Mostrando postagens com marcador José Esmeraldo Gonçalves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Esmeraldo Gonçalves. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Alô democratas! A bela e a fera da extrema direita - Lamento dizer que Karoline Leavitt, a tchutchuca de Donald Trump, é competente, bonita, tem seguidores e vai ser influente na campanha para renovação do Congresso em novembro. Quem entre as democratas vai encarar a loura?

 

Fora da bancada da Secretaria de Imprensa da Casa Branca, onde é pitbull, Karoline Leavitt atrai seguidores da extrema direita.
Foto Instagram 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Secretária de imprensa da Casa Branca, a loura Karoline Leavitt é a figura que mais se destaca no governo de Donald Trump, depois do próprio. É autoritária, mal-educada, agride jornalistas, mente com espantosa frequência, tanto compartilha fake news criadas pelo oligarca-chefe quanto espalha suas próprias fantasias. É bonita, articulada, é a musa do regime. Ela sabe disso, atua bem nas redes sociais e não faz restrições a fotos que mostram sua boa forma. É uma jovem empoderada desde quanto foi atleta de softball na universidade.

No boné: "republicanos são mais quentes" . Foto Instagram.

Trump se encantou com Karoline por motivos estéticos, o visual étnico, a postura agressiva e o comprometimento com a extrema direita. Nos seus aposentos da Casa Branca, o presidente deve se deliciar ao ver a secretária humilhar jornalistas durante o briefing sobre as atividades governamentais. Adora vê-la desclassificar perguntas incômodas - geralmente as classifica como "estúpidas". Trump odeia jornalistas que não se submetem ao seu discurso, não riem das suas piadas e ironias e, principalmente, detesta aqueles que insistem em perguntas sobre sua participação em festinhas com adolescentes promovidas pelo seu amigo íntimo e pedófilo Jeffrey Epstein.

Karoline tem 29 anos, é formada em comunicação, foi estagiária na rede de extrema direita Fox News. 

Em 2021 tentou se eleger deputada pelo distrito de New Hampshire, mas perdeu para um democrata. Ela ainda não disse se voltará tentar o cargo nas eleições de novembro agora que multiplicou por muitas vezes sua visibilidade política. 

No primeiro mandato de Trump Karoline recebeu de uma amiga um convite para trabalhar no setor de correspondência presidencial da Casa Branca. Pouco dias antes do fim do primeiro mandato de Trump, ela foi promovida a diretora do setor. Após a posse, o sucessor Joe Biden começou a anular políticas aprovadas por Trump. Karoline decidiu se candidatar em resposta à atitude do democrata e se identificou na campanha como radicalmente pró-Trump. 

Em 2023, engajou-se na campanha do segundo mandado do magnata republicano. É católica e ultra conservadora. Basta dizer que comemorou o fim da sua campanha à Câmara dos Representantes com um intenso tiroteio em um clube de caça. 

Ainda durante a campanha conheceu o incorporador imobiliário Nicola Riccio, 32 anos mais velho. de quem ficou noiva em 2023. Em julho de 2024 teve o primeiro filho. Rápida e objetiva.

Comentário de Trump sobre a Leavitt segundo o site Mediate: "Aqueles lábios, como eles se movem", suspira a magnata.

Aviso: o texto não é machista. As circunstâncias são. Queixas devem ser enviadas ao Trump 

             

Agente Secreto: a força criativa que vem do Recife leva o mundo a conhecer uma história que não pode ser esquecida



O filme "Agente Secreto" já alcançou mais de 1 milhão de espectadores no Brasil. "Ainda Estou Aqui" foi visto por mais de 5 milhões. As indicações ao Oscar devem atrair ainda mais público 

Os números medem um efeito histórico que ocorre junto com as premiações internacionais. Os dois filmes têm o mérito de levar às novas gerações um período trágico em que opositores da ditadura foram sequestrados, presos, torturados, assassinados e desaparecidos. Além dos crimes bárbaros, a democracia interrompida e o  autoritarismo desvairado impactavam a vida das famílias, sepultavam a liberdade e a esperança

. Mais do que nunca, quando voltamos a viver ameaças à liberdade, o cinema brasileiro conversa sobre isso. Em "Ainda Estou Aqui", o terror vigente é explícito. Em "Agente Secreto" é o telão ao fundo da trama. Ambos cumprem a função de mandar um recado às novas gerações.  Salve  a força criativa que vem de Recife e leva o mundo a conhecer uma história que não pode ser esquecida (José Esmeraldo Gonçalves)

domingo, 18 de janeiro de 2026

Vai votar ou ser votado nas próximas eleições? Domine o Roblox antes que ele domine você






por José Esmeraldo Gonçalves

Você já ouviu falar na polêmica do Roblox. Trata-se de uma plataforma de jogos que entrou no noticiário em todo o mundo por possibilitar graves crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes. 

Vários países estão banindo o programa. A própria plataforma desenvolve recursos e bloqueios para impedir ações criminosas. É recomendável que pais e mães procurem se informar ou até conversar com especialistas para entender como agir. Existem regras na chamada Comunidade Roblox, mas existem criminosos capazes de quebrar essa ética. Neste link ( https://en.help.roblox.com/hc/pt-br/articles/203313410-Regras-da-Comunidade-Roblox ) você poderá conhecer as diretrizes da plataforma. Os pais também podem ativar Roblox Parental Controls que oferece uma margem de segurança aos filhos durante a participação em jogos.

O que pretendo introduzir aqui é um breve alerta sobre o braço político do Roblox. Esta função da plataforma não tem sido muito comentada, mas daqui a alguns meses, quando a campanha eleitoral for aberta, você vai ver o longo alcance da ferramenta

As eleições deste ano no Brasil e nos Estados Unidos (que produzirão consequências aqui) serão fortemente impactadas pela IA, para o bem e principalmente para o mal. Fake news, criação de imagens e falas falsas, manipulação de fotos, vídeos mentirosos, entrevistas idem, geolocalização inventada, tudo o mais que você imaginar a IA tem. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) vai enfrentar um enorme desafio. Às quase simplórias tentativas de compra de votos, do oferecimento de favores em troca de votos, da militância ilegal de pastores e patrões chantageando fiéis e empregados, dos obstáculos colocados no caminho dos eleitores rumo às urnas (não esqueçamos o uso pelos golpistas do bloqueio de estradas no nordeste para impedir que eleitores de Lula chegassem às seções eleitorais) vão se somar os poderes da tecnologia. 

O Roblox será explorado nas campanhas e na busca de engajamento político, sem dúvida. Algumas possibilidades? Desenvolvedores em ação no coletivo da plataforma criarão games didáticos sobre o político em questão, poderão criar protestos virtuais com faixas e slogans de campanha; organização de votações simuladas. Aliás, o Roblox tem um game chamado "Jogo do Presidente. Assuma o poder no Brasil". Além da polêmica plataforma, é esperado o uso de drones com alto-falante mandando recado aos eleitores. Perguntinha para o TSE: drone pode fazer boca de urna que é proibida aos seres humanos?  

Lembrando Glória Pires na célebre e folclórica transmissão do Oscar, eu diria que não sou capaz de opinar profundamente sobre o Roblox, mas há maneiras de corrigir  essa falha. O catálogo da Amazon  oferece vários livros que desvendam o Roblox. Vá por mim. É melhor conhecer o "inimigo" antes que ele conheça você.

       

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Irã, a teocracia assassina


Essa foto foi enviada pela agência Sygma, para a Manchete, no dia 1º de fevereiro de 1979. O aiatolá Khomeini desembarcava de um helicóptero para visitar o cemitério dos mortos da "Revolução Islâmica". A multidão de 500 mil pessoas tentava se aproximar para ver o novo líder recém-chegado do exílio. O povo era afastado a chicotadas. A brutalidade de Khomeini dava seus primeiros sinais. A imagem é plástica e dramática. Não é possível identificar o autor já que a Agência Sygma enviou dois fotógrafos a Teerã: Patrick Chauvel e Alain Keler.

por José Esmeraldo Gonçalves

Ao longo da história, a mistura entre Estado e religião causou mais mortes e sofrimentos (tortura, estupros, sacrifícios humanos, castração, mutilação genital feminina etc) do que os maiores genocidas seculares que a humanidade já viu. A Europa, especialmente a Espanha, onde a Inquisição foi lei, tem dezenas de museus dedicados a exibir os mais inacreditáveis instrumentos de tortura certamente criados por sádicos em nome de algum deus ou divindade. O Racionalismo e, depois, o lluminismo plantaram as bases do Estado laico. Quatro séculos depois parece que essa sustentação começa a se desmantelar. Até o Brasil, através de bancadas religiosas, escreve um rascunho da tragédia do fanatismo anunciado. 

Neste momento, a teocracia iraniana está matando a população nas ruas. Já são mais de duas mil vítimas fatais em pouco mais de uma semana de manifestações contra o regime dos aiatolás.Os protestos atuais acirram a resposta mortal do governo, mas matar pessoas por posição política, por gênero, por adultério, por homossexualidade, blasfêmia, prostituição e por não usar vestimenta compatível com a regra "religiosa", enfim, por uma infinidade de normas, é a terrível rotina institucional do Irã. Qualquer pessoa que desafiar a sharia, o conjunto de leis islâmicas, pode ser condenada à prisão e muito frequentemente à morte. É inaceitável que por circunstância geopolítica parte da esquerda brasileira demonstre imensa dificuldade em reconhecer a brutalidade da ditadura iraniana.    

Neste começo de 2026, os iranianos estão nas ruas. De novo, morrendo nas ruas. A título de memória, a foto acima foi enviada pela agência Sygma à Manchete em 1979. Naquela ocasião a população celebrava a "Revolução Islâmica" que derrubou Reza Pahlavi. Em 1979, o Aiatolá Khomeini voltava do exílio em Paris para comandar um Irã republicano. Dias antes, após uma sequência de manifestações e conflitos, o Xá (rei) fugiu do país. Rodou por várias capitais, tentou sem êxito formar um governo no exílio até desistir, vestir o pijama e se fixar no Cairo. 

Desde  o fim da Segunda Guerra o Irã passou a viver sob a ditadura cruel de Pahlavi apoiada pelos Estados Unidos. O Departamento de Estado via o Irã como estratégico frente à então União Soviética. A Guerra Fria era o pretexto para a opressão globalizada.  A Savak (Organização de Segurança e Inteligência Nacional) era o braço armado do Xá, na prática um "ministério" da vigilância, tortura e execução de opositores. Sem qualquer coincidência, a Savak serviu de modelo a várias ditaduras, como da Grécia, Turquia e, por último mas não menos importante, Argentina, Chile e Brasil, cuja implantação também teve as digitais de Washington.         

Khomeini logo rompeu com os Estados Unidos e transformou o Irã em República Islâmica. A ditadura apenas trocou de mãos. 

Curiosamente os protagonistas originais do drama iraniano, o Xá, os Estados Unidos e o aiatolá, voltaram ao palco na última semana. Mudaram os atores, não os personagens. A Savak passou a atender pelo apelido de Polícia Moral. O Aiatolá de plantão é atualmente Khamenei; Trump, inquilino da Casa Branca, manobra nos bastidores, enquanto o falecido Xá é agora figurado pelo príncipe herdeiro Reza Pahlavi. Em algumas cenas dos protestos são vistas faixas pedindo a sua volta. Na verdade, o tempo passa mas quem dá voltas é o Irã, a velha e sofrida  Pérsia de tantas glórias, terra do Ciro, não o cearense...          

domingo, 11 de janeiro de 2026

"Napoleão" de fralda descartável

 


por José Esmeraldo Gonçalves 

The Week retrata a desvairada ambição geopolítica do oligarca Donald Trump demonstrada em fatos e não em especulações. A revista compara o psicopata da Casa Branca a Napoleão Bonaparte. O domínio do imperador francês custou milhões de vidas.

Trump já entra na categoria do líderes serial killers. Sim, apenas no último ano o magnata, foi o causador direto de milhares de mortes. As até aqui 100 vítimas fatais no ataque à Venezuela somam-se aos mortos nos bombardeios do Iêmen, Irã, Iraque, Nigéria e Somália e os supostos barcos de traficantes no Caribe e no Pacífico. Na guerra da Ucrânia, a participação de Trump é através de bilhões de dólares em equipamentos (tanques, drones, mísseis, defesa antiaérea, caças F-16 repassados por aliados) rastreamento por satélites, espionagem, instrutores militares e agentes descaracterizados. A Ucrânia também emprega parte das verbas recebidas em contratação  de mercenários, inclusive brasileiros. Na guerra de Israel contra a Palestina o apoio sempre decisivo para a defesa de Israel é em forma de mesadas bilionárias, aviões, defesa aérea (o domo de ferro desenvolvido em parceria com o Estados Unidos depende de componentes importados). No campo interno a ICE, a "gestapo" que caça imigrantes ou cidadãos americanos que os defendem, abre sua lista de assassinatos. 

Embora não tenha a capacidade estratégica nem a experiência em campo de batalha de Napoleão, Trump é um burocrata sentado sobre uma poderosa máquina de guerra. E ele parece achar divertido usá-la.

Napoleão não tinha graves problemas de saúde até  morrer no exílio aos 51 anos vitima de um câncer gástrico. A doença pode ter sido causada pelo uso exagerado de água de colônia. Ele usava o conteúdo de dois a três frascos por dia. Um tipo de óleo na química do produto teria causado o tumor maligno. 

Trump está com 79 anos. Há pouca transparência sobre seu verdadeiro estado de saúde. A mídia interpreta alguns sinais e aponta eventualmente inconfidências sobre deficiência cognitiva. Sofreria também  de problemas circulatórios sendo acompanhado por angiologistas. Há alguns anos um dos seus assistentes, chamado Noel Castler,  revelou que ele usava fraldas para prevenir escapes de "número 2". Em cerimônias públicas ou até em encontros reservados no Salão Oval, convidados que se aproximam muito do magnata contam ter captado odores característicos. De qualquer forma fraldas ou qualquer outro incômodo não afetam a capacidade de Donald Trump de provocar crises planetárias muito além de limites imaginários.  Ele parece ter uma agenda volumosa onde estão escritos os próximos passos da bagunça.

- Melania, me lembra de invadir a Groelândia.

+ Melania, preciso intervir na Colômbia. Deixa um lembrete na Alexa.

- Provocar a China e a Rússia. Fazer reunião sobre isso.

- Avisar a USAF que amanhã é dia de bombardear a Síria ou o Líbano, não lembro mais qual dos dois 

- E esse tal de Lula? Precisa ser enquadrado e não pode ser reeleito. Ver o que a CIA pode fazer durante a campanha eleitoral do Brasil. Urgente.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Memórias da redação - Ilustrador Cláudio Duarte (1960-2026): traços e cores que ficam. Por José Esmeraldo Gonçalves



Acima, dois memoráveis trabalhos de Cláudio Duarte para a Revista Fatos: Milton Nascimento e Dom Ivo Lorscheiter 


por José Esmeraldo Gonçalves 

Em fins de 1984, Carlos Heitor Cony dirigia a Fatos& Fotos, J. A.Barros era o chefe da Arte e eu o editor executivo. A revista atravessava uma fase de desinvestimento. A Bloch enfrentava o alto custo de instalação de cinco emissoras de TV, o núcleo original da Rede Manchete, e bancava a construção de uma grade voltada para a classe A. Naturalmente as revistas sofriam alguns cortes e isso impactava a qualidade editorial das publicações.  Pra falar a verdade, havia uma falta de motivação quanto ao modelo da Fatos & Fotos que, naquele momento, julgávamos desgastado. 

Em 1985, o Brasil passava por uma grande mudança de rumo. Esperava-se a posse de Tancredo Neves, eleito presidente pelo colégio eleitoral da ditadura. Tancredo morreu e o Brasil recebeu um "presente de grego": o notório José Sarney, apoiador da ditadura. De qualquer forma os militares começavam a por o quepe fora do governo. Só a ponta do quepe, mas após 21 anos de ditadura corrupta, torturadora e assassina, era alguma coisa. 

Naquele ambiente político de fim da censura interna e externa, Cony levou a Adolpho Bloch a ideia de lançar uma revista de informação e análise com rubricas de política, economia, internacional, esporte, cultura, turismo etc. 

A experiência de uma revista de informação e hard news era inédita para a Bloch Editores. Cony convocou a mim e ao Barros para, juntos, desenvolvermos um projeto editorial e gráfico da Fatos, este era o nome da nova publicação. Lembro que um diferencial previsto para a Fatos era o uso de ilustrações. Contatamos vários chargistas, cartunistas e ilustradores, alguns experientes e a maioria iniciantes. Um deles era Cláudio Duarte. Em um dos poucos exemplares que me restaram da Fatos, revi algumas ilustrações assinadas por ele. Além do Cláudio, tinhamos uma equipe de craques ilustradores como Gil, Ique, Mariano, Petrúcio, Paulo Melo, Lapi e André Hippert. Quando a revista foi fechada em julho de 1986, após um ano e meio de existência (abatida por campanha de dedos-duros da Bloch viúvos da ditadura - o blog já contou essa essa trama) , os ilustradores se distribuíram em veículos cariocas. Cláudio Duarte foi para O Globo. Em 2001 ganhou o Prêmio Esso de Artes Visuais com o tema Horror em matéria da revista Época sobre o ataque às Torres Gêmeas. 

Cláudio Duarte faleceu no domingo, 4/1/2026, em Florianópolis, aos 66 anos, vítima de câncer. Ele deixa o filho Francisco Duarte e a namorada, a pianista Patrícia Boltroni. Nossos pêsames à família. 

Chico Duarte homenageou o pai nas redes sociais: 

"Parabéns pela vida que você teve, papai. Nasceu pobre, na periferia do Rio de Janeiro, em meio à ditadura militar, apenas com o ensino médio, para se tornar um dos maiores ilustradores da história do país, Venceu na vida apenas com suas canetas e muita força de vontade".

Atualização - 9/1/2026 - Tentei encontrar, mas não consegui, uma página que o colaborador Claudio Duarte fez para a Fatos na semana em que a Câmara dos Deputados era alvo de denúncias de corrupção. Isso em 1985 ou 1986, se não me engano. Vale contar o caso mesmo sem o "corpo de delito". O ilustrador criou uma incrível cena do plenário tomado por pequenos ratos vistos no tapete entre as fileiras de cadeiras. Puro realismo. Tivemos a intuição de que daria problema na cultura Bloch mas publicamos, não poderia ficar inédita aquele ilustração. Cony participou do fechamento, bancou a ideia mas viajou em seguida. No domingo, dia em que a revista ia para a banca, recebi um telefonema do Adolpho Bloch. Ele reclamou e perguntou como publicamos "aquilo". "A empresa pode ser fechada", dizia. Argumentei que não chegaria a tanto, a tal denúncia estava em todos os jornais e TV.  Sugeri que ouvisse a opinião de Murilo Melo Filho, o experiente e ponderado diretor que cuidava das questões políticas da editora. Realmente, nas semanas seguintes não surgiu qualquer represália da Câmara. Na redação, acreditamos que o sucursal de Brasília deve ter superestimado a crítica ao falar com o Bloch. A revista durou alguns meses ainda após o caso, mas começou a atrasar o pagamento dos colaboradores. Um sinal do fim próximo. Cláudio Duarte foi para O Globo. Creio que inicialmente ilustrava o Jornal da Família. Não demorou muito tomei o mesmo rumo. A  convite do saudoso Humberto Vasconcelos, que editou o Caderno B do JB em fase áurea e era então editor do Segundo Caderno, entrei no Globo como seu subeditor. Foi uma boa experiência, trabalhei com ótimos profissionais, mas aceitei um convite para retornar à Bloch, dessa vez para a Manchete, onde fui chefe de reportagem, chefe de redação e editor executivo na equipe de Roberto Muggiati. Em 1996, a convite de Sergio Zalis, diretor do escritório carioca da Caras, assumi como editor senior da operação Rio de Janeiro da revista de celebridades. Outra boa experiência.  Os títulos Fatos, assim como Fatos & Fotos, deixaram de existir. Essa última ainda foi para as bancas ocasionalmente em edições de carnaval. A Fatos? Ficou no nosso currículo como uma aventura passageira. Nada mais do que isso.    

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Mídia - Coreografia jornalística sobre as cinzas frias da Lava Jato

por José Esmeraldo Gonçalves 

A polêmica que envolve Alexandre de Moraes e o Banco Central deixou um subproduto bastante interessante para melhor compreensão do movimento político da mídia de direita. 

Ficou mais fácil entender, por exemplo, a demissão de Daniele Lima da Globo News e a ascensão de Malu Gaspar como ativa comentarista do canal dos Marinho. Também ficou mais evidente o propósito das intervenções intempestivas de Fernando Gabeira e Leilane Neubarth nas falas de Daniela que, soube-se depois, a cúpula da emissora considerava "esquerdista demais". 

Então é isso, a boiada jornalística caminhava para a direita e Malu Gasoar tem papel relevante e missão a cumprir nesse ajuste de bússola às vésperas de um ano eleitoral com o mercado e os jornalões da direita ombro a ombro com a extrema direita fazendo suas apostas. 

Alexandre de Moraes tornou-se o obstáculo a demolir politicamente. O próximo é o ministro Dino.

Uma curiosidade a mais: na época da Lava Jato, ainda quando Moro e cúmplices tinham lugar de santos no altar de sacrifício da democracia,  a mídia corporativa fazia semanalmente uma coreografia ensaiada. Os jornalões cumpriam as pautas distribuídas por Moro e tropa, enchiam páginas e páginas e e convocação algoritmos com conteúdos que o tempo mostrou falsos e produtos de crimes jurídicos, a Veja repercutia na linha bombástica, o Jornal Nacional amplificava ao limite e o Fantástico dava o tiro final para fechar a semana. Na segunda-feira a máquina de caluniar começava tudo de novo.

Pois não por acaso essa coreografia voltou ao palco nesse falso escândalo do Alexandre de Moraes, BC e Banco Master. Não é por acaso.

Mídia - O "amigo oculto" da jornalista Malu Gaspar. Repórteres tentam identificar os informantes do Globo na operação "Delenda Moraes"

por José Esmeraldo Gonçalves 

Brasília não fala em outra coisa. Após o pico de temperatura máxima alcançado pelo caso Banco Central-Alexandre de Moraes-Gabriel Galípolo, a corrida midiática agora é para identificar as fontes que enganaram Malu Gaspar, autora da reportagem que acusou Moraes de interceder junto ao presidente do BC em busca de uma uma saída para a crise do Banco Master. Na verdade, uma enorme fraude. 

Morais e Galípolo divulgaram notas desmentindo a essência e as circunstâncias das acusações. Não seria a primeira vez no currículo da repórter. Identificada com a seita de "viúvos e viúvas da Lava Jato" por ter veiculado como autênticas as manobras ilegais de Sergio Moro depois desmascarado e julgado suspeito pela justiça, Malu apoiou-se em seis fontes anônimas, na verdade volumosas cascatas. 

Os jornalistas de Brasília vão acabar acrescentando um pouco de entretenimento à investigação e realizando uma espécie de "amigo oculto" em torno da árvore de Natal para identificar os informantes da repórter do Globo. Ocorre que são muitos os interessados em afastar Moraes do STF. Aqui vão algumas pistas de potenciais candidatos a participantes do "amigo oculto" jornalístico

- Daniel Vorcaro, dono do Master, poderoso, com forte influência em diferentes núcleos de autoridades. 

- Ciro Nogueira - atuou em favor do Master no Congresso.

- Ibaneis Rocha, governador de Brasília. Ficou frustrado quando o Banco Central fez naufragar o projeto para salvar o Banco Master. O BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, seria o braço amigo oferecido ao afogado.     

- Bolsonarista Paulo Guedes, ex-ministro da Fazenda do seu amado mestre. É queridinho da mídia de direita e tam acesso a contatos remanescentes no BC.

- Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central na gestão do Bozoroca, também com contatos nos corredores do BC.

- Luís Fux, o ministro mais ressentido com Alexandre Morais.

- Representantes da Febraban, Itaú, Banco do Brasil, da Confederação Nacional das Intituições Financeiras, do BTG e Santander que participaram de reuniões com Alexandre de Moraes sobre a Lei  Magnistski do desvairado Donald Trump. 

Façam o jogo, senhores!

Atualização em 26/12/2025- Nomes já cotados pela mídia como fontes da matéria de Malu Gaspar. O próprio Daniel Vorcaro, André Esteves, do BTG, amigo nã oculto de Paulo Guedes e de Roberto Campos Neto. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Aê Bahêa. Salve 8 de dezembro, Salve Conceição da Praia. Salve Oxum! Sincretismo religioso na veia. Acarajé, caruru , cachaça de jenipapo, Vinicius de Moraes e Baden Powell...




Oferendas digitais para N.S. Conceição da Praia/Oxum e lições que vêm da Velha Bahia: bebida para abrir caminhos, frutas,
moedas para prosperidade e gato preto, símbolo de proteção, ao contrário da tradição europeia que o vincula à má sorte. O quadro ao fundo é de Carybé, jornalista argentino, pintor e brasileiro naturalizado.
Foto: Acervo do Panis cum Ovum
 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Em um dia como esse, 8 de dezembro de 1964, eu era secundarista em Salvador. Festa de rua. o programa mais acessível ao bolso. A Ribeira, meu bairro, comemorava todas as datas possíveis, as profanas, as católicas e os eventos das religiões afro-brasileiras. Eram tempos tranquilos. Os moradores abriam as portas e convidavam os passantes a provarem comidas ritualísticas como acarajé, abará, caruru e até pipoca. Para beber, licor ou cachaça de jenipapo. Fazíamos na Ribeira o roteiro que o Leblon chama hoje de baratona. Só que gratuita e parando em salas de famílias amigáveis. 

Na paz. 

Havia uma data em que subíamos no ônibus elétrico e deixávamos a península de Itapagipe rumo à Praça Cairu, a do Elevador Lacerda, ali pertinho do Mercado Modelo e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. 8 de dezembro. Era o dia dela. A festa era puro sincretismo na veia. Conceição da Praia é Oxum para as religiões de matriz africana. Procissão cruzando com oferendas, o coral da igreja, hoje basílica, cantando ao som de tambores. Na rua, barraquinhas de acarajé, feijoada e muitas gabrielas.

Na época não havia intolerância agressiva contra a umbanda e o candomblé. Preconceito, sim, especialmente da classe média pra cima. Mas não existiam pastores a incentivar invasões, agressões e depredações de terreiros. Nem as Claudia Leitte da vida a mudar letras de canções para não pronunciar o nome de Iemanjá.

No verão de 1966, tempo em que os tambores mais aqueciam o Pelourinho, Vinicius de Moraes e Baden Powell lançaram os Afro-Sambas, álbum que hoje é clássico. A dupla levou o Brasil a cantar Ossanha, Xangô, Iemanjá e a cultura negra. Algo que os enredos das escolas de samba fazem hoje com muito brilho. Baden e Vinicius não foram cancelados nos cultos. E o disco pode ser tocado no "terreiro" do You Tube.  Ouça lá, mas se for vizinho do Malafaia convém baixar o som.

No mais, respeite a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia/Oxum. Não começou ontem. É realizada desde 1549. É tão somente a celebração religiosa e popular mais antiga do Brasil. Dizem que só não se realizou quando os baianos estavam mais ocupados em guerras para expulsar holandeses e, depois, os portugueses.     

"Caixa Amarela" - Os disquetes, quem diria, reaparecem como protagonistas de um escândalo que reúne sexo, ilegalidades e Xvídeos

 

Caso Banestado:um "zumbi" volta para assombrart ogas e paletós.   


Foto ilustrativa JConejo Free Image

Comentário do Panis cum Ovum
- Um mídia obsoleta, os disquetes, pode reaparecer para encrencar figuras acima de qualquer suspeita. 
Matéria de capa da Fórum dessa semana mostra que ainda há muitas brasas nas cinzas das ilegalidades cometidos por Sergio Moro e cúmplices nos porões curitibanos. Dessa vez, um indutor do escândalo foi apreendido pela Polícia Federal na famosa 13ª Vara de Curitiba, ex-reduto de Moro.  

Trata-se do item denominado "caixa amarela", cheio de disquetes e outros dispositivos de gravações criminosas que Sergio Moro teria mandado fazer, segundo acusação do ex-deputado estadual do Paraná, Tony Garcia, um "infiltrado" a serviço do ex-juiz. Foi ele que revelou a existência do material, acrescentando que assinou acordo de colaboração no Caso Banestado, em 2004, quando Moro o obrigou a gravar  políticos, juízes, doleiros e governadores. A espionagem durou até 2021, entrelaçando-se com a já desmoralizada Lava Jato. 

A julgar pela amplitude do material, a Caixa Amarela (melhor grafar assim em maiúsculas), vai tirar o sono de muita gente. São 400 horas de arquivos clandestinos acomodados em prosaicos disquetes. 

O ministro Dias Toffoli decretou sigilo absoluta da investigação-bomba, mas chegará a hora em que o STF poderá rever a medida e, como tem feito em muitos casos, optará pela devida transparência. Além das gravações supostamente encomendas por Moro, a Caixa Amarela pode conter até mesmo segredinhos da "Festa da Cueca" realizada em novembro de 2003. Esta seria apenas mais uma alegre orgia se não reunisse, segundo Garcia, um grupo de desembargadores. As excelências despiram as togas e, data vênia, partiram para a "reintegração de posse" com garotas de programa. Infelizmente para os participantes, uma câmera teria gravado a festa relizada em um hotel de luxo em novembro de 2003. Toffoli quer saber se as imagens foram usadas para influenciar decisões processuais. (por José Esmeraldo Gonçalves)            

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Memórias da Redação - Há 30 anos, a última mensagem de Adolpho Bloch e o estranho caso da urna enterrada e esquecida na Quinta da Boa Vista. Por José Esmeraldo Gonçalves

 

A página de abertura da Manchete especial sobre a morte de Adolpho Bloch.
Clique na imagem para ampliar o texto 


No dia 20 de novembro de 1995, chegava ao fim do meu último ano na Revista Manchete, da qual me desligaria em fevereiro de 1996. Fechava-se uma etapa da minha carreira e, a revista perdia seu fundador. Foi um mix de dia agitado e de comoção diante do fechamento da edição especial sobre Adolpho Bloch. Enquanto o numero 2.277 tomava forma na redação,  oito andares abaixo, no hall do prédio da Rua do Russell, o Bloch era velado cercado pela família e centenas de amigos. Pessoalmente ou por telefone, repórteres colhiam depoimentos de personalidades, entre as quais o então presidente Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola, Roberto Marinho, o primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres, Franco Zefirelli, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro e Barbosa Lima Sobrinho. Eu me recordo que Zevi Ghivelder me pediu para escrever o pequeno texto de abertura acima reproduzida. Quase fim do fechamento, com tantas páginas reunindo múltiplos perfis de Adolpho, confesso que eu não sabia bem o que destacar. Pensei em uma das suas mais marcantes características: o amor ao Brasil. 

Hoje, vendo certas figuras desprezíveis apelando aos Estados Unidos para bombardearem o Rio de Janeiro ou bancadas espúrias no Congresso aprovando leis em interesse próprio e seguramente inconfessáveis observo o quanto esse sentimento faz falta.

Revendo o expediente daquela edição, vejo que o tempo passsou tão rápido quando um trem-bala. Como assim, 30 anos ? Levou alguns amigos, felizmente deixou tantos outros e muitas lembranças.  


Por último, uma curiosidade sobre o recado póstumo "Sejam todos felizes neste país que tanto amei" - 

Em 1973, Adolpho foi convidado a escrever um depoimento que foi depositado em uma urna enterrada no museu da Quinta da Boa Vista. Os registros deveriam ser abertos apenas no centenário da Independência, em 2022.  Pelo que se sabe, a urna foi esquecida. Em todo caso, um trecho colhido em uma cópia resgatada pela Manchete tornou-se a mensagem final de Adolpho Bloch.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

O que Adolpho Bloch tinha a ver com Zé das Medalhas


A medalha JK65 entrou para a história que não aconteceu.
Reprodução de uma peça da memorabilia do Panis

por José Esmeraldo Gonçalves 

Zé das Medalhas era um personagem da Copacabana dos anos 1960. Uma celebridade popular ao lado de tantos escritores, cineastas, cantores e jogadores de futebol que moravam no bairro. Zé das Medalhas trabalhava em uma farmácia no Leme. Usava sempre um colete espetado com dezenas de medalhas. É possível que Adolpho Bloch, que morava em Copacabana, e costumava andar na Avenida Atlântica com o amigo Juscelino Kubitschek, tenha cruzado com o Zé em algum momento. Ou talvez não, e jamais os dois souberam que tinham algo em comum. Um carregava suas medalhas no peito, o outro costumava estampar medalhas e moedas comemorativas anexadas às edições da antiga Manchete


Uma dessas medalhas em homenagem a João Paulo II, que visitava o Brasil em 1980, foi colada nas capas de números especiais que venderam milhões de exemplares. Além disso, Adolpho recrutou voluntários para vender a medalha do papa em esquinas movimentadas do centro do Rio de Janeiro. O carisma de João Paulo II incendiou as ruas e fez tilintar moedas no cofrinho do Bloch. 


Outra insígnia lembrada, esta oferecida ao leitores da Manchete Esportiva, festejou os Jogos Olímpicos.

A marca Bloch estampou várias medalhas e moedas.  

A moeda JK 65 virou história que não aconteceu e foi atropelada pela ditadura militar de 1964. Depois de deixar a Presidência, Juscelino foi eleito senador. A ideia era permanecer na cena política enquanto trabalhava a volta ao Planalto nas eleições de 1965. A moeda era inicialmente uma peça de campanha. Mediante uma quantia, de preferência alentada, o doador ganhava o suvenir.  

JK havia sido vítima de uma tentativa de golpe militar após ser eleito em 1955, foi salvo pelo marechal Lott que desarmou a conspiração dos quartéis e garantiu sua posse. Conhecia o veneno e mesmo assim  cometeu um erro fatal: aproximou-se dos militares no período anterior à queda de João Goulart e apoiou o golpe de 1964. Acreditava que os milicos fariam um pit stop no poder e manteriam as eleições presidenciais de 1965. JK nem desconfiou da ditadura pré-instalada quando votou para presidente, no Congresso, na palhaçada eleitoral que "elegeu" Castelo Branco. Com o enterro da liberdade, o militar tomou posse com a caneta carregada para formular listas de cassações, prisões, sequestros, perseguições e os Atos Institucionais autoritários. 

JK deve ter tomado um susto: seu nome logo figurou entre os cassados e banidos. 

O resto a história conta. Foram 21 anos de trevas, torturas, assassinatos, milhares de brasileiros no exílio, censura, corrupção e concentração brutal de renda. Restou gravada na moeda JK85 a mensagem da "Pelo Brasil recomeçarias mil vezes". No verso, em torno da imagem de um trator, o registro "Contribuí para a campanha JK65", seguido da promessa "Quinquênio da agricultura"simbolizada pela imagem de um trator.  Trator ou tanque ou foi o que passou por cima da democracia          

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Seleção brasileira sob ataque midiático

Carlo Ancelotti. Foto de Rafael Ribeiro/CBF/Divulgação

por José Esmeraldo Gonçalves 

Canais de You Tube suspeitos de receberem impulsionamento financeiro, polêmicas com base em qualquer coisa ou coisa alguma, clubismo e a polarização invadindo preferências no jornalismo esportivo em torno de Neymar e Carlo Ancelotti. O período pré-Copa do Mundo não será tranquilo. 

Embora há três anos sem relevância no futebol Neymar ainda seduz um lobby que insiste em pressionar o treinador da seleção e fazer a cabeça da torcida. 

O jogo Flamengo 3 X 2 Santos continua repercutindo nas mesas-redondas. De um lado aqueles que viram no primeiro tempo momentos de "brilho" de Neymar. Não foi bem assim. Os parças das redações não estão enxergando bem; do outro, as críticas de quem, com razão, prefere não perder tempo e verbo. O jogador, como em quase todas as partidas em que atuou neste Brasileirão, demonstrava nervosismo, gesticulava irritado a cada erro dos companheiros (embora ele mesmo falhasse em dribles e passes). 

Os dois gols após a saída de Neymar foram simbólicos. Por pouco o Santos empata o jogo. Ao ser substituído o "menino Ney" reclamou com o treinador Vojvoda. Falou como se fosse dono do clube "Você vai me tirar"? E talvez, quem sabe, seja mesmo dono do time. Ao deixar o campo fez cena, chutou copo de plástico e foi direto para o vestiário. Não se sabe se viu a reação do Santos, se voltou para São Paulo com a delegação ou se mandou por meios próprios como, aliás, fez ao se apresentar direto no Maracanã, evitando viajar com os demais jogadores. Após os patéticos acontecimentos no jogo contra a Fla, cresceram os rumores sobre a "falta de clima" de Neymar no Santos. Pudera. Junto com o alto salário que recebe do combalido time paulista ele parece achar que é um CEO em campo. Manda, desmanda e dá esporros. Imaginem o foco de problemas que esse rapaz criaria se fosse incorporado ao time de Ancelotti. O vestiário se transformaria em passarela de ego?

O treinador italiano foi vítima, a propósito, de uma grosseiria em evento da Federação Brasileira de Treinadores. A entidade promoveu um encontro de técnicos com as presenças de, entre outros, Leão e Oswaldo Oliveira. A dupla resolveu desabafar diante de Ancelotti, que prestigiou o encontro. A coisa virou palco para o ressentimento de Leão e Oswaldo que criticaram a contratação de um estrangeiro para dirigir a seleção brasileira. Já a torcida, nós, sonhamos com algo mais importante: o hexa que não vem há 23 anos com a seleção comandada por técnicos brasileiros que fracassaram. Um deles, Tite, ficou 8 anos no cargo e não passou das quartas-de-final.  

Voltando a Neymar. A mídia esportiva não tem informações sobre o destino do jogador ao fim do contrato com o Santos. Já os canais "amigos" lançam constantemente fake news sobre propostas ou sondagens supostamente recebidas por Neymar. Nenhuma se confirmou nos últimos anos, com óbvia exceção da ida para o Santos. Na semana passada um desses canais especulou que ele poderia ir para o Fluminense. O clube carioca apressou-se em negar qualquer contato com o staff de jogador. 

Deve ser cansativo para Carlos Ancelotti repetir a cada coletiva que em março de 2026 fará a convocação conclusiva para a Copa.. Após essa data só imprevistos vão interferir na lista. E aí ele ouve a pergunta de um centavo de dólar. "E Neymar"? Ele responde pela enésima vez que o jogador que estiver física e tecnicamente em forma, com sequência de boas atuações e que cumpra a proposta coletiva de jogo que a seleção precisa será observado. Amanhã o Brasil joga contra o Senegal. 

Depois da derrota para o Japão, Ancelotti queimou um pouco do seu crédito diante da mídia esportiva. Não importa se o seu trabalho está no início, uma derrota dará gás aos seus críticos e ao lobby de Neymar.

Atualização - 16/11/2025 - No jogo Brasil 2x0 Senegal, a seleção brasileira mostrou evolução sólida especialmente no primeiro tempo. Há pontos a aprimorar, certamente já identificados por Carlo Ancelotti. Pelo menos dois "torcedores" talvez estivessem com bandeirinha do Senegal à mão. Para Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira, um resultado negativo provavelmente reforçaria o objetivo dos dois de ter de volta à seleção um treinador brasileiro, msmo que fosse descendente de estrangeiro, como milhões de nacionais. No futuro, quem sabe, será possível reivindicar até um bravo indígena para o cargo. Muito justo, os povos originários, sem ironia, também merecem. Ontem, o Palmeiras perdeu para o Santos por 1x0. Neymar jogou durante os 90 minutos, arriscou duas finalizações, acertou dois dribles, teve pouquíssima participação na defesa. O treinador Vojvoda, do Santos, elogiou a dedicação de Neymar. O resultado, além de abrir uma esperança de luta contra o rebaixamento. Outra consequência será estimular a campanha "volta, Neymar" à seleção. Aí é outra história. Ancelotti não fechou as portas para Neymar, mas o jogador, caso permaneça no Santo ou vá para outro time, terá que mostrar condições físicas, técnicas e, principalmente, consistência e continuitade.   

domingo, 9 de novembro de 2025

Vaticano - o papa assina "ato institucional" que, na prática, rebaixa Nossa Senhora.

Pietá, de Michelangelo, atualmente instalada na Basílica de São Pedro 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Não daria certo. Um papa estadunidense logo mostraria seu DNA elitista e prepotente, avesso à fenômenos católicos de inspiração popular. Matéria do jornalista Edison Veiga publicada na BBC Brasil mostra que o papa cowboy saca suas armas. As primeiras vítimas estão nas denominações de Nossa Senhora. Do seu bunker no Vaticano, Leão 14 emitiu um documento que desmerece a devoção a Maria. O papa gringo dá uma canetada impiedosa na veneração dos católicos. É quase um cancelamento. Por tabela Nossa Senhora Aparecida seria uma das vítimas? O Círio de Nazaré correria risco? O culto a Fátima, em Portugal - e também muito expressivo no Brasil e no mundo - seria, alvejado?

O  ato institucional de Leão 14 considera que há "abusos"  na devoção àquela que a própria Igreja Católica apresenta como mãe de Jesus. Para o Leão estadunidense, o foco deveria ser a Santíssima Trindade (Deus, o pai; Jesus, o filho; e o Espírito Santo. Maria, assim, ficaria relegada a um patamar inferior. 

A mídia em geral ainda não analisou a extensão do documento papal. A coisa toda pode ser vista como uma "neopentecostalização" do catolicismo. Tradicionalmente, com ênfase nas últimas décadas, evangélicos radicais, incluindo pastores extremistas, invadem igrejas católicas para destruir imagens da santa. 

Leão 13 pode até ter intenção dogmática, mas acaba enviando um míssil que atinge Nossa Senhora. E o Vaticano não tem uma Lei MARIA da Penha. Uma pergunta deve estar nas mentes dos católicos e dos não religiosos criados no catolicismo, como é  o caso de milhões de brasileiros:  o mister papa vai censurar a Ave Maria, uma das mais populares orações católicas?

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Aos leitores - Roberto Muggiati - : Em breve o Panis Cum Ovum retomará a publicação de novos capítulos do folhetim "Mistério na Glicério"

Visita ao mestre. José Esmeraldo Gonçalves e Roberto Muggiati.
Foto de Jussara Razzé.

O jornalista e escritor Roberto Muggiati fez uma pausa para cuidar da saúde. Após a conclusão de uma série de sessões de fisioterapia, ele deverá enviar para este Panis Cum Ovum, até meados de outubro, novos episódios do folhetim noir "Mistério na Glicério" . Em visita que fizemos ao amigo, ele comfirmou a mim e a Jussara Razzé, que também retomará a finalização do livro "Humor na Manchete" e começará a trabalhar em um próximo projeto: a produção da sua fotobiografia. (José Esmeraldo Gonçalves).  


domingo, 31 de agosto de 2025

Luís Fernando Verissimo (1936-2025) - Ele psicanalisou o Brasil. Botou deitado no sofá esplêndido o país do coqueiro que dá coco




por José Esmeraldo Gonçalves

Érico Verissimo e Luís Fernando Verissimo foram próximos à Manchete, de certa forma. Érico era cunhado de Justino Martins, diretor da revista do final dos anos 1950 até 1983, quando faleceu. Talvez Verissimo, o filho, tenha herdado essa afinidade. Costumava atender os repórteres da Manchete, para a qual escreveu vários depoimentos e pelo menos duas grandes matérias: uma intitulada "Os Gaúchos", outra, "Minha Vida com Papai". 

Verissimo parecia sempre manso e discreto, mas era capaz de se multiplicar em tantas e intensas versões. Uma divisão celular talvez tenha criado os Verissimos escritor, cartunista, humorista, tradutor, roteirista, dramaturgo, publicitário e saxofonista. Não é exagero dizer que Verissimo psicanalisou o Brasil deitado no sofá esplêndido.  

Não era homem de buscar conflitos. A ironia que os alvos mal percebiam era a sua arma mais poderosa. Um diálogo das Cobras de Verissimo, nos anos 1970, talvez tivesse um poder de fogo maior do que todos os artigos do irado Paulo Francis. As cobras eram um alter ego divertido e venenoso do escritor. Verissimo fará falta, aliás faz falta desde que um AVC o afastou da escrita. 

Neste registro, recordamos alguns textos de Verissimo na antiga revista Manchete

Você pode acessá-los nos links abaixo.

Um Gaúcho em Manhattan

https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pesq=Lu%C3%ADs%20Fernando%20Ver%C3%ADssimo&pagfis=196651



Os Gaúchos

https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pesq=Lu%C3%ADs%20Fernando%20Ver%C3%ADssimo&pagfis=225908




Luís Fernando Verissimo - Minha Vida com Papai

https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pesq=Lu%C3%ADs%20Fernando%20Ver%C3%ADssimo&pagfis=227058

 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Netanyahu acaba de alcançar um recorde: é o líder cujas bombas já mataram mais jornalistas do que a Primeira e Segunda Guerras e o conflito do Vietnã




por José Esmeraldo Gonçalves

Benjamin Netanyahu já está na galeria dos mais brutais criminosos de guerra desde que as Convenções de Genebra tentaram ordenar os excessos nos campos de batalha. Em 1929, chocados com as atrocidades cometidas na Primeira Guerra Mundial, os líderes ocidentais assinaram compromissos e normas para a defesa de prisioneiros de guerras, feridos, doentes e civis. Aos primeiros documentos seguiram-se vários acordos adicionais para proteger não combatentes, náufragos e proibir o uso de gases venenosos. Ao longo de décadas, a evolução tecnológica das máquinas de guerra foi objeto de outros protocolos. 

A guerra em Gaza praticamente rasga essas posturas. 

