sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Fotografia: a capa do Gugu... e outros cliques • Por Roberto Muggiati

Gugu na capa da Manchete e...


...um ano depois na Amiga. Fotos de Lena Muggiati


Augusto Ruschi e o beijo do beija-flor. Foto de Ricardo Azoury

Gabeira na árvore. Foto de Gil Pìnheiro
O editor de uma revista ilustrada compete sempre com seus fotógrafos, talvez por sofrer do complexo de não saber fotografar. Mas nunca faltaram aos editores da Manchete ideias para fotos, algumas até mirabolantes. Quando Ricardo Azoury foi retratar Augusto Ruschi na sua reserva ecológica do Espírito Santo, exigi que fizesse uma página dupla com o ambientalista beijando... um beija-flor. Sorte que o repórter era o Marcelo Auler, mais tirânico que o editor, e exigiu que Ruschi sustentasse entre os lábios um dedal com água açucarada até que surgisse um colibri disposto a entrar na brincadeira. A foto fez o maior sucesso, reproduzida até em pôsteres, outdoors e campanhas publicitárias.
Gil Pinheiro foi incumbido de fazer a primeira foto de Fernando Gabeira na sua transição ideológica do vermelho para o verde. Como de praxe, procurou-me na redação para saber que tipo de foto eu queria. “O cara não é líder dos verdes? Bota ele em cima de uma árvore!” Gil era um cumpridor de ordens exemplar. Com surdez avançada, não conseguia controlar o volume da voz e soltou o berro para cima do Gabeira: “Companheiro, sobe nessa árvore aí.” O retratado obedeceu prontamente e Gil voltou para a redação com uma foto maravilhosa do líder ambientalista de camisa e calça vermelhas contra o fundo verdejante de uma exuberante figueira.
O furor criativo do editor muitas vezes contagiava o fotógrafo. Foi o caso de Lena Muggiati, escalada em 1995 para fazer em São Paulo uma matéria com Gugu Liberato, que pleiteava um canal de TV.  Lena - na época sofrendo agudamente da doença do pânico - aventurou-se a atravessar o Viaduto do Chá até a Praça do Patriarca, o local da megalópole com mais transeuntes por metro quadrado. Sabia o que queria e encontrou no camelódromo da praça: um apontador de lápis no formato de um aparelho de TV. O simpático apresentador, líder absoluto do Ibope na época, mostrou-se muito acessível e se dispôs a posar com o brinquedinho. A foto deu capa. Um ano depois outro clique da série foi capa da Amiga, onde o Rei do Domingo estreava uma coluna. Carregava ainda um comentário irônico sobre a audácia do jovem de 36 anos que brigava por um canal próprio de TV, para competir com magnatas como Roberto Marinho e Silvio Santos. 

Descanse em paz, Gugu.

Fotomemória: Alcione, a boneca Marrom. Por Guina Araújo Ramos

Filha de maestro, Alcione é cantora e instrumentista. Acima, performance no trompete, em 1978.
Foto de Guina Araújo Ramos. 

por Guina Araújo Ramos 

De repente, fico sabendo que hoje (ontem), 21/11, é dia do aniversário, 72 anos, de Alcione, a Marrom, cantora e compositora de muito sucesso, em todo o Brasil, há décadas.
Bom motivo para trazê-la aos Bonecos da História!
Tive apenas duas oportunidades de fotografar a Marrom.
A primeira, em 23/10/1979, em show bastante elaborado que suponho ter acontecido no Canecão, e o fiz para a Bloch Editores, quase certamente (porque em preto e branco) para a revista Amiga.
Por algum motivo estranho (porque não era comum) restaram nos meus arquivos vários negativos do show, praticamente a cobertura completa, com Alcione usando vários vestidos e em várias performances, incluindo o momento em que toca trompete, o que nunca vi alguma outra cantora brasileira fazer.
Alcione na Mangueira do Futuro - Rio, 1992 - Foto Guina Araújo Ramos

Volto a encontrá-la somente em 1992 e em condições muito distintas. À época, eu trabalhava para Notícias Shell, veículo corporativo da multinacional, que patrocinava um projeto esportivo na Vila Olímpica da Mangueira, justamente a escola de samba do coração de Alcione. Do evento, em que apoiava a causa e também era homenageada, me restaram dois slides sem muita expressão (e coloco aqui o melhor deles).

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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O Kiss no Rio e o triste fim de Justino Martins • Por Roberto Muggiati

Na mesa de edição da Manchete, sentido horário; Célio Lyra, Roberto Muggiati, Justino Martins e Alberto Carvalho

Kiss: noite de hard rock no Rio

O Kiss vem aí de novo, desta vez para se despedir. A escabrosa banda de hard rock já iniciou sua turnê End of the Road/Fim da Estrada e se apresenta no Brasil em maio de 2020, em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Ribeirão Preto, Uberlândia e Brasília. O Rio de Janeiro ficou de fora, talvez até para não misturar o momento melancólico do adeus com a lembrança do principal triunfo do grupo, que juntou o maior público da sua carreira no memorável show no Maracanã em 1983. Eu estava lá e guardo uma lembrança aguda da ocasião: foi quando vi o começo da morte de Justino Martins, o homem que criou a revista Manchete no seu formato histórico.

Iniciada em 1952, a semanal ilustrada ficou famosa pela impressão impecável em cores, mas levou anos para encontrar um diretor de redação à altura do seu potencial gráfico. Henrique Pongetti, o primeiro editor, era um cronista, sem nenhum cacoete de “revisteiro”.  Veio então Hélio Fernandes, que deu um toque jornalístico à Manchete, mas proibiu a entrada na redação dos irmãos Bloch: Arnaldo, Boris e Adolpho. Acabou demitido. Otto Lara Resende – cronista sem vivência de jornal – ficou um ano na direção, em conflito diário com o que chamou “os Irmãos Karamabloch” (nascidos  na Ucrânia, sua alma era mais russa do que judaica). Certa vez, um dos irmãos comprou a bom preço uma batelada de máquinas de escrever. Os outros dois, desconfiados do negócio, se puseram a destroçar as Remingtons no chão da redação.

Arnaldo e Boris morreram em 1957 e 1959 e Adolpho ficou livre para reinar supremo sobre a Manchete. Mas a revista continuava à deriva sem um timoneiro, editada por um triunvirato, fórmula que só diluía as responsabilidades. Adolpho convocou então, para dirigir a Manchete o brilhante correspondente em Paris, o gaúcho Justino Martins. O casamento deu certo, mas a relação seria marcada por amor e ódio – e muita inveja.

Justino Martins
Adolpho tentou tirar Justino da direção da revista na virada dos anos 60/70, mas a manobra não funcionou. Chamou-o de volta. Justino fez charme, disse que tinha um convite para ser RP da grife de Madame Grès, estilista e perfumista de Paris. Era uma armação combinada com a Madame, sua velha namorada, que confirmou a história ao Adolpho pelo telefone. Assim, além de um belo salário, Justino voltou à direção com um bônus de mil dólares, que um funcionário da tesouraria todo fim de mês botava na sua mão em cash, diante de toda a redação.

