terça-feira, 26 de setembro de 2017

Mostra "Retratos Inversos" reúne fotos de Ricardo Beliel, ex-Manchete, e poesias de Luciana Nabuco...


Foto de Ricardo Beliel/Divulgação

Fotografia + Poesia. Uma rima que tem tudo a ver. É o que mostra "Retratos Inversos" em cartaz do Centro Cultural da Justiça Federal.

A exposição combina inspirações: as imagens feitas por Ricardo Beliel, fotógrafo que trabalhou na Manchete, e o texto poético de Luciana Nabuco em projeção audiovisual.

A curadoria é de Nadja Pelegrino e Marcos Bonisson. Edição de vídeo e sonoplastia de Alessandra Vitoria. "Retratos Inversos" pode ser vista até 12 de novembro, de terça a domingo - 12h às 19h na Galeria do térreo do Centro Cultural da Justiça Federal, na Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro – RJ.

Do portal STF: Suspensa decisão de juiz de Teresina (PI) que mandou retirar notícias de site

(do canal Notícias STF)

"O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu decisão do juiz de Direito do 3º Cartório Civil de Teresina (PI) que determinou a retirada de notícias do Portal 180 Graus referentes aos autores de uma ação indenizatória. A decisão foi tomada na análise do pedido de liminar na Reclamação (RCL) 28262, ajuizada no STF por jornalistas e pela empresa responsável pelo site. Os autores alegam que a decisão questionada fere a liberdade de imprensa e a decisão do Supremo na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 130.
A decisão do magistrado de primeiro grau determinou a retirada de notícias do portal relacionadas aos autores da ação, além de determinar que a página se abstivesse de divulgar novas notícias "que atingissem a honra dos autores”. Para os reclamantes, a decisão teria violado a autoridade da decisão do STF no julgamento da ADPF 130, na qual o Supremo declarou como não recepcionada, pela Constituição Federal de 1988, a Lei 5.250/1967 (Lei de Imprensa) e reconheceu que a liberdade de imprensa é incompatível com qualquer espécie de censura prévia e irrestrita.
Ato censório
Para o ministro Fachin, a decisão questionada teve como objetivo evitar a propagação de conteúdo supostamente ofensivo da matéria jornalística, sem contudo discorrer, ainda que de forma sucinta, sobre o conteúdo. “Por meio de decisão judicial, removeu-se temporariamente textos jornalísticos que se reputou potencialmente causador de constrangimento indevido aos autores da ação”. Para o relator, a medida caracteriza “nítido ato censório”, sem a devida fundamentação.
Não se trata, ao menos à época dos fatos noticiados, de divulgação de informações que se reputem manifestamente falsas ou infundadas, frisou o relator, além de haver nítido interesse da coletividade à informação veiculada. O ministro explicou, contudo, que seu posicionamento não caracteriza qualquer juízo sobre a procedência ou não do que pretendido pelos autores na ação indenizatória.
O tom descritivo utilizado pelas peças jornalísticas em questão e a remissão às informações e documentos oficiais obtidos por meio do órgão encarregado da investigação do caso – Tribunal de Contas do Piauí –, indicam, ao menos em uma análise inicial, “a aparente consonância da matéria com a realidade fática e jurídica a que estariam submetidos os autores da ação indenizatória”.
Ao determinar a suspensão da decisão do juiz de primeiro grau, o ministro lembrou que a jurisprudência do Supremo tem admitido, nos casos de reclamação fundada no julgamento da ADPF 130, que se suspenda a eficácia ou até mesmo sejam definitivamente cassadas decisões judiciais que determinem a não veiculação de determinados temas em matérias jornalísticas."

Da revista Piauí: Rogério 157 agora é Rogério 45...

Segundo meme da Revista Piauí, o traficante da Rocinha concluiu que a saída pode ser apenas um troca de número: deixar de lado o 157 e aderir ao 45 dos tucanos e aproveitar a expertise do PSDB.
Nesta terça-feira, o STF analisará o terceiro pedido de prisão contra Aécio Neves. A defesa do senador confia que vencerá mais essa batalha.
Atualização, 19h30. - A Primeira Turma do STF negou pedido de prisão contra Aécio Neves. Mas determinou a perda do cargo, além de proibir que o político investigado deixe o país. A decisão já está valendo. O caso, contudo, deverá ir ao plenário do STF.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Reforma Trabalhista é ninho de passaralhos e ficaralhos...

por Ed Sá

Crise econômica, mudança de modelos na comunicação e o fechamento de veículos impressos eliminaram muitos postos de trabalho (principalmente de carteira assinada) para jornalistas em todo o país.

São pessimistas as expectativas quando da implementação da reforma trabalhista no próximo mês de novembro. Pelo menos uma editora já demonstrou interesse em utilizar profissionais em regime de horários parciais. A reforma também facilitará demissões e engessará a possibilidade de recursos à Justiça do Trabalho. Daí os rumores em algumas redações de que poderá haver passaralhos no fim do ano.

Dezembro é, aliás, mês da preferência dos RHs para passar o rodo em empregos. Em pelo menos uma dessas ocasiões, houve uma brecha para o humor em meio ao drama.  Foi em dezembro de 1973, quando o Jornal do Brasil sofreu um terremoto de rescisões. Alberto Dines foi demitido do comando do JB e a onda sísmica que se seguiu arrastou dezenas de empregos em todas as editorias.

Naquele dia, os redatores Joaquim Campello e Nilson Viana, do JB, criaram o vocábulo passaralho e o definiram em um caprichado verbete.

"Passaralho s.m. (brasil). Designação popular e geral da ave caralhiforme, falóide, família dos enrabídeos (Fornicator caciquorum MFNB & WF). Bico penirrostro, de avultadas proporções, que lhe confere características específicas, próprio para o exercício de sua atividade principal e maior: exemplar. À sua ação antecedem momentos prenhes de expectativa, pois não se sabe onde se manifestará com a voracidade que, embora intermitente, lhe é peculiar: implacável.

Apesar de eminentemente cacicófago, donde o nome científico, na história da espécie essa exemplação não vem ocorrendo apenas em nível de cacicado.  Zoólogos e passaralhófitos amadores têm recomendado cautela e desconfiança em todos os níveis; a ação passaralhal é de amplo espectro. Há exemplares extremamente onívoros e de atuação onímoda. Trata-se este do mais antigo e puro espécime dos Fornicatores, sendo outros, como p. ex., o picaralho, o birroalho, o catzralho etc., espécimes de famílias espúrias submetidas a cruzamentos desvirtuados do exemplar. Distribuição geográfica praticamente mundial.

No Brasil é também conhecido por muitos sinônimos, vários deles chulos. Até hoje discutem os filólogos e etimologistas a origem do vocabulário. Uma corrente defende derivar de pássaro + caralho, por aglutinação; outra diz vir de pássaro + alho. Os primeiros baseiam-se em discutida forma de insólita ave; os outros, no ardume sentido pelos que experimentaram e/ou receberam a ação dele em sua plenitude.

A verdade é que quantos o tenham sentido cegam, perdem o siso e ficam incapazes de descrever o fenômeno. As reproduções que deles existem são baseadas em retratos-falados e, por isso, destituídas de validade científica."

Hoje, passaralho é verbete no Houaiss, como qualquer outra palavra do idioma de Camões..


Quando a Bloch deu pinta de que administrar uma rede de TV era peso demais para os seus pilares, demissões coletivas se intensificaram nas revistas.

Lá pelo fim da década de 1980, os corredores da empresa faziam previsão de um corte de 20% em todas as revistas. A ceifadora ainda não estava ligada, mas a alta tensão, sim. Não havia muito a fazer contra a guilhotina, a não ser esperar.

Como conta o livro "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou" (Desiderata), Alberto Carvalho, eterno gozador, aprontou uma das dele para descontrair o ambiente:


E o ficaralho, você conhece?

Contando a partir de 2013, cerca de 4 mil jornalistas foram demitidos em redações de todo o Brasil. Com as equipes reduzidas, sobrou sobrecarga de trabalho para quem foi poupado pelo passaralho da vez. Na época, o jornalista Bruno Torturra criou uma sugestiva derivação da ave caralhiforme que dizima empregos: o ficaralho. Esse exótico pássaro é predador de jornalistas que escapam do rodo e passam a acumular funções após as demissões em massa.

Resta torcer para que neste dezembro, passaralhos e ficaralhos não ataquem as redações pós-reforma trabalhista.

Jornalista Luis Nassif é condenado por infringir "dano moral" a Eduardo Cunha...

A 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reviu sentença da primeira instância e condenou o jornalista Luís Nassif por dano moral infringido ao ex-deputado Eduardo Consentino da Cunha.

O vitorioso Cunha alegou ter "sofrido dano moral em virtude de matéria jornalística veiculada na página da Internet administrada pelo réu".

A Justiça julgou que "a matéria em comento macula a dignidade do autor ao associar o seu nome a criminosos e a esquema de sonegação de impostos". Nassif foi condenado a pagar a Cunha indenização de vinte mil reais mais custas. Você pode ler a sentença completa AQUI.

domingo, 24 de setembro de 2017

A minha Fatos & Fotos: outubro 1969 - setembro 1970



Rua do Russell, 804, 7° andar, 23 de fevereiro de 1970, uma segunda-feira. Eu, por trás da
mesa em L, o Evaldo Vasconcelos atrás, dando suporte telefônico. Ao centro, os três redatores, Paulo Perdigão,
Argemiro Ferreira e Sérgio Augusto. Na foto abaixo, aparecem Ézio Speranza e uma assistente (o Oswaldo
Carneiro está oculto), à direita, o Cândido, o segundo diagramador. E a tela de Brennand -  até os cinzeiros da
Bloch eram assinados pelo artista pernambucano. Foto de Antonio Trindade/Acervo R.M. 

Redação da Fatos & Fotos, 1970. Foto de Antonio Trindade/Acervo R.M

Por Roberto Muggiati

Depois de dois anos marcantes como repórter especial da Manchete, fui convidado no início de 1968 pelo Mino Carta para fazer parte da equipe que prepararia em São Paulo o lançamento da Veja, um ambicioso projeto do Victor Civita de criar uma versão brasileira da Time.

Abri o jogo aos Bloch e disse que, se cobrissem a oferta da Abril, eu continuaria com eles. Foram evasivos e vieram com promessas vãs. Instalaram-me numa mesa grande com um contínuo num grande vazio no terceiro andar da Frei Caneca. Aquilo seria a redação da futura Pais & Filhos, a ser lançada no fim do ano, da qual eu seria o diretor. “Sim, tudo bem, mas e o salário?” O Oscar me respondeu que o salário de diretor seria pago depois que a revista fosse às bancas e se tornasse um sucesso de vendas. Era uma perspectiva muito remota para o meu gosto e, do ponto de vista jornalístico, uma pobre escolha comparada à Veja – ainda mais eu, que filho já fora, mas nunca pensara em ser pai... Depois de um breve bate-boca pedi demissão. O diplomático Paulo Pellicano diretor do Departamento do Pessoal, ainda perguntou ao Oscar se eu me demitira ou fora demitido.

Saí da Bloch com um livro a ser lançado pela editora, Mao e China, cujos cinco mil exemplares ficaram empilhados na gráfica de Parada de Lucas à espera da distribuição para as livrarias. Meses depois, já na Veja, sou procurado em São Paulo pelo Alcídio Mafra, que cuidava dos livros da Bloch, e informado de que o Adolpho não iria mais lançar o livro, em represália à minha ida para a Abril.

Para não ter prejuízo com todo aquele papel já impresso, Adolpho acabou passando Mao e a China para outra editora. Vendo-me como traidor da pátria, dei por encerrados meus dias na Bloch. Mas o exílio em São Paulo não estava me fazendo bem. Passava o dia afundado no trabalho insano na Marginal do Tietê, a Veja não ia nada bem (dos 800 mil exemplares do lançamento em setembro de 1968, a circulação nacional tinha caído para 30 mil em janeiro de 1969) e minha mulher passava o dia inteiro isolada num casarão do Pacaembu com pensamentos suicidas. Foi no auge dessa crise que recebo um telefonema insólito e ouço a voz maviosa do nosso Salomão Schvartzman, o vice-rei da Bloch em São Paulo. Perguntava se eu não gostaria de conversar com o titio no Rio, tinha já uma passagem reservada na Ponte Aérea para mim.

Meu reencontro com o Adolpho se deu numa segunda-feira complicada em que a Manchete fechava a edição com a libertação – na tarde de domingo diante de um Maracanã lotado – do embaixador americano sequestrado. Mas a conversa foi breve e conclusiva: Adolpho me convidava para ser chefe de redação da Fatos & Fotos, cargo vago com a saída do José Augusto Ribeiro, meu companheiro das primeiras lides jornalísticas no jornal do Colégio Estadual do Paraná de Curitiba, em 1952.

Só depois de voltar ao Rio descobri o logro em que caíra. Na redação de Fatos & Fotos peguei os últimos dias do diretor de redação Cláudio de Mello e Souza – queridinho da Lucy Bloch, que foi se empossar do importante cargo de chefe do escritório da Bloch Editores em Portugal e Algarves, em Lisboa. Assim, com um salário de chefe de redação, tiver de fazer em Fatos & Fotos o trabalho de chefe de redação e de diretor da revista.

Fatos & Fotos foi criada no ano da fundação de Brasília por sugestão de Alberto Dines com uma proposta muito bem definida, inspirada na semanal francesa Noir & Blanc: uma revista dinâmica de fotos com textos pequenos. Acontece que o aquecimento do mercado publicitário na segunda metade dos anos 60 – em função da expansão das indústrias automobilística, de eletrodomésticos, de moda, cigarros e bebidas – foi um verdadeiro maná para as revistas ilustradas (bem mais do que para os jornais e para a televisão, que não tinham cor). Criaram-se cadernos em cor na Fatos & Fotos, só para os anúncios, mas acabaram sendo usados também para matérias jornalísticas e a F&F se tornou uma concorrente direta da Manchete. Em 1968, uma equipe de redatores jovens eclipsava os “dinos” da Manchete. Nomes como Lucas Mendes, Nilo Martins, Paulo Henrique Amorim, Ronald de Carvalho, Hedyl Valle Jr, Luiz Lobo – para sorte da Bloch saíram todos na grande diáspora para as revistas da Abril.

Quando passei a dirigir a Fatos&Fotos no final de 1969, a equipe era mínima e o talento local, com destaque para Sérgio Augusto, Paulo Perdigão e Argemiro Ferreira. Vieram depois o Cícero Sandroni, o Juarez Barroso – bom romancista que morreu cedo – o Ely Azeredo, que não resistiu ao ar condicionado e saiu uma semana depois. A gestão da revista era totalmente esquizofrênica: seu padrinho, Alberto Dines, era a essa altura o todo-poderoso editor do Jornal do Brasil. Mas passava toda manhã em F&F para acertar a pauta com a redação. O que o Dines fazia de manhã era desfeito à tarde pelo Oscar e Jaquito, que vinham queimar sua adrenalina na F&F, já que Adolpho os proibia de ciscarem na Manchete, que era terreiro exclusivo dele.

Foi assim que protagonizei a ruptura final de Dines com os Bloch (havia a agravante de que ele era casado com a sobrinha do Adolpho, a Rosaly.) Dines na manhã da quarta-feira, dia de fechamento da revista, que ia às bancas às sextas, definiu a capa: seria João Saldanha, que tinha acabado de se demitir como técnico da seleção brasileira, em reação à tentativa do presidente ditador Emilio Garrastazu Médici, colorado roxo, de escalar por força o Dario Peito de Aço (Dadá Maravilha) no “escrete canarinho”. Mas, naquele dia foram anunciados os vencedores do Festival de Cinema de Punta del Este e o Brasil ganhou o prêmio maior com Macunaíma. Os Bloch, apoiados na filosofia sólida de que “homem na capa não vende” e na exaltação de “mais uma vitória para nossas cores”,  optaram por botar na capa uma bela foto de Dina Sfat e Paulo José, do filme premiado.

Eu tinha de manter Dines sempre informado das andanças na F&F e passei um telex para ele no JB dizendo da escolha de capa dos Bloch. Em resposta, ele mandou um telex nestes termos: “Muggiati, comunique aos Bloch que, se eles não se mostram dispostos a levar em conta o meu tirocínio jornalístico, então estou dando uma de João Saldanha e tirando o time de campo.” E nunca mais Alberto Dines pisou nas dependências de Bloch Editores ou da família Bloch.

Durei menos de um ano na chefia de mais alta rotatividade da empresa. Mas foi um tempo vibrante. Ainda em 1969, fechei as capas com a morte de Carlos Marighela em São Paulo e do Gol Mil do Pelé no Maracanã. Na Copa do México, coube a F&F o malote do primeiro jogo do Brasil. Pincei daquela montanha de fotos o clique imortal do Orlando Abrunhosa, Pelé comemorando seu primeiro gol na Copa com um soco no ar, escudado por Jairzinho e Tostão, batíamos a foto de Os Três Mosqueteiros.

À medida que o Brasil ia seguindo em frente, vendemos muita revista – Manchete e F&F – encartando bandeirinhas e outros suvenires da pátria em chuteiras. Escondido do Adolpho – Hélio Bloch era meu apoio logístico na Fatos&Fotos – imprimimos cadernos inteiros de uma edição especial do tricampeonato. Depois da exuberante final Brasil 4 x 1 Itália, saí correndo de casa do Leme – atravessando multidões que comemoravam a vitória nas ruas, trombei até com o Clovis Bornay – e fui à redação do Russel para fechar as últimas páginas. Fatos&Fotos foi a primeira revista comemorativa do Tri, nas bancas de manhã cedo na terça-feira.

Isso não impediu que eu fosse detonado da chefia da revista – para imenso alívio meu – em setembro, sucedido por Raul Giudicelli, com a proposta de fazer uma revista “menos séria, mais descontraída”.
Costumo encontrar aquele jovem diagramador de nome (e temperamento) Cândido nas ruas de Botafogo. Hoje mesmo, domingo, cruzei com ele na Real Grandeza e perguntei: “E aí, Cândido, saudades da Fatos & Fotos?” E ele respondeu com firmeza: “Muitas saudades, Muggiati, muitas...”

Relógio do Apocalipse: encontro marcado com a Bomba H


Bombardeiro B1-B e caça F-15 sobrevoam litoral da Coréia do Norte. Foto U.S. Air Force


Cena do filme Dr.Strangelove. B-72 sobrevoa "União Soviética". Foto Divulgação

A foto no alto é de ontem. Acima, cena do filme "Dr. Fantástico" (Dr. Strangelove or : How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb"), lançado em 1964, no auge da Guerra Fria. Um general americano supôs que espiões soviéticos envenenaram a águas das grandes cidades dos Estados Unidos e  despachou os B-72 para bombardear a URSS. A ficção de Stanley Kubrick começa a competir com a realidade do embate entre Donald Trump e Kim Jong-un. Se os dois "generais" vão superá-la, veremos nos próximos meses.

O certo é que o Relógio do Apocalipse, da Universidade de Chicago, também conhecido com Doomsday Clock, foi adiantado em 30 segundos. Também conhecido como "Relógio do Fim do Mundo", o dispositivo simbólico foi criado por cientistas em 1947 com o ponteiro marcando 2 minutos e meio para a meia-noite, que seria o ponto zero do fim da humanidade.

A novidade é que para mexer no ponteiros, os cientistas agora levam em conta as mudanças climáticas, além da bomba. E o governo Trump tem contribuído para as duas ameaças. O empresário renega acordos ambientais assinados pelos Estados Unidos e dança com Kim Jong-un um perigoso balé nuclear.

Abaixo, o gráfico mostra as oscilações do Relógio do Apocalipse, que foi criado há 70 anos. Boa sorte para o Planeta Terra.

Reprodução Wikipedia



Beludo ataca novamente...


por Ed Sá

A apresentadora Bárbara Coelho, do programa Gol, do SporTV, caiu ao vivo em uma pegadinha já manjada. Ao ler o comentário de um internauta via twitter ela citou o popular "Cuca Beludo".
O mesmo "cidadão" já "compareceu uma vez ao programa de Maria Beltrão, no Globo News.
O vídeo está no You Tube. Clique AQUI 

Cadê os X-9 que estavam aqui?

por O.V.Pochê

O Brasil vive a era dourada dos caguetas. Tem até fila para delação premiada. Segundo O Globo de hoje, Sérgio Cabral e seus parceiros já estão se desentendendo no presídio à medida em que antigos participantes do "trenzinho" na noite parisiense se penduram na delação como única forma de diminuir os prejuízos. Tem cagueta disposto a não poupar nem a cara-metade, muito menos a mãe.

Ao ver que alguns delatores viraram celebridades e preservaram parte dos ganhos, além de se livrar da cadeia fechada propriamente dita, tudo mundo que entrar nessa boquinha. Por enquanto, o doleiro Alberto Youssef é uma espécie de guru da modalidade. Ele já foi delator no processo do Banestado - foi "acordo de colaboração", já que não existia no Brasil a figura jurídica da "delação premiada" - , deu-se bem, reincidiu no crime, repetiu a dose premiada na Lava Jato e já está em seu apê paulista e com direito a percentual em parte da grana que for localizada graças à sua delação.

Antonio Palloci sonha em ser X-9, mas ainda não sabe se sua delação será aceita. Ele já tentou várias vezes, ensaiando vários conteúdos. Insinuou que tinha muito a dizer sobre o sistema financeiro e sobre as grandes corporações da mídia. Não colou, "dona Justa" não achou que fosse por aí. Avançou um pouco junto a suas excelências ao centrar fogo em Lula. Palloci parece precisar de mais tempo para encontrar o tom certo da sua delação.

Pouca gente lembra, mas o Brasil já ajudou a criar um delator famoso e não falo do Calabar. Em 1984, foi preso o mafioso Tomaso Buscetta, que a pronúncia do Jornal Nacional chamou de "Busketa", para evitar que a família brasileira entrasse em pânico ao ouvir Cid Moreira dizer via satélite "Boa Noooite! Juiz pede condução coercitiva para Bucetta". O italiano foi preso pela PF e deportado para a Itália. Lá, entregou a Cosa Nostra, teve punição aliviada, ganhou um salário e proteção policial até morrer na cama, de câncer, em 2000.

Há dúvida na História para se identificar o ancestral dos atuais delatores. O ministério público  bíblico ainda não sabe exatamente quem dedurou Adão por ter comido a maçã depois que Eva deu uma dentada no "fruto proibido. A cobra? Estudiosos não sabem, na verdade se a fruta era maçã ou jabuticaba do "conhecimento". De qualquer forma, o crime do primeiro casal - não confundir com Sérgio e Adriana - já prescreveu. Até prova em contrário, o título de primeiro X-9 premiado passa então para o conhecido Judas.

A charge de Schröder, acima, foi publicada pela Mídia Ninja, no Twitter.

É possível, segundo um pergaminho cifrado encontrado mas não enviado na caixa postal de Herodes, que os ladrões tenham se livrado da cruz ao denunciar à força-tarefa romana que Jesus pretendia ressuscitar. E que Maria Madalena estava envolvida no acontecimento. De fato, os romanos passaram a perseguir a seguidora de Cristo,testemunha da ressurreição, que fugiu para a Gália, a atual França. Se non è vero, è ben trovato.

sábado, 23 de setembro de 2017

Fotomemórias das redações: eles se 'teletransportavam' entre o JB e a Bloch...


Os diagramadores Oswaldo, Nélio e Laerte, que trabalharam na Bloch e no JB posam
na sacada da antiga sede do JB, na Av. Rio Branco. A foto é dos anos 60, pertence ao acervo
de Laerte e foi publicada originalmente no blog Álbum Jotabeniano. 

No detalhe de uma foto do acervo de Nélio Horta, Ezio Speranza e Laerte Gomes
na redação da Fatos & Fotos na rua Frei Caneca, nos anos 60.

Oswaldo e o repórter e redator Sérgio Riff no JB, sede da Av. Brasil. Foto publicada
originalmente no blog Álbum Jotabeniano.

Até as décadas de 1970 e 1980, a imprensa carioca oferecia mais diversidade como opção de trabalho para jornalistas. Quer dizer, havia mais patrões à disposição. Sem enumerar todos os veículos, eram cerca de oito jornais diários e quatro editoras de revistas pertencentes a dez empresas. Era comum a rotatividade de profissionais nessas redações. Talvez fosse raro encontrar um jornalista que não tivesse passado ou viesse a passar por quatro a cinco desses grupos ou veículos.

Na extinta Bloch, por exemplo, eram muitos os coleguinhas que de lá saíram para o Jornal do Brasil ou que fizeram o percurso inverso.

Mas havia uma classe, a dos diagramadores, que até acumulou os quatro endereços: a Bloch, na Frei Caneca e, depois, no Russell, e o JB na Rio Branco e, em seguida, na Av. Brasil. Fácil de explicar: o horário de trabalho nas revistas era normalmente das nove às seis, com raros "pescoções" nos fechamentos; para os diagramadores, especialmente aqueles que desenhavam os cadernos de Cidade, Política, primeira página etc do JB, a demanda começava às seis, sete horas.

Era uma correria, mas, segundo eles, era possível conciliar os dois times.

Jornalistas que trabalharam no lendário JB criaram em 2010 um blog de memórias. Desde 2013 não é atualizado, mas tem fotos memoráveis e pode ser acessado no endereço http://albumfotojotabeniano.blogspot.com.br/

 há fotos de várias colegas que acumulando ou em épocas diferentes tiveram a  Bloch e o JB nas suas trajetórias profissionais, como os  diagramadores Nélio Horta, Oswaldo Carneiro, Laerte Gomes e Ezio Speranza e o repórter e redator Sergio Riff, que depois de passar pelo JB trabalhou na Fatos & Fotos, Fatos e EleEla. 

Este Panis já contou o "causo" de um fotógrafo da Manchete que recebeu duas ordens de serviço para o mesmo dia e horário, uma em Niterói e outra na Barra da Tijuca, e, indignado, reclamou com o chefe de reportagem: “Cara, olha só, eu não sou onipotente, não!”.

No caso, os acima citados diagramadores JB-Bloch conseguiam ser onipresentes. Com igual competência e arte.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

New York Times publica foto de Donald Trump Jr na mesa de trabalho e as redes sociais descobrem detalhes intrigantes...

Reprodução instagram

por Ed Sá

A foto acima está no New York Times ilustrando matéria sobre uma investigação em torno de Donald Trump Jr.

Mas para a redes sociais o melhor está no detalhes da imagem que viraliza na web. Os internautas levantam os seguintes "mistérios":

- Por que ele virou ao contrário os porta-retratos? Casou de olhar pra família?

- Quem bota na própria mesa o próprio retrato? Sendo que a foto é a maior de todas: Egocentrismo?

- Por que à frente a foto da filha (a primeira à esquerda) há nada menos do que uma caveira?!

- Por que não há fotos do pai, mas apenas um boneco de pescoço quebrado que o representa?

- E o que faz uma imensa tesoura ou um alicate de dentista no parapeito da janela?

- À esquerda, ainda na janela, há um ET, é isso mesmo?

- Alguém identificou uma garrafa na estante. É pra tomar a saideira ao fim do expediente?

- E alguém avise ao Trumpinho que a posição do monitor vai contra todas as recomendações da ergometria e assim ele vai acabar com uma lesão por esforço repetitivo no pescoço.

Ex-jogador Adriano avisa que vai processar o jornal Meia Hora

Reprodução da capa do Meia Hora publicada em 22/9/2017

por Niko Bolontrin

O motivo é a capa acima. Adriano Imperador aparece ao lado do traficante Rogério 157, que o Meia Hora chama de "Imperador da Rocinha". O ex-jogador respondeu através do Instagram.
Ele prometeu processar o jornal e afirmou que “tira foto com quem quiser”.
VEJA O VÍDEO AQUI

Passou no Teste de Cooper


Alice Cooper no Rock in Rio. Foto de Gabriel Monteiro/Riotur

Foto de Gabriel Monteiro/Riotur

por Roberto Muggiati 

Estou falando de Alice Cooper, que fez 69 em 4 de fevereiro. Fã de rock aposentado desde a morte de John Lennon, liguei por acaso a TV e lá estava Tia Alice velha de guerra a mil, dando seu show de terror Z ao som de clássicos como Brutal Planet e No More Mr. Nice Guy.

Queria lembrar aqui o que escrevi num livrinho chamado Rock: Da utopia à incerteza (1968-1984), que a Brasiliense publicou em 1985, ano do primeiro Rock in Rio:

“Embora catalogado às vezes como heavy metal, Alice Cooper ajudou a desencadear o rock andrógino, conhecido como glitter rock nos EUA e glam rock na Grã-Bretanha; respectivamente brilho (glitter) e glamour (glam).

Em outras palavras, algo como um rock de plumas e paetês em que os músicos apareciam fortemente maquiados ou até travestidos. Em Alice Cooper, o apelo sexual era mais um recurso para agredir o público, pois Alice (nascido Vincent Damon Furnier, filho de pastor) era uma ‘cria’ de Frank Zappa, o pai espiritual dos freaks de todo o mundo e um discípulo direto do Teatro do Absurdo, aperfeiçoando um rock grand guignol com cadafalsos, guilhotinas e cadeiras-elétricas no palco, decapitando bonecas como um samurai maluco ou se enrolando numa jiboia de estimação.”

Em boa forma, exibindo os trejeitos de sempre e brandindo um bastão do poder, Alice Cooper, com 54 anos de carreira, mostrou que ainda tem alguns anos de estrada pela frente. Depois do espetáculo, comentou satisfeito no camarim: “Muitos desses meninos nunca viram um show de rock ‘n’ roll.”

Alice Cooper, o shock rock e a memória dos dinos...


por José Esmeraldo Gonçalves

Alice Cooper estava no auge e visitava no Brasil. Em 1974, só isso já seria um notícia. ´

Naquela época, astros no rock não davam as caras por aqui.

Fora do rock, até aparecia um Johnny Mathis, mas esse vinha com tanta frequência que era atração até na Churrascaria Tem-Tudo, em Madureira.

O Brasil estava sob a ditadura e a música pesada e as performances violentas de Alice Cooper, com guilhotinas, cobra no palco e sangue, eram quase uma caricatura da época.

