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sábado, 1 de março de 2025

Marcio Ehrlich (1951-2025) - o historiador da publicidade brasileira

Marcio Ehrlich

A coluna Janela Publicitária na...


Revista Tupi, 2020

por José Esmeraldo Gonçalves 

Em 2020, em pleno isolamento social imposto pela Covid, editei um projeto interessante idealizado por David Ghivelder: uma revista para a Tupi 96.5 FM. Toda a produção, com exceção obviamente da gráfica, foi em home office. A equipe era formada por revisteiros da Manchete como Dirley Fernandes, Sidney Ferreira, Alex Ferro, David Júnior, Tânia Athayde, Roberto Muggiati, além da repórter Dani Maia, ex-Abril. Marcio Ehrlich foi o responsável pela coluna Janela Publicitária, o mesmo título do seu site e podcast. Tínhamos então, nas páginas da publicação da "rádio que vai para as bancas", o maior especialista no assunto. 

Desde os anos 1970, Marcio Ehrlich era atualidade e memória da publicidade brasileira. Foi diretor a Associação Brasileira de Publicidade (ABP). Era referência no setor. Entendia que a publicidade não apenas vendia produtos mas se connectava com a vida das pessaos. 

Sua última coluna foi sobre o Natal. Ele sentia falta das mensagens natalinas produzidas pelas agências especialmente para a época. "Todo anunciante sonhava que sua agência de publicidade trouxesse um jingle que tocado na rádio ou na TV fizesso o público sair cantarolando depois, como se fosse um hit popular", lembrou.  Ehrlich citou o antológico comercial da Varig. "Estrela brasileira no céu azul , iluminando de norte a sul, mensagem de amor e paz, nasceu Jesus, chegou Natal. Papai Noel voando a jato pelo céu trazendo um Natal de felicidade..." 

No último parágrafo da coluna ele lamentou: É uma pena. Neste momento em que muitos shoppings estão tendo que botar seus Papais Noéis atrás de uma vitrine ou de uma tela de celular, por conta do isolamento social, bem que eu gostaria de estar cantando uma nova musiquinha fofa de Natal. você não?"  

O que poucos sabiam: Ehrlich, além de jornalista e psiquiatra por formação, foi ator, trabalhou em várias novelas. Uma delas, "Pantanal", da extinta Rede Manchete. 

Marcio Ehrlich faleceu no dia 24/2/2025, aos 74 anos, vítima de choque séptico e falência de múltiplos órgãos. Era casado com a jornalista Renata Suter, deixou dois filhos e um neto. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Carnaval Carioca - Bloco Imprensa que Eu Gamo faz seu último desfile

O Imprensa na volta de despedida.
Foto de Jussara Razzé. 


"Valeu, Rio". Foto de Jussara Razzé 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Alegria, como sempre, mas em clima de despedida. Há 30 anos, um grupo de jornalistas criou o bloco Imprensa que Eu Gamo. As mesas dos bares instalados no Mercadinho São José, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, foram testemunhas. Para os fundadores, chegou a hora de parar. Depois de três décadas, o Imprensa Que Eu Gamo fez seu último desfile no circuito Laranjeiras-Largo do Machado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, no sábado,15. Rita Fernandes, presidente do Imprensa e da Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro (Sebastiana), relatou ao G1 alguns motivos para o adeus do Imprensa. Segundo ela, "alto custo do carnaval, excesso de burocracia, falta de pessoas na organização, mudança de público". 

O Imprensa, que nunca foi corporativo e nem exigiu crachá, (sempre recebeu todos os públicos) fechou sua trajetória que, ao longo de três décadas, reuniu várias gerações de jornalistas. Alguns coleguinhas só se encontravam uma vez por ano durante o desfile. Uma jornalista brincou: "estamos fazendo prova de vida".


O ritmista Nilton Retchman, ex-Manchete e ex-Furiosa, a bateria do Salgueiro. Foto Arquivo Pessoal 

Na bateria do Imprensa, um integrante lembrava na camiseta uma publicação identificada com o carnaval carioca.  Era o ex-funcionário da Bloch Nilton Retchman, ritmista que fez parte da lendária Furiosa do Salgueiro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A revista que se recusa a desaparecer - Manchete volta às bancas


2008 - A capa da última edição da Manchete. Foto de Dani Barcelos


por José Esmeraldo Gonçalves 

 O jornalista Roberto Muggiati, o editor que por mais tempo esteve à frente da Manchete, costuma dizer que a revista parece ter um pacto de ressurreição com o príncipe romeno Vlad III, aquele que atendia pela alcunha de Conde Drácula. A Manchete saiu das bancas quando atingida no peito por uma estaca representada pela falência da Bloch Editores (em agosto de 2000), mas se recusou a deixar o imaginário de muitos leitores. 

Seu conteúdo gerou dezenas de livros e teses universitárias. Seu arquivo de fotos construído por gerações de fotojornalistas permanece desaparecido, mas o sumiço não impede que imagens marcantes sejam reproduzidas em jornais, revistas e até em documentários sobre fatos e personagens presentes nas coberturas da revista. 

Digitalizada pela Biblioteca Nacional a coleção da Manchete de abril de 1952 ao ano 2000 venceu o tempo e pode ser consultada por pesquisadores, jornalistas, antigos leitores, historiadores, estudantes etc.

Aquela estaca da falência em 2000 não conseguiu encerrar a trajetória da Manchete. Em periodicidade semanal, a revista voltou às bancas em 2001 editada por Roberto Barreira e Lincoln Martins à frente de uma cooperativa de jornalistas formada por ex-funcionários da Bloch. O expediente citava então que a publicação era autorizada pela Massa Falida da Bloch Editores e supervisionada por um Conselho Curador formado por Murilo Mello Filho, Roberto Barreira, Lincoln Martins, José Rodolpho Câmara, Roberto Antunes, Marcos Salles e Elço Ferreira. Em fevereiro de 2001, a tradicional Manchete de carnaval chegava às bancas de todo o Brasil. Especialistas com DNA do sambódromo, como Wilson Pastor, David Junior, Jussara Razzé, Alex Ferro, Armando Borges, João Mário, Alexandre Loureiro, Orlando Abrunhosa, Alberto Carvalho, José Carlos Jesus, Maurício Chicrala, Maria Alice Mariano, J. A. Barros, Orestes Locatel, Regina D'Almeida,  Marcelo Horn, Pedro Borgeth, Eliane Peixoto, Enilson Costa, Renato Sérgio e Vicente Datolli,  entre tantos outros colaboradores, abriram alas para épicas, novamente, edições de carnaval.  

Os jornalistas que bancaram aquela volta resistiram o quanto puderam, até que mais uma estaca, dessa vez financeira, retirou a revista da bancas. 

Tempos depois o editor e empresário Marcos Dvoskin arrematava em leilão alguns títulos da Bloch, incluindo Manchete. A partir de 2004 a Editora Manchete, de Dvoskin, lançou edições de Carnaval até 2008. Após isso, a publicação  - a última capa está reproduzida no alto - saiu das bancas mais uma vez.

Agora a Manchete ressuscita. Sites especializados noticiam que o jornalista Marcos Salles - que, a propósito, como citado acima, fez parte do Conselho Curador das edições pós-falência -, acaba de adquirir de Marcos Dvoskin o título Manchete. Salles, que foi diretor de O Dia e até recentemente esteve à frente do Correio da Manhã, relançará a revista no dia 17 de março, em apresentação festiva no Teatro Adolpho Bloch, no edifício que sediou as redações da Bloch Editores, na Rua do Russell, Rio de Janeiro. 