Mas tirar o “Índio” da direção da Manchete era uma obsessão do Adolpho e ele voltou à carga em 1975. Dispensou o Justino, disse que precisava dele para criar uma revista de decoração (que nunca saiu), e o homenageou com uma grande feijoada para centenas de pessoas no restaurante da Rua do Russell. Involuntariamente, servi de instrumento para esta jogada maquiavélica do Adolpho. Desde 1972 eu editava a revista em maio, quando Justino tirava férias e ia ao Festival de Cannes. Seguro de que eu poderia assumir o posto, Adolpho me empurrou para a direção da revista, onde fiquei até 1980, quando uma crise de saudosismo levou o Justino de volta à Manchete e eu fiquei como seu vice.

Em junho de 1983, ia ao ar a Rede Manchete de Televisão. Sabiamente, Justino profetizou que a TV viera para sepultar a editora. Uma morte ao mesmo tempo real e simbólica marcou essa transição. Em 10 de agosto de 1983, dois meses depois da estreia da TV, Justino Martins chegou à redação uma terça-feira, lá pelas dez da manhã, era o dia mais calmo, depois do fechamento na segunda e antes da saída da revista nas bancas na quarta. Com sua clássica sacola da Air France a tiracolo, falou comigo, que era o seu “segundo”: “Toma conta das coisas, tchê, que vou fazer um exame no Hospital dos Servidores.” O Servidores era uma referência, o Presidente Figueiredo internou-se lá quando teve sua crise cardíaca, e o diretor, Raymundo Carneiro, era um grande amigo do Adolpho. As notícias não foram nada boas. Justino tinha um câncer de pâncreas fulminante. Duas semanas depois, foi transferido para a Clínica Sorocaba, em Botafogo,

Visitei-o uma vez no Servidores e outra num triste sábado na Clínica Sorocaba. A um punhado de amigos que cercava seu leito, Justino confidenciou: “Estou me sentindo como um soldado diante de um pelotão de fuzilamento.” Morreu no dia seguinte, domingo 28 de agosto. Passados 36 anos, sua fama só fez crescer. Como definiu o livro A Revista no Brasil (Editora Abril, 2000): “Foi o editor que desenvolveu definitivamente a fórmula do que chamou de ‘beleza estética na informação.’” Uma beleza flagrantemente ausente nas revistas de hoje. Mesmo tendo sido o jornalista que mais tempo durou na direção da Manchete, eu sempre julguei e admiti que Justino Martins foi a verdadeira alma da revista.


Senti que o Justino estava morrendo na noite de 18 de junho de 1983, quando fomos assistir ao megashow da banda Kiss no Maracanã, diante do maior público na história do grupo. O espetáculo fazia parte da turnê Creatures of the Night, que promovia o disco do mesmo nome, iniciada seis meses antes nos Estados Unidos e encerrada no Brasil, com shows no Rio, em Belo Horizonte (Mineirão) e em São Paulo (Morumbi).

O carro da Bloch nos apanhou no Leblon (Lena faria as fotos para a cobertura da Manchete) e dali pegamos o Justino e sua filha Valéria, de dezesseis anos, motivo principal da ida ao Maracanã. Valéria era filha do segundo casamento de Justino, com Martha de Garcia, a primeira Miss Brasília. Ironicamente, Adolpho Bloch também casou com uma Miss, a gaúcha Lucy Mendes, Miss Rio Grande.

No portão de sua bela casa da Joatinga, encontrei um Justino soturno e ainda visivelmente abalado com a quase tragédia ocorrida naquela tarde de sábado. Dois pintores que trabalhavam ali quase foram estraçalhados pelos cães de guarda que Justinho mantinha para a segurança da casa. Uma ambulância levou os homens ao hospital Miguel Couto, onde se confirmou a gravidade dos ferimentos. Seguimos praticamente calados no trânsito engarrafado até o Maracanã.

Adentramos o gramado do maior do mundo, onde tínhamos ingressos VIP. Lena postou-se bem à frente do palco, armado no lado do campo conhecido como “a trave do Barbosa”, alusão à derrota para o Uruguai na final da Copa de 50. Fiquei do seu lado para protegê-la da turba ensandecida. O vocalista Gene Simmons, com sua maquiagem grotesca, vomitava uma geleca verde de aparência asquerosa sobre a plateia, fomos contemplados com alguns chuviscos também. Valéria assistia de perto com um grupo de amigas.

Logo após a morte de Justina Martins, esta placa que foi colocada na redação da Manchete em homenagem
ao diretor que criou a revista no seu formato histórico. Uma semana depois, foi retirada.

Depois de algum tempo, procurei o Justino. Custei a encontra-lo, no seu elegante blazer que nada tinha a ver com tudo aquilo. Recostado junto às grades que cercavam o gramado, pasmem – o Justino dormia. De pé. Um cansaço descomunal parecia ter tomado conta do seu corpo, já àquela altura minado pelo câncer, que o levaria dois meses depois.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

O primeiro Zumbi a gente nunca esquece • Por Roberto Muggiati

Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, Centro do Rio. Reduto dos negros, berço do samba e
o bairro que recebeu imigrantes judeus a partir do final do Século  19. Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro
Não há como esquecer. O Dia da Consciência Negra, na data do aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, foi comemorado pela primeira vez no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 1995.  O feriado municipal, decretado pelo prefeito Cesar Maia, foi cercado de controvérsias, mas acabou respeitado naquela segunda-feira chuvosa em que a Manchete em peso compareceu ao enterro de Adolpho Bloch no Cemitério Israelita de Vila Rosali, em São João de Meriti.

Internado num hospital de São Paulo, Adolpho morreu nas primeiras horas do domingo, 19 de novembro de 1995, Dia da Bandeira. “O Rei morreu”, era o pensamento na cabeça dos jornalistas que foram aguardar o corpo para o velório no saguão de entrada do prédio da Bloch no 804 da Rua do Russell. O clichê imemorial não foi completado com o “Viva o Rei!” Adolpho não deixava herdeiro à sua altura. O mais afoito candidato, Oscar Bloch Sigelmann, morrera na véspera do Carnaval daquele ano. Num ano ruim para os Bloch, em agosto, foi a vez da irmã de Adolpho, dona Bela, mãe do Jaquito.

Naquele domingo, fui convocado para dar depoimentos à TV sobre Adolpho, principalmente na Rede Manchete. Ainda ficamos um tempo na redação, esboçando o fechamento da revista naquela segunda-feira – seria quase uma edição especial sobre Adolpho.

Chovia torrencialmente. Fizemos a longa viagem de trinta quilômetros até Vila Rosali – Lena e eu – no carro do casal Norma e Murilo Melo Filho, com direito a motorista particular. A presença de Xuxa (que ganhara fama e acesso à TV Globo graças à Manchete), Angélica, Cristiana Oliveira da novela Pantanal e outras celebridades atraiu a tietagem local, mesmo debaixo do aguaceiro. Para conseguir uma visão melhor, havia gente sentada até no muro do cemitério. Uma pequena multidão de fieis se acotovelava junto ao túmulo de Adolpho Bloch na hora do enterro.