A reação aos atentados realizados pelo grupo terrorista Hamas foi legítima na origem, mas ultrapassa todos os limites e provoca reação mundial. A guerra também é alvo de protestos de muitos israelenses e condenada por judeus em vários países. O poderoso governo de extrema direita que comanda Israel ignora essas reações. Uma consequência dos ataques à população civil de Gaza (estima-se em mais de 60 mil o número de mortos) são os lamentáveis episódios de antisemitismo que ocorrem principalmente nas cidades da Europa. 

Netanyahu e seus comparsas viram na ação terrrorista do Hamas uma oportunidade para varrer a Palestina no mapa. Um símbolo cruel da estratégia rumo a esse objetivo são as cenas que mostram soldados israelenses metralhando multidões famintas que disputam os alimentos que eventualmente chegam a Gaza.  Essas imagens atravessam o cinturão militar e chegam ao mundo graças a repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas que registram a barbárie. Esses profissionais são alvo da ira de Netanyahu que se incomoda com a divulgação das atrocidades. Os números em escalada mostram que 194 jornalistas foram mortos em Gaza desde 2023 (o Sindicato de Jornalistas Palestinos estima em 246 os profissionais da mídia assassinados em menos de dois anos e  a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) estima que  mais de 200 profissionais de imprensa que foram mortos desde o início da guerra entre Israel e o Hamas). São cifras que ultrapassam os da Primeira e Segunda Guerras somados (69 vítimas) mais os jornalistas mortos na guerra do Vietnã (71). Na guerra da Ucrânia, até agora, 19 profissionais foram assassinados.

O último ataque de Israel ao hospital onde estavam os jornalistas emula uma terrível tática aplicada durante a Segunda Guerra Mundial e replicada nas décadas seguintes por grupos terroristas. Trata-se do ataque da "segunda bomba". A primeira devasta o alvo, deixa mortos e feridos; a segunda visa arrasar os sobreviventes e, principalmente, as brigadas e voluntários que socorrem os feridos. Foi essa segunda bomba que ampliou o rio de sangue no hospital bombardeado. Os ataques teria sido efetuados por drones cujas câmeras visualizam e confirmam detalhes do alvo, o que reduz a hipótese de erro 

Netanyahu sempre justifica as mortes com o argumento de que terroristas do Hamas estão infiltrados entre os correspondentes de guerra da AFP, Reuters, Al Jazeera, New York Times. O ataque ao hospital visava, segundo ele, um repórter que supostamente foi ligado ao Hamas. Provas? Netanyahu nunca precisa de provas para lançar bombas onde quer que seja sobre não combatentes, incluindo crianças.                        

sábado, 2 de agosto de 2025

Ano 2000 - Há 25 anos: o bug da Bloch e o último réveillon da Manchete

2000 - O último Réveillon da Manchete


Primeiro de Agosto de 2000: Justiça lacra a Bloch - A edição pronta que nunca foi para as bancas


por José Esmeraldo Gonçalves
Semanas antes da virada para o ano 2000 a mídia estava obcecada pelo bug do milênio. Especialistas lançavam no ar um certo pânico. Havia quem guardasse comida, remédios e dinheiro. Os mais crédulos, especialmente uma cantora da MPB, acreditava em abdução de pessoas. Neopentecostais arrumavam as malas e juntavam dízimos para viajar de primeira classe rumo ao resort celestial. 

Em Copacabana, trabalhando no réveillon para a Caras, apenas concluí: se o bug seria mesmo tão terrível, não havia o que fazer. Nada aconteceu. À meia noite verifiquei o celular e relógio estava lá, certinho. O novo milênio apareceu, o bug, não. 

No Forte de Copacabana, encontrei a repórter da Manchete Aiula Eisfeld. Cobríamos o Réveilon de FHC. Seria o Baile da Ilha Fiscal se o bug tivesse derrubado a festança da elite. Como o apocalipse digital não veio, foi apenas uma noite brega. Não sabíamos, mas o que estava a caminho era o Dia B do Bug inevitável da Bloch Editores. Não sabíamos, mas aquela "festa pobre", como cantava Cazuza, seria a última registrada pela Manchete. Sete meses depois, no dia 1 de agosto, a empresa iria à falência. Manchete encerrava um ciclo de 42 anos de circulação regular (ainda seriam publicadas, nos anos seguintes, edições produzidas por uma cooperativa de ex-funcionários e revistas especiais de carnaval). Manchete saía de fininho e começava uma dramática etapa de vida para milhares de colegas. Eu havia deixado a Bloch em fevereiro de 1996 após 17 anos de trabalho em duas etapas; 11 anos na Fatos& Fotos e seis anos na Manchete

Acompanhei à distância a luta dos ex-funcionários então levados a credores da Massa Falida da Bloch Editores. Ontem, a batalha para reaver direitos, liderada por José Carlos Jesus na Comissão de Ex-Empregados da Bloch Editores, completou 25 anos. A maioria - entre os mais de 2 mil trabalhadores que foram habilitados inicialmente, recebeu o que os advogados chamam de "indenização principal".  A MFBloch ainda lhes deve parcelas de correção monetária (foram pagas apenas três cotas, apesar de parte dos credores trabalhistas terem feitos acordos com o objetivo de obter quitação total mais rápida). Um grupo de habilitados posteriormente ainda aguarda a indenização principal, segundo ex-funcionários. 

O último dia da Bloch foi tão dramático, de certa forma tão cruel, quanto a longa  espera por justiça. Os funcionários foram obrigados a deixar às pressas o conjunto de prédios da Rua do Russell, com poucos minutos para recolher objetos pessoais. Assim expulsos, deixaram para trás o hall de editora lacrada e caíram em tempos de incertezas. 



Cinco anos após a falência da Bloch, ex-funcionários começamos a escrever o livro Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou (Desiderata), esgotado mas ainda disponível em sebos na internet. O objetivo alcançado era deixar registradas a vida e as vidas naquela aldeia plantada na Rua do Russell. Abaixo reproduzo um dos textos que escrevi para a coletânea,  o de apresentação, e uma crônica de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo sobre o dia para não esquecer. 



Texto de apresentação do livro Aconteceu na Manchete,
as histórias que ninguém contou.

A crônica de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo e reproduzida neste blog. 
Clique nas imagens para ampliá-las.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Regime Trump ameaça a liberdade de expressão. Por temer reação do presidente, galeria do Smithsonian Institute agiu para impedir exibição de obra de arte


Transforming Liberty: pintura vetada
para não irritar Trump. Reprodução Instagram 


A polêmica chegou ao New York Times

por José Esmeraldo Gonçalves 
A pintora Amy Sherald retirou sua exposição do Smithsonian Institute. O problema foi a atitude inusitada da galeria da instituição que, temendo a reação de Donald Trump, levou à artista uma "sugestão" para repensar a exibição do quadro Transforming Liberty, representação da Estátua da Liberdade em versão transgênero. 

Este é um dos múltiplos efeitos perniciosos do Regime Trump no país. Em maio, segundo o New York Times, o presidente já  havia ameaçado demitir a então diretora do Smithsonian por enxergar nela uma apoiadora da diversidade e da inclusão. Ela pediu demissão antes da canetada do oligarca.  
 
Vale lembrar que essa prática censória era comum na Alemanha nazista. Tanto que os curadores de Hitler não apenas retiravam certas  obras dos museus como organizaram um grande exposição só de "arte suja" para ensinar ao povo o tipo de expressão artística a condenar. 