Manchete volta em edição mensal, impressa. Além disso, os vídeos das entrevistas poderão ser acessados por QR Code nas páginas da revista que levam ao portal R7, do Grupo Record e serão exibidos na TV Max, na NET. 

Segundo as informações divulgadas, a primeira edição trará uma grande reportagem sobre o Carnaval. Uma referência simbólica a um tipo de pauta, entre tantas outras especiais, que marcaram a trajetória da Manchete.   

Panis cum Ovum surgiu há quase 16 anos como expansão on line do livro "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou", coletânea que reuniu textos de jornalistas e fotógrafos que trabalharam na Bloch. Temos a revista na veia e, agora, exclusivamente na memória. 

O mercado mudou, mas muitas publicações impressas encontraram seus espaços no novo mercado. O blog deseja sucesso à iniciativa. Força, equipe. Que Manchete aconteça mais uma vez.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

JK foi assassinado? Um caso que ainda está aqui...

Fatos & Fotos, agosto de 1976.

por José Esmeraldo Gonçalves 

A Comissão Especial sobre Mortos e Desparecidos Políticos do Ministério dos Direitos Humanos avalia a possibilidade de reabrir uma investigação sobre a morte de Juscelino Kubitscheck ocorrida em 22 de agosto de 1976. 

Em 2021, o Ministério Público Federal havia descartado a hipótese de uma colisão entre um ônibus e o carro que conduzia JK e o seu motorista Geraldo Ribeiro como causa do acidente na Via Dutra, que vitimou os dois ocupantes. A colisão de fato aconteceu, mas o MPF registrou em inquérito que foi "impossível afirmar ou descartar" a hipótese de um atentado político a partir de uma sabotagem no Opala que tenha levado ao descontrole e capotagem do carro.  Essa suposição é conhecida, foi amplamente explorada por jornais, revistas e até no livro "O Beijo da Morte", de Carlos Heitor Cony e Anna Lee. Juscelino Kubitscheck, como João Goulart, então exilado no Uruguai, e Carlos Lacerda (este apesar de ser um dos mentores civis do golpe e da ditadura de 1964 não era mais figura de confiança dos "gorilas" desde que tentou organizar uma frente política contra o governo militar) eram alvos do regime. Jango morreu em dezembro de 1976 e Lacerda em maio de 1977.   

O que este blog acrescentou ao chamado mistério da morte de JK foram relatos exclusivos de acontecimentos igualmente suspeitos ou, no mínimo, estranhos, que agitaram os bastidores do velório de JK e Geraldo Ribeiro no hall do prédio da Bloch na Rua do Russell, Glória, Rio de Janeiro. 

Se o leitor tiver interesse em conferir uma ponta erguida do tapete que abafou alguns sinais inusitados do caso, pode conferir no link abaixo uma matéria de Carlos Heitor Cony e José Esmeraldo Gonçalves sobre o fato histórico em aberto. 

https://paniscumovum.blogspot.com/2016/08/memorias-da-redacao-ha-40-anos-morria.html

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Pela primeira vez a Lua é incluída pela WMF em lista de patrimônios mundiais em risco

Neil Armstrong já morreu, mas ele e outros astronautas
deixaram 96 sacos resíduos orgânicos na Lua. Foto NASA 

por José Esmeraldo Gonçalves 

A Lua acaba de ser incluída na lista de patrimônios mundiais ameaçados. A organização WMF (Fundo Mundial de Monumentos justifica a medida ao constatar que o satélite natural da Terra - tanto o meio ambiente local quanto os sítios históricos - está em risco. A pegada de Neil Armstrong, por exemplo, é uma dessas marcas memoriais de valor cultural. A sucata que sobrou dos módulos lunares, além de veículos dos astronautas (os pequenos "jipes"), robôs e sondas está espalhada na superfície lunar. Tudo junto soma mais de 180 toneladas, segundo a NASA admite. É lixo espacial, sim, mas tem significado histórico. A WMF teme que a retomada das missões tripuladas anunciadas por empresas privadas norte-americanas e países como China e Índia comprometa o acervo da exploração lunar. Estima-se que equipamentos e objetos largados na superfície lunar alcancem cifras de milhões de dólares. Empresários como Elon Musk demonstram interesse nesse "tesouro". E não se pode ignorar a perspectiva de que, em alguns anos, o turismo espacial se consolide. Turistas costumam arrecadar lembrancinhas por onde passam. Devem ser alertados que em meio a colecionáveis há na Lua um item inusitado da época das missões tripuladas: a Apollo deixou lá 96 sacos com conteúdo orgânico. Isso mesmo, ao lado da famosa placa fixada pelos astronautas ("Por toda a humanidade, nós viemos em paz"), os terráqueos presentearam possíveis visitantes extraterrestres com cocô e urina. 

A iniciativa da WMF tem um objetivo em paralelo à questão ambiental. O predator Elon Musk, que já enviou ao espaço um carro Tesla, pode ter planos inacreditáveis. Por exemplo, levar à Lua um estátua de Hitler, do qual é um admirador, construir um condomínio para trilionários no Mar da Tranquilidade ou, quem sabe, implantar uma usina nuclear para iluminar a face oculta da Lua. Não duvide, Musk já sequestrou até as estrelas. Experimente olhar para cima em uma noite clara, sem nuvens. Um belo céu estrelado? Não exatamente. Aquelas fileiras de luzes que parecem "constelações" ainda não nomeadas por astrônomos são os milhares de satélites estacionários da Starlink em uma altitude de até 500 km. Além de poluir o visual estelar, a "constelação" de Musk tem outro problema. Periodicamente, os técnicos do magnata têm que derrubar satélites queimados, quase sempre danificados pela radiação solar. Diz a Starlink que essas quedas são "controladas". Mas se até os foguetes da empresa explodem no ar... vai saber.  

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O ogro leva tudo

 


por José Esmeraldo Gonçalves 

O filme Shrek tentou resgatar a imagem do Ogro. Tornou simpático o gigante cruel nascido no milenar folclore europeu. Na origem, o ogro não tem nada de bonzinho e se alimenta de carne humana. 

A capa da New Yorker sugere sem qualquer sutileza que os Estados Unidos e, por tabela imperialista, o mundo serão conduzidos por um ogro. Ao perfil de um Donald Trump em tons mais claros sobrepõe-se o monstro ameaçador. 

Trump 2 chega ao seu novo mandato com poderes que farão o Trump 1 parecer um looser, um perdedor que não conseguiu derrotar o fraco Joe Biden. O Trump 2 tem o Congresso e a Suprema Corte aos seus pés. E apesar da histórica autonomia administrativa, legal e política dos estados na maioria das questões vai se impor a bordo de um argumento poderoso: os governadores republicanos eleitos se beneficiaram da maré eleitoral trumpista. 

Os primeiros pronunciamentos do presidente eleito demostram que o vencedor leva tudo como cantava o Abbas no seu sucesso mundial de 1980. 

Trump sabe que não terá contrapesos nesse segundo mandato. The winner takes it all. The loser has to fall. 

Confiram a letra completa no Google e vejam se não é a própria "melô do Trump".  

