segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Manchete como fonte de pesquisa bibliográfica e jornalística

Manchete é provavelmente a revista brasileira mais presente em livros. Seja através da reprodução de conteúdo jornalístico relevante, seja por meio de compilação de crônicas ou de reportagens,  entrevistas e pesquisa histórica. Livros com textos de Rubem Braga e de Nelson Rodrigues escritos para a revista ou entrevistas feitas por Clarice Lispector no tempo em que colaborou com Manchete (e Fatos & Fotos) foram reproduzidas em obras recentes. A pesquisa jornalística e fotográfica também tem na revista um indicativo muito procurado. Na matéria acima, sobre o arquiteto Lúcio Costa, Manchete é citada como coadjuvante. Mais precisamente é lembrada pela Folha de São Paulo uma reportagem da revista na casa do arquiteto. Fora das bancas desde os anos 2000, Manchete sobrevive como fonte, hoje mais acessível por ter sua coleção digitalizada pela Biblioteca Nacional.

Pandora Papers: o paraíso fiscal saúda a imprensa, pede passagem e sai de fininho

Cadê o escândalo que estava aqui? Sumiu. 

Os documentos obtidos pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em inglês), sediado em Washington D.C., nos Estados Unidos, alimentaram os chamados Pandora Papers. Mais de 600 jornalistas de 149 veículos de 117 países mergulharam nas águas turvas dos paraísos fiscais. No Brasil, você leu sobre isso no Poder360, que faz parte da investigação e revelou as contas offshores de empresários e autoridades, entre as quais o ministro da Economia Paulo Guedes. Os principais jornais do mundo integraram o consórcio que levantou as lebres fiscais. Nenhum do Brasil. The Washington Post, BBC, Radio France,  Die Zeit e a TV NHK, entre outros veículo questionaram suas autoridades e elites financeiras sobre a prática que, apesar do sol do Caribe, tem zonas de sombra.

Você deve terreparado que a grande mídia brasileira inicialmente ignorou o assunto. Deu um pouco mais de relevância dois ou três dias depois da revelação do Poder 360, mas aí com a conveniência, para eles, de destacar a defesa de Paulo Guedes. Mesmo assim, o assunto durou pouco nos véiculos dos grandes grupos. Lá fora, resultou até em demissões importantes de envolvidos. O ministro da Indústria da Espanha pediu o boné. O presidente de um banco austríaco saiu de fininho. o primeir-minostro da Islândia entregou o cargo.  No Brasil, se não acabou em pizza, foi saboreado com peixe crioulo, patacones e mojitos típicos do Caribe.

A falta de atenção da mídia conservadora aos Pandora Papers envolve uma curiosa coincidência: milhões de dólares de empresários do setor de comunicação estão hospedados nos paraísos fiscais onde curtem a dolce vita da desvalorização do real. Cada vez que a moeda brasileira desce a ladeira a fortuna de Paulo Guedes e dos donos da mídia citados pela investigação jornalística escalam o borderô offshore. 

Observem que aqui ou em qualquer país um ministro da Economia e a imprensa têm o poder intencional ou não de fazer oscilar o dólar. Um fala, a outra repercute. Revelações ou comentários em um dia e eventuais desmentidos 24 horas depois - e isso acontece com certa frequência - dão um sacode no dólar pra cima, pra baixo, pros lados, não importa. Digamos que um sortudo adivinhe essa gangorra e faça seu jogo no mercado com base, digamos de novo, na intuição. Vai se dar bem e comemorar nas redes sociais: "papai tá on", dirá. 

O nome disso é felicidade.  

Leia no Poder 360 a matéria sobre os barões de mídia no off shore. AQUI

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

“A China está nos estuprando!” • Por Roberto Muggiati

Chapéu de padeiro
no Baixo Glicério
No outro polo dos paraísos fiscais estão os infernos da mão-de-obra barata. Não bastasse isso, vivemos o tempo dos presidentes grossos e boquirrotos. Mas Trump acertou na mosca ao chiar sobre produtos que, mesmo vindos do outro lado do mundo, custam bem mais baratos aqui  do que aqueles da produção local. 

Aqui na Rua das Laranjeiras, no que eu chamo de Baixo Glicério, existe um mini-camelódromo debaixo da marquise do Bradesco. Já encontrei ali bons livros, CDs e DVDs a preço de banana. (Alguns romances da Elena Ferrante novos em folha a três por dez reais. ) E roupas também. Na barraca da Thereza tenho achado coisas boas e baratas. Calças e camisas em estado novo a 20 reais cada. Como minhas malas estão há um ano num guarda-móveis, foi um jeito conveniente de remediar meu guarda-roupa. Afinal, na pandemia impera a moda pauvre chic. 

Descrevo alguns itens para vocês terem uma ideia da variedade incrível de procedências. Um short cinza escuro de moletom da ZARA Paquistão. Uma calça comprida marrom claro da ZARA Turquia. (Lembro-me de um amigo que fotografou em Istambul um quiosque que se gabava de vender “genuine fake watches”.) Uma camisa polo cor-de-abobora da NIKE Vietnã. Uma calça comprida preta da VILLA VITTIN Portugal. Sombreros Panamá do Ecuador made in China.  Outros originários da RPC, o que dá na mesma: República Popular da China. 

Foshan: o entreposto global

Também comprei alguma coisa pela internet. O site de roupas Shein promovia um simpático “chapéu de padeiro” por apenas R$ 38. Demorou a chegar, via Curitiba, descobri depois que era fabricado em Foshan, na província de Cantão, no poético Delta do Rio das Pérolas, não fosse Foshan uma megalópole industrial de oito milhões de habitantes. Apelando para o título brasileiro de um filme que no original tinha apenas cinco letras, Giant, “assim caminha a humanidade...”

Com Chaplin, confinamento sem crise • Por Roberto Muggiati


No apagão do som, a genialidade de Chaplin em Em busca do ouro.

Nossa dependência da tecnologia é terrível, lembrem o recente apagão do Whatsapp. Meu caso é mais modesto, mas para mim assume dimensões gigantescas. Nos últimos dias, meu computador ficou mudo, por mais que eu tentasse não consegui reinstalar o som em músicas, filmes e tudo mais. 

Estou à espera de uma alma caridosa que me socorra e faça ouvir de novo. Ou de um técnico que aceite um cheque pré-datado para o próximo 5º dia útil de novembro.

Desde que a Manchete faliu, continuei trabalhando em casa, fazendo colaborações para a imprensa e traduções. Com o trabalho escasso, conheci a liberdade ilimitada de escrever de graça – o fato é que há 67 anos, desde que comecei a trabalhar na Gazeta do Povo de Curitiba, em 15 de março de 1954, não me afastei um dia sequer do teclado. Meu sonho é bater o recorde do Henrique Nicolini, um redator esportivo de São Paulo: ao morrer, aos 91 anos em 2017, ele detinha o Recorde Guinness de jornalista mais longevo na profissão no mundo, com 70 anos de batente. Para isso, basta eu viver mais uns quatro anos – minha primeira matéria assinada é de 1955, uma entrevista exclusiva com Portinari quando ele esboçava no seu ateliê do Leme o mural Guerra e Paz para o edifício da ONU em Nova York.

A imagem original em P&B

E a mesma cena colorizada


Voltemos ao ponto: ao fim de cada jornada de trabalho, eu refresco a cabeça vendo um filme no computador (meu toca-DVDs e TV ainda estão num guarda-móveis com a TV desde a diáspora de Botafogo para Laranjeiras há mais de um ano.) Vejo muita coisa boa pelo YouTube. Sem som fiquei ao léu. Mas, como dizia o grande filósofo greco-carcamano Frank Platão Zappa, “a necessidade é a mãe da invenção” e lembrei de repente que existem filmes fabulosos sem som. (Certos críticos radicais defendem que o único cinema válido é o mudo.) Charles Chaplin, por exemplo. Ao escrever estas linhas, estou revendo o maravilhoso A corrida do ouro, de 1925. Por mais vezes que tenha visto esse clássico, sempre topo com a novidade de um detalhe ou outro. O filme é disponibilizado ainda na versão colorizada, dei uma espiada para conferir (comparem as versões da mesma cena em preto-e-branco e colorizada). A tentativa de colorir clássicos em p&b não deu em nada – aliás, a fotografia é uma arte que se afirma no preto e branco, com a sua linguagem própria, sem a menor pretensão de “imitar” a realidade. 

