados Unidos para discriminar etnias. Especialmente aquelas que estão no DNA de mexicanos e portorriquenhos, maioria ente os imigrantes. Daí, generalizou-se a tal ponto que muitos americanos se surpreendem quando descobrem que os brasileiros - obviamente identificados lá como "latinos" - não falam espanhol. Em um recente seriado americano, um casal queria adotar um filho que combinasse com a cor das cortinas. A solução foi pegar um mostruário com os padrões desejados e vir buscar na "América Latina".

Registre-se que, hoje, no mesmo Globo que reincide no erro no caderno especial "Rio 2016", a jornalista Flávia Oliveira, colunista do Segundo Caderno (reprodução ao lado) evita o termo "América Latina" e cita a informação esportiva correta:  a Olimpíada Rio 2016 é a  primeira da América do Sul.
Os incas, os maias, os astecas, os tupis, os guaranis, os cariris, os tupinambás e tamoios, que habitavam essas terras - antes do tiozão Estácio de Sá desembarcar aqui - agradecem, saúdam a imprensa escrita falada, televisada e digitalizada e pedem passagem.

ATUALIZAÇÃO EM 5/8/2016 - Na primeira página do Globo de hoje (abaixo), a devida correção: primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul. Melhor assim.

Atualização em 13/8/2016



A expressão "latino" empregada na mídia e na cultura americanas com conotação racista é muito adotada por aqui. Embora seja mais comum incorporada ao termo "América Latina".
Mais raro, e surpreendente, é o uso para definir sul-americanos como na nota acima sobre prisão de "trio latino", que faz questão de acentuar a falsa"etnia", sinônimo, lá em cima, na terra do Uncle Thomas, de imigrantes "inferiores".
Aliás, a palavra "latino" aí seria até dispensável, bastava "Justiça mantém a prisão de trio que furtou jornalistas" seguida da identificação correta, "dois peruanos e uma colombiana". A turma que Trump quer expulsar.
O rótulo forçado equivale ao que se via nas páginas policias antigamente, o "'meliante crioulo"... Deve ser coisa de estagiário que aprendeu isso no intercâmbio. (Ed Sá)