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Evandro Teixeira, 1936-2024, (*) - O mágico das imagens históricas

por José Esmeraldo Gonçalves

Durante 48 anos Manchete reuniu os mais prestigiados fotojornalistas brasileiros, de várias gerações. Semanalmente, como em uma grande exposição, as bancas - e eram milhares em todo o Brasil - penduravam exemplares abertos em páginas duplas com a foto mais marcante assinada por craques da fotografia. Como um curador, o jornaleiro sabia escolher a imagem da Manchete que mais atraíam atenção. Mas faltou um mestre naquele imensa mostra que transformava a Avenida Paulista, a Rio Branco e tantas outras ruas e praças no Brasil em uma galeria aberta e vibrante.

Evandro Teixeira nunca trabalhou na Manchete.

As coleções mostram apenas uma matéria assinada por ele adquirida da Agência JB. Outras raras imagens, especialmente de 1968, são creditadas à agência.

Editores de revistas ilustradas costumam se apaixonar por fotografias. De certa forma, aprendem a vê-las, mesmo que não ousem fazê-las. 

Muitas vezes, a primeira página do JB provocava nas redações da Manchete Fatos & Fotos alguma frustração que logo se transformava em irresistível admiração.

Evandro não esteve na galeria a céu aberto de Manchete e Fatos & Fotos nas bancas do país? Pena. As duas revistas saíram perdendo. Suas fotos inesquecíveis - Passeata dos 100 Mil, Tomada do Forte de Copacabana, Repressão da Cavalaria das PM na Candelária, Golpe Militar no Chile, Morte de Pablo Neruda e muitas outras publicadas no Jornal do Brasil - estão na memória do fotojornalismo brasileiro e mundial. 

Além disso, ganhou de Carlos Drummond de Andrade um poema que define o próprio fotojornalismo sob a lente mágica de Evandro. Quem mais?

Diante das Fotos de Evandro Teixeira 
(Carlos Drummond de Andrade)

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

Fotografia – é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência, cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas da enchente e do despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.

 

* Evandro Teixeira faleceu ao 88 anos, no dia 4 de novembro, vítima de pneumonia, no Rio de Janeiro. O fotojornalista cumpriu com brilhantismo uma extraordinária carreira profissional de 70 anos, 47 dos quais integrando a fabulosa equipe do Jornal do Brasil, onde fez história..  

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Antonio Ribeiro (1961-2024) - O fotógrafo que fez celebridades da Globo esperarem horas para posar com um galo e transformou Cony no "Diógenes do Castelo de Caras"


Rosamaria Murtinho, Mauro Mendonça, o chef Wagner Moret e Le Coq.
 Reprodução de página dupla da Revista Caras do ano 2000. Foto de Antonio Ribeiro


O casal de atores no Castelo de Caras. Reprodução da Caras.
Foto Antonio Ribeiro


O chef dormindo: detalhe bem-humorado. Reprodução de Caras.
Foto Antonio Ribeiro

por José Esmeraldo Gonçalves

Um diagramador da Manchete, o saudoso J.A.Barros gostava de ler sobre a mitologia grega e romana. Quando recebia a notícia da morte de um colega, geralmente recorria a um dos personagens da antiguidade e passava o recado para redação. "Gente, acabo de saber que a barca de Caronte levou fulano".

- A barca de Niterói? - perguntou, certa vez, um distraído.

Caronte, a divindade que conduzia as almas dos mortos, veio buscar o próprio Barros, no ano passado. Por isso, não ele pôde passar para a comunidade dos ex-Manchete a notícia da partida do fotojornalista Antonio Ribeiro, aos 63 anos, no dia 13 de outubro. 

Só agora registro aqui algumas rápidas lembranças do Ribeiro. Eu o conheci na redação do Russell nos anos 1980. Foi um grande fotógrafo, era perfeccionista, não se contentava apenas com o que a câmera enquadrava, invariavelmente buscava destacar um detalhe original que, no fim, fazia toda a diferença. Na Manchete e na Fatos & Fotos, não tive a oportunidade de trabalhar diretamente com o Ribeiro,  mas admirava suas fotos na mesa de luz das revistas.

Só em 2000, quando eu já estava na Revista Caras fiz uma matéria com Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, fotografados por ele, no Castelo de Caras. O tema era gastronomia e Ribeiro teve a ideia de inserir em quase todas as fotos, uma imagem incidental do chef Wagner Moret, o brasileiro responsável pela cozinha do castelo, em Brissac, no Vale do Loire. Funcionou como um toque de humor fino, mas uma das fotos, a que mostrava o casal à mesa levou horas para se realizar. Ribeiro insistia em colocar na imagem um galo como referência a Le Coq, uma das mais famosas representações da identidade francesa. O problema foi que o gallus  (dos gauleses) era altivo, pescoço levantado, pose de guerreiro. Já o galo do castelo parecia meio blasée e se recusava a empinar a postura. Para complicar, o galo não se sentia à vontade com a presença do chef deitado ao seu lado. Enquanto isso, pacientemente, Rosamaria e Mauro ficaram à disposição do Coq durante uma tarde inteira. O casal voltaria para o Brasil no dia seguinte e eu ainda não havia feito a entrevista, o que só aconteceu, quase às pressas, no dia seguinte.  Enfim, deu-se um jeito. 

Em outra temporada no Castelo de Caras, Carlos Heitor Cony era um dos ilustres convidados. Em princípio relutou - de fato badalar não era bem seu estilo - mas acabou aceitando, talvez porque tanto Sergio Zalis, diretor, quanto eu, editor da redação da Caras, no Rio, havíamos trabalhado com ele. Antonio Ribeiro foi escalado para fotografar Cony no castelo. Fotos maravilhosas. Infelizmente, quando a matéria estava editada, Cony ligou para mim e pediu que a revista evitasse publicar uma das fotos boladas pelo Ribeiro. Era a melhor imagem da série. Ribeiro havia convencido Cony a posar nos jardins do castelo, com o sol quase posto, luminosidade baixa, segurando uma antiga lanterna de bronze, a óleo, mas nós não conseguimos que ele aprovasse a foto.   

Você já deve ter detectado a intenção do Ribeiro. Isso mesmo, Cony fazia a figuração do filósofo grego Diógenes, aquele que caminhava pelas ruas de Atenas, noitinha, erguendo uma laterna à procura de um "homem honesto".

Por algum motivo Cony não gostou da comparação. Avisei aos escalões superiores da Caras. A foto foi retirada da página. Ribeiro não gostou, mas Diógenes (413 aC -323 aC) e Cony não foram alcançados pela reclamação dele, eu fui o alvo. De resto, meus argumentos jamais o convenceram. Acontece que o Castelo de Caras era uma produção com características especiais e incomuns. A revista era a anfitriã das celebridades e por elas prestigiada naquele projeto editorial. Não se tratava de uma reportagem investigativa. E uma anfitriã não deprecia seus convidados. Não tive mais contato com o Ribeiro e jamais pude lhe dizer que a foto do Cony/Diógenes era excepcional. Não sei o arquivo da Caras ainda a guarda, mesmo não tendo sido usada. Acho que Cony era mesmo o Diógenes do jornalismo. Ribeiro captou isso.               

terça-feira, 15 de outubro de 2024

A decadência da Copa do Mundo da FIFA

por José Esmeraldo Gonçalves 

Os jogadores brasileiros estão mansos e calados. Na Europa, entidades representativas começam a se mobilizar por meio de ações judiciais contra o novo e exaustivo formato do campeonato mundial de clubes. Cogitam até boicotar a coisa. A FIFA criou esse monstro por dois motivos principais: instinto caça níquel e uma tentativa desesperada para explorar o prestígio e a força de audiência dos clubes, especialmente aqueles da elite da Champions. 

Entenda-se: a Copa do Mundo está entrando em espiral de decadência. O aumento de vagas para seleções habilitadas à fase final resultou em baixo nível técnico da maioria dos jogos. Para a Copa do Mundo de 2026, quando as seleções vão perambular por México, Estados Unidos e Canadá, a previsão é que o número de peladas seja insuportável. Quem não quiser sofrer de tédio deve ligar o receptor, seja televisor, tablet, smartphone ou o que mais inventarem só a partir das quartas de final. 

A pedra na chuteira da FIFA é a Champions, da UEFA, atualmente o mais importante torneio de futebol do planeta. Daí a decisão de engordar o mundial de clubes. Os jogadores europeus protestam contra a novidade que ocupará datas durante férias. A UEFA, por sua vez, deu um troco na FIFA criando mais um torneio de seleções que ocupa as chamadas datas FIFA, a Liga das Nações, além das Eliminatórias. Sem falar na Copa da UEFA, sucesso futebolístico do continente. Tudo isso e mais os campeonatos regionais importam em sobrecarga para os atletas. Claro que são altamente remunerados, mas tudo tem um limite. Essa é a razão da mobilização atual dos craques europeus.

A FIFA ainda tem muito poder, mas a crise está à vista.

Façamos um pequeno exercício. Segue abaixo um ranking dos cinco campeonatos mais relevantes do futebol da atualidade no quesito nível técnico.

1- Champions (UEFA)

2- Premier League (Inglaterra)

3 - La Ligue (Espanha)

4 - Copa da UEFA (seleções)

5 -Brasileirão (CBF).

Na minha opinião, os campeonatos francês e italiano não entram na lista. Estados Unidos e Arábia Saudita são, para dizer o mínimo, exóticos. A Libertadores (Comenbol) bem que poderia entrar em um sexto lugar. Pelo critério técnico,  Copa do Mundo não entra nem entre os dez melhores. As Eliminatórias da Copa estariam fora de qualquer lista. 

Faça seu ranking.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

A Guerra Fria, quem diria, deixou saudades. A bomba nuclear agora está nas mãos de líderes porras-loucas

Este é o relógio simbólico do fim do mundo. Imagem reproduzida
do Bulletin of the Atomic Scientists
 

por José Esmeraldo Gonçalves

Desde que Estados Unidos e União Soviética desenvolveram e multiplicaram seus arsenais nucleares o mundo passou a viver dias de suspense. A crise dos mísseis instalados em Cuba foi um momento tenso; a guerra no Vietnã, outro. Em várias ocasiões, os ponteiros do relógio do fim do mundo, que classifica os risco de uma guerra nuclear, chegaram perto do apocalipse. Esforços diplomáticos, comunicação através dos telefones vermelhos instalados na Casa Branca e no Kremlin, além, é claro, do medo da mútua retaliação inevitável foram capazes de conter os "falcões" de ambos os lados. 

"Falcões", como se sabe, são conselheiros "porras-loucas" que querem sempre botar pra quebrar. 

O clássico de Stanley  Kubrick, "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" ("Dr. Fantástico", no Brasil) satirizou em 1964  a paranóia da guerra nuclear.  No filme, um general americano enlouquece, burla os protocolos de segurança e despacha um bombardeiro com a missão de destruir a URSS. Os líderes dos dois países se unem na tentativa de fazer voltar o avião, mas é  tarde. 

Quando a Guerra Fria acabou, o relógio chegou a marcar confortáveis 17 minutos para o Juízo Final. O alívio durou pouco e de lá pra cá o poder nuclear de certa forma se banalizou e o ponteiro avançou. No momento, Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coréia do Norte têm o poder de deflagrar  o que pode ser a última guerra no planeta. Suspeita-se que a Bielorússia disponha de ogivas cedidas pela Rússia e, agora, o Irã pode ter entrado no terrível clube. Cientistas desconfiam que abalos sísmicos no deserto da antiga Pérsia teriam características semelhantes a um teste de bomba nuclear. Por enquanto, sem confirmação. 

Desde o ano passado, os "relojoeiros" do comitê científico nuclear fixaram o ponteiro em 90 segundos fatais para a meia-noite. As guerras na Ucrânia, na Palestina, no Líbano, na Síria, as ações militares dos  dos houtis e a série de testes na Coreia no Norte ainda não mexeram com o ponteiro em 2024,  o que certamente acontecerá caso se confirme a suposta explosão iraniana. 

Aí complica. Um eventual confronto direto entre o Irã e Israel tem o poder de colocar na mesa de extrema direita de Benjamim Netanyahu e sob as túnicas imprevisíveis dos aiatolás um componente que não pesava na Guerra Fria: a religião. Um dado que tira de qualquer embate um mínimo de recionalidade. 

A Guerra Fria escapou dessa soma de fanatismo com sadismo. Só por isso, antes de disparar os mísseis,  sempre uma voz de "calma aí" ouvida no Kremlin ou na Casa Branca conseguiu evitar o pior. 

Nas atuais circunstâncias, esqueçam: no núcleo duro dos poderes citados - Netanyahu e Khamenei, sem esquecer um Kim Jong-un correndo por fora, um Putin e, a partir de janeiro, um Trump ou ou uma Kamala - não há turma do deixa disso. 

Em caso de guerra nuclear não vai ter para onde correr, mas se você quiser acompanhar o relógio simbólico acesse o Bulletin of the Atomic Scientists no link https://thebulletin.org/ , que agora também marca ameaças como as mudanças climáticas e os efeitos danosos de tecnologias disruptivas. 

Boa sorte para todos.  

sábado, 5 de outubro de 2024

Cid Moreira (*). Paz e harmonia na última morada

 

Imagem reproduzida da Revista Contigo!



Foto Tabach
por José Esmeraldo Gonçalves
 

(matéria publicada na Revista Contigo! em 2015)

A nova casa de Cid Moreira é um estado de espírito. Aos 87 anos, 70 de carreira e 14 de casamento com a jornalista Fátima Sampaio, o apresentador encontra na Serra Fluminense o ambiente perfeito para seu momento atual: viver em paz e levar a Bíblia ao maior número de pessoas.

 A iluminação à base de spots, refletores e rebatedores se destaca na sala principal da nova casa de Cid Moreira e de Fátima Sampaio, 51. Mas são precisamente detalhes como esses que traduzem a linha e a essência dos ambientes. Parecem estar ali para dizer que a casa tem dono, alma e nada de impessoal. E não por acaso. Decidido a montar o refúgio perfeito, o próprio casal cuidou da decoração. “Eu só dei alguns palpites”, corrige Cid. “Fátima é a autora de 95% de tudo o que está aqui. E não terminou. A cada dia, aparece uma coisa nova, uma planta diferente no jardim. Ela se distrai aí, bolou tudo”, brinca. A jornalista, que se divide entre a logística da casa e administração da carreira e da agenda de compromissos do apresentador, concorda, mas explica que tentou imprimir em cada canto o jeito e o gosto do marido. “Pensei nesses spots como uma referência carinhosa à trajetória dele, tão brilhante. Ao mesmo tempo, podem ser usados em gravações de vídeos para a Internet, quando ele quiser. O uso de muito vidro, principalmente na parte que dá para o lago, foi decidido também depois de um comentário dele sobre a beleza da natureza na serra. Segundo ele, ‘é um quadro vivo’, diz Fátima. De fato, a partir da sala principal, da mesa onde o casal faz as refeições e até da cozinha, a vista é panorâmica. Cid pontua: “Foi o William Bonner quem me indicou esse local, sabia? É muito tranquilo”. Mesmo conhecendo as preferências do marido – além da convivência, ela é autora da biografia do apresentador, “Boa Noite”, lançada em 2010, Fátima buscou a opinião dele sobre muitos aspectos da decoração.“A gente discutiu junto o que fazer. O piso, as imitações de madeira, o balcão da cozinha. Aproveitamos as viagens e reunimos móveis e objetos de várias regiões do Brasil. É muito legal ele confiar no meu gosto. A gente brinca de casinha enquanto Deus quiser, não é?”, diz ela, que equipou a casa com sistema de captação de água da chuva e instalará, ainda no próximo verão, quando poderá definir a posição dos painéis, um projeto de energia solar. “Temos uma horta, pegamos rúcula, couve e alface no quintal”, lembra-se de acrescentar. Um ambiente assim justifica um comentário do Cid, que admite ser difícil deixar, quando precisa, a rotina da casa. “Fátima é um presente que Deus me deu, a minha parceira que me completou. E, hoje, o que quero é só isso, viver em paz, fazer meu trabalho”. Fátima, que o acompanha em todas a viagens e tenta dosá-las para que ele não se afaste muito da tranquilidade da serra, confirma: “A gente está sempre juntinho. Às vezes, ele está trabalhando no estúdio e eu estou lendo na sala, aí ele aparece, quer saber se está tudo bem, traz um café. Gosto muito dele. Tudo passa tão depressa, a diferença de idade, ninguém sabe o prazo de validade de cada um aqui. Acho que por causa da diferença de idade, a sensação é de aproveitar todo o tempo para amar, deixar as bobagens de lado. Essa é uma sensação bem real pra mim”.

O casal se conheceu em 2000, durante um torneio de tênis que ela cobria, como jornalista, em Fortaleza. “E estamos juntos há 14 anos. Rápido, não e? O que aproximou a gente? Foi a simplicidade, apesar de ser muito conhecido, Cid é muito simples, não tem frescura. Temos a profissão em comum, Ele é um craque, eu sou uma operária comparada com ele, tive uma vida muito mais simples, trabalhei em lugares mais simples, sou básica, não tenho genialidade. E tenho admiração por ele e pelo o trabalho dele, que é muito bonito”, diz Fátima, que define o marido como um romântico à moda antiga. “Ele gosta de surpreender. Às vezes, em viagens, convida ‘vamos lá pra piscina, a gente coloca umas velas, toma um vinho. Ele tem muita disposição”, ri. Desde que deixou o Jornal Nacional, em 1996, e passou a fazer participações semanais no Fantástico (atualmente, de contrato renovado até  2017, ele vai à Globo quando é convocado para alguma tarefa especial), Cid Moreira se dedica intensamente à gravação de textos bíblicos. Nesse período, lançou Cds e Dvds e cumpriu a tarefa quase monumental de gravar toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, em uma produção que ultrapassou a simples leitura e incorporou personagens, dramaturgia e efeitos especiais. Para ele, a atividade espiritual ultrapassou a tarefa funcional. Não é apenas mais um trabalho. É profissão de fé. O apresentador não se considera ligado a igrejas específicas ou denominações religiosas, mas tem a divulgação e popularização da Bíblia como uma missão. “É um compromisso entre mim e Deus. Ele e eu. A cada dia me envolvo mais, leio diariamente, viajo, faço palestras, participo de eventos. Recentemente, subi em um trio elétrico em Salvador e falei para mais de 40 mil pessoas”, diz ele, que está com vários projetos em andamento. Um deles, gravar os chamados livros apócrifos católicos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Baruque, Sabedoria e Eclesiástico). Outro, o desenvolvimento de um site onde os internautas poderão receber mensagens personalizadas com o timbre da voz do “boa noite” mais famosos da história da televisão. Um caixinha semelhante às de música, na qual se pode ouvir Cid ler um salmo, é um dos trabalhos que ele faz, atualmente, no computador e no estúdio que montou na nova casa. Uma nova fase, tão intensa quanto as outras, em uma carreira de 70 anos, desde o primeiro emprego, em 1947, como locutor da Rádio Difusora de Taubaté, onde nasceu. De lá para cá, passou por todas as mídias, da mais analógica à mais digital. Rádio, cinema (como narrador de cinejornais, com o  famoso Canal 100), narração de comerciais, dublagens, a estréia como locutor de noticiários no Jornal de Vanguarda, na TV Rio, em 1963, até chegar à Globo e, em 1969 à bancada do Jornal Nacional, onde permaneceu até 1996, quando passou a narrar reportagens especiais do Fantástico. Há poucas semanas, Cid, em plena era multimídia, foi a voz do Natalis, um megaespectáculo de água e luz que conta o nascimento de Jesus, como parte da programação do Natal de Gramado, na serra gaúcha.

Quando não está viajando, Cid acorda cedo e, logo depois de um café da manhã à base de frutas, dirige-se à miniacademia instalada ao lado da piscina. Faz pilates, caminha na esteira ergométrica e, às vezes, joga tênis. O hábito, de longos anos, explica a energia que tem de reserva para atender aos compromissos em todo o Brasil. Confessa que já foi mais “fanático" nos treinos, hoje pega mais leve, depois de um problema no ilíaco. “Eu exagerava na velocidade da esteira”, admite. Na miniacademia, destaca-se, ao fundo, um cartaz com a palavra “relax”, um sutil recado, apesar de calma e tranquilidade fazerem parte do seu temperamento. Uma característica que o leva a atender os fãs, durante as viagens, com a maior paciência. E olha que, no caso do Cid Moreira, não basta apenas a foto selfie. Querem áudio. É de lei pedirem ao homem do ‘boa noite” que grave recados nas secretárias eletrônicas dos celulares.

(*) - O apresentador Cid Moreira morreu na manhã de quinta-feira (3/10/2024) aos 97 anos, no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O ex e histórico âncora do Jornal Nacional sofreu falência múltipla de órgãos após quadro de pneumonia.

Cid Moreira (1927-2024) - O dia em que o diretor do Jornal Nacional nos expulsou do estúdio da Globo

 por José Esmeraldo Gonçalves

Nos anos 1970, a Fatos & Fotos nos escalou para uma matéria sobre os bastidores do Jornal Nacional então apresentado por Cid Moreira e Sérgio Chapelin. Eu e Gi Pinheiro cumprimos a missão, mas aconteceu um incidente que conto a seguir. Esse texto foi publicado no Panis e também no livro "Aconteceu na Manchete as histórias que ninguém contou".   

Em entrevista a Amaury Jr., Cid Moreira revelou que até hoje tem pesadelos com falhas técnicas do Jornal Nacional.


Pois a Fatos & Fotos foi responsável por uma dessas falhas.

Nos distantes anos 70, uma dupla da revista foi ao estúdio do JN na sede da TV Globo, no Jardim Botânico, para fazer uma matéria com Cid e Sérgio Chapelin.

A entrevista já havia sido feita, mas o editor queria fotos dos dois apresentadores na bancada. Uma das fotos, em ângulo lateral, deveria mostrar ambos de corpo inteiro: uma brincadeira para desmentir que Cid e Chapelin apresentavam o JN de bermudas. Naquele noite, pelo menos, usavam paletó, gravata e jeans.

Os tempos eram outros, o prestígio da Bloch pesava e fotógrafo e repórter foram admitidos no estúdio poucos antes do JN entrar no ar. Hoje tal concessão é inimaginável.

Uns dois minutos antes, o diretor pede silêncio absoluto e ainda alerta pelo sistema de som que as fotos só poderão ser feitas nos intervalos. Óbvio, o som do disparador e do motor da câmera vazariam na transmissão ao vivo.

Infelizmente, a audição do fotógrafo - um grande e querido fotógrafo, por sinal - que se posicionou no lado oposto ao do repórter, não captou o aviso. Não deu outra. Logo no primeiro bloco, ele acionou a câmera. O clique e o zummmmm do motor, com um agudo no final, foram ouvidos no estúdio e, claro, em rede nacional. Mais de uma vez.

Não havia muito a fazer, não dava para interromper. Olhares furiosos miraram a dupla da Manchete.

No primeiro intervalo, a bronca do diretor explodiu no sistema de som e fotógrafo e repórter foram não muito gentilmente convidados a se retirarem do recinto.

Deve ter sido o pesadelo, ao vivo, do âncora Cid Moreira.


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Boletim médico: STF nega transfusão ao Estado Laico. O paciente agoniza

 

Um tribunal medieval em sessão. Gravura inglesa de autor desconhecido

por José Esmeraldo Gonçalves

A Constituição Federal do Brasil em seu Artigo 5° expressa: 

 "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade" (...)

Ontem, o STF decidiu que "Testemunhas de Jeová" podem se recusar a receber transfusão de sangue em procedimentos médicos.

O que os ministro fizeram foi jogar para o alto o inviolabilidade do direito à vida garantido pela Constituição. 

A religião dos Testemunhas de Jeová não permite aos seus seguidores o recebimento de transfusão de sangue de terceiros.

Há exemplos fatais entre praticantes dessa denominação religiosa. Um dos mais dramáticos ocorreu em 1993 no Hospital São Vicente, no litoral paulista. Uma menina de 13 anos morreu sem que os pais autorizassem uma transfusão de sangue. A jovem sofria de anemia falciforme e, apesar das explicações e tentativas de convencimento por parte do médicos, negou-se a possibilidade de salvar a própria filha. Casos com o esse eram encaminhados à justiça. Agora, com o aval do STF, as mortes decorrentes de uma desautorização de transfusão estão acima da lei.

O STF viajou no tempo rumo à era medieval.

Provavelmente, essa decisão terá impacto em outras situações. Se um paciente pode recusar uma transfusão de sangue e, com isso isso, aceitar o risco de morrer, um doente em estado doloroso ou terminal que concientemente prefira a morte deveria ter o mesmo direito das Testemunhas de Jeová. Alguns países aprovam, por exemplo, a eutanásia como recurso para aliviar o sofrimento de pacientes incuráveis. A diferença é que a eutanásia é realizada por pedido oficial da pessoa doente e em condições determinadas pela legislação. 

No Brasil, a eutanásia é proibida mas, simbolicamentre, o Supremo, ontem, optou por uma "eutanásia" jurídica que levou para o Além mais um pedaço do Estado Laico esquartejado nos últimos anos pelo lobby religoso.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O Globo de hoje publica matéria sobre o primeiro voo de asa delta realizado no Rio de Janeiro. Foi há 50 anos. A propósito da data, reveja post do Panis sobre um outro e improvável voador: Doval, o craque que brilhou no Flamengo. Em 1975, ele tentou aprender a voar...

 

Rio, 1975. Doval tenta decolar em asa delta.. Em matéria na...

...Fatos & Fotos, eu e o fotógrafo Hugo de Góes registramos o treino do gringo do Flamengo. 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Em julho de 1974, há 45 anos, o francês Stephan Segonzac decolou da Pedra Bonita para o primeiro voo de asa delta no Brasil. Dias depois, assombrou a cidade ao pular do Corcovado e pousar no Jockey Club.

No ano seguinte o carioca Luís Cláudio já fazia os primeiros voos e se tornava instrutor para dezenas de interessados no novo esporte.

Na época, o atacante Doval era ídolo no Flamengo e o argentino mais carioca que os hermanos já mandaram para o Rio. Fora do campo, ele praticava surfe, fazia aulas de pilotagem no autódromo e treinava tiro no stand do clube. Não demorou a se interessar pelas asas que via aterrissar na Praia do Pepino.

Em agosto de 1975, a Fatos & Fotos me mandou cobrir as primeiras aulas do gringo com o instrutor pioneiro, o Luís Cláudio. As lições iniciais aconteciam em Jacarepaguá, aproveitando o declive de um pequeno morro. Doval logo provou que era muito melhor em fazer a bola voar do que ele mesmo sair do chão.

Depois de algumas tentativas, o instrutor assinalou a dedicação do aluno, mas não deixou de ironizar: "Ele já conseguiu passar quase três minutos sem encostar o pé no chão".

Doval foi três vezes campeão carioca, duas pelo Flamengo e uma pelo Fluminense. Morreu em 1991, aos 47 anos, vítima de infarto. Três dias antes, ele viu o Fla jogar pela última vez, em Buenos Aires, contra o Estudiantes de La Plata pela Supercopa Libertadores. O rubro-negro perdeu (2X0). Ele chegou a visitar a delegação do Flamengo no hotel que hospedava os brasileiros.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Sabia disso? Os parceiros das estrelas das revistas masculinas tinham ciúmes de papel colorido


por José Esmeraldo Gonçalves

A internet é também um equipamento de mergulho no passado. Não são poucos os canais - principalmente de podcasts - que fazem a arqueologia das celebridades. Se o fazem é porque os leitores pedem. As redes sociais repercutem nesse momento uma entrevista de Myrian Rios, modelo, atriz, ativista religiosa e ex-mulher de Roberto Carlos ao podcast Inteligência Ltda. Em um trecho do depoimento, ela fala da decisão de posar nua para a revista EleEla. Myrian alega que se arrependeu do trabalho e que aceitou o convite da revista "para pagar as contas". "Não foi confortável fazer, ainda mais com 17 anos", ela acrescentou.

Parece haver alguma inconsistência em datas. A então modelo e atriz posou pelo menos duas vezes para a EleEla, em fevereiro e julho de 1978, fotografada pelo renomado Indalécio Wanderley. Até aqui, a única menor de idade que posou nua para revistas masculinas de uma grande editora era Luciana Vendramini, que foi capa da Playboy, da Editora Abril, em 1977, fotografada por JR.Duran, aos 17 anos.

Remanescentes da antiga redação da extinta EleEla, da Bloch, não confirmam a informação de que Myrian fez as fotos com menos de 18 anos. Vamos a alguns marcos da carreira de Myrian Rios. Ela estava no elenco da novelas da Globo "Escava Isaura", que foi ao ar en 1976-1977. E "Pecado Rasgado" (1978). Foi a notoriedade que as novelas lhe deram que despertou o interesse dos editores da EleEla. Segundo uma informação da Wikipedia até agora não desmentida, Myrian Rios nasceu em 10 de novembro de 1958, em Belo Horizonte, segundo declarou à Manchete em matéria assinada por Ronaldo Bôscoli em 1979. Teria, portanto, quando posou para a ElaEla, 20 anos incompletos.

Outra informação que pede maior clareza é a alegação de que Roberto Carlos teria conprado todas os exemplares da EleEla nas bancas e teria adquirido diretamente dos arquivos da Bloch todos os cromos que registravam os ensaios de Myrian Rios. Aí há, talvez, um lapso de memória. A relacionamento de Myruan Rios e Roberto Carlos teria começado já nos anos 1980. Até 1979, Roberto Carlos estava casado com Cleonice Rossi e certamente as edições citadas da EleEla nem mais estavam em bancas.

Mas há um fato curioso que sustenta parte dessa versão. Manchete, Fatos & Fotos e Amiga acompanharam desde o começo dos anos 1960 a trajetória de Roberto Carlos. Era um personagem essencial. Através de repórteres, fotógrafos e editores, ele desenvolveu uma inegável aproximação com as revistas da editora que foi uma das maiores do país. Em especial, tinha contato com Salomão Schwartzman, diretor da Bloch na sucursal de São Paulo. O que circulou, na época, nas redações da Bloch, na rua do Russell: Roberto Carlos teria pedido a Salomão que intermediasse uma solicitação a Pedro Jack Kapeller, superintendente da Bloch, no sentido de lhe entregar todos os cromos dos ensaios da atriz para EleEla guardados noa arquivos fotográficos da editora. Myrian, no podcast, diz que Roberto comprou tais fotos. Até poderia ser. Outra versão, contudo, circulava nos corredores do Russell. As imagens teriam sido cedidas amigavelmente em nome do bom relacionamento da editora com o cantor. Mas isso só aconteceu no começo dos anos 1980. Coincidência ou não, Salomão entregou muitas reportagens exclusivas com Roberto e Myrian nos anos seguintes. Manchete estampou em capas a primeira foto do casal, além de cobrir o esperado e midiático casamento. Vamos combinar que a cessão gratuíta de fotos faz mais sentido, até porque os valores não seriam expressivos para uma empresa do porte da Bloch, na época. Além de ser mais inteligente privilegiar o relacionamento com os personagens.

Uma "negociação" parecida teria ocorrido entre a Bloch e outro casal famoso. Xuxa também posou para a ElaEla. Pelé, a quem ela namorou nos anos 1980, teria agido para resgatar arquivadas nas estantes então analógicas da Bolch. Os implacáveis corredores do Russell também contavam que Pelé teve a aprovação do mesmo superintendente para driblas a posteriadade e não deixar provas públicas da sensualidade da Xuxa para a EleEla. É possível. É. Mas será que Pelé também resgatou as fotos da Xuxa para a Playboy, da Abril? Se resgatou, EleEla e Playboy, hoje extintas, levaram a verdade para o "túmulo" gráfico das revistas masculinas.

De qualquer forma, pedidos desse tipo parecem uma prova de machismo ancestral dos envolvidos.Se ocorreram, são casos lamentáveis de ciúmes de papel colorido. Ter posado para revistas masculinas só dizia respeito às modelos assim livremente contratadas. Nas décadas de 1970 e 1980 o Brasil era uma ditadura, mas não uma teocracia como Irã e Arábia Saudita.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

A Inteligência Artificial (IA) impulsiona mentiras na campanha de Donald Trump. Será uma prévia do que o Brasil vai ver?





por José Esmeraldo Gonçalves 

A definição de lixo precisa urgentemente de revisão. O atual significado é muito suave para explicar o que é a conta oficial de Donald Trump no X. Há mentiras e manipulação para todos os gostos. Dois posts ainda no ar exemplificam a canalhice do sujeito, aliás um criminoso condenado pela justiça. A IA é sua aliada na sujeira. Um dos posts usa a imagem de Taylor Swift, opositora do meliante republicano, como se fosse sua apoiadora. Outro mostra a candidata democrata Kamala Harris como uma líder comunista falando para uma multidão  fardada em imagem saturada de vermelho.

A campanha de Trump é infelizmente um modelo do que a extrema direita brasileira faz na atual baixaria para a eleição de prefeitos e vereadores. O uso da tecnologia ainda é tosco. Imagine como será na campanha presidencial de 2026. A legislação para coibir as mentiras está parada no Congresso por interesse da extrema direita. Não por acaso.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Alexandre de Moraes é o cíclope que assombra a Folha e apavora a extrema direita



por José Esmeraldo Gonçalves 

Em meio à ofensiva coordenada contra o ministro Alexandre de Moraes e o STF - com foco na manipulação de informações passadas pela extrema direita bolsonarista, conectada com policiais paulistas e com o jornalista estadunidense Glenn Greenwald -, a Folha de São Paulo ultrapassou os limites da ética jornalística e deu um twist carpado na encomenda de provar uma tese inexistente. Agiu como um aplicativo de entregas jornalísticas, onde repórteres podem ser despachados para cumprir pautas demarcadas pelo oligarca controlador da empresa e fotógrafos podem, por indução natural, buscar imagens que façam um macabro pas des deux com o discurso da ultra direita que é o atual GPS ou, quem sabe, a "starlink" do jornal paulistano. Na sequência do "duro", os "informantes" tiraram a escada e deixaram a Folha segurando o pincel. Desde que soltou a falsa "bomba", ela tenta desdizer o que disse, mudar palavras e retocar frases.


No rescaldo do 8 de Janeiro golpista a Folha obrou a famosa a montagem da foto das vidraças do Planalto sobre a figura do Lula com estilhaços registrados em outro espaço da fachada e colados digitalmente sobre o coração do presidente, como se fosse o rastro de uma bala nem um pouco perdida.

O ministro Alexandre de Moraes Moraes, alvo atual de uma operação midiática orquestrada que parece ter o claro objetivo de anulação de provas em processos no TSE, foi agora retratado na capa como um cíclope ameaçador. Só uma análise técnica diria se há manipulação nessa imagem. Aparentemente há discrepâncias de incidência de luz, mas não necessariamente caracterizadas como consequência de manejo digital da foto. Como a Folha já falsificou antes uma imagem vendida como fotojornalismo, a suspeita é valida. A mensagem editorial das duas fotos, tal qual o jornal elaborou nas capas, supera as imagens e talvez até a concepção da autora. Por coincidência, ambas, a dos estilhaços aplicados sobre Lula e a da cena de um Moraes alucinado e ameaçador são da mesma fotógrafa, Gabriela Biló, uma caçadora de esquisitices no sanatório político do Planalto Central.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Um R.I.P para o "delfim" da ditadura

Jô Sôares (Dr. Sardinha) e Delfim Netto
na capa da Manchete em foto de Rolnan Pìmenta



por José Esmeraldo Gonçalves 

Delfim Netto, ex-ministro da ditadura, morreu ontem em São Paulo aos 96 anos. Em 1968, ele foi um dos signatários do AI-5, que, nos anos seguintes, resultou em brutal ampliação do número de prisões de opositores do regime militar, assassinatos e sessões de tortura. 

Delfim não se incomodava com críticas que o ligavam à ditadura e não renegava o passado, mas tentou se justificar e foi capaz de dizer que não época "não sabia" que a ditadura torturava e matava opositores. Comandou a economia durante dois governos especialmente violentos: de Costa e Silva e Médici. Era tão poderoso que ganhou a alcunha de "czar". 