Em busca do ouro: o happy end.


Só Chaplin para fazer da fome um tema cômico. E o happy end selado por um beijo, a mocinha e o milionário travestido em vagabundo. No filme seguinte, Luzes da cidade, o final é o oposto: a mocinha que volta a enxergar descobre que o seu sonhado milionário dos tempos de cegueira é um vagabundo. O gênio de Chaplin termina o filme em aberto.


 Clouzot descobriu o Danúbio Azul 15 anos antes de Kubrick


 
Em 2001, a coreografia da nave no ritmo da trilha sonora que O salário do medo usou.
Depois que Stanley Kubrick mostrou o acoplamento de uma nave espacial com uma estação orbital ao som do Danúbio azul em 2001: uma odisseia no espaço, nunca ninguém ouviu mais a velha valsa de Strauss da mesma maneira. Essa é a marca do gênio.



A dança de Vera Amado Clouzot

E o bilhete do metrô de Paris


Mas a coisa não é bem assim: outro cineasta já tinha dançado esta valsa quinze antes do Kubrick: Henri-Georges Clouzot, em O salário do medo, de 1953. O filme se passa num buraco da Venezuela, onde reina a miséria e um punhado de europeus desgarrados passa fome sonhando com o dinheiro da passagem de avião para Paris. Uma catástrofe traz a oportunidade para quatro eleitos numa missão suicida. Duas duplas têm de dirigir seu caminhão carregado de nitroglicerina até o local do incêndio de um lençol petrolífero ao longo de estradas de terra batida que atravessam a selva. A dupla que vai à frente explode, a dupla que segue atrás atola no lago de petróleo que vaza dos oleodutos no local da explosão. Um dos pilotos tem a perna esmigalhada na tentativa de desencalhar o caminhão. O sobrevivente, Yves Montand, chega ao destino abraçado na boleia ao companheiro moribundo e  é recebido como herói com sua preciosa carga de nitroglicerina. Mais spoilers: grana no bolso, eufórico ao volante do caminhão vazio, Montand volta à cidade onde deixou a namorada (a brasileira Vera Amado Clouzot). 

Em shots alternados, Clouzot mostra Vera valsando na taverna e Yves valsando com o caminhão nas curvas da montanha. De repente, a mocinha cai desmaiada e o chofer se projeta no abismo. Na imagem final (veja no link), em meio ao caminhão em chamas, um detalhe de Montand morto: um bilhete do metrô de Paris que guardava como fetiche da cidade amada. Tudo isso ao som de... Danúbio Azul...

https://www.youtube.com/watch?v=ZkhKRT8tc-o

Orlandinho vira o jogo: uma vítória póstuma na luta pelo respeito aos direitos autorais da foto mais famosa de todas as Copas



A foto de Orlando
Abrunhosa na capa
da Fatos & Fotos
A mais famosa imagem de Copas do Mundo - eternizada em capas de revistas, como Fatos & Fotos, Manchete e Paris Match, e no documentário Três no Tri, do jornalista Eduardo Souza Lima, o Zé José - volta a ser notícia. 

O fotógrafo Orlando Abrunhosa, falecido há cinco anos, acaba de ganhar na justiça uma ação de indenização por uso não autorizado da foto de Pelé, Tostão e Jairzinho no México, em 1970. O trio comemorava o gol de Pelé contra a Tchecoslováquia.e, em uma fração de segundo, Orlandinho registrou uma perfeição estética. 

A foto histórica foi muitas vezes publicada ilegalmente em jornais, capas de fitas de vídeo, selo e cartazes. Orlandinho abriu processos e lutou até o fim pelos seus direitos, até fora do Brasil. Alguns dessas pendências ainda estão em andamento. 

Ele, com certeza, se aqui estivesse, iria comemorar essa vitória merecida. Provavelmente, brindando com vodca e limão à sua maneira. Ele nunca deixava de recomendar ao garçom "Mas traz o limão pra eu espremer". Era um clássico do Abrunhosa nos bares cariocas. Martins, do bar do Novo Mundo, uma espécie de filial etílica da Manchete, deve ter ouvido essa frase centenas de vezes. O barman que serviu JK, Jango, Brizola, Garrincha e era capaz de fazer drinques e coqueteis complicados, ficava intrigado por não poder espremer um simples limão. Martins nunca entendeu e Orlandinho nunca explicou. 

Orlando Abrunhosa na cobertura da Copa do México, em 1970, quando
fez uma das fotos mais famosas do futebol

De acordo com matéria publicada por Ancelmo Gois, no Globo, na última segunda-feira, e que repercutiu em vários sites, a célebre foto estampou um painel instalado no Museu da Maracanã, sem que o governo do Estado do Rio de Janeiro e o Complexo Maracanã Entretenimento tivessem, para isso, autorização do autor ou da família.

domingo, 17 de outubro de 2021

Abobrinhas: quem nunca?

 

Reprodução Estadão. Clique 2x na imagem para ampliar

Reprodução Folha de São Paulo

Sergio Augusto levantou a bola (no Estadão), Ruy Castro matou no peito (na Folha). 

Ambos escreveram sobre as abobrinhas do cinema. 

por José Esmeraldo Gonçalves

Abobrinhas eram os muitos bytes de informações que eram guardados na memória dos jornalistas cinéfilos. Se eram úteis? Vá saber. Mas rendiam horas de bom papo. Na redação da Manchete e da Fatos & Fotos as abobrinhas eram chamadas de trívias. No caso, a palavra indicava uma espécie de jogo: o da arte de responder questões aleatórias pouco ou nada conhecidas sobre atores, atrizes e filmes. Na Manchete raros tinham a chave do portal que levava àquela dimensão oculta de Hollywood. O próprio Ruy Castro, Roberto Muggiati, George Gurjan, José Guilherme Corrêa e Valério de Andrade. Estes formavam o conselho supremo da trívia no tempo em que o Google não estava lá para revelar que Humphrey Bogart era careca ou que Marylin Monroe tinha QI maior do que o de Isaac Newton, entre outras deliciosas digressões.

Um dos diagramadores da Manchete, J.A. Barros, também cinéfilo, costumava aplicar um desafio aos críticos de cinema que adentravam a redação. Era o Teste Guilaroff. De repente, como se sacasse um revólver Peacemaker na Main Street de Tombstone, Barros disparava a  pergunta; "Você sabe quem é Sydney Guilaroff?"  Nove em dez vezes o crítico rateava. Era a deixa que o Barros esperava para fazer uma bio do personagem hollywoodiano que ele identificara nos minúsculos créditos antes do the end de muitos filmes. E Guilaroff era figura importante como se vê no link abaixo em post de Roberto Muggiati sobre o teste que, para o seu criador, o Barros, separava os cinéfilos de raiz do resto da humanidade.

 https://paniscumovum.blogspot.com/2021/02/o-teste-guilaroff-de-cinefilia-por.html

terça-feira, 12 de outubro de 2021

No Le Monde: matéria sobre o avanço do neonazismo no Brasil.

 




por Flávio Sépia
O que já é visível torna-se investigado. O correspondente do Le Monde, jornalista Bruno Meyerfeld demonstra em reportagem exclusiva publicada no jornal francês, nessa semana, o avanço do neonazismo no Brasil de Jair Bolsonaro. Os fãs de Hitler e do Terceiro Reich perderam a inibição, segundo a reportagem, e não se escondem. Meyerfeld alerta, contudo, que faixas e cartazes que aparecem em público cada vez com maior frequência são apenas "a ponta do iceberg". 
"Superficialmente, tudo parece normal. Nos vídeos postados online, um jovem estudante completa 24 anos. Existem balões coloridos, doces. A família fica feliz e canta “feliz aniversário” em uníssono. Mas um detalhe chama atenção. Na mesa festiva está um grande bolo de creme. No seu centro, o pasteleiro desenhou uma personagem famosa, que imaginamos ser importante para os presentes. Este é Adolf Hitler. O líder do Terceiro Reich é representado em um terno marrom e uma braçadeira com uma suástica. A imagem chocante, que parece ter sido postada no final de setembro na cidade de Pelotas, no sul do Brasil, rapidamente se tornou viral, desencadeando ondas de choque e indignação online em todo o país. Confirmado ou não, o incidente está longe de ser isolado". 

O fato é que nos últimos anos o número de escândalos envolvendo neonazistas explodiu", constata o jornalista, que cita eventos semelhantes em  Unai (MG) e Florianópolis (SC). 

Le Monde ainda ouviu da pesquisadora Adriana Dias, especialista no assunto, que o número de “células neonazistas” teria saltado de 75 para 530 no Brasil entre 2015 e 2021. 

Nos anos pós-golpe, a ultra direita tira a máscara. E não apenas a do negacionismo da Covid-19.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O Cristo e seus clones • Por Roberto Muggiati


Cristo Redentor, Corcovado. Foto de Fernando Maia Riotur-Divulgação

Nos 90 anos da estátua do Redentor no alto do Corcovado, a TV mostrou as incontáveis réplicas do Cristo que se espalham pelo Brasil afora. Em sua grande maioria, são imitações toscas e cafonas da escultura feita pelo francês Paul Landowski, uma autêntica joia da art déco. 

Cristo de Brejatuba. Reprodução Facebook

Minha nêmesis (em grego: Νέμεσις) – deixa pra lá, sem pedantismos, minha bronca maior é com o Cristo de Brejatuba, praia do litoral paranaense no municipio de Guaratuba. No alto de um morro, é alcançada por uma escadaria com 197 degraus de placas de cimento, que subíamos correndo nas jovens noites de porre no início dos anos 1950. A estátua lamuriosa, inaugurada em 1952, mostra um Cristo com as vestes infladas, pés apartados, a mão direita apontando para a entrada da barra, a mão esquerda sobre o coração. A pose atlética é ridícula e lembrava a mim – numa interpretação personalíssima – aquela do discóbulo de Mirón.

Foi por essa época que comecei a frequentar o balneário nas férias de inverno. Acontecia ali o fenômeno que no Rio de Janeiro foi batizado de “cigarras”. Respeitáveis cidadãos mandavam suas famílias para as férias na Serra e ficavam a farrear na pródiga noite da Capital Federal. No Paraná o movimento só era geograficamente inverso: chefes de família desovavam esposas e filhos nas praias e se esbaldavam na noite curitibana, turbinada naqueles tempos pelo dinheiro das exportações de café – aviões cheios de argentinas pousavam em Curitiba trazendo belas bailarinas e acompanhantes para os cabarés e boates da Cidade-Sorriso (ainda não tinha surgido a Boca Maldita).

Desterradas em Guaratuba, algumas mulheres – especialmente aquelas sem filhos – iam à forra. Nós, garotos de treze, quinze anos, nos divertíamos nas tardes frias e chuvosas circulando no carrão americano da família (geralmente um Caddilac rabo-de-peixe) pelas ruas desertas, pavimentadas de conchas de sambaquis. Era um passatempo típico da época da gasolina barata, que os americanos chamavam de “cruising” – algo como navegar sobre quatro rodas, a gíria veio da ronda dos carros-patrulha da polícia. Visitávamos as casas de namoradinhas potenciais – as donzelas nas janelas – e fazíamos uma parada às vezes para subir no alto do Morro do Cristo, um posto de observação privilegiado. Com um pouco de paciência, flagramos muitas vezes respeitáveis esposas no carro de um pai esperto que, às profissionais portenhas, dava preferência a mães locais desgarradas e genuinamente fogosas.

O equivalente norte-americano do nosso Cristo é a Estátua da Liberdade, da qual existem réplicas em praticamente cada um dos 50 estados da federação. O que me lembra imediatamente um dos melhores romances de Paul Auster, Leviatã (1992), em que um promissor romancista sai pelo país explodindo réplicas da Estátua da Liberdade. Tal iconoclastia jamais ocorreu no Brasil com relação ao Cristo, excetuando o ato isolado de um obscuro bispo da Igreja Universal que chutou aos palavrões uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O que me leva a uma reflexão sobre a índole dos nossos anarquistas, única faixa da população de que se poderia esperar alguma rebeldia. Aliás, eu não estaria aqui hoje não fosse a Colônia Cecília, um sonho de anarquistas italianos que durou pouco, mas inspirou incontáveis livros e filmes. Intelectuais e sindicalistas de Milão e arredores, liderados pelo ideólogo Giovanni Rossi, tentaram criar uma colônia anarquista em solo brasileiro, nas terras doadas por D. Pedro II em Palmeira, a 100 km de Curitiba. Meu bisavô Ernesto Muggiati, de Stradella, (com mulher, dois filhos e duas filhas) quase chegou lá. Morreu de febre amarela ao aportar em Paranaguá. Nossos anarquistas fizeram tudo errado. Nos vastos campos plantaram milho, uma cultura demorada. Quando venderam o produto da primeira colheita, quatro anos depois, o tesoureiro fugiu com todo o dinheiro. Foi o fim da Colônia, seus integrantes aos poucos debandaram, em busca de emprego em Curitiba, outros seguiram para São Paulo. A maioria dos italianos que vieram para o Brasil trouxe a religiosidade ancestral, apegando-se ao culto da Virgem e de seu filho Jesus. As famílias costumavam destinar pelo menos um de seus filhos ao sacerdócio. Das filhas que ficavam solteiras, muitas ingressavam em conventos. Muitos imigrantes – antigos pedreiros ou mestres de obras – se improvisaram em arquitetos e construíram igrejas e até mesmo catedrais.  Uma história que Zélia Gattai contou muito bem (os Gattai vieram também para a Colônia Cecília) em seu livro com o título irônico de Anarquistas graças a Deus...

sábado, 9 de outubro de 2021

Guedes no paredão da Faria Lima

Reprodução Twitter

Enrolado dentro da caixa preta de Pandora, Paulo Guedes foi "homenageado" em cartaz colado na rua Faria Lima, em São Paulo, onde ficam instalados os "aparelhos" da especulação financeira. 
A mídia neoliberal poupa Guedes, mas o povão que come osso já o identifica. 
Trata-se de um ministro que entra para a história com um "mérito": é autor de uma política econômica que só deu certo para ele.
Deve ser também a autoridade mais querida pela mídia conservadora. Os editores do Globo, Folha e Estadão não consideraram notícia o caso Pandora Papers. Tiveram arrepios e suores noturnos. Tracaram o esfíncter.  Emudeceram quando a denuncia surgiu. Agora abrem generosos espaços para, aí sim, o que vêem como notícia: a defesa do Guedes. 
A propósito dessa paixão interesseira, uma colunista de economia alcançou outro dia uma espécie de recorde no antijornalismo. Foi capaz de escrever uma coluna inteira sobre inflação, crise energética, cotação do dólar e política econoômica em geral sem citar uma única vez o nome do seu "crush", o bem-amado Guedes.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Lizzie Bravo (1951-2021): a brasileira que cantou com os Beatles. Por Roberto Muggiati

Lizzie em Londres, 1968. Foto Álbum de família

Em 2011, a pedido da revista Contigo, Roberto Muggiati entrevistou Lizzie Bravo. Na época, ela preparava o livro Do Rio a Abbey Road, onde contou a grande aventura que foram os dois anos e oito meses vividos em Londres junto aos Beatles – e gravando com eles.  Elizabeth Villas Boas Bravo, a carioca da Penha, morreu hoje, aos 70 anos, vítima de problemas cardíacos. 

A seguir, você poderá ler a íntegra da entrevista.  


A brasileira que entrou para a lenda dos Beatles

Superastros exigem superfãs. Durante dois anos e oito meses, entre 1967 e 1969, a carioca Lizzie Bravo viu de perto John, Paul George e Ringo quase todos os dias na porta dos Estúdios de Abbey Road, e na Apple, em Londres. Mais do que isso, Lizzie gravou com os Beatles, quando tinha apenas 16 anos. Esta gravação  histórica, Across the Universe, marcou sua vida para sempre, entrou para a lenda dos Beatles e foi lançada pela NASA para o espaço profundo, a 431 anos-luz da Terra.

