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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Memórias da redação - Ilustrador Cláudio Duarte (1960-2026): traços e cores que ficam. Por José Esmeraldo Gonçalves



Acima, dois memoráveis trabalhos de Cláudio Duarte para a Revista Fatos: Milton Nascimento e Dom Ivo Lorscheiter 


por José Esmeraldo Gonçalves 

Em fins de 1984, Carlos Heitor Cony dirigia a Fatos& Fotos, J. A.Barros era o chefe da Arte e eu o editor executivo. A revista atravessava uma fase de desinvestimento. A Bloch enfrentava o alto custo de instalação de cinco emissoras de TV, o núcleo original da Rede Manchete, e bancava a construção de uma grade voltada para a classe A. Naturalmente as revistas sofriam alguns cortes e isso impactava a qualidade editorial das publicações.  Pra falar a verdade, havia uma falta de motivação quanto ao modelo da Fatos & Fotos que, naquele momento, julgávamos desgastado. 

Em 1985, o Brasil passava por uma grande mudança de rumo. Esperava-se a posse de Tancredo Neves, eleito presidente pelo colégio eleitoral da ditadura. Tancredo morreu e o Brasil recebeu um "presente de grego": o notório José Sarney, apoiador da ditadura. De qualquer forma os militares começavam a por o quepe fora do governo. Só a ponta do quepe, mas após 21 anos de ditadura corrupta, torturadora e assassina, era alguma coisa. 

Naquele ambiente político de fim da censura interna e externa, Cony levou a Adolpho Bloch a ideia de lançar uma revista de informação e análise com rubricas de política, economia, internacional, esporte, cultura, turismo etc. 

A experiência de uma revista de informação e hard news era inédita para a Bloch Editores. Cony convocou a mim e ao Barros para, juntos, desenvolvermos um projeto editorial e gráfico da Fatos, este era o nome da nova publicação. Lembro que um diferencial previsto para a Fatos era o uso de ilustrações. Contatamos vários chargistas, cartunistas e ilustradores, alguns experientes e a maioria iniciantes. Um deles era Cláudio Duarte. Em um dos poucos exemplares que me restaram da Fatos, revi algumas ilustrações assinadas por ele. Além do Cláudio, tinhamos uma equipe de craques ilustradores como Gil, Ique, Mariano, Petrúcio, Paulo Melo, Lapi e André Hippert. Quando a revista foi fechada em julho de 1986, após um ano e meio de existência (abatida por campanha de dedos-duros da Bloch viúvos da ditadura - o blog já contou essa essa trama) , os ilustradores se distribuíram em veículos cariocas. Cláudio Duarte foi para O Globo. Em 2001 ganhou o Prêmio Esso de Artes Visuais com o tema Horror em matéria da revista Época sobre o ataque às Torres Gêmeas. 

Cláudio Duarte faleceu no domingo, 4/1/2026, em Florianópolis, aos 66 anos, vítima de câncer. Ele deixa o filho Francisco Duarte e a namorada, a pianista Patrícia Boltroni. Nossos pêsames à família. 

Chico Duarte homenageou o pai nas redes sociais: 

"Parabéns pela vida que você teve, papai. Nasceu pobre, na periferia do Rio de Janeiro, em meio à ditadura militar, apenas com o ensino médio, para se tornar um dos maiores ilustradores da história do país, Venceu na vida apenas com suas canetas e muita força de vontade".

Atualização - 9/1/2026 - Tentei encontrar, mas não consegui, uma página que o colaborador Claudio Duarte fez para a Fatos na semana em que a Câmara dos Deputados era alvo de denúncias de corrupção. Isso em 1985 ou 1986, se não me engano. Vale contar o caso mesmo sem o "corpo de delito". O ilustrador criou uma incrível cena do plenário tomado por pequenos ratos vistos no tapete entre as fileiras de cadeiras. Puro realismo. Tivemos a intuição de que daria problema na cultura Bloch mas publicamos, não poderia ficar inédita aquele ilustração. Cony participou do fechamento, bancou a ideia mas viajou em seguida. No domingo, dia em que a revista ia para a banca, recebi um telefonema do Adolpho Bloch. Ele reclamou e perguntou como publicamos "aquilo". "A empresa pode ser fechada", dizia. Argumentei que não chegaria a tanto, a tal denúncia estava em todos os jornais e TV.  Sugeri que ouvisse a opinião de Murilo Melo Filho, o experiente e ponderado diretor que cuidava das questões políticas da editora. Realmente, nas semanas seguintes não surgiu qualquer represália da Câmara. Na redação, acreditamos que o sucursal de Brasília deve ter superestimado a crítica ao falar com o Bloch. A revista durou alguns meses ainda após o caso, mas começou a atrasar o pagamento dos colaboradores. Um sinal do fim próximo. Cláudio Duarte foi para O Globo. Creio que inicialmente ilustrava o Jornal da Família. Não demorou muito tomei o mesmo rumo. A  convite do saudoso Humberto Vasconcelos, que editou o Caderno B do JB em fase áurea e era então editor do Segundo Caderno, entrei no Globo como seu subeditor. Foi uma boa experiência, trabalhei com ótimos profissionais, mas aceitei um convite para retornar à Bloch, dessa vez para a Manchete, onde fui chefe de reportagem, chefe de redação e editor executivo na equipe de Roberto Muggiati. Em 1996, a convite de Sergio Zalis, diretor do escritório carioca da Caras, assumi como editor senior da operação Rio de Janeiro da revista de celebridades. Outra boa experiência.  Os títulos Fatos, assim como Fatos & Fotos, deixaram de existir. Essa última ainda foi para as bancas ocasionalmente em edições de carnaval. A Fatos? Ficou no nosso currículo como uma aventura passageira. Nada mais do que isso.