Na sua primeira turnê na América do Sul, apresentou-se em São Paulo, no Anhembi, no dia 30 de março, e veio para dois shows no Rio: Canecão (5/4) e Maracanãzinho (6/4). Não sei quais as exigências que fez ao Rock in Rio, onde se apresentou ontem. Em 1974, seu contrato assinado com o empresário Marcos Lázaro incluía oito seguranças, dois carros, um ônibus, duas camionetes, caixas de Budwiser e Ginger Ale etc. Hotel, comida e roupa lavada para 25 pessoas, além de oito toneladas de equipamento.

Cobri a coletiva no Canecão para o extinto O Jornal. Foi quando conheci o Tarlis Batista, da Manchete, cuja primeira pergunta ao cantor foi um direto na veia ou no pulmão: "Você fuma muita maconha?". Os demais coleguinhas se entreolharam, a maioria fazia perguntas "leves" no começo para descontrair a fera. Alguém reclamou: "pô, ele vai embora". Um assessor preocupado falou qualquer coisa ao ouvido do roqueiro, que enrolou e emendou com um resumo do que iria mostrar no show. A coletiva seguiu em frente, sem turbulências.

No Maracanãzinho lotado, no dia seguinte, chamava a atenção o equipamento de som e o tamanho das caixas, algo desconhecido na época, no Brasil. Alice Cooper foi "eletrocutado", decapitou bonecas e surpreendeu ao gritar "pra frente Brasil". Embora o refrão estivesse na moda ainda no rescaldo da Copa de 70, era coisa identificada com a propaganda da ditadura.

Os jornalistas foram colocados na primeira fila da plateia. Ótimo lugar. Mal sabíamos que as enormes caixas de som laterais em altíssimo volume e ainda reverberando na cúpula do ginásio provocariam surdez momentânea ao final do show em quem estava tão perto daqueles geradores de decibéis. O que não invalidou a experiência. O Furnier, nome verdadeiro do roqueiro performático, mandou muito bem. Dizem os críticos que aquela turnê de Alice Cooper deixou influência no show business brasileiro. Não apenas pela grandiosidade do aparato como pela performance criativa. Os Secos & Molhados teriam assimilado algumas lições de dramaturgia radical do cantor, então com 25 anos.

Ontem, vendo o show pela TV, não pude deixar de revisitar essas memórias de dinos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Instituto Moreira Salles: São Paulo tem um novo centro cultural

O novo centro cultural na Avenida Pauista. Foto Reprodução site IMS-SP

Na inauguração, ontem. Foto Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

Um dos espaços para exposições. Foto Gilberto Marques/A2IMG

São Paulo acaba de ganhar um centro cultural onde a fotografia e o fotojornalismo são protagonistas. O Instituto Moreira Salles inaugurou ontem, na Av. Paulista, o IMS-SP. São sete andares destinados a exposições, mostras de filmes, eventos musicais, seminários, salas de aula, livraria, restaurante e uma Biblioteca de Fotografia. Esta, especialmente, é um espaço nobre do Instituto. São 30 mil itens, entre livros, catálogos, fotolivros, zines e revistas nacionais e estrangeiras.

EM VÍDEO, O CURADOR MIGUEL DEL CASTILLO MOSTRA A BIBLIOTECA DE FOTOGRAFIA DO IMS-SP. CLIQUE AQUI







Ex-diretor de jornalismo da TV Gazeta revela a reportagem de Marcelo Rezende que abalou o Fantástico


(do Cada Minuto/Blog de Célio Gomes)

A trajetória de Marcelo Rezende no jornalismo percorreu mais de quatro décadas, em diferentes veículos de comunicação. Mas foi na TV Globo que ele se tornou um nome nacionalmente conhecido, a partir do fim dos anos 80. Os pontos altos da carreira do repórter foram lembrados em várias reportagens, depois de sua morte, no último sábado 17.

Na emissora carioca, o Jornal Nacional destacou o trabalho em que Rezende denunciou a ação criminosa da Polícia Militar de São Paulo, no caso que ficou conhecido como Favela Naval. O lugar fica no município de Diadema. PMs foram flagrados torturando e matando moradores da região. O ano era 1997. A denúncia teve repercussão internacional.

Mas outra reportagem do jornalista, exibida no Fantástico em novembro de 1998, entrou para a história da Globo e da imprensa brasileira. E não foi por bons motivos. Rezende fez uma entrevista exclusiva com o motoboy Francisco de Assis Pereira, o homem que ficara conhecido como o Maníaco do Parque. Era acusado de matar pelo menos onze mulheres na capital paulista.

A matéria especial pretendia inaugurar uma vertente mais arrojada de jornalismo para TV. Foi o que a Rede Globo avisou a suas afiliadas, que deveriam ficar atentas ao novo formato. Sei disso porque eu era o diretor de jornalismo da TV Gazeta. O resultado foi um desastre absoluto, com duração de incríveis 40 minutos naquela edição do Fantástico, o “show da vida”. A Globo entrou em crise.

Para começar, a produção tinha no comando o departamento de dramaturgia, e não a Central de Jornalismo. Um consagrado diretor de novelas, Roberto Talma, assinava a obra jornalística. A edição abusou de trilha sonora de suspense e efeitos especiais à altura do pior sensacionalismo. Para decifrar a mente do assassino, as fontes ouvidas foram um astrólogo e duas videntes.

Difícil saber o que era mais bizarro naquilo tudo. Houve simulação dos ataques às mulheres, que mais pareciam cenas de filme de terror de última categoria. Cuidadosamente planejada, a iluminação sobre o rosto do maníaco tentava elevar o clima de tensão e medo. Rezende se empenhou na missão. Cada frase de seu texto tinha como objetivo principal dramatizar ao máximo aquele enredo. (...)

LEIA A MATÉRIA COMPLETA, CLIQUE AQUI

Pais & Filhos: 50 anos em 2018

A Pais & Filhos,
da Editora Manchete
Jornalistas & Cia noticia que Luiz Pimentel, ex-diretor de Conteúdo do R7, assumiu cargo equivalente na Pais & Filhos, revista que pertence à Editora Manchete, de Marcos Dvoskin, que adquiriu em leilão, em 2003, títulos que pertenciam à Bloch Editores.

A Pais & Filhos completa 50 anos em 2018 e permanece como uma publicação de prestígio e influência, com atuação em plataformas, digitais e redes sociais.

Ao J&C, Luiz Pimentel adiantou que unificará revista, site, redes sociais, TV Pais & Filhos, anuário da marca e ações de branded content.

Edição de 1987, quando a Pais & Filhos
ainda pertencia à Bloch. 
As próximas edições já farão referência ao cinquentenário da marca.

A Pais&Filhos é também atuante no segmento de eventos, principalmente na realização de seminários.

Dos 50 anos da P&F - uma das mais tradicionais e bem-sucedidas revistas brasileiras, pioneira  e líder no seu segmento -, 32 foram sob o selo da Bloch Editores.

Lançada em 1968, a Pais & Filhos foi editada no Russell até 2000. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Terremoto no México na capa da Fatos em 1985. O mundo era outro? Nem tanto, mestre, nem tanto...




Em setembro de 1985, a capa e a matéria principal da revista Fatos traziam uma catástrofe. O México sofrera no dia 19 o pior terremoto da sua história. Oficialmente, 10 mil pessoas perderam a vida. Mas as equipes de resgate estimaram o número de mortes em cerca de 40 mil. Milhares de corpos jamais foram encontrados.

Na Cidade do México, que tinha então 18 milhões de habitantes, ruíram 420 edifícios de oito a 18 andares, outros 3 mil e 200 foram parcialmente destruídos.

Exatos trinta e dois anos depois, os mexicanos enfrentam mais um terremoto. Não tão devastador - até agora, o número de mortos está em torno de 200 - mas igualmente trágico.

Ao folhear aquela edição da Fatos, fica a impressão de que o Brasil e o mundo se repetem e dão razão a Nietzsche. O filósofo prussiano ensinou que o eterno retorno é uma das afirmações da vida que, em ciclos, sempre liga o fim ao começo.



Na janela de capa da Fatos, está Sarney, então presidente e tão inexpressivo quanto o atual. Como Temer, ontem, Sarney estava na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, que tal qual hoje dividia com o México as primeiras páginas dos jornais. Como o atual e ilegítimo, Sarney não foi levado a sério, falou algo sobre a dívida externa, tema em evidência, e garantiu que faria um ajuste fiscal e um superávit para pagar 50 bilhões de dólares de juros nos anos seguintes. No mais, abriu o discurso citando um poeta do Maranhão, Bandeira Tribuzzi - na plateia os delegados devem ter feito "hã?", "who" - e mandou goela abaixo um discurso genérico, pleno de literatices, com pérolas como essa: ""O Brasil acaba de sair de uma longa noite. Não tem olhos vermelhos de pesadelo. Traz nos lábios um gesto aberto de confiança e de um canto de amor à liberdade". Puro "marimbondos de fogo".


Kim Jong-un tinha pouco mais de dois anos de idade, a Coreia do Norte nem sonhava com a bomba e Donald Trump nem imaginava que um dia faria um discurso ameaçador na ONU, mas a Assembleia Geral também mostrava preocupação com ameaças à paz. A Fatos narrava o encontro entre o ministro do Exterior soviético Eduard Chervardnadze e o secretário de Estado americano George Schultz para discutir uma tema que preocupava o mundo: o programa militar "Guerra nas Estrelas" com o qual o presidente republicano da vez, Ronald Reagan, ameaçava militarizar o espaço e acelerar a corrida armamentista.

Artur da Távola, um dos colunistas da Fatos, escrevia sobre o Brasil "dividido", outro tema recorrente. "Vai-se fazer necessária um hábil costura política para remover resistências de ambos os lados".  E defendia um "pacto social": "Pacto, porém, que não seja feito à custa de quem mais tem pago, tanto os preços do desenvolvimento quanto os resultados desastrosos da incompetência e da corrupção".







Corrupção? Para quem pensa que o ataque de políticos e empresários aos cofres públicos é novidade, a Fatos dedicava ao assunto três matérias. Uma sobre um esquema de fraude nas compras da Cobal. Além de superfaturamento em aquisições de feijão, os acusados estavam com dificuldade de explicar a compra de 100 mil calcinhas que, teoricamente, não eram produtos revendidos pela Companhia Brasileira de Alimentos. Outra reportagem abordava o caso de um tal réchaud de prata que virou polêmica e por causa disso o Congresso discutia um projeto que previa punição para autoridade que recebesse presentes caros. Outra notícia era a prisão de um banqueiro libanês que tinha muito a delatar sobre um caso de venda de vistos e passaportes brasileiros que envolvia o ex-ministro da Justiça ainda no governo do general João Figueredo, Ibrahim Abi-Ackel.


Uma notícia da semana era o terrorismo. Não se falava em Estado Islâmico nem em "lobo solitário' mas, segundo a Fatos, o terrorismo internacional tinha uma nova sigla: ORMS (Organização Revolucionária dos Muçulmanos Socialistas. Naquela semana, o alvo mais uma vez  foi Roma, que já sofrera cinco atentados em poucos meses. Um solitário palestino de apenas 16 anos, ainda sem a alcunha de "lobo", entrou em uma agência da British Airways acionou uma granada e saiu (terroristas suicidas ainda não estavam em moda). A bomba feriu 15 pessoas.

No mais, a Fatos falava de um arremedo de reforma política que não vingou, tema que o nosso Congresso discute hoje. A proposta de uma Constituinte ganhava força. O Banco Central colocava em circulação a nota de maior valor na época - Cr$100 mil - com a efígie Juscelino Kubitschek. Geddel seria grato ao BC se uma nota desse valor existisse hoje em reais:  ele ia precisar de menos malas para guardar seus 51 milhões. E a guerra em cartaz era a do Irã-Iraque, que fazia aniversário de seis anos. Exatamente, a duração da guerra atual: a da Síria.

Como os dias e as estações, os fatos parecem se repetir. Às vezes como jornalismo, às vezes como farsa.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Neymar? Jesus? Philippe Coutinho? Que nada... Temer e Aécio são os craques invictos da temporada

por O.V.Pochê 

Problema para Tite. O treinador da seleção brasileira já deve ter na cabeça seu time titular para a Copa de 2018. Vai ter que repensar.

Temer e Aécio, dois craques que batem um bolão em matéria de drible da vaca, chapéus, caneta e elástico, não poderão ficar de fora. Tite deve observá-los, talvez pedir um DVD das suas atuações.

Apesar da pressão dos adversários, ambos permanecem invictos no Campeonato da Lava Jato, que garante vaga para os respectivos prestígios e poderes e ainda para o G4 das eleições do ano que vem.

E olha que eles são apenas dois contra o time de onze do STF. A dupla de atacantes também não se intimida quando muda de campo e joga nos alçapões da Câmara dos Deputados e no Senado. E olha que, nesse, caso, o plantel inimigo é maior, permite mais substituições e tem sempre jogadores descansados à disposição.

Gol de placa: treinador alega que tem que viajar pra festança e
consegue adiar julgamento do seu jogador. Nota reproduzida do Globo

Em campo, Aécio é mais um meia armador. Vem de trás, tem bom domínio de bola, conhece a movimentação e saber envolver o adversário. Jogando no estádio do STF Futebol Clube tem mostrado uma habilidade digna de Iniesta.

Jogada de craque. camisa 9 pode anular cartão vermelho. Informação da Folha de São Paulo

Temer é um camisa 9 mais impetuoso, catimbeiro. Um Mário Balotelli do Tietê. Dá cotoveladas, chuta canelas, faz pênalti dentro da área sempre esperando que o juiz não veja e simula faltas. Quando nada disso resolve, ele oferece parte do próprio bicho, a mala do seu prêmio por vitória, ao adversário. Essa última tática ele reserva para os jogos contra o Congresso Futebol e Regatas.

Dizem os comentarista esportivos que o STF FC, apesar de ter jogadores experientes, não tem fôlego para jogar uma partida inteira no mesmo ritmo. Vão bem no primeiro tempo, perdem gás no segundo. O que é compreensível, são todos veteranos, com um ou dois reforços mais jovens promovidos das  divisões de base. Alguns integrantes do time são criticados por demonstrarem uma certa torcida pela equipe adversária, onde têm amigos de longa data. Discutem muito em campo também, têm pouco entrosamento.

Entrosamento é o que não falta aos jogadores do Congresso Nacional Futebol e Regatas. Eles se movimentam bem, quando alguém oferece uma bola, logo aparece outro para receber. O que enfraquece o time do CNFR é o pouco compromisso que seus jogadores têm com a camisa. Como a janela de transferência de passes fica aberta o ano todo, diante de qualquer proposta financeira melhor eles ameaçam mudar de time. Estão sempre exigindo mais benefícios.

Nessa disputa e com estilos diferentes, os craques Aécio e Temer predominam, fazem "uma melhor leitura das partidas", como dizem os comentaristas esportivos. Aparentemente, não têm adversários à altura.

Além das qualidades dentro de campo, a dupla demonstra força também fora das quatro linhas. Temer tem bastante desenvoltura juntos aos carlotas dos outros poderes, sejam do STFFC ou no CNFR. Aécio tem boa penetração na grande mídia, o que favorece sua imagem, geralmente seus deslizes em campo são omitidos, tem cartão amarelo mas nunca leva o vermelho, as editorias minimizam eventuais indisciplinas do Iniesta de BH e evitam chamar atenção dos juízes e bandeirinhas.

Os dois já foram até flagrados pelo árbitro de vídeo e mesmo assim conseguiram anular ou adiar qualquer punição.

Jornalistas especializados já admitem que tanto o STF Futebol Clube quanto o Congresso Nacional Futebol e Regatas correm o sério risco de cair para a segundona.

Editora Abril procura nova casa. Velho prédio ficou grande demais para os novos tempos


O Grupo Abril vai deixar o prédio da Previ que ocupava na Marginal Pinheiros, em São Paulo.

Com a mudança de modelos na indústria de comunicação, a cirurgia bariátrica que levou ao emagrecimento da empresa com vendas de subsidiárias como Elemidia, Abril Educação e de títulos de revistas, centenas de demissões de jornalistas e o cancelamento das algumas edições impressas, a atual Abril ficou sobrando no edifício de 26 andares.

A editora, que já ocupou todo o edifício, já havia liberado 11 andares para o locador. Agora, procura nova casa, embora alguns setores devam ir para o velho prédio da Abril na Marginal Tietê.

Na mudança, levará a "árvore" que enfeitou o topo do NEA durante mais de 15 anos.

Curiosamente, empresas jornalístícas que fecham as portas, se reformulam e se adaptam aos novos tempos vão deixando referências imobiliárias dos seus passados. No Rio, é possível fazer um roteiro turístico por alguns desses "monumentos". As suntuosas sedes das revistas O Cruzeiro, na Rua do Livramento, e Manchete, no Russell, ambas projetadas por Oscar Niemeyer, foram vendidas e transformadas em prédios para escritórios.

O prédio do velho JB, na Av. Brasil foi abandonado e virou esqueleto antes de abrigar um hospital. O Última Hora, perto da Rodoviária Novo Rio, a Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio, a antiga TV Tupi, na Urca, a Vecchi na Rua do Riachuelo permanecem aí, uns em ruínas outros reocupados. A antiga sede do jornal A Noite e, depois, da Rádio Nacional é o único prédio histórico ainda semi-arruinado na nova Praça Mauá.

A antiga sede do Correio da Manhã passou décadas fechada e abandonada, na Rua Gomes Carneiro, até que foi reformado para outros fins. Mas antes do retrofit, Carlos Heitor Cony, que foi um dos redatores e cronistas do jornal, onde manteve uma seção cujo título era "da Arte de Falar Mal", visitou as ruínas e escreveu uma crônica sobre o reencontro com sua antiga mesa. As salas empoeiradas e paredes - contou -  ainda exibiam ordens de serviço, lembretes e avisos colados em murais embolorados.

domingo, 17 de setembro de 2017

Fotomemória da redação: há 25 anos, champanhe na Manchete para brindar a queda de Collor de Mello



Em 27 de setembro de 1992, a Manchete lançou uma edição especial comemorativa dos 40 anos da revista. Naquela noite, houve uma solenidade no Teatro Adolpho Bloch e jantar de gala nos salões do Russell.

Sobraram caixas de champanhe da festança.

No dia seguinte, 28, uma segunda-feira, a Câmara dos Deputados votou pela admissão do processo de impeachment de Collor de Mello, o caso começou a tramitar no Senado e o "caçador de marajás" foi afastado da Presidência (ele renunciaria no dia 29 de dezembro, prevendo que perderia definitivamente o  mandato, o que aconteceu menos de 24 horas depois com o fim do processo político).

Mas o fato de ter sido chutado do Planalto já era um bom motivo de comemoração. Ainda mais se naquela primavera calorenta havia champanhe à vontade na geladeira.

Já era noite quando equipes em Brasília e a redação carioca fecharam a edição normal da semana, que trazia o principal fato político daqueles dias. Adolpho Bloch, cuja sala era ao lado da Manchete, convidou alguns diretores e funcionários que ainda estavam no prédio para um brinde de sabor e borbulhas anti-colloridas. Àquela altura, a defenestração de Collor era uma unanimidade nacional.

Vinte e cinco anos depois, o Brasil está novamente às voltas com um quadrilhão. Mas, ao contrário de Collor, que perdeu apoio no Congresso, Temer não está nem aí. Acusado de ser o chefe da organização criminosa, ele mantém todos os podres poderes no Senado e na Câmara.

Não há champanhe à vista nem na geladeira para comemorar o fim do Nosferatu do Tietê.

Memórias da redação: homem que lançou O Hobbit

Retrato do artista quando “foca”,
1958. Foto: Acervo R.M
Por Roberto Muggiati

Nestes meus 63 anos de reportagem, encontrei muita gente interessante. Algumas vezes, só vim a conhecer de fato o entrevistado muito tempo depois. É o caso de Sir Stanley Unwin (1884-1968), com quem conversei em 1958 na Cultura Inglesa de Curitiba. Fundador da editora Allen & Unwin, era pacifista e foi um dos primeiros a publicar Bertrand Russell e Mahatma Gandhi.

Mas sua contribuição maior para a cultura da nossa época foi ter iniciado a onda da literatura fantástica ao lançar O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

O mais curioso em tudo isso foi como ele decidiu lançar o livro sem o ter lido. Tolkien sempre relutara em publicar estes escritos fantásticos.

Em 1936, estimulado por amigos, submeteu The Hobbit a Unwin. O editor então pagou um xelim ao filho de dez anos, Rayner, para fazer um relatório sobre o manuscrito.

O relatório foi favorável, o livro se tornou um sucesso e Unwin pediu uma sequência a Tolkien, surgindo daí O Senhor dos Anéis. Rayner, que também seguiria a carreira do pai, disse tempos depois: “Não foi uma peça brilhante de crítica literária, mas naqueles dias felizes não era preciso uma segunda opinião: se eu recomendasse um livro, ele era publicado na hora.”

Hoje, oitenta anos depois, os milhões de fãs de Harry Potter não sabem o que devem para Unwin, pai e filho. . .

sábado, 16 de setembro de 2017

ONU pede fim da austeridade fiscal e ousadia para reequilibrar economia global

(da ONU/Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) 

Novo relatório da UNCTAD descreve uma rota política alternativa para a construção de economias globais mais inclusivas e solidárias. O documento pede um novo pacto em que as pessoas tenham prioridade frente aos lucros. Pontos cruciais de tal transformação seriam o fim da austeridade fiscal, a contenção do “rentismo” das empresas e o direcionamento das finanças para a criação de empregos, bem como para o investimento em infraestrutura.

A economia global parece travada em seu caminho para a recuperação. Um novo relatório da UNCTAD, “Trade and Development Report, 2017: Beyond Austerity — Towards a Global New Deal” (Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2017: para além da austeridade – rumo a um novo pacto global), descreve uma rota política alternativa e ambiciosa para a construção de economias mais inclusivas e solidárias.

No lançamento do relatório, o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Mukhisa Kituyi, disse: “uma combinação de endividamento excessivo e demanda global demasiadamente baixa tem entravado a expansão sustentada da economia mundial”.

O documento pede que o século 21 traga um novo pacto, em que as pessoas tenham prioridade frente aos lucros. Pontos cruciais de tal transformação seriam o fim da austeridade fiscal, a contenção do “rentismo” (rent-seeking) das empresas e o direcionamento das finanças para a criação de empregos, bem como para o investimento em infraestrutura.

Retomada econômica ainda fraca

A UNCTAD observa que a economia global está melhorando em 2017, embora sem decolar. O crescimento deve atingir 2,6%, pouco acima do ano anterior, mas bem abaixo do patamar médio pré-crise financeira, de 3,2%. A maior parte das regiões deve registrar pequenos ganhos. A América Latina, saindo da recessão, exibe a maior variação entre os dois anos, embora deva crescer apenas 1,2%. A zona do euro deve ter a maior taxa de crescimento desde 2010 (1,8%), permanecendo atrás dos Estados Unidos.

O principal obstáculo a uma recuperação robusta das economias avançadas é a austeridade fiscal, que é ainda a opção macroeconômica padrão. De acordo com dados da UNCTAD, 13 das 14 principais economias do mundo adotaram políticas de austeridade entre 2011 e 2015.

Com uma demanda global insuficiente, o comércio permanece retraído. Espera-se uma pequena melhora neste ano, por conta da recuperação do comércio Sul-Sul liderado pela China. No entanto, há muita incerteza, especialmente em relação ao comércio de commodities, no qual uma leve recuperação dos preços esmoreceu.

Na ausência de uma expansão coordenada sob a liderança das economias avançadas, a sustentação do limitado crescimento econômico global depende de melhoras duradouras nas economias emergentes. Embora as maiores economias emergentes tenham evitado a austeridade entre 2011 e 2015 (com China e Índia mantendo taxas robustas de crescimento), elas enfrentam agora riscos significativos.

Os níveis de endividamento continuam a se elevar, sem que haja sinais reais de crescimento econômico robusto; há preocupações com instabilidade política, preços de commodities em queda, taxas de juros mais altas nos Estados Unidos e dólar mais forte. Os fluxos de capital para os países em desenvolvimento permanecem negativos, ainda que menos do que nos anos recentes.

Desigualdade, endividamento e instabilidade

Nas palavras do principal autor do relatório, Richard Kozul-Wright, “duas das principais tendências socioeconômicas das últimas décadas foram a explosão do endividamento e a ascensão das ‘superelites’ — grosso modo, o 1% no topo da pirâmide”. Estas tendências, segundo o relatório, estão ligadas à desregulação dos mercados financeiros, à ampliação das desigualdades na propriedade de ativos financeiros e ao foco nos retornos de curto prazo.

Desigualdade e instabilidade estão conectadas à hiperglobalização. Decorre disso um mundo com níveis insuficientes de investimento produtivo, empregos precários e enfraquecimento da proteção social. Em um círculo vicioso, os rendimentos no topo decolam durante as trajetórias que culminam nas crises; na esteira dessas, sobrevêm a austeridade e a estagnação dos rendimentos na base.

Passada uma década da crise global que absorveu trilhões de dólares dos contribuintes em operações de salvamento, o domínio do setor financeiro, por ela responsável, praticamente não mudou. De fato, os níveis de endividamento estão mais altos do que nunca.

O relatório também examina outras fontes de ansiedade, ligadas à robotização e à discriminação de gênero, que afetam as perspectivas do emprego nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento. Embora a automação e a crescente participação das mulheres devam ser consideradas bem-vindas, a coincidência com um mundo de austeridade e competição excessiva — que levam a uma corrida para o abismo nos mercados de trabalho — faz com que pareçam ameaçadoras.

Resulta uma reação popular contra um sistema que parece ter passado a privilegiar, de forma injusta, um punhado de grandes corporações, instituições financeiras e indivíduos ricos. A incapacidade de corrigir os excessos da hiperglobalização, adverte o relatório, prejudicará a coesão social; mais que isso, diminuirá a confiança tanto nos mercados como nos políticos.

Procura-se alternativa ao fundamentalismo do mercado

O relatório questiona o exagero na responsabilização do comércio e da tecnologia pelos problemas de um mundo hiperglobalizado. Cabe, em lugar disso, uma análise séria acerca do poder de mercado, do comportamento “rentista” e das regras do jogo em que vencedores levam (quase) tudo, como responsáveis por resultados excludentes.

A crescente concentração dos mercados — com consequências potencialmente corrosivas para o sistema político — é uma das questões centrais do relatório.

Enquanto os governantes continuarem a brandir a bandeira da austeridade e a avaliar o sucesso das políticas pelo preço dos ativos e pelos níveis de lucro, com setores vitais sob o domínio do grande negócio, as já significativas desigualdades poderão se agravar.

Invocando o espírito de 1947

Para passar da hiperglobalização para a construção de economias inclusivas, não basta aprimorar a operação dos mercados. É necessário um programa mais rigoroso e abrangente, que enfrente as assimetrias nacionais e internacionais em termos de conhecimento tecnológico, poder de mercado e influência política.

Com os Estados Unidos deixando de desempenhar o papel de consumidor em última instância, a reciclagem dos superávits em transações correntes torna-se um elemento essencial para reequilibrar a economia mundial. O documento aborda o caso da zona do euro (especialmente da Alemanha) que tem agora um alto superávit com o resto do mundo.

A recente proposta alemã para o G20 de um Plano Marshall para a África é bem-vinda, mas, por enquanto, ainda não tem a envergadura financeira necessária. A iniciativa chinesa de investimentos “Um Cinturão, Uma Rota” (One Belt, One Road) é muito mais ousada, a despeito da aguda queda do superávit do país nos últimos dois anos.

O relatório extrai lições de 1947, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e as Nações Unidas uniram forças para reequilibrar a economia do pós-guerra e o Plano Marshall foi lançado. Sete décadas depois, um esforço igualmente ambicioso é necessário para combater as injustiças da hiperglobalização e construir economias inclusivas e sustentáveis.

Em resposta ao slogan político do passado — “não há alternativa” — o relatório apresenta os contornos de um novo pacto global para construir economias mais inclusivas e solidárias. O pacto deveria, com velocidade e escala suficientes, combinar recuperação econômica, reformas regulatórias e políticas de redistribuição.

O sucesso do New Deal dos anos 1930 nos EUA muito se deveu à sua ênfase na redistribuição do poder, dando voz a grupos sociais mais fracos, incluindo consumidores, organizações de trabalhadores, agricultores e grupos mais pobres. Isso não é menos necessário hoje em dia.

Na atual economia global integrada, o sucesso de cada país exige que os governos atuem em conjunto. A UNCTAD pede que os governos aproveitem a oportunidade oferecida pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e construam um novo pacto global para o século 21.


Medidas-chave discutidas no relatório incluem:

• Pôr fim à austeridade por meio de investimento público, maior e melhor, com uma forte dimensão assistencial, incluindo vultosos programas que aprimorem a infraestrutura e gerem emprego. Ajudar a mitigação das mudanças climáticas, bem como a adaptação a elas; promover as oportunidades tecnológicas oferecidas pelo Acordo de Paris no quadro da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Dar maior importância às atividades assistenciais.
• Aumentar a receita governamental: um maior recurso a impostos progressivos (inclusive sobre a propriedade e outras formas de renda) pode combater a desigualdade de renda. O relatório mostra que mesmo pequenas mudanças nas taxas marginais incidentes sobre as camadas mais ricas reduziriam de forma significativa os déficits. Reduzir isenções, brechas fiscais e o abuso empresarial dos subsídios aumentaria as receitas e a equidade.
• Estabelecer um novo registro financeiro global, identificando a propriedade de ativos financeiros, como primeiro passo para a taxação equitativa.
• Dar mais voz ao trabalho (os salários precisam subir em linha com a produtividade; a insegurança no emprego precisa ser corrigida por meio de ações legislativas e medidas ativas no mercado de trabalho).
• Domar o capital financeiro: regular de forma apropriada o setor financeiro, desde o private banking até os produtos financeiros “tóxicos”.
• Melhorar a capitalização dos bancos de desenvolvimento multilaterais e regionais: as lacunas institucionais no campo da reestruturação da dívida soberana precisam ser resolvidas no plano multilateral.
• Manter o controle sobre o “rentismo” empresarial. Medidas para combater práticas comerciais restritivas devem ser tomadas conjuntamente com uma aplicação mais rigorosa de normas nacionais de divulgação de informações. Um observatório da competição global poderia monitorar as tendências e padrões da concentração de mercado mundial e reunir informação sobre as diversas diretrizes regulatórias, o que seria um primeiro passo para a criação de normas e políticas globais coordenadas de melhores práticas e políticas internacionais.

Fonte: UNCTAD Press Office/Genebra


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