Ela adoraria ser “a garota dos olhos de caleidoscópio” (de Lucy in the Sky with Diamonds), mas se eternizou como “a esperança de óculos” na letra de Casa no Campo, de José Rodrix, seu marido em 1971. Os insondáveis caminhos que levaram Elizabeth Villas Boas Bravo, nascida no bairro carioca da Penha em 29 de maio de 1951, dão uma boa ideia de como pode ser rica a história individual de um ser humano. Lizzie conta:

— Quando nasci, meus pais moravam em cima do Cine Vaz Lobo. Quando eu tinha três anos, meu pai, Luiz Carlos Bravo, foi transferido para a Venezuela como gerente da Encyclopaedia Britannica (olhaí o inglês entrando já na minha vida...). Na volta ao Brasil, em 1962, a família se instalou no Leme e entrei para o colégio de freiras Stella Maris. Eu estudava piano e balé e era bandeirante naquela igreja ao lado do Rio Sul.  Meu pai um dia trouxe dos Estados Unidos um LP, Meet the Beatles. Pirei. Mas só a música dos carinhas não me bastava. A filha da empregada, Helena, insistiu que a gente fosse ao cinema para ver o primeiro filme dos Beatles, A Hard Day’s Night, chamado Os reis do Iê-Iê-Iê no Brasil. Era outra coisa não só ouvi-los, mas vê-los em movimento. A gente via uma sessão atrás da outra, se escondendo no banheiro para não pagar ingresso. Muitas meninas da época são minhas amigas até hoje. Eu e minha amiga Denise pedimos à família como presente de 15 anos uma viagem a Londres. Os Beatles pararam de excursionar em 1966, se não tomássemos uma atitude, nunca mais os veríamos “ao vivo”. Denise viajou um mês antes. Parti em 13 de fevereiro de 1967. Chorei sentada na poltrona do avião ao ver a família lá fora acenando para mim. Aí eu já era Lizzie (de Dizzy Miss Lizzy, gravado pelos Beatles), havia Elizabeths demais na minha turma na escola. Em Londres, Denise me recebeu ansiosa (‘Vamos, corra, menina!’), larguei a bagagem no hotel e me mandei com ela para os estúdios de Abbey Road. 

— Vi os quatro Beatles na noite daquele dia em que cheguei a Londres, 14 de fevereiro de 1967.  Eles saíram em dupla, primeiro John e Ringo, depois Paul e George.  Foi um choque – de um dia para o outro, eles viraram “de verdade!”.  Passei a freqüentar a porta de Abbey Road todo dia com a Denise.  De dia, as meninas eram muitas, mas poucas podiam esperá-los sair, tarde da noite.  As mais corajosas aturavam um frio de rachar, vento, chuva, neve – o que fosse.  Com minissaias e meias finas, sentadas na pedra gelada das escadas da porta de entrada de Abbey Road, congelávamos a bunda, cantando musicas dos Beatles para amenizar o sofrimento físico.  Nossa alimentação era precária, idas ao banheiro só em caso de emergência, porque a qualquer cochilo você deixaria seu Beatle favorito ir embora, depois de tantas horas de espera.

Não havia nenhum prêmio especial para as fãs, bastava estar perto dos ídolos e vê-los de vez em quando, bater um papinho, tirar fotos e pegar autógrafos. Mas, quase um ano depois de ter chegado a Londres, em 4 de fevereiro de 1968, Lizzie Bravo tirou a sorte grande. O feito está nos compêndios. Mark Lewisohn registrou em The Complete Beatles Chronicle:

“John e Paul se deram conta de que faltava à canção [Across the Universe] harmonias em falsete. Encontrar duas cantoras numa noite de domingo normalmente teria sido impossível, mas para os Beatles bastava dar um pulo até a frente do Estúdio da EMI e congregar duas das fãs que estavam sempre lá. Paul fez justamente isso, escolhendo Lizzie Bravo, uma brasileira de 16 anos, que morava perto de Abbey Road, e Gayleen Pease, 17, londrina, que naturalmente ficaram empolgadas por serem as únicas fãs jamais convidadas a contribuir para uma gravação dos Beatles.”

Lizzie não teve a dimensão do que estava acontecendo naquela hora:

— Estar no estúdio com os quatro Beatles, o George Martin, Mal (Evans), Neil (Aspinall) e minha amiga Gayleen naquele momento pareceu muito bacana, mas “normal”.  Afinal estava acostumada a vê-los quase todos os dias o ano todo de 1967.  Só muito mais tarde “caiu a ficha” do que tinha acontecido. Demorou um bocado para Across the Universe chegar às lojas. Primeiro eles doaram a canção para um disco de caridade, Nothing’s Gonna Change Our World, projeto do Príncipe Phillip.  Depois, ela saiu num LP chamado Rarities, e finalmente no Past Masters II, onde pode ser encontrada até hoje, agora remasterizada. O curioso é que nada mudou depois da gravação. Gayleen e eu continuamos esperando do lado de fora, e nossas amigas nos tratavam do mesmo jeito.  Ambas tímidas, pouco falávamos no assunto.

Em agosto de 1969, com o final das gravações do álbum Abbey Road, chegava ao fim a Era dos Beatles. Lizzie deixou Londres no finzinho de outubro.

— Estava cansada, queria passar um tempo no Rio e depois voltar (deixei caixas com minhas coisas por lá).  Mas...  em março de 1970 conheci o Zé Rodrix num ensaio do Som Imaginário com Milton Nascimento no Teatro Opinião em Copacabana. Começamos a sair, fomos morar juntos pouco tempo depois, dividindo um quarto-e-sala em Copacabana com os amigos Tavito e Marco Antonio Araujo. Casamos em dezembro do mesmo ano, 1970.  Marya nasceu dez meses depois, no final de outubro de 1971.  Eu e o Zé nos separamos pouco depois, em meados de 1972. Na época ele compôs sua obra-prima, Casa no Campo, perguntei a ele um dia o que queria dizer com aquele “eu quero a esperança de óculos” da letra. O Zé respondeu: “Mas a esperança de óculos é você, Lizzie!”

Existe vida depois dos Beatles? Com certeza. Lizzie voltou a viver fora do Brasil: em Caracas, após a separação; nos Estados Unidos entre 1984 e 1994. Tornou-se uma hábil fotógrafa, trabalhou como assistente de Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos e Milton Nascimento, entre outros. Cantou com Joyce de 1980 a 1992 em discos, shows e turnês, inclusive no Japão e Estados Unidos. Gravou ainda com Milton, Egberto, Toninho Horta, Ivan Lins — a lista é interminável, uma verdadeira enciclopédia da MPB. Engana-se quem pensa que Lizzie Bravo só ouve os Beatles. Adora e ouve muito MPB, o que pode até chocar os beatlemaníacos mais extremados. Lizzie também é louca pela banda U2. Ao todo, desde os anos 80, já assistiu a 36 shows da banda. 

Marya Bravo, a filha de Lizzie, também se tornou cantora. Com cinco anos, gravou o conhecido jingle “Cremogema”, entre outros, e logo depois começou a cantar nos discos do Egberto e a fazer vocal com muitos nomes da MPB.  Aos 17 anos, foi para a Europa em turnê com o musical Hair e acabou ficando seis anos na Alemanha, com direito a marido e filha, Morgana, hoje com 18 anos. 

Pouca gente teve o privilégio de gravar com os Beatles. Profissionais, apenas o Eric Clapton e o Billy Preston. Yoko Ono fez um dueto com o John em Everybody's Got  Something to Hide Except for me and my Monkey e ela e Pattie Harrison fizeram vocais em Birthday. E, é claro, Lizzie e Gayleen.Mas ela faz questão de ressalvar:

— Não gosto de ser citada como "amiga dos Beatles".  Nunca fui amiga de nenhum deles.  Apenas uma fã privilegiada.  Quando as pessoas falam isso, eu respondo com uma pergunta: "Você deixaria seus amigos esperando você do lado de fora, na neve?”.

Pergunto a Lizzie: “E a importância na sua vida das seis palavras que você canta em Across the Universe: NOTHING IS GONNA CHANGE MY WORLD ?”

— Estas palavras mudaram o meu mundo para sempre.

A saga de Across the Universe continua viva. Um jogo de computador recente, Trivial Pursuit/The Beatles, tem uma pergunta dedicada a Lizzie e Gayleen: “Quais fãs dos Beatles foram convidadas por Paul a cantar os backing vocals em Across the Universe?” A canção foi mandada pela NASA para a Estrela do Norte, Polaris (a 431 anos-luz da Terra), em 4 de fevereiro de 2008, comemorando os 40 anos de sua gravação, os 50 anos da própria NASA, e os 45 anos do Deep Space Network, uma rede de antenas que apóia as missões de exploração do universo. Paul vibrou, na ocasião: “Incrível! Beleza, NASA. Mandem meu amor para os ETs.” 

Já Lizzie, com um humor mais para Lennon, comenta:

— Meu irmão, Ricardo, acha melhor eu não esperar para ver se eles vão gostar. Afinal são 400 e poucos anos para chegar lá e outros 400 e poucos para voltar... 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Meme do terror

Imagens reproduzidas da Folha de São Paulo 

Deu na Folha de São Paulo, hoje. O grupo terrorista Talibã refez a famosa foto de Joe Rosenthal que mostra soldados americanos plantando a bandeira dos Estados Unidos em Iwojima, em 1945, após duras batalhas contra tropas japonesas na Segunda Guerra Mundial. Ao posar para a provocação, os terroristas usam uniformes, armas e equipamentos de origem norte-americana e que pertenciam ao exército regular do Afeganistão. Novamente sob a ditadura da Sharia, os terroristas fundamentalistas retomam com mão de ferro o domínio do país. É a opressão religiosa em trágico rewind.

sábado, 2 de outubro de 2021

A histórica Cinelândia protesta contra o meliante

Reprodução Twitter

A namoradinha da ultra direita

A revista Amiga já profetizava. É muito difícil ser Regina Duarte. É complicado ser Regina. É vexame ser Regina Duarte.

Pelanca gourmet e sopa de ossos • Por Roberto Muggiati


Em 2021, a nova era da fome. 

Não contaram isto na ONU. A fome por aqui anda braba. No Rio o caminhão de ossos faz sucesso. Transporta restos de carcaças das feiras e supermercados para serem transformados em adubo e rações animais. Recentemente, o caminhão dos ossos passou a estacionar no bairro da Glória, no Rio, e disponibilizar suas primícias a pessoas famintas que ali recolhem o que podem para alimentar suas famílias. Este gesto desesperado lhes custa 15 ou 20 reais da passagem de trem ou ônibus dos subúrbios distantes da Baixada fluminense.

Querem uma receita? Nunca se sabe, pode ser útil amanhã. Vem da merendeira desempregada Denise Fernandes da Silva, 51 anos, do bairro Parque Alian, São João de Meriti.

• Pegue uma seleta de pelancas e ossos, junte uns restos de legumes e frutas do lixão da feira, o que sobrou de batatas e arroz com feijão, e refogue tudo no resto do óleo de soja. (Se não tiver pode ser qualquer óleo).

Foi assim que dona Denise, com suas mãos mágicas, providenciou o almoço para os filhos e doze netos.

Em 1983, a fome na ditadura

Mas será que não existem outras opções? O Brasil ficou chocado em 1983 com a foto na primeira página do Jornal do Brasil do Homem do Calango. Cearenses à mingua comiam lagartos para sobreviver. (Outro dia vi da minha janela na pedra um lagarto, parecia bem gordinho.)

A origem do ragu.
Foto Sainsbury
Já ouviram falar em ragu? Podem até achar que se trata de uma iguaria da cuisine française. Nada mais significa do que rat-au-gout de... complete com a imaginação fértil do seu estômago vazio: picanha, pernil de porco, coxa de cordeiro, asa de peru. Foi durante a “famine” que levou à Revolução Francesa que os pobres se esmeraram em criar temperos fabulosos para maquiar a carne básica de seus pratos: ratos de esgoto e outros bichos fétidos. Sem esse “laboratório” os franceses jamais teriam se tornado os mestres mundiais dos molhos.

Tom e Jerry brasileiros, se cuidem! Ainda não se lembraram de vocês, embora seja banal entre os quitutes de rua cariocas o “espetinho de gato”. E o que dizer dos gatos de rua extraviados e dos patos, gansos e cisnes nos lagos dos parques públicos? E os robustos ratões que rondam as ruas da noite?

Seria levar a coisa ao extremo, mas lembro o clássico da sátira do irlandês, Jonathan Swift, Modesta Proposta, que sugeria em 1729: “A venda de carne dos filhos beneficia vidas de adultos e a venda de carne de crianças irá beneficiar a economia.” 

Daí para o ‘canibalismo solidário’ é um passo. Quem sabe Paulo Guedes já não estaria articulando um plano?

Publimemória - Cachaça para jornalistas e o animado teor etílico das redações

Anúncio reproduzido do Facebook Revistas Brasileiras Antigas

por José Esmeraldo Gonçalves

Pensei que essa informação fosse classificada. Todo mundo já sabia há muito tempo? 

Nos anos 1920 a revista Eu Sei Tudo publicou um anúncio recomendando uma cachaça - exaltada como "pinga de luxo" -  especial para jornalistas. O fabricante reconhecia que a classe exercia "tarefa árdua" e merecia atenção especial.. 

Bom, a tarefa continuou árdua para as gerações seguintes. Não era tão incomum editores guardarem em gavetas um bom scotch para emergências que, aliás, aconteciam com regularidade. 

Em certa redação, um repórter com acesso a uma destilaria levava caixas de vodca para o recinto. Ele na verdade não bebia. Usava o estoque para fazer agrados à equipe. Era " o cara" do pedaço. Em outra redação, está em um grande jornal carioca, alguns venciam o clima tenso dos fechamentos com ajuda de um shot de Stolichnaya.  Por precaução, as garrafas vazias nunca eram descartadas nas lixeiras da empresa. As repórteres, que geralmente portavam bolsas, eram escaladas para conduzir a "prova do crime" até o território livre da rua ao lado. 

Pode-se dizer que a Manchete até que era liberal nesse quesito. Havia uma longa tradição etílica em algumas redações das revistas do Russell. Talvez o jornalista e escritor Carlinhos de Oliveira tenha sido um dos membros mais ilustres dos alcoólicos nada anônimos das muitas gerações de jornalistas que passaram pela Bloch.

Quando a Bloch se transferiu da Frei Caneca para a Rua do Russell, no fim dos anos 1960, havia uma pequena mercearia a poucos metros da nova sede. Vendia, açúcar, café, arroz, feijão, azeite, banha, gordura de coco etc. As prateleiras mostravam bebidas quentes, mas não para consumo no local. Os coleguinhas logo descobriram que nos fundos da mercearia tinha um espaço, um mero depósito na verdade, com pouca iluminação e barris de madeira empilhados em um canto. Convenceram o português a deixar que bebidas fossem servidas nos barris improvisados como bancos e mesas. A venda de Underberg e rum logo disparou. Com o tempo, pouco tempo, a mercearia se transformou em um bar que se tornou um point e anos depois, já na época da Rede Manchete, ganhou o apelido de Color Bar. 

A propósito do anúncio da revista antiga, ressalte-se que a Manchete não pegou a época da cachaça Coronel. Os tempos eram de Natu Nobilis, Teacher's, , Drury's, vodcas Kovak e Smirnoff. Isso quando a baixa patente de repórteres e redatores se cotizava. Vez ou outra chefias mais abonadas contribuíam com importados Old Parr, Chiva's, Dimple. Nem toda degustação era secreta na antiga Bloch. Às sextas-feiras havia um happy hour oficial para grupos mais restritos no décimo andar do Russell. 

Histórias extraordinárias podiam acontecer em meio a emanações alcoólicas. E aconteciam. Como a do repórter que foi tomar umas com um colega e capotouem um bar. Claro, o colega era velho profissa, o jovem jornalista um iniciante que vinha de uma sucursal para entregar matéria. Sem saber como transportar o rapaz até o Novo Mundo, onde a Bloch hospedava equipes de fora, o profissa apelou para um operário da obra do Metrô no Catete. E foi assim que um providencial carrinho de mão fez o delivery do jornalista até o hotel.  Tudo acabou bem, no dia seguinte ele fechou a matéria e a história virou apenas mais um folclore do gênero.

Por falar em delivery, havia um simpático casal de vendedores que se especializou em atender a imprensa. E não para vender enciclopédias a domicílio. Geralmente na semana do pagamento, a dupla prestativa percorria as redações reabastecendo uns e outros de coleções de uísques importados, legítimos, a preços convidativos. A rota etílica do casal tinha paradas e fregueses na Manchete, JB, O Globo, O Dia, Tribuna da Imprensa, Jornal do Commercio e outros títulos. Se a operação não precisasse ser discreta os vendedores poderiam até ser recebidos com palmas a cada entrega. Prestavam um serviço essencial, como se diz hoje de certas categorias que liberadas para trabalhar no auge da pandemia.

As redações atuais parecem bem mais assépticas. O que não quer dizer que pratiquem abstinência fundamentalista. 