A mostra American Sublime, de Amy Sherald, ainda está em cartaz no  museu privado Whitney, em Nova York, pelo menos até o dia 10 de agosto, incluindo a obra que assustou o Smithsonian. Quem quiser ver corra que Trump vem aí.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Em 1970 Manchete publicou um dicionário de gírias da República de Ipanema. Embarque nesse expresso do tempo e da linguagem



Gírias entregam idades, certo? Mas algumas vencem o tempo e impregnam as falas de várias gerações. Em 1970 Manchete publicou o Pequeno Dicionário Ipanemense da Língua Brasileira. Muitas entre as expressões então reunidas pelo repórter Creston Portilho ainda são adotadas pelas gerações atuais, assim como a turma da bossa nova, do cinema novo, do pier de Ipanema também assimilou locuções de décadas anteriores. O bairro era uma antena repetidora que transmitia comportamentos e falas. (José Esmeraldo Gonçalves)

Eram outras paradas e outras eras.

Hoje, muitas gírias absorvidas nas praias e baladas surgem do linguajar do tráfico. Isso mesmo. Fazer o que? Algo como “tô na pista”, “papo reto”, “brotar”, “tá ligado” (esta importada de São Paulo)...

Mas vamos ao dicionário. Claro que usar hoje certas expressões datadas pode levar um jovem interlocutor a buscar significados no Google ou levar a questão para os avós.

De qualquer forma, faça essa viagem, entre nesse expresso da linguagem.     


Amarelo Vestibular – Cor de quem se preparava para o vestibular e não ia à praia.

Babado -geralmente uma fofoca

Babilaque – também se usava a forma abreviada – babê – significava estar com os documentos.

Bacana – rico

Becado – roupa – estar com becado legal – terno.

Beijar Cristina – fumar maconha.

Bicão – penetra, aquele que aparecia no embalo sem ser convidado.

Bicicleta – óculos, luneta.

Bizu – informação importante, botar alguém a par do que se passava.

Bode – ressaca, estar com sono, variação bodear (dormir)

Bolacha – cartão que acompanha o chope.

Bolha – bobo, chato.

Branco escritório – cor de quem trabalha muito, vai de casa para o escritório e vice-versa, não vê sol.

Branquinha – mulher

Cabrita - mulher- tem cabrita nova no pedaço, mulher diferente na festinha.

Cacau – dinheiro

Cafona – dizia-se de indivíduo de extremo mau-gosto no vestir, no agir e no falar.

Camaradinha – amigo, chapa

Candonga – intriga, fofoca.

Capim – dinheiro, grana

Careta – sóbrio, que não bebeu ou usou droga, moralista.

Cascata – mentira, conversa fantasiosa.

Chinfra – sujeito que tira onda de rico, de bacana.

Chocar – namorar.

Chofer de fogão, cozinheira.cozinheiro.

Chongas – nada, coisa alguma, bulhufas.

Chué – esquisito, diz-se de quem está doente.

Cobra – o bom, indivíduo competente em alguma coisa.

Coisa – maconha ou outro “aditivo”. Você tem coisa aí? 

Corujão – sujeito que observa tudo, em princípio, todo corujão é um chato.

Criar – namorar meninas muito jovens.

Crocodilo – aquele que age de má fé, não tem caráter, falso, também funcionava como sinônimo de dedo-duro. 

Curiboca -otário, bolha, panaca.

Dar um lance – tomar um atitude, dar um lance na menina, dar uma cantada.

Dar uma de – agir como, dar uma de herói.

Deixar o maçarico cair – bronzear-se, expor-se ao sol forte.

Desligado -individuo que não repara em nada que acontece em volta,  aquele que está sob efeito de bebida.

Devagar – antônimo de quente, muito usada na expressão, devagar quase parando.

Dica – mesmo que bizu. Dica, ainda hoje em uso, surgiu no Pasquim. Era o tílulo resumido da seção Indica, que sugeria filmes, espetáculos, livros etc

Doidão – sob efeito de maconha ou outro tóxico, amalucado, viajando.

Durango Kid – sem dinheiro, duro, durango.

Embalo – festinha com muita bebida, drogas e cabritas.

Encaracolado – de difícil entendimento, indivíduo que não explica as coisas com clareza.

Escovão – bigode grande.

Esmeril – indivíduo que bota pra quebrar ao volante.

Esquer- quadrado, retrógrado, que não pensa de acordo com o grupo, a conversa está chata, esquer.

Estar a fim -  topar, estar disposto a fazer alguma coisa.

Estar a perigo – estar sem dinheiro, duro, está na pior.

Estar na de alguém – concordar com alguém, agir como determinada pessoa, estar sob efeito de droga, estar gostando de alguém.

Faturar – ter sucesso, usava-se especialmente no sentido de ser bem-sucedido com mulheres.

Ficar de Bobeira – Não fazer nada

Figura – Sujeito que chama atenção. Diferente. Estranho. Variação: figuraça.

Fossa – Estado de depressão que tanto podia ser uma angústia existencial quanto uma dor-de-corno ou de cotovelo.

Fundir  a cuca – Ir à lourura. Pirar. Ficar desnorteado com alguma explicação ou situação da qual não entendeu coisa alguma.

Furão -Indivíduo que promete mas não cumpre. Que marca encontro e não comparece. Diz-se do indivíduo que não paga ingresso em teatro e show.

Galinha -  Para todos os gêneros: pessoa muito volúvel nas relações amorosas.

Invocado – Mal humorado, aborrecido, estourado, nervoso, agressivo.

Índio – Sujeito que vem de fora, de outra cidade.

Jogar confete – Bajular, paparicar.

Lei do cão – Barra pesada, regras rigorosas ou autoritárias, código de comportamento punitivo.

Lenha – Dificuldade (ex. o vestibular foi uma lenha).

Lhufas – Forma reduzida de bulhufas, nada, nenhuma.

Ligado – Aquele que está sob efeito de drogas, baratinado (de curtindo um barato). Variação: esperto, atento, concentrado.

Limpeza – Boa praça, barra limpa, legal (fulano é limpeza).

Lixo – Muito usado para classificar filmes, livros, shows, má qualidade da droga.

Luneta – óculos.

Macaca – Mulher que pula de um namorado para outro como muda de roupas, namoradeira.

 Malandro Agulha – Sujeito que mesmo se alguém ridicularizá-lo não perde a linha. Essa parece inspirada nos malandros antigos que usavam calça de boca estreita.

Mina – Mulher, garota

Moleza – Coisa da qual se tira proveito com facilidade, vida mansa.

Morar na jogada – Compreender, entender, sacar.

Morgar – dormir na mesa do bar sob efeito de bebedeira ou droga,, sem ânimo, sem energia.

Mulha – Mulher, mina.

Muquirana – Chato, boboca, diz-se também de sujeito ruim ao volante.

Ouriçar – Agitar, tumultuar.

Panaca – Bolha, otário.

Pano – Roupa, beca, roupa bonita.

Papo furado – cascata, mentira, situação inverossímil.

Paradão – Vidrado, diz-se de quem bebeu pouco e fica deprimido.

Paquerar – Ficar de olho, equivalente hoje a azarar.

Patota – Turma, grupo de amigos unidos, patota do bar, patota da praia etc.

Pedra Noventa – Sujeito importante ou peça rara, figura diferente, metido a original. Indivíduo legal, bom caráter, boa praça. Dizia-se também do sujeito perigoso, que carregava duas pistolas 45.

Pegar nas Coisas - fumar maconha.

Pelo – Cabelo, cabelão.

 Pila – malandro

Pintar – aparecer, chegar, a mina pintou na esquina.

Pirado – Maluco, psicopata, psíco

Pirulitar – ir embora.

Piso – sapato, sandália, calçado, chinelo, pisante.

 Pla -Conversa, papo com a namorada, cantada.

Ponto – olhar de quem está te dando bola.

Pra Frente – Avançado, que se veste de acordo com o último figurino.

Preju – Forma abreviada de prejuízo…

Proleta- Proletário, pobre

Quebrar a cara – sair-se mal em qualquer tipo de tentyativa.

Sacar -   ver, perceber –

Trambique – Negócio geralmente ilícito, golpe, levar um trambique,

Trolha – rabo-de foguete, tomar uma trolha (tomar um preju)

Vivaldino – Malandro