Procurando um ângulo melhor, o fotógrafo Nilton Ricardo subiu num túmulo vizinho e Jeová o fulminou no ato pelo sacrilégio com um tombo quase fatal – Nilton se safou agarrando-se a uma lápide, que cedeu, levando consigo na queda uma meia dúzia de outros fotógrafos.

Do meu lado, Arnaldo Bloch, sobrinho-neto de Adolpho, me explicava o simbolismo da linha férrea que margeia o cemitério. Quando um corpo acaba de ser enterrado passa sempre um trem. Não deu outra: mal os despojos de Adolpho Bloch eram cobertos pela tampa da sepultura, um trem se deslocou lentamente no horizonte como uma longa cobra.

Voltamos de carona com o Mauro Costa, chefe de reportagem da televisão. Ainda chovia forte.

Às dezenove horas começamos o fechamento da revista, que varou a noite. Na capa, um belo retrato de Sérgio Zalis do homem que havia criado a Manchete havia 43 anos.

Os cariocas mais afortunados gozavam as últimas horas de lazer que lhes foram conferidas, pela primeira vez, por Zumbi dos Palmares.



FOTOMEMÓRIA DA REDAÇÃO
Hall do prédio do Russell, manhã de 20 de novembro de 1995. Já com a missão de fechar o número especial da Manchete em homenagem ao seu fundador, parte da redação fez uma pausa para receber o corpo de Adolpho Bloch, transladado de São Paulo. Na foto, João Silva, Regina, Orlandinho, Alberto, José Carlos, Muggiati, Cesar, Ney Bianchi, Esmeraldo, Paulinho e Pinto.

"Operação Condor": livro de Anna Lee e Carlos Heitor Cony será lançado no dia 28, na Livraria da Travessa, Ipanema


Leitura Dinâmica:: prisão na primeira instância, privatização black friday, os "desalentados", censura e príncipe papa-anjo

* Solução final - Relatório da ONU denuncia: mais de 100 mil crianças estão detidas em campos de concentração de imigrantes instalados pelo Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos inaugura a prisão em primeira instância: a do maternal.

* Privatização gostosa: O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, vende por 1 real empresa de energia que Aécio Neves comprou para o estado por R$ 360 milhões. Zema antecipou a black friday. A informação está no Viomundo.

* Vivendo de bico -  Segundo o IBGE, a queda milimétrica do desemprego no Brasil, no terceiro trimestre foi puxada pelos "informais", os trabalhadores que pegam um serviço aqui e outro ali e não têm qualquer registro. O IBGE não revela como contata esses brasileiros que se viram para sobreviver. Vai ver perguntam para os porteiros: "Sabe quem conserta geladeira?". Os pesquisadores também não contam como identificam e entrevistam os "desalentados" de que tanto falam os jornalistas de mercado. Qual a pergunta dos pesquisadores? "Você tá desanimado amigo, desistiu de procurar emprego...?".

* Que fase ! - Por falar em desalento, em entrevista à TPM a apresentadora Sabrina Sato abre o jogo do 0 x 0. "Quem faz sexo depois de ser mãe? Não dá vontade nem de bater uma punheta para o marido. É difícil, a vontade não vem. Quando você vira mãe, tudo muda. Atualmente, eu amo o Duda como se fosse meu irmão". O marido, o ator Duda Nagle, não comentou a abstinência.

* Sexit - A atual campanha eleitoral britânica ganhou um tema que vem ofuscando o Brexit. Os jornais agora se ocupam do escândalo sexual que envolve o príncipe Andrew. O filho de Elizabeth é acusado de participar das festinhas promovidas pelo milionário Jeffrey Epstein, que cometeu suicídio quando estava preso e aguardando julgamento por tráfico sexual de menores e pedofilia. morto em agosto. Andrew teria dado uma de lobo e capturado uma adolescente. sua defesa foi considerada débil. Em entrevista ao programa Newsnight, da BBC, o príncipe respondeu à acusação de Virginie Giufre, que era a menor na tal badalação, com um vago "não me lembro de ter conhecido essa senhora, nenhuma lembrança". Isso apesar dos, segundo a acusadora,três encontros que teve com a então ninfeta, em Londrfe, Nova York e em uma ilha do Caribe.

* Censura - Depois da exibição de "Marighella", em Lisboa, no último domingo, Wagner Moura falou à Folha de São Paulo sobre o veto à estréia, no Brasil, disfarçado de entrave burocrático. “Não estava preparado para o filme não estrear no Brasil, quando nós já tínhamos uma data de estreia, tudo combinado (…) A censura no Brasil hoje é um fato”. 

domingo, 17 de novembro de 2019

Gol 1000, 50 anos: Pelé segundo Fernando Sabino para a Manchete

Fernando Sabino e Pelé, em Santos, dois dias depois do Gol 1000. Reprodução Manchete

Neste 19 de novembro, próxima terça-feira, completam-se 50 anos do gol 1000 de Pelé. No Maracanã, diante de um público de 70 mil pessoas, o goleiro Andrada, do Vasco, não segurou o pênalti batido pelo maior jogador da história do futebol.

Dois dias depois do gol, Manchete escalou para entrevistar Pelé ninguém menos do que Fernando Sabino. A revista juntou dois craques. O escritor registrou: "Quando Manchete me pediu que fosse a Santos para uma matéria sobre Pelé, pensei comigo: 'ôba, vou dar uma de Norman Mailer e esgotar o assunto'. Mas nem eu sou o Norman Mailer, nem Pelé é assunto que se esgote ainda mais em poucas horas. Na verdade, o trabalho me foi encomendado em termos de tamanha urgência que me fez lembrar aquela do entrevistador de televisão para o poeta Murilo Mendes: 'Que que o senhor pensa a respeito da crise do mundo moderno e dos problemas que afligem a humanidade em nossos dias?' Tem um minuto para responder.

Mon Laferte: peito aberto contra a repressão no Chile

O Grammy "Latino" é uma bobagem criada por gravadoras para fazer média com o mercado hispânico dos Estados Unidos. Como extensão foi até instituída uma "categoria" exclusiva para o Brasil levantar alguns prêmios.
Além disso, o termo "América Latina" é considerado por muitos como racista. De fato, é impreciso para definir uma região com tanta diversidade. A Guatemala, por exemplo, seria "latina" apesar de mais da metade de população descender dos maias? Ou seja: o conceito não é cultural nem geográfico, é tão somente racista.
A mídia global dá pouca ou nenhuma importância ao Grammy "Latino". A mídia americana não-hispânica, idem. Mas esse ano, em Las Vegas, pelo menos um detalhe da premiação rodou o mundo e viralizou na internet: o protesto da cantora chilena Mon Laferte. Disposta a denunciar a situação atual no Chile e sabendo da relativa repercussão do evento, ela mostrou os seios contra a brutal repressão policial do governo Sebastián Piñera. "No Chile, eles torturam, estupram e matam". Aí sim, o Grammy "Latino" virou notícia no mundo inteiro. E por uma causa justa.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Patrícia Poeta nos trend topics do Twitter. E não é para receber elogios...


Marighella: o filme sem tela pode virar série na TV

por José Esmeraldo Gonçalves 

Para Carlos Marighella, a luta continua.

Executado há 50 anos, o líder revolucionário, fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), enfrenta, in memoriam, uma batalha para chegar às telas de cinema do Brasil.

"Marighella", de Wagner Moura, exibido no exterior e premiado em vários festivais, deveria estrear no dia 20 de novembro, a próxima quarta-feira, Dia da Consciência Negra. Em nota recente, a produtora O2 Filmes informou que o lançamento do filme, que tem no elenco, entre outros, Seu Jorge, Adriana Esteves e Humberto Carrão, foi cancelado porque a produção não conseguiu “cumprir os trâmites” exigidos pela Agência Nacional de Cinema.

E, aparentemente, não se fala mais nisso.

Assim como os golpes de Estado, a censura no Brasil agora atua travestida de inúmeros pretextos. Basta ler notas semelhantes das mais diversas instituições a propósito de apreensão de livros, de vetos a exposições, a palestras em universidades, de barreiras políticas, morais ou religiosas no acesso a financiamentos públicos e até agressões, intimidações e invasões de espaços culturais por milícias neofascistas.

A justificativa para o cancelamento da estréia de "Marighella" parece apenas uma versão construída para disfarçar o que já era esperado no atual ambiente político do Brasil. Aliás, "versão" é um recurso de dissimulação e fake news que tanto os órgãos de segurança da ditadura quanto o baronato da grande mídia, na época, usou para desconstruir os fatos na vida do guerrilheiro.

Em 2012, o fotógrafo da Manchete, Sérgio Jorge, denunciou na Istoé, a farsa montada pelo delegado Sérgio Fleury, que era uma espécie de capo executor oficial da ditadura, ao criar a versão oficial para a morte de Marighella, em São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969.  "Eu vi os policiais colocando o corpo no banco de trás do carro", revelou o fotógrafo sobre a montagem da cena de confronto.  Segundo dois frades dominicanos que iriam encontrar o guerrilheiro, este foi executado no meio da rua, a queima-roupa. Não houver confronto. Marighella estava desarmado e foi fuzilado ao se encaminhar para o Fusca onde os policiais haviam colocado os dominicanos e onde seu corpo foi depositado em seguida. Os frades foram protagonistas involuntários da segunda farsa montada pela ditadura e divulgada pela mídia: a versão da "traição", segundo a qual os religiosos foram os responsáveis por dedurar Marighella.

A jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon publicou semana passada na Carta Maior o artigo "50 anos da execução de Marighella e a farsa da "traição" dos dominicanos", que desmonta mais essa fake news da ditadura em parceria com os jornais. Conta a jornalista: "Logo depois da execução de Marighella, cujo corpo foi colocado dentro do carro depois de morto para compor a narrativa das fotos que a imprensa receberia, os órgãos de segurança da ditadura começaram uma sórdida campanha, bombardeando a mídia com fake news, atribuindo aos dominicanos uma suposta 'traição'. Eles teriam traído o antigo aliado, dando informações que permitiram a morte de Marighella. O que hoje chamamos de fake news sempre existiu. Os regimes totalitários desde sempre utilizaram a mentira para justificar invasões de territórios, prisões de dissidentes políticos ou mesmo para convencer a população que uma reforma traz benefícios quando, na verdade, representa perda de direitos. No Brasil de hoje, a mentira (fake news) é o combustível de toda ação governamental. Na época da ditadura não era diferente. No nosso livro "Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar", lançado em 2014, Clarisse Meireles e eu reconstituímos o episódio da prisão dos dominicanos e da mentira de Estado, que se impôs através dos órgãos de imprensa da época".

Testemunhos como o de Sérgio Jorge, livros como o de Leneide e Clarisse, além da obra de Mário Magalhães,  "Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo", em que se baseou o filme,  recolocam os fatos diante da história.  O brasileiro tornou-se uma referência revolucionária em todo o mundo. Seu livro "Manual da Guerrilha Urbana" virou um tutorial famoso para muitos focos de luta popular. Que o diga Sebastião Salgado, que também trabalhou para a Manchete. Em matéria publicada na revista MIT, quando entrevistou Salgado, o jornalista Roberto Muggiati conta  como Marighella indiretamente salvou a vida do fotógrafo. Leia o recorte abaixo.


Enquanto "Marighella" permanece sem data de lançamento nos cinemas, a Rede Globo anuncia sua transformação em uma série de quatro episódios a ser exibida no ano que vem.

Caso "entraves" burocráticos não atropelem o projeto. 

PARA LER A REPORTAGEM COM SÉRGIO JORGE NA ISTOÉ, CLIQUE AQUI

PARA LER O ARTIGO DE LENEIDE DUARTE-PLON NA CARTA MAIOR, 
CLIQUE AQUI

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Pasquim, 50 anos. Agora com um clique você viaja no tempo. A coleção do semanário que desafiou a ditadura foi digitalizada pela Biblioteca Nacional

O Pasquim número 1, junho de 1969. 

Uma edição que faz um link entre a ditadura e o Brasil de hoje: jornalistas ameaçados pelo governo
e pelas milícias digitais. 

Ao completar 50 anos (foi lançado em junho de 1969), O Pasquim ganha um ponte digital para as novas gerações e para o futuro. A Biblioteca Nacional acaba de digitalizar as 1072 edições do histórico semanário. Textos, fotos e charges poderão ser acessado na plataforma da Seção de Periódicos da BN.

A nova plataforma será lançada no dia 19 de novembro durante a abertura da exposição "O Pasquim 50 Anos", no Sesc Ipiranga, em São Paulo.

O Pasquim digitalizado chega, coincidentemente, em uma época difícil para a liberdade de expressão. Jornalistas são perseguidos e alguns veículos "chapa-branca" demitem, a pedido do governo da direita radical, profissionais que criticam a republiqueta bolsonarista.

A nova censura afeta a cultura, com registro de exposições, filmes e peças vetados por instituições oficiais.

O Pasquim volta, pelo menos em forma de memória jornalística,  mais atual do que nunca.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

América do Sul sob alta tensão

Bolívia



Lula no New York Tines

Uma semana em que a América do Sul foi destaque na mídia mundial.

Ao libertar Lula, em respeito à Constituição, o STF lançou o nome do ex-presidente nos TTs globais e na imprensa. O STF agiu dentro da lei e a reação da direita radical já se faz sentir com as pressões para encaminhamento ao Congresso de um emenda que restabeleça a prisão antes do fim dos processos.

Chile

As manifestações no Chile estão há dias nas primeiras páginas. Os fatos têm relação com a persistente presença da direita elitista no continente. Os processos de Lula, que gravações mostraram ser plenos de irregularidades, além da ausência de provas, estão no contexto do golpe que derrubou Dilma Rousseff e impediu a candidatura do ex-presidente.

O Chile sofre as consequências de uma brutal política econômica formulada pela ditadura de Pinochet. O povo nas ruas exige vigorosamente um nova Constituição, sem as marcas da sangrenta ditadura.

Agora, um golpe abala a Bolívia e derruba Evo Morales, o presidente que implantou no país uma bem sucedida política econômica e social que permitiu a ascensão dos mais pobres, o que a elite em geral abomina.

A Argentina, que acaba de destronar o neoliberalismo predatório dos direitos sociais, que se cuide.

domingo, 10 de novembro de 2019

Chile hoje, Brasil amanhã: a crise do neoliberalismo galopante...

Imagem/Reprodução
O Globo 10 -11 - 2019
Foi sem querer querendo? O Globo de hoje fez uma matéria sobre os protestos no Chile e acabou abordando indiretamente o Brasil de hoje e do futuro próximo.
O jornal ouviu pessoas comuns. "Minha mãe paga meu tratamento com dívidas", disse uma. "O custo da faculdade expulsou minha filha" queixou-se outra. "Ou temos comida poupamos para a velhice", protestou uma chilena que teme que o pai não consiga se aposentar. "Os novos políticos encheram os bolsos", denunciou um idoso.
Já ouviu isso em algum lugar?
São falas perfeitamente reproduzíveis no Brasil onde o drama é até pior. Em comum, os dois países têm a política econômica enquadrada no neoliberalismo selvagem e um nome: Paulo Guedes.
O atual ministro bolsonariano foi assalariado da ditadura chilena e a convite do governo Pinochet deu aulas em universidade chilena nos anos 1980 como parte da política de impor ao país o liberalismo galopante às custas da pobreza e das políticas sociais. Deu nisso.

Muro de Berlim, 30 anos da queda: Manchete estava lá

Gil Pinheiro e Ney Bianchi. Berlim, 1989. Reprodução


Na noite de 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim começou a cair. Manchete logo enviou a dupla Ney Bianchi e Gil Pinheiro para testemunhar a queda da barreira que separava as Alemanhas Ocidental e Oriental.

Junto aos escombros, os repórteres registraram o day after, a euforia dos berlineses e a semente da reunificação que começava a germinar e que, finalmente, aconteceu
 em 1990.

O texto brilhante de Ney Bianchi tangenciava a política e retratava a nova rotina e a redescoberta da cidade.

De volta ao Brasil, Ney e Gil colocaram na mesa de edição da Manchete, texto, fotos e alguns souvenirs especialíssimos: pedaços do concreto do muro que os soviéticos construíram em 1961. Os pedregulhos foram atração na redação. Todos tocaram as pedras e sopesaram a história.
Ney contou que ao longo do muro, a cada 100 metros, havia camelôs vendendo o próprio. "Pedras de todos os tamanhos arrancadas a golpes de picaretas nas fronteiras da Porta de Brandenburgo, do Checkpoint Charlie, da Invalidestrasse, da Postdamer Platz - onde quer que os guardas fingissem não ver os garimpeiros da muralha - eram negociadas", escreveu. Não havia preço de mercado. O cálculo era de acordo com a cara do freguês. Para americanos era mais caro: 45 dólares o quilo. Esse era o pedaço maior, o calhau. A lasca era vendida a 20 e a pedrinha a 2 dólares.

E, naquela noite, a saideira no bar do Novo Mundo foi com as pedras do Muro de Berlim pousadas na mesa.

Brindamos à história on the rocks.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Em Portugal, vinho vira pó...



Segundo a OCDE, os portugueses estão bebendo menos. A pesquisa não esclarece se incluiu os brasileiros residentes ou clandestinos na terrinha. Outras fontes informam que aumentou o consumo de antidepressivos em Portugal assim como cresceu a apreensão de cocaína.
Se uma coisa tem a ver com a outra, só perguntando à OCDE.

Para as milícias digitais, Augusto Nunes é o "Chuck Norris" nacional

A cena lamentável que bombou na internet, ontem, foi o tapa que o bolsonarista Augusto Nunes deu no jornalista Glenn Greenwald, do Intercept.

Em setembro, Nunes agrediu Greenwald via twitter ao insinuar que o americano e o seu marido, o deputado federal David Miranda, seriam negligentes nos cuidados das crianças que adotaram, já que um ficava em Brasília e o outro "trabalhava como receptador de mensagens roubadas".

Nunes, na nota, apelava até para as autoridades: "o Juizado de Menores devia investigar".

Dessa vez, partiu para a porrada. Convidado para participar do programa 'Pânico" da Jovem Pan, emissora assumidamente da direita fundamentalista, Greenwald relembrou o episódio e chamou Nunes de covarde por usar as crianças para atacá-lo. Foi quando Nunes surtou e deu um tapa no jornalista. A turma do deixa disso entrou em ação e mesmo quase imobilizado, Greenwald ainda tentou dar um soco no agressor, mas não acertou. O âncora do programa, Emílio Surita, fez piada machista sobre a briga - "Nem mulher briga tão feio que nem você”, disse.

A baixaria repercutiu nas redes sociais. 

A tropa de choque bolsonarista e seus robôs vibraram com a atitude do "herói" Augusto Nunes, mas agressão foi vigorosamente condenada por instituições e muitos internautas.

A atitude de Augusto Nunes, o novo Chuck Norris da direita, foi vista com um estímulo a mais às já frequentes agressões a jornalistas e aos meios de comunicação 

"Testamento" da falecida Playboy (Abril) é dívida...

A Editora Abril foi vendida, mas deixou um 'pendura". O STJ acaba de dar ganho de causa a Camila Pitanga em processo contra Playboy.  Não cabe mais recurso. Em 2012, a revista, então editada pela Abril, publicou fotos da atriz nua em cenas do filme do filme "Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios". Foram três imagens publicadas sem autorização, apesar de Camila Pitanga ter sempre se recusado a posar nua para a revista. Não foi divulgado quanto a atriz receberá de indenização. Sabe-se apenas que no começo do processo o valor requerido era de R$ 330 mil.

sábado, 2 de novembro de 2019

É rock! O que o navio Bouboulina tem a ver com Bop-A-Lena?

por Ed Sá 

O navio grego Bouboulina é apontado pelas autoridades brasileiras como o suposto responsável pela derramamento de petróleo nas praias do Nordeste. É impossível não associar o sonoro nome do superpetroleiro ao rock, a Jorge Ben Jor e a Raul Seixas.

A referência ao rock vem da associação com o rockabilly  Bop-A-Lena, o histórico hit de Ronnie Self que incendiou o verão de 1957.  Já a pronúncia abrasileirada que Ben Jor dava ao refrão da música - "Babulina" - liga o brasileiro ao Bouboulina.

Segundo a Wikipedia, Laskarina Bouboulina foi uma comandante naval e heroína da Guerra da Independência Grega em 1821. Capitã, foi postumamente nomeada para contra-almirante. Acredita-se que tenha sido a primeira mulher almirante da Marinha Imperial Russa.

Raul Seixas cantou Bop-A-Lena em 1973. Ouça AQUI

E ouça Bop-A Lena na voz do seu criador Ronnie Self, AQUI

ATUALIZAÇÃO em 05/11/2019 - O jornalista e cinéfilo Roberto Muggiati (ver comentários) acrescenta mais uma importante referência boubouliniana.
A do filme Zorba, o Grego, de 1964. Bouboulina é o apelido carinhoso que Antony Quinn (Zorba) dá à Madame Hortense (Lila Kudrova).  A atriz, aliás, ganhou o Oscar de Melhor Coadjuvante pela criação do personagem, uma ex-cortesã francesa que teve na sua cama as "Quatro Potências", os almirantes-chefes das armadas russa, inglesa, francesa e italiana no Mediterrâneo.
Mais Bouboulina: em agosto último, antes do nome do navio surgir no noticiário, foi inaugurado em São Paulo o bar-restaurante Laskarina Bouboulina. Pura premonição. Fica na Barra Funda. No cardápio, pratos que rementem à mesa da Bouboulina: mezzes de cafta crua, homus de feijão-fradinho, grão-de-bico assado, coalhada, pizza em formato de barca, escabeche de sardinha etc.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Halloween - Sabia disso? Bruxos atendiam clientes em agência bancária... Foi ontem, em Botafogo

por O. V. Pochê

O bordão "Halloween é o cacete" é da coluna do Ancelmo Góis, no Globo, a propósito do excesso de estrangeirismos de linguagem. Mas além do idioma, a invasão 'alienígena' também assedia comportamentos. O halloween, comemorado ontem, começa a ganhar ares e vassouras de festa popular.

Em pelo menos uma agência bancária do Rio, caixas atendiam os clientes vestidos de bruxas e bruxos. Aposentados que foram receber os caraminguás do fim de mês podiam pensar que já haviam sido teletransportados dessa para, espera-se, uma melhor. Para os jovens, o programa foram as centenas de festas particulares ou pagas que assombraram noites e madrugadas

Pensando bem, o Brasil já vive um ano de terror - às vezes tão ridículo que beira o terrir - liderado por duendes políticos ensandecidos.

Halloween, como se sabe, era inicialmente um festival celta que marcava o fim do verão, não tinha relação com bruxas. Essa ligação foi feita pelos católicos, a partir do Século II, para afastar os cristãos das celebrações pagãs e marcá-las como "coisa do diabo". Com o tempo, o Haloween ganhou conotação de "festa dos mortos". Foi levado pelos colonos para os Estados Unidos e, retrofitado, virou diversão.

O que não se esperava é que viesse parar em um caixa bancário de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Bom, faz sentido: com as taxas de juros que os bancos cobram dos seus clientes, ser atendido por bruxos não é fantasia: é puro terror. Trick or treat?

Mídia - Folha revela como foi feita a perícia mais rápida do Sudeste...

Depois de publicar matéria exclusiva sobre os "mistérios" do polêmico condomínio "presidencial", na Barra da Tujuca, no Rio de Janeiro, o Globo não parece demonstrar apetite para ir além dos documentos vazados. Após a reação de Bolsonaro e a velocidade inusitada com que instituições tentaram desmentir o que o JN revelou, a atitude jornalística seria pisar fundo na apuração para encontrar falhas na operação-desmonte da reportagem que surtou Bolsonaro e o levou fazer um live descontrolada e transoceânica.  O Grupo Globo limitou-se a rebater às agressões que sofreu com nota oficial quando deveria reagir com mais jornalismo. Foi o que a Folha fez ao apontar falhas na perícia do material gravado na portaria do tal condomínio feita em questão de minutos em cópia do sistema e sem acesso ao computado em questão, o equipamento que registra diálogos no interfone do tal condomínio. The Intercept também foi buscar uma revelação que mostra militância política por parte de uma promotora bolsonarista que investiga precisamente o... assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, ponto central do imbloglio que envolve os suspeitos endereços da Barra da Tijuca. Tudo indica que há muita história para contar em torno dessa pauta.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Publimemória: quando um anúncio foi capaz de comparar o 147 a uma Ferrari


por José Bálsamo

Logo que foi lançado, nos anos 1970, o Fiat 147 ganhou o apelido de Cachacinha. Era o primeiro modelo em série do mundo a beber álcool. Mas também ficou famoso por ser um carro-encrenca e ganhar a imagem de frágil. Nada disso impediu a Fiat de lançar o anúncio acima que induzia o freguês a comprar o 147 e sonhar com uma Ferrari. Tudo porque desde 1969, a Fiat passou a ser dona de metade das ações da Ferrari. Daí, um publicitário em devaneio criou a página que prometia na Manchete um 147 com "a mesma raça, estabilidade e desempenho" de um Fórmula 1. Publicidade também faz fake news.

Mídia: Jornal Nacional X Bolsonaro, o caso que virou 'case'

A guarita que virou notícia. Reprodução Twitter
por José Esmeraldo Gonçalves

Sob qualquer ângulo, o embate entre a Rede Globo e Jair Bolsonaro tem seu lugar garantido como objeto de estudo em salas de aulas das faculdades de Comunicação e Direito.

Virou "case". Há lambanças para todos os gostos e apetites.

Do ponto de vista jornalístico, o Jornal Nacional acertou e errou sobre o que aconteceu no Condomínio Vivendas da Barra no dia 14 de março de 2018, não por acaso o dia em que a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados no Estácio, bairro da zona Central do Rio de Janeiro. É fato que não mentiu: existe a declaração do porteiro, segundo a qual um elemento suspeito de participar do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes pediu acesso à casa do então deputado, obteve autorização de "Seu Jair", mas se dirigiu para a residência de outro suspeito de participar do atentado à vereadora. A Globo também informou, na mesma matéria, que havia uma contradição: naquele dia dia e hora Bolsonaro estava em Brasília e não poderia autorizar a entrada de quem quer que fosse. Pelo menos não via interfone, acrescente-se.

O Jornal Nacional tem o argumento válido de que apenas noticiou um fato e se baseou em informações colhidas em um inquérito policial. Mas qualquer jornalista sabe que editar um jornal ou uma revista é fazer escolhas. Determinados fatos são noticiados, outros não. Os motivos podem ser muitos, entre os quais questões políticas, ideológicas, comerciais, religiosas, pessoais e até jornalísticas.

Aquele fato envolvendo o Condomínio Vivendas, era, para os editores do JN, uma notícia importante. Pelo que se sabe, a Globo teve acesso a um documento vazado. Se todo fato deve ser exaustivamente apurado antes de ser noticiado, uma pauta vazada, mais do que qualquer outra, deve ser investigada. Até por cautela. Vazou porque? Quem teve interesse em vazar? A quem serve o vazamento? Quais as circunstâncias? Aparentemente, o JN não verificou o fundo desse poço.

Para grande parte da audiência, o vídeo de um Bolsonaro emocionalmente descontrolado e, em seguida, a divulgação dos arquivos de áudio do controle de entradas de pessoas no condomínio onde mora o ex-deputado funcionaram como um eficiente "desmentido". A gravação mostraria que o porteiro teria obtido autorização para a entrada do visitante diretamente ao morador da casa 65, a de um dos suspeitos de matar Marielle, e não com a casa 58, a do Bolsonaro.

Talvez tenham sido negligentes por força de um hábito recente. Ao longo de anos de divulgação de denúncias contra o ex-presidente Lula, a palavra de delatores, os vazamentos selecionados da Lava Jato e até pré-combinados com a força-tarefa - como mostram os conteúdos do grupo do Telegram dos revelados pelo Intercept - chegavam em proporções industriais às mesas do Grupo Globo e eram rapidamente embrulhados e oferecidos aos fregueses. A máquina institucional dos governos do PT, que isso seja reconhecido, não foi posta a serviço dos então presidentes Lula e Dilma, ou de qualquer ministro da época, para intimidar ou conter jornalismo ou a própria investigação da Lava Jato ou do Mensalão. Para obter desmentidos, os alvos dessas etapas tiveram que recorrer à justiça, um direito que a lei dá a todos os cidadãos. Bolsonaro, ao contrário, agiu rapidamente. Mobilizou instituições de Estado como se fossem suas. Acionou publicamente o ministro da Justiça, que tem a PF sob seu guarda-chuva, o Advogado Geral da União, a Procuradoria Geral da República e o MPRJ. Em poucas horas, o caso, pelo menos no que se refere a Bolsonaro, foi aberto e arquivado pela PGR e perícias teriam sido realizadas. Ao mesmo tempo, um dos filhos de Bolsonaro revelava os áudios da portaria do condomínio.

Com a velocidade de um Fórmula 1 em retas, respostas foram obtidas e o grande "culpado", o porteiro, foi logo apontado e praticamente "sentenciado".  Se o Caso Marielle se aproxima de dois anos sem todas as respostas, o Caso Condomínio foi velozmente autopsiado. E se o MPRJ, a Polícia Civil, o STF já tivessem essas respostas prontas no inquérito, então quem vazou o documento para o JN entregou apenas parte do material e deixou o filé ao ponto  - os áudios - para a mesa de outros  interessados.

Apesar dos indícios de ligações perigosas entre o clã no poder e os poderes de alguns milicianos, inclusive de óbvia vizinhança e de relacionamentos públicos, o JN, pela precipitação, acabou dando a Bolsonaro a chance de exibir para suas tropas de choque uma espécie de "atestado de boa conduta". Nesse caso específico, ressalte-se.

Faltou jornalismo investigativo, sobrou o vício do jornalismo declaratório, aquele que se contenta com documentos e aspas oficiais ou oficiosas e simplesmente os passa adiante.

Ainda há tempo de corrigir a mancada. Há muito a apurar. Mas há que tirar os repórteres, os bons repórteres, do ar condicionado.

Resta observar que nunca tantas e tão convictas autoridades apontaram o dedo-duro tão rapidamente para um porteiro. E o funcionário do Vivendas da Barra jamais imaginou que sua guarita seria atingida por um poderoso míssil político.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

John Legend e Chrissy Teigen: o casal que Trump odeia é capa da Vanity Fair



por Clara S. Britto

O cantor, compositor e produtor John Legend, no momento jurado do The Voice, a mulher e modelo Chrissy Teigen e os filhos estão na capa da Vanity Fair de dezembro. Falam sobre o amor, a infância e até sobre o "ser humano de merda" que atualmente está na Casa Branca. Ele mesmo, Trump. A revista acrescenta que eles formam "a primeira família que merecemos", em alusão ao atual clã que habita a Casa Branca. Trata-se de uma resposta ao presidente americano que, em setembro, tuitou que Legend era um "chato" e Chrissy "uma boca suja". Teigen deu uma resposta antológica: “lol what a pussy ass bitch. tagged everyone but me. an honor, mister president”. 
O ensaio reproduzido acima, capa e miolo, é assinado por Mark Seliger.

Fim de uma era - Fábrica Ford do ABC desliga os motores...

Itamaraty, carro lançado pela Willys. Posteriormente a Ford adquiriu a marca.

Rural: outro Willys que virou Ford, 

A Ford herdou da Wyllis o projeto do Corcel, que desenvolveu. Foi um sucesso de vendas. 

A Fatos & Fotos registra o lançamento do Ford Galaxie, em janeiro de 1967. Era o carro mais luxuoso fabricado no Brasil.

por Ed Sá 

No ano em que comemora 100 anos de Brasil - foi fundada em 1919 para montar os modelos de automóvel T e o caminhão TT - , a montadora Ford apaga a luz e fecha os galpões da unidade Taboão, no ABC Paulista, inaugurada há 52 anos. A informação
está nos jornais de hoje.

Menos empregos e fim de um longo ciclo. A empresa chegou a ter quase 3 mil funcionários na unidade. Os últimos 600 serão demitidos nos próximos dias.

Antes de tirar definitivamente a chave da ignição, a Ford Brasil pôs nas ruas e jipes e automóveis que marcaram época nas ruas e nas páginas das revistas, como a Fatos & Fotos.

O mistério da Casa 58

por O. V. Pochê

Pode até render uma série do cineasta José Padilha na Netflix. A Casa 58, encravada em um condomínio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, é o mais novo mistério nacional ao lado do sumiço dos ossos de Dana de Teffé, do roubo da Taça Jules Rimet, da ziquizira de Ronaldo Fenômeno na Copa da França e do destino dos processos de Aécio Neves. Algo ronda o endereço particular de Jair Bolsonaro muito além do pão com leite condensado, a iguaria principal do cardápio da residência. Antes, descobriu-se que um dos amigos do clá, o PM Ronnie Lessa, um dos chefes da milícia e suspeito de matar Marielle Francose Anderson Gomes, segundo as investigações, é vizinho do capitão inativo-presidente. Agora, a polícia revela que no dia do assassinato da vereadora e do seu  motorista, em março de 2018, o segundo acusado do crime, Élcio de Queiroz,  entrou no condomínio dizendo que iria à Casa 58, de Bolsonaro. Registros da portaria mostram que ele foi autorizado a entrar, embora o capitão-presidente, então deputado, estivesse em Brasília, na Câmara. O porteiro disse quee "seu Jair autorizou a entrada". O caso foi revelado, ontem, pelo Jornal Nacional. Bolsonaro, em viagem ao exterior, reagiu com um vídeo onde aparentemente descontrolado acusa a Rede Globo e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.
As crises políticas no Brasil teimam em apresentar um elemento imobiliário sempre intrigante. Para Fernando Collor foi a Casa da Dinda; O MP não provou mas acusou Lula de ser dono do triplex no Guarujá e de um sítio em Atibaia; Sérgio Cabral se enrolou com a mansão de Mangaratiba; Temer teria recorrido a um "laranja" para reformar a mansão da filha;  Geddel Vieira guardava mais de 50 milhões de propinas em um apartamento-cofre; Fernando Henrique teria um apartamento milionário em Paris; José Sarney ocupou um convento tombado para guardar seus pertences e foi obrigado a devolver o patrimônio público: e Bolsonaro foi flagrado recebendo auxílio-moradia embora tivesse apartamento próprio em Brasília. Ele alegou que o imóvel estava à venda. “Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava pra comer gente”, justificou ele.

Atualização em 31/10/2019 - Áudios revelados ontem, além de informações do MPRJ em coletiva, comprovam que a autorização dada ao suspeito de assassinar Marielle Franco e Anderson Gomes, Élcio de Queiroz, para acesso ao condomínio Vivendas da Barra, não partiu da casa 58, de Jair Bolsonaro, mas da casa 65, de Ronnie Lessa, o outro suspeito por participar do atentado à vereadora. Os áudios contradizem, segundo o MPRJ, a versão do porteiro dada em depoimento.