E, certamente, têm muito mais opções do que a secular e pioneira cachaça Coronel, a quem coube descobrir nos distantes anos 1920 que o nicho de jornalistas tinha potencial para consumir a "pinga de luxo" que "reanima e estimula" .  

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Fotomemória: Sartre, JK e Simone de Beauvoir - No tempo em que o presidente do Brasil não contava piadas de tiozão para visita estrangeira

 

Observado por Simone de Beauvoir, Sartre quis saber de JK a posição exata de Brasília
no mapa do Brasil.  Foto Manchete


por José Esmeraldo Gonçalves

Em 1960 Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil. O casal passou aqui um mês entre agosto e setembro daquele ano. Na agenda, encontro com escritores no MAM, conferência na Faculdade de Filosofia e almoço nas instalações gráficas da Manchete em Parada de Lucas. Em Salvador, Sartre e Simone, ciceroneados por Jorge Amado, foram a museus, igrejas barrocas e terreiros de candomblé. Em Recife, se deslumbraram com os rios Beberibe e Capibaribe, "de fazer inveja a Paris" - disse.  

Um encontro especial foi o do escritor com Juscelino Kubitschek. Na conversa entre os dois um tema predominou: Brasília. Era inevitável, a nova capital era motivo de curiosidade mundial, assim como a escalada desenvolvimentista do Brasil. Vivia-se um então raro interregno da democracia brasileira entre golpes militares. Sartre não sabia, mas o Brasil começava a se despedir da liberdade. Mais uma quarterlada, que resultaria em uma ditadura sangrenta, de 21 anos, já estava no forno. Logo ali na próxima esquina, em 1964. 

De qualquer forma, o Brasil que Sartre via estava bem distante do mau cheiro atual que emana de Brasília, onde também se fala em golpe. O país estava no noticiário internacional impulsionado pela bossa nova, cinema novo, arquitetura, conquistas esportivas, teatro e literatura. Tempos de adensamento cultural. Dias de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Oscar  Niemeyer, Lúcio Costa, Paulo Freire, Celson Furtado, Darcy Ribeiro, Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lígia Pape, Iberê Camargo, Sérgio Camargo, Alfredo Volpi e Mira Schendel. 

Na conversa com JK Sartre mostrou-se entusiasmado com a efervecência cultural do Brasil.  

Agora, por instantes, imagine um pesadelo. Se, por efeitos de uma janela cósmica ou armadilha de um buraco negro no espaço-tempo, Sartre fosse recebido por Bolsonaro, o atual presidente. 

Na  melhor das hipóteses, o francês teria que ouvir do brasileiro as piadas estilo tiozão do pavê ou nível quinta série, como aconteceu com o presidente de Portugal, Marcelo Rabelo de Souza, que sofreu constrangimento indigesto durante almoço no Planalto. 

Ao fundo da foto acima, como testemunha ilustre e sileciosa do encontro de Sartre e JK, aparece uma estante de livros. Pois é. A biblioteca, atualmente, coitada, serve de cenário para os perdigotos odiosos e as repulsivas lives do elemento infame que os desavisados e "gado" colocaram em Brasília.  

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Divagações em torno da 3ª dose • Por Roberto Muggiati

No confinamento, qualquer ida 
à esquina é uma odisseia...


Gosto muito de divagar, ganhei até de minha mulher o apelido de Dr. Divago. Há meses sem sair deste buraco onde moro há um ano e batizei de Baixo Glicério, a simples ida à cidade para tomar a 3ª dose da vacina contra a Covid desencadeou em mim uma série interminável de devaneios. 

No salão Assyrius,
Theatro Municipal
A ideia era ir ao posto instalado no Theatro Municipal. Como a grana está curta, iria de Uber até o Largo do Machado e de lá de metrô até a Cinelândia. Ao levantar às oito liguei a TV, a matéria no ar confirmava que esta segunda-feira, 27 de setembro, dia dos Santos Cosme e Damião, era reservada à faixa dos 83 anos e mostrava uma fila imensa no Palácio do Catete, onde eu tomei a primeira e a segunda dose, ambas de CoronaVac. Lena me deu uma nota de dez para pagar o táxi, de repente preferi fazer a primeira etapa de ônibus. Exercitei com ela meu humor negro inventando a história do serial killer de Cosme & Damião que jogava balas na rua para que as criancinhas morressem atropeladas.

Dei sorte: cheguei ao ponto quando passava um ônibus da linha Troncal 8 (ai de mim pegar o Troncal 7, me jogaria do outro lado do Túnel Santa Bárbara), que me deixou defronte ao metrô do Largo do Machado. A escolha do Municipal foi acertada: não havia fila alguma, fui prontamente encaminhado por um senhor simpático ao preenchimento do cartão de vacinação. Pedi a ele um favor especial: que me fotografasse tomando a 3ª dose. Atendeu-me também. Seu nome, Leo Melo, técnico do Tribunal de Contas municipal, atualmente à disposição da Secretaria de Saúde. Expliquei que tinha ganhado (perdido) 35 anos da minha vida na Manchete. Reagiu como todo mundo reage ao ouvir o nome da Manchete, com elogios nostálgicos à grande revista. Quis saber a causa do naufrágio daquele império de comunicação, respondi sucintamente que a editora não resistiu à TV Manchete. Pior: os Bloch não souberam aproveitar o sucesso estrondoso da novela Pantanal em 1990 para dar a grande virada como empresa.

Em poucos minutos saí de vacina tomada – desta vez foi a Pfizer, indiscutível incrementadora da imunidade. Mestre Zagallo, com sua mística numerológica lembrou bem: “Dose de reforço” tem 13 letras!” Aquele entorno do Theatro Municipal me trouxe à memória  flashes da minha vida na região: 

• Os encontros com Antônio Fraga e sua mulher no bar Vermelhinho, em frente da ABI, na minha primeira visita ao Rio em 1955 (nasci e morava em Curitiba). Escritor marginal (Desabrigo e Outros Trecos), Fraga já foi chamado “o James Joyce do Mangue”. Vendeu siris na “zona” por uns tempos. Foi também mineiro em Minas, garimpeiro em Goiás, lanterninha de cinema, vendedor de perfume francês em bordeis e auxiliar de cozinha no Hotel Glória.

• No meu vigésimo dia como repórter da Manchete, domingo 5 de dezembro de 1965, eu me encontrava com outros jornalistas num cercado diante da Biblioteca Nacional. Do lado oposto da rua, na atual Câmara dos Vereadores (a Gaiola de Ouro), aconteceria – sob grande tensão e proteção de tropas federais – a posse de Negrão de Lima, escolhido em eleições populares como segundo governador do estado da Guanabara. Injuriada, a linha dura militar queria dar um golpe, mas o general-Presidente Castello Branco ainda batalhava para dar à ditadura uma fachada “democrática”. Foi um dos raros momentos em que, como jornalista, senti minha integridade física ameaçada.

• Ao lado da Biblioteca, num prédio ainda mais majestoso, fica o Museu Nacional de Belas Artes. Em sua fachada tem uma frisa com os nomes de artistas da antiguidade, entre eles o de Vitrúvio (80-15 a.C.), o grande arquiteto romano. Durante anos, tive como editor de automóveis na Manchete o André Queiroz, eficiente e divertido. Um dia soube seu nome completo: André Vitrúvio Queiroz, talvez a única criatura no mundo a ostentar tal nome. Explicou-me: “Quando eu nasci, meu pai ficou tão feliz que tomou um porre no Amarelinho. Procurando um táxi diante do Museu de Belas Artes, viu aquele nome na fachada sorrindo para ele: VITRUVIO. Não resistiu.”

• Já que estava ali perto, decidi fazer uma visita ao dono da livraria Berinjela, vizinha da Da Vinci no subsolo do edifício Marquês do Herval. Quando a crise apertou, comecei a vender livros para a livraria do Daniel Chomsky, profissional de boa cepa e gente boa. Inicialmente, eu tinha de levar os livros até ele, o que implicava uma verdadeira operação de guerra: encher uma mala com as edições mais atraentes que ainda guardava em minha biblioteca. O peso era descomunal, eu não a conseguiria levar do fundo da vila, onde aluguei uma casa por 37 anos, até a rua para pegar um táxi. Erguer a mala para colocá-la no bagageiro era outro problema. Portador há anos de uma hérnia inguinal à beira do estrangulamento, eu não podia levantar uma pluma. Se o taxista era jovem, resolvia a questão numa boa. Às vezes eu pegava um chofer mais idoso que eu – e tão lesado quanto – era obrigado a dispensá-lo e recorrer a outro táxi. Acendi velas para o inventor da mala-de-rodinhas, um dos maiores benfeitores da humanidade, praticamente desconhecido. (Bernard D. Sadow, americano de Massachusetts, patenteou o invento em 1972 e morreu de câncer aos 85 anos em 2011.) Descia do táxi na Almirante Barroso esquina de Rio Branco e me arrastava com a mala pela calçada irregular de pedras portuguesas até a rampa em curva do Marquês de Herval. 

Um parêntese: quando fiz a Walter Salles um relato de minhas vicissitudes, ele achou que a história do misterioso senhor da mala de livros daria um filme, o personagem conhece uma mulher mais moça e... Fiquei de fazer uma sinopse, mas me enrolei barbaramente misturando ficção e realidade. Imaginei a heroína uma caixa da minha agência de Botafogo do banco Itaú/Unibanco, uma jovem de 40 anos com cabelos dourados num rabo-de-cavalo que lembrava o perfil de uma madona pintada por pintor renascentista florentino, não lembro mais qual. No enredo, o homem da mala e a moça do rabo-de-cavalo se tornam amantes e armam um golpe, durante as filmagens no próprio banco em funcionamento, fingindo um roubo de malotes que – por uma dessas tramas helicoidais borgianas – acontece de verdade. Claro que a ideia não saiu do papel. Em compensação, Waltinho me encaminhou para trabalhos no Instituto Moreira Salles, os mais notáveis foram duas séries para a Rádio Batuta: cinco programas de uma hora sobre a canção de protesto (da Marselhesa a Que País è Esse?) e três programas sobre músicas inspiradas pelas peças do Bardo nos 400 anos de sua morte (O mundo musical de Shakespeare), vale a pena ouvir, aqui vão os links

https://radiobatuta.com.br/documentario/o-som-da-rebeldia/

https://radiobatuta.com.br/documentario/o-mundo-musical-de-shakespeare/

Outra história de cocheira: Francis Ford Coppolla estava entalado há décadas com os direitos de filmagem de On the Road, o romance-manifesto da beat generation. Chegara a fazer testes com Brad Pitt e Johnny Depp que acabaram perdendo a data de validade para os papeis principais. Quando viu Diários de motocicleta, convocou Walter Salles para levar On the Road às telas. De uma geração mais jovem, Waltinho sentiu que precisava fazer um “laboratório” antes de encarar o desafio. Contratou-me como seu  personal beat expert e viajou a América de costa a costa, reconstituindo o roteiro de On the Road (poucos sabem que o cineasta é também um vitorioso piloto na categoria GT3 Brasil). Dirigindo seu 4x4 com uma pequena equipe, foi entrevistando no caminho remanescentes da geração beat e simpatizantes (Ferlinghetti, Gary Snyder, Carolyn Cassady, Lou Reed, Philip Glass etc) Fiquei encarregado de municia-lo, do Rio, com a ficha dos dois ou três entrevistados de cada dia, um programa que se estendeu por quase um mês. Foi assim que ganhei meu único cachê de Hollywood, pago em dólares pela Zoetrope Studios do “chefão” Coppola.

Voltando à mala amada: as sucessivas viagens, carregada de livros, a deixarem à beira do colapso. Foi quando, providencialmente, Daniel resolveu comprar os livros em minha casa. Aos poucos fui conhecendo suas preferências e idiossincrasias, devia saber melhor que eu o que vende e o que encalha numa livraria. Eu tinha uma preciosidade, o livro To Bird With Love, um volume pesado em papel supercouchê, 40 x 28cm, numa caixa especial de papelão, só 500 exemplares foram postos à venda, numa edição de luxo feita pela viúva de Charlie Parker em parceria com o artista gráfico Francis Paudras (o anjo da guarda de Bud Powell que inspirou o filme Round Midnight). Graças à intermediação da amiga Carol Parisot, produtora do Copa JazzFest, vendi a um casal de jazzófilos abonados por 2500 reais. O livrão foi comprado em Paris e trazido ao Rio por cortesia de ninguém menos do que o imortal R. Magalhães Jr e sua filha Rosa Magalhães, depois carnavalesca famosa.

De volta à querida Berinjela, Daniel e eu de máscara, perguntei se ele tinha À la recherche du temps perdu em francês. Finalmente, às vésperas dos 84 anos, eu chegara àquele momento de paz em que teria tempo para ler realmente Proust. Aluno precoce da Aliança Francesa, eu lera o primeiro volume aos quinze anos. Assimilara a Síndrome da Madeleine e devorara Un Amour de Swan, em que o ato sexual, praticado numa carruagem, era nomeado como “faire Catleya”, alusão à orquídea que portava a heroína Odette, presa ao vestido por um colchete. Na Berinjela só havia Proust em português. Lembrei o velho Jorge Zahar, que insistia: “Por favor, evitem traduções, se esforcem sempre para ler um livro na língua original”. Realmente, a primeira frase de Em busca do tempo perdido é intraduzível, o decassílabo: “Longtemps je me suis couché de bonne heure”. Só o fantasma de Shakespeare redimiu a arte da tradução. O seu Remembrance of Things Past (do Soneto 30) é considerado o melhor título da saga proustiana, mais belo até que o original francês.

Daniel desconhecia os percalços e dissabores da minha diáspora de Botafogo para Laranjeiras. Ele mora com a família numa casa nas imediações do ristorante Mamma Rosa, perto de mim. Reclamei do Baixo Glicério, não existe por aqui sequer um Caixa 24 horas. Quando a Covid fechou a agência do Itaú na Rua das Laranjeiras, eu tinha de ir pegar dinheiro no Largo do Machado. Suco de tomate para meu Bloody Mary eu tenho de ir comprar no Largo do Machado. Daniel se interessou pelo Bloody Mary. Embarquei logo numa dissertação da cultura etílica que é uma das muitas facetas do meu perfil anarco-hedonista: “O Bloody Mary é o drinque do Day After, o cura-ressaca ideal. Vodca, suco de tomate, uma ou duas gotas de molho inglês (ou Tabasco) num copo longo e um talo de aipo para agitar. O Bloody Mary está fazendo cem anos e foi criado no meu bar favorito, o melhor do mundo: o Harry’s New York Bar de Paris. Ali foram também inventados os drinques French 75, Monkey Gland e Sidecar – um sujeito chegou de moto, o companheiro saltou do sidecar e criou a bebida.”

Foi no Harry’s que, depois de um concerto dos irmãos Nat e Julian “Cannonball” Adderley no Olympia, eu, Joaquim Pedro de Andrade, Marilia Carneiro e Maria Lúcia Dahl (as irmãs Pinto, antes do sobrenome conjugal), planejamos meticulosamente o sequestro da estatueta do Manneken Piss em Bruxelas – um gesto transgressor de repercussão internacional – iríamos abduzir o Manequinho no carro de Neusa Azambuja, funcionária da representação brasileira na Unesco. Planejamos tanto que deu em nada. Às cinco da madrugada, trocamos os vapores de álcool e nicotina do Harry’s pelo frescor da clara manhã de primavera no Jardin des Tuileries, caminhando a esmo numa das paisagens mais belas deste planeta.

Nesta pequena viagem (com escalas) à Cinelândia fui longe, não? De volta para casa, encontro na saída do metrô do Largo do Machado a conexão de ônibus com o Silvestre, me deixará no ponto das Laranjeiras antes de embicar à direita para a rua Alice. Espero quase vinte minutos sentado no pequeno ônibus, os vinte assentos vão sendo ocupados, um baleiro vende suas promoções com uma penca de guloseimas de quase dois metros de altura: biscoitos, amendoim, drops, balas, paçoca, pipoca, achei que o coitado não ia vender nada, mas os passageiros, por falta do que fazer, começam a comprar, afinal, lembrei, é dia dos santos gêmeos Cosme e Damião. Tecnicamente sou ateu, mas a religião me atrai – não por seus aspectos mais deletérios, a crendice, o fanatismo – mas por seus rituais, a música sacra, o silêncio das catedrais, as abobadas góticas, os vitrais em rosáceas – por acaso os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória começaram suas badaladas alegres do meio-dia. Adoro também as histórias da Bíblia, matriz literária única, e a vida dos santos – hagiografia para os íntimos – os milagres e os martiriológios. Pouca gente sabe quem foram Cosme e Damião. Nascidos na Egeia, Síria, praticaram a medicina de graça e por não renegarem sua fé cristã foram decapitados em 303. O dia de São Cosme e Damião é celebrado também pelo candomblé, batuque, xangô do Nordeste, xambá e pelos centros de umbanda: associados aos meninos de Angola, irradiam bem estar, desfazem feitiços e curam enfermidades. 

Franco Zefirelli e Liza Minelli: badalação da estreia da Traviata
 no Municipal. Foto Manchete

Ah, sim, como pude esquecer? O local da vacinação foi o Salão Assyrio do Theatro Municipal, que foi restaurado por Adolpho Bloch quando, a convite do governador do Rio de Janeiro, Faria Lima, dirigiu a Funterj (depois Funarj) com o salário simbólico de um cruzeiro. Cito Arnaldo Niskier:

“Adolpho mandou vir da Itália, de começo do seu próprio bolso, todo o cobre que revestia a cúpula, deteriorada por tiros dados aos sábados por gentis frequentadores do Bola Preta. Deu ao palco mobilidade mecânica até então desconhecida, reformou os banheiros e o clássico foyer, trouxe da Bélgica a nova mesa de iluminação, para depois se concentrar no que talvez tenha sido a sua maior obra: a Central Técnica de Inhaúma. Com isso viabilizou uma programação artística muito mais intensa, a partir da clássica Traviata, montada por Zeffirelli (um luxo!), em março de 1979. E depois, a montagem de 23 óperas e incríveis balés, a partir de Copélia.”

O extinto Restaurante Assyrius. Foto Reprodução Facebook

No Salão Assyrio do Municipal aconteciam os antigos bailes de máscaras e funcionou um cabaré onde Pixinguinha tocava com seus Oito Batutas. Foi ali que Adolpho Bloch instalou na sua gestão o Restaurante Assyrius, com a cozinha do seu lendário chef Severino Ananias Dias. Acho que hoje guardo melhor lembrança, não das óperas que Adolpho nos obrigava a assistir, mas dos fabulosos banquetes proporcionados por mestre Severino nas noites de estreia.



Martelada na Cultura

Foto Horacio Ernane Leiloeiro/Divulgação
por Flávio Sépia 

Como parte do cerco à Cultura empreendido pelo Governo Federal, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro foi despejada, no ano passado, do imóvel que ocupava na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro.

 Continua sem teto, mas permanece viva. 

A instituição oferece cursos on line, enquanto está em busca de nova sede física. Esta semana, uma seção especializada do Globo anunciou o leilão de dezenas de  cadeiras que pertenciam ao Auditório Darcy Ribeiro, no prédio que a Escola foi obrigada a deixar.

 As cadeiras, em madeira e couro, levam uma assinatura icônica: foram desenhadas por Sérgio Rodrigues.

 Fora da informação aos possíveis interessados, o fato não  ganhou maior repercussão. O martelo bate na vida cultural do Rio e quase em silêncio a cidade perde um espaço de formação de profissionais do áudio visual, categoria tão fundamental nesses tempos. Tempos que, para o atual e abjeto governo federal, são também de trevas e de perseguição ao setor criativo. 

Mil dias de Bolsonaro: o patrono da morte também é o arquiteto da fome

A dramática capa do Extra, hoje

sábado, 25 de setembro de 2021

Deu no G1: "PF recupera duas garrafas de vinho furtadas de adega do Ministério das Relações Exteriores e avaliadas em quase R$ 60 mil".


Fotos: Divulgação/PF

por O.V.Pochê

Gente fina tem mão leve. Um larápio que circula no MRE afanou da adega do Itamaraty garrafas de vinho Petrus Pomerol Grand Cru e Domaine de la Romanee-Conti. A Polícia Federal montou uma operação para resgatar as preciosidades. Estavam em São Paulo. O nome do autor do crime não foi revelado. O sujeito contou que vendeu a outro elemento, que foi localizado e cujo nome também é mantido em sigilo. 

Não faz sentido é manter em segredo a identidade da dupla de ladrões. Se fossem duas garraafas de cachaça 51 roubadas da adega do "seu' Mané os nomes dos meliantes já estmavam no Jornal Nacional. 

Um conselho de amigo. É bom o FBI verificar se não falta nada na adega da ONU. Sei lá, vai que...

Veja a matéria no G1 AQUI

BozoFla ataca pela direita. Reage FlaAntifa

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Monica Grayley: jornalista brasileira que foi repórter da Manchete é porta-voz da ONU pela segunda vez

 

Monica Grayley no plenário da ONU. Foto News UN

A semana foi da 76ª. Sessão da Assembleia Geral da ONU. Assunto que é o grande destaque na mídia mundial. E por todos os motivos - os bons, os maus e os feios - como o Brasil particularmente constatou.  

Neste espaço, o que nos remete à ONU é uma notícia nobre. 

Pela segunda vez, a jornalista e cientista política brasileira Monica Grayley, atual chefe da ONU Português, assume como porta-voz da Assembleia Geral da ONU, nomeada pelo presidente-eleito Abdulla Shaid, ministro das Relações Exteriores das Maldivas e membro do Parlamento do país. 

Monica Grayley foi a primeira lusófona a ocupar esse cargo, entre 2018-2019, durante a presidência da ex-chanceler do Equador, María Fernanda Espinosa. 

No anos 1990, na época em que o designer Carlo Rizzi implantou uma grande reforma visual na Manchete, Mônica foi repórter da revista. Depois de trabalhar na Deutsche Welle, como redatora e apresentadora, em Colônia, Alemanha, foi redatora, apresentadora, gerente de projetos e encarregada de comunicação interna do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres. Em 2006, passou a chefiar a redação da ONU News em língua portuguesa, em Nova York e até 2016 atuou como diretora do Centro de Informação das Nações Unidas no México. Em 2019, voltou ao Brasil para lançar o livro A Língua Portuguesa como Ativo Político: um Mundo de Oportunidades para os Países Lusófonos, baseado na sua pesquisa de doutorado sobre a internacionalização da Língua Portuguesa e as relações políticas e de poder entre os países lusófonos. 

Hoje, ao reassumir seu posto como porta-voz da ONU, Monica também passa a nos representar. E  todas as mulheres que não acreditam no impossível, que não temem o desconhecido.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Pro dia nascer feliz... • Por Roberto Muggiati

Cidade do Rock, 1985: Cazuza e Frejat. Foto Manchete

Começou esta noite de 21 de setembro, às 19 horas, a venda antecipada de ingressos para o Rock in Rio 2022. Já são 37 anos separando as várias edições do megaevento. Mas o Rock in Rio de 1985 permanece o primeiro e único no imaginário nacional. Um de seus grandes momentos foi quando Cazuza subiu ao palco para cantar com o Barão Vermelho Pro dia nascer feliz, numa das noites mais concorridas (250 mil pessoas), 15 de janeiro, o mesmo dia em que o Colégio Eleitoral apontou Tancredo Neves como Presidente da República, restaurando a democracia e pondo fim a 21 anos de ditadura militar. Veja aí

https://www.youtube.com/watch?v=k_gBW17NED4

E relembre alguns trechos

Todo dia a insônia

Me convence que o céu

Faz tudo ficar infinito

E que a solidão

É pretensão de quem fica

Escondido fazendo fita

Todo dia tem a hora

Da sessão coruja

Só entende quem namora

Agora vão 'bora

Estamos bem por um triz

Pro dia nascer feliz

Pro dia nascer feliz

O mundo inteiro acordar

E a gente dormir, dormir

Pra o dia nascer feliz

Ah, essa é a vida que eu quis

O mundo inteiro acordar

E a gente dormir...

Aquele primeiro Rock in Rio aconteceu em meio a um mar de lama numa época de fortes temporais. Uma lama limpa e lúdica que lembrava aquela de Woodstock. Hoje, passados 38 anos e 8 meses, a nação e o povo brasileiros chafurdam num lodaçal pútrido, nocivo à nossa saúde física, mental, econômica e principalmente moral. Mergulhados no escuro, não temos a menor ideia de (ou se) quando chegará a sonhada noite pro dia (re)nascer feliz...

Um sinal pode ter sido dado ontem: os primeiros 200 mil ingressos do Rock in Rio 2022 colocados à venda foram esgotados em menos de uma hora e meia.