sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Olimpíada também tem "Centrão"


Do Washington Post: Estados Unidos criaram contagem própria. Não é fake news mas manipula o critério do COI. Total de medalhas quando os gringos ganham mais pódios e soma de ouros quando estão à frente em... ouro. Assim é mole liderar


New York Times ficou nervoso porque os russos mesmo punidos estão em Tóquio.
 E ganhando medalhas

Corr


Corriere prefere não esconder: Comitê Olímpico Russo é Rússia. 


L'Equipe também não adota o eufemismo. ´É Rússia.

por José Esmeraldo Gonçalves

A Olimpíada é um evento fascinante. Uma pausa agradável em meio a conflitos e interesses de países, não importa a ideologia. Para todos é questão estratégica do tal soft power. O público em geral, uma audiência de bilhões de pessoas, se liga na TV, redes sociais e demais meios de comunicação para curtir apenas o Esporte.

À margem dos Jogos, a política sempre esteve e está presente. A visibilidade proporcionada pelos atletas costuma sofrer um sequestro por parte de chefes de governo e Estados. Dê como certo que em breve veremos uma ofensiva política por parte do governo brasileiro para receber atletas medalhados em Tóquio. 

Meios de comunicação também extraem significados geopolíticos em torno das Olimpíadas. Fora do ambiente esportivo denúncias barulhentas, forças-tarefa do tipo Lava-Doping, disputas entre cartolas e acusações de suborno eventualmente permeiam algumas edições dos Jogos. 

É curioso observar como, às vezes, a cepa da política contamina sutilmente o jornalismo. Os meios de comunicação estadunidenses têm, por exemplo, um modo próprio e ultra patriota de contar as vitórias. Se os EUA perdem em ouros mas ganham no total de medalhas, os quadros publicados registram em primeiro lugar a soma dos pódios dourados mais a prata e o bronze; se, em algum momento, os EUA passam a totalizar mais ouros, a tabela é modificada e o primeiro lugar passa a ser do país que alcançou mais vezes o degrau mais alto do pódio, desde que esse pais seja os EUA. Eles se lixam para o padrão tradicional de contagem do Comitê Olímpico Internacional. A mídia brasileira por enquanto não adotou tal critério.

Outra anomalia surgiu agora em relação aos atletas da Rússia. As equipes foram envolvidas em um rumoroso escândalo de doping em grande escala, segundo investigação promovida pela Agência Mundial Antidoping com apoio dos Estados Unidos. Sofreu uma mega e inédita punição. Sentenciada em 2016 e agora, além de afastada da Copa do Catar (2022) e das Olimpíadas de Inverno na China, 2022 (não será surpresa se o caso for  requentado e venha nova punição para a Rússia nos Jogos de Paris, em 2024), o país de Putin compete como Comitê Olímpico Russo, sem bandeira nacional e sem hino. Ouve-se Tchaicovsky na hora do pódio. O que, aliás, é ótimo. Foi a maneira que o COI encontrou para preservar os atletas ditos "limpos" e não lhes tirar o direito de competir. The New York Times e Washington Post não gostaram disso e analisam que a punição não valeu já que os russos permanecem visíveis e ainda por cima estão ganhando muitas medalhas. A "narrativa", como dizem os bolsonaristas, pegou. No Brasil, O Globo publicou editorial protestando contra o  arranjo do COI e só se refere aos atletas como do Comitê Olímpico Russo (ROC na siglas em inglês). Veículos da França e da Itália, entre outros, não seguem a cartilha de Washington. Para eles, russos são russos.

Em Tóquio, restou aos atletas russos cantarem We will ROC you. Uma irônica paródia do clássico We will Rock You. 

Vem mais aí. Como sede da próxima Olimpíada de Inverno, a China pode ser alvo de boicote. É o que recomenda oficialmente a União Europeia, embora deixe a cada país a decisão de ir ou não a Pequim. 

Como se vê, a geopolítica não vai deixar de invadir o pódio dos atletas.  Melhor seria a política virar logo modalidade. Daria grande audiência ver Biden, Macron, Boris Johnson, Xi Jinping, Putin etc disputando luta romana, por exemplo. É luta de contato intenso. No mínimo, conheceriam uns aos outros. Bem intimamente. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

A mosca na sopa da bossa nova • Por Roberto Muggiati

José Ramos Tinhorão. Foto Instituto
Moreira Salles/Divulgação
José Ramos Tinhorão – morto nesta terça-feira aos 93 anos – foi um dos maiores pesquisadores da música popular brasileira, isso ninguém nega. Mas ele aplicava à sua opinião parâmetros da critica marxista, com um radicalismo que chegava às raias da paranoia. 

Num século em que a música popular se enriqueceu através de fusões internacionais, aceleradas pelo advento do rádio, do cinema e dos discos, Tinhorão ainda se apegava à ideia do nacionalismo cultural. Por esse critério, ele cancelava a arte de um Johnny Alf, por ter adotado um codinome ianque (sic), e a de Baden Powell, por homenagear com seu nome o criador do escotismo. 