Caneta Azul, o hit da nova era...

por O.V.Pochê

Confirmado em mais de 3 milhões de acessos: a era Bolsonaro tem finalmente uma trilha sonora intelectual e musicalmente à altura e o Ministério da Educação tem seu hino. "Caneta Azul" é o hit do momento.

Postada no dia 3 de outubro, a canção composta pelo maranhense Manoel Gomes virou sucesso desbancando medalhões em números de cliques na internet. O refrão é algo como
"Caneta azul, azul caneta/Caneta azul tá marcada com minhas letra/Caneta azul, azul caneta/Caneta azul tá marcada com minhas letra". A letra descreve um "drama popular": o triste extravio de uma caneta. "Eu perdi minha caneta e eu peço, por favor/Quem encontrou, me entrega ela/A professora, ela veio brigar comigo/Porque eu perdi a última caneta que eu tinha/Não brigue, professora, porque eu vou comprar outra canetinha".

Duvida? Ouça AQUI

Caneta, aliás, é aparentemente um fetiche da nova era. Bolsonaro ostentava um Bic até se indispor com Emmanuel Macron e descobrir que a caneta é francesa. Resolveu trocá-la por uma Compactor alegando ser produtor brasileiro. Não é. É alemã, terra de outra desafeta do Bozo, Angela Melker.

Tá difícil. Nem o Curinga dá jeito na bagunça.

Para livrar os ouvidos do passado musical do país, registre-se que já houve outros azuis em nosso céu (que não eram de anil, nem de índole varonil...)

Que o digam Tim Maia (AQUI)  e Elis Regina (AQUI)

Rosa Freire D"Aguiar, ex-Manchete, lança "Celso Furtado - Diários Intermitentes"

Em uma época em que predominam os economistas e jornalistas "de mercado", é mais do que recomendável ler Diários Intermitentes de Celso Furtado lançado por Rosa Freire D'Aguiar.
A autora é viúva do economista e foi correspondente da Manchete em Paris nos anos 1970/1980 e colaboradora da Fatos & Fotos e Pais & Filhos. Com reprodução de documentos e fotos, o livro revela anotações dos diários de Celso Furtado.
A propósito, ele defendia a ideia de que o subdesenvolvimento não é um rito de passagem para o desenvolvimento e sim uma condição de dependência crônica frente aos países industrializados. Para superá-la é necessário redirecionar a economia rumo a um desenvolvimento social.
Mais ou menos o oposto do que prega o neoliberalismo que leva a concentração de renda a índices selvagens.

sábado, 26 de outubro de 2019

Fotografia: um monumento à democracia

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Plaza Itália - Santiago do Chile - Foto de Susana Hidalgo/Instagram
Santiago foi tomada ontem por um milhão de pessoas em protesto contra as consequência de uma política econômica que tem a marca da brutalidade neoliberal. Recuperar direitos e lutar contra a enorme desigualdade a que o Chile foi conduzido pelos fanáticos da especulação financeira e do mercado acima de tudo são as palavras de ordem.

A foto é da chilena Susana Hidalgo, publicada no Instagram @su_hidalgo.

É mais uma imagem que viralizou nas redes sociais, especialmente nas páginas dos brasileiros que sentem nas pele a ofensiva rentista do atual governo, com resultados muito mais graves em desemprego e supressão de direitos, em um processo ainda mais violento e criminoso de transferência de renda para os mais ricos.

Fotografia - Chile: o violinista no protesto

O violinista. Foto de Cristobal Venegas. (links no textos) 

Cristobal Venegas é o autor dessa foto publicada pela BBC Brasil.  Segundo ele, o violinista tocava em meio aos protestos na capital chilena.
A polícia atirava nos manifestantes, enquanto médicos voluntários ajudavam os feridos.
O músico tentava incentivá-los.
Venegas é um fotojornalista freelancer que aponta as lentes para as violações de direitos humanos, a violência contra os gêneros e as agressões ao meio ambiente em países da América Latina

Fotografia: essa imagem viralizou no mundo

Everton, o pequeno herói. Foto de Leo Malafaia publicada na Folha de São Paulo (link da matéria abaixo)

O derramamento de óleo que atingiu o litoral do Nordeste comprometeu praias, mangues, a vida animal e pessoas. O que um governo odioso trata como questão ideológica, quase como se dissesse "toma essa ambientalista, vire-se", é um drama profundo. Um fotógrafo da AFP, Leo Malafaia, fez a foto acima, que a Folha de São Paulo publicou ontem. O texto descreve: "um menino sai da água do mar com os olhos fechados e os braços abertos, em um gesto de impotência, com o corpo coberto por um saco de lixo, empapado de óleo". 
Everton Miguel dos Anjos, 13 anos, ajudava os voluntários a retirar petróleo das praias.

VEJA A MATÉRIA COMPLETA NO FOLHA, AQUI

Capa da Allure: Sharon Stone aos 61 anos, eterno instinto selvagem


Gotty/ Allure. Foto postada por Sharon Stone no Instagram


Na capa da Women's Health: o verão é de Paolla Oliveira



Paolla Oliveira na capa da Women's Health. A revista, que já pertenceu à Abril, é hoje da Rock Mountain Sports Content especializada no segmento esporte, bem-estar e vida ao ar livre.

Chile: a face dramática do neoliberalismo selvagem. O mesmo que o Brasil agora abraçou...


Chega a ser comovente o esforço do neoliberalismo brasileiro encastelado na mídia conservadora para desvincular as manifestações no Chile do impacto selvagem da política econômica dos chamados Chicagos Boys - os filhotes intelectualmente molestados por Milton Friedman -, que tiveram forte participação na ditadura de Pinochet. As imposições do radical Consenso de Washington, cujos resultados se tornaram dramáticos em várias economias, são hoje contestadas. Menos no Brasil. Paulo Guedes, o atual ministro da Economia, é egresso dos porões acadêmicos de Pinochet e aplica aqui as políticas que na imaginação dos "boys" deveriam fazer do Chile um paraíso neoliberal. Da mesma forma que aqui, lá trocaram artigos da Constituição por "leis" do mercado financeiro especulativo.

Na Folha de hoje, Roberto Simon arruma uma explicação prosaica para a crise chilena. Diz que o país não conseguiu dar conta das demandas criadas por uma nova classe média. Nova classe média? A pobreza, a concentração de renda e a desmonte das políticas sociais levam a população às ruas. Não é que a "nova classe média" sinta falta de Paris e da Disney, é empobrecimento mesmo. No começo dos anos 2000, enquanto o "milagre" chileno era exaltado pelos neoliberais, os subúrbios das grandes cidades já exibiam os sinais da tragédia social como produto final da era Pinochet. Quem fosse a Concepción, no sul do país, veria o drama em favelas, algumas com barracos de papelão, sob os rigores do inverno.

O futuro te espera na próxima esquina, Brasil

Na capa da Istoé: o cabaré em chamas