Ao fim do governo Médici, surgiram rumores discretos de que Delfim tinha apoio militar e poderia ser uma opção civil e confiável em um futuro, mesmo que distante, esgotamento da ditadura. Ernesto Geisel sacou sua carta e antes que o "delfim" de Médici lhe fizesse sombra o enviou para um cargo de luxo, ócio, e distante: embaixador em Paris. Anos depois, o economista foi ministro da Agricultura e ministro do Planejamento no período de João Figueiredo. Recentemente, em entrevista ao UOL, Delfim  afirmou que assinaria novamente o AI-5, aparentemente continuava ignorando torturas e assassinatos do regime militar. 

O economista conquistou bom trânsito e amigos jornalistas na mídia. Tornou-se uma espécie  de comentarista de estimação, em forma de frases tidas como espirituosas. Um desses jornalistas e admiradores o considerava um "frasista genial". Em abril de 2011, em uma das suas falas no progama Canal Livre, da Band, ele cometeu uma dessas genialidades: “Há uma ascensão social visível. A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais, ela desapareceu. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter". 

De certa forma, Jô Soares e a Manchete deram uma força à popularidade de Delfim. Em 1979, quando fazia sucesso na TV o personagem Dr. Sardinha, que ironizava o ministro, Delfim e Jô aceitaram conversar e posar juntos com exclusividade para a capa da revista. O Dr. Sardinha tranformava em piada a falta de intimidade do então ministro com frutas, legumes, cereais e grãos em geral. Delfim revelou na entrevista que ao receber o convite da Manchete para posar com  Jô pensou em recusar, "temia danos à imagem", segundo disse. Depois concluiu que era uma simples sátira. Ele tinha razão. Ao aderir ao humor e se deixar fotografar ao lado do Dr. Sardinha virou o efeito da gozação, mostrou até o jogo da cintura que não tinha e se tornou simpático diante da enorme audiência do programa do Jô na TV Globo.    

terça-feira, 30 de julho de 2024

Olimpíada não tem pódio para religião, mas proselitismo de crenças se infiltrou em Paris 2024

Foto COI/Divulgação
por José Esmeraldo Gonçalves

A Carta Olímpica, uma espécie de Constituição da Olimpíada, é clara: o Artigo 50 do documento estabelece que não é permitida em qualquer instalação olímpica qualquer forma de manifestação ou propaganda política, religiosa ou social. A Carta é um guia para todos os países que participam das competições. 

Apesar disso, o exibicionismo religioso tem tentado nesta edição dos Jogos, quebrar esse princípio. A Olimpíada reúne atletas das mais diversas culturas, fé, ideologia e raças. Contaminar uma festa universal de congraçamento esportivo com proselitismos particulares equivale a introduzir no ambiente esportivo gatilhos de divisão, conflito e até ódio.

Um assunto que dominou a mídia e as redes sociais foi um dos elementos artísticos da abertura oficial dos Jogos. Católicos e evangélicos reagiram com desproporção equivocada a uma suposta releitura da "Última Ceia", que incluía um "ofensivo" painel da diversidade de gênero. A intolerância levou os religiosos a uma interpratação deturpada da representação artística. Segundo o cerimonialista e diretor criativo da cerimônia inaugural, Thomas Jolly, o que o fundamentalismo viu como paródia da "Última Ceia" foi uma cena de banquete de Dionísio. Representado pelo ator francês Philippe Katerine o deus grego surgiu pintado de azul em uma mesa - móvel comum a qualquer banquete e não apenas à citada ceia - cercado de drags queens e dançarinos em uma festa pagã. "A ideia era fazer uma grande celebração ligada aos deuses do Olimpo", disse Jolly em uma entrevista ao canal francês BFM. "Eu queria uma cerimônia que unisse as pessoas, que as reconciliasse, mas também uma cerimônia que afirmasse nossos valores de liberdade, igualdade e fraternidade". Ele acrescentou que tudo isso estava claro na representação. "Dionísio apareceu nessa mesa como o deus da festa, do vinho, e pai de Sequana, deusa relacionada ao rio Sena". Historiadores confirmaram nas redes sociais a presença de detalhes do quadro a "Festa dos Deuses", de Giovanni Bellini (1514). Em todo caso, os organizadores da cerimônia pediram desculpas diante de eventuais interpretações mesmo erradas e negaram intenção de desrespeitar religiosos. 

A propósito, releituras da Última Ceia nem são novidade e nem carregam obrigatoriamente ofensa à fé de quem quer que seja. Veja, abaixo, alguns exemplos dessas paródias bem-humoradas. Além do que as reproduções mostram, há muitas paródias. O histórico painel de Ziraldo nas paredes do Canecão mostrando a chopada dos personagens cariocas é uma dessas inspirações que vêm da bíblia para o humor contemporâneo..

Turma da Mônica/Divulgação  
Super-heróis. Do site Sanatório da Imprensa/Criação: Wanderley Freitas

Aparentemente sem ligação com o episódio da abertura da Olimpíada, mas em direção contrária à laicidade da Olimpíada, o  COB (Comitê Olímpico do Brasil) teve seu dia de exibiconismo religioso. Acompanhando uma foto de integrantes de delegação (abaixo) uma das integrantes da direção assinou um post de caráter religioso. 

Reprodução/Time Brasil

Reprodução TV/COI

A skatista Raissa Leal, medalha de bronze nos jogos de Paris, quebrou o protocolo ao mandar um mensagem religiosa usando a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Não se sabe se por iniciativa própria ou a pedidos a atleta de 16 anos, em plena apresentação, divulgou a mansagem "Jesus é o caminho, a verdade e a vida". 

Agora imagine o que seria a Olimpíada se muçulmanos, israelitas, praticantes de religiões de matriz afro, budistas, sikhistas, espíritas, baharistas etc  usasem parte dos seus tempos de prova na divulgar suas crenças.

Atualização em 30/07/2024: Barbara Butch, a DJ francesa que participou da performance atacada por radicais (ela aparece com enfeite dourado na cabeça na cena da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris) está recebendo ameaças  de morte por parte da extrema direita religiosa da França.

Atualização em 31/07/2024 - O COI aceitou a alegação de Raíssa Leal de que desconhecia a proibição de fazer proselitismo de religião em ambiente olímpico. A atleta receberá apenas uma advertência.  O COI ainda manifesta seu apoio à liberdade de expressão em entrevistas ou declarações dos atletas fora das competições em respeito à Carta Olímpica.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Orelha de Donald Trump vira fetiche para seus eleitores e peça de marketing da campanha.

Trump com novo
modelo de curativo.
Reprodução CNN
por José Esmeraldo Gonçalves 

Donald Trump é o candidato mais velho a concorrer a presidente dos Estados Unidos. É, também, o primeiro condenado pela justiça a tentar a Casa Branca. E poderá ser o primeiro a usar um esparadrapo na orelha durante mais tempo. Ferido de raspão por um lunático tipo um "Adélio gringo" (a polícia americana ainda não encontrou motivação política no atentado), ele tem caprichado na visibilidade do  esparadrapo sempre branco e que virou peça de marketing de campanha.  O "gado" (cattle) trumpista passou a usar curativos em solidariedade ao magnata.

Trump parece tão apegado ao esparadrapo que estreou um novo modelito de formato quadrado, como a CNN mostrou. Seu staff não anuncia uma data para a orelha subir no palanque sem o curativo. 

Os republicanos andam insatisfeitos porque o atentado já não é destaque na mídia e foi superado pela desistência de Biden e indicação de Kamala Harris. Se depender dos eleitores Trump usará o acessório até novembro e irá votar portando a peça que lembra o tiro. Definitivamente, a orelha tornou-se uma entidade política.