Inimigo ferrenho da bossa nova, que definia como “uma versão pasteurizada do jazz”, Tinhorão dizia ter pena de Tom Jobim, “porque ele imagina que está compondo música brasileira”. Ficou famoso o líde de um texto seu para a revista Senhor em 1963: “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música americana que é, inegavelmente, sua mãe – a bossa nova, no que se refere à paternidade, vive até hoje o drama de tantas crianças de Copacabana, o bairro em que nasceu: não sabe quem é o pai”. 

Nascido em Santos, filho de português, José Ramos teve o Tinhorão acrescido ao seu nome na redação do Diário Carioca nos anos 50. Explicação: o tinhorão é uma planta altamente venenosa. Recorro aos compêndios:

“O tinhorão (nome científico Caladium bicolor) é considerado uma planta muito tóxica, devido à presença de cristais de oxalato de cálcio e saponinas em suas folhas. O contato destas substâncias com os olhos, mucosas e pele pode provocar intensa ardência, inflamação e vermelhidão. A ingestão pode provocar edema de glote e consequente asfixia e morte.”

No auge de suas investidas contra a bossa, Tom Jobim plantou um pé de tinhorão em seu jardim, no qual fazia pipi religiosamente toda noite antes de dormir. 

Conheci Tinhorão de perto em 1968, quando ele foi trabalhar na editoria da Veja que eu chefiava, a de Artes e Espetáculos. Nunca entendi como um jornalista opiniático da sua cepa foi contratado por uma revista que pretendia implantar no Brasil o jornalismo objetivo da Time. Na verdade, Tinhorão chegou à minha editoria transferido da de Vida Moderna, com a qual se incompatibilizara. Uma coisa foi consenso na Veja: o Tinhorão não poderia nunca escrever sobre música. Principalmente no momento em que a bossa fazia o seu nome lá fora, com Sinatra gravando Jobim, e em que a Tropicália desfraldava a bandeira multicolorida da contestação. Não tive outra opção: escalei-o para responder as cartas dos leitores. Lembro-me do Tinhorão numa das “baias” da redação, discursando sobre o materialismo dialético e tentando doutrinar os jovens repórteres, entre eles Tárik de Souza, que se tornaria importante crítico musical.

Guardei um episódio pitoresco daqueles tempos. Uma das raras coisas ianques que Tinhorão tolerava – na verdade, adorava – eram os carrões. Mal começou a trabalhar em Veja, comprou um daqueles modelos vintage. Antes de chegar à redação, no prédio da Abril na Marginal do Tietê, costumava navegar lentamente pelas ruas da Lapa. Um belo dia, um coronel do Exército se apresenta na portaria da Veja com uma grave queixa: um funcionário da revista estaria assediando sua nora, seguindo-a insistentemente de carro ao longo das calçadas. Nunca ficou provado que o agressor seria de fato o nosso José Ramos, embora um desafeto tivesse trazido à baila que o Tinhorão foi personagem da peça de Nelson Rodrigues Bonitinha, mas ordinária, um sujeito metido a conquistador.

Figura polêmica, uma coisa ninguém poderá tirar de José Ramos Tinhorão: a importância cultural de livros como Pequena História da Música Popular, História Social da Música Popular Brasileira e A Música Popular no Romance Brasileiro. Num comentário contra a Universidade de São Paulo, ele ironizou um dia: “Eles comem Tinhorão e arrotam Mário de Andrade”. E não é que tinha razão?

terça-feira, 3 de agosto de 2021

A falência da Bloch estreia nesse mês a 21ª Temporada. Não é um bom seriado...

- É massa!

A curiosa gíria baiana remete a uma coisa legal, bonita, bacana. Uma boa música é massa! Um acarajé bem apimentado é massa! A skatista Rayssa é massa! Rebeca é massa! 

Para os ex-funcionários da Bloch Editores, essas são, ao contrário, as cinco letras que choram, como dizia um antigo samba.     

Neste agosto a Massa Falida da Bloch Editores completa 21 anos. O drama de milhares de ex-funcionários e suas famílias alcança uma triste maioridade. 

Você já leu neste blog muitas matérias sobre o assunto. Também já foi dito aqui que massas falidas são empresas sob administração judicial e, em geral, são autofágicas. Consomem suas próprias entranhas. A autofagia, como se sabe, se realiza quando as células se mobilizam para eliminar as toxinas que envelhecem os corpos. Esse processo, a autofagia, tenta retardar ao máximo o envelhecimento e ganhar vida longa. 

Assim são as massas falidas. 

A MF da extinta Bloch Editores não é diferente. 

É fato que ao longo de pouco mais de duas décadas a maioria dos trabalhadores habilitados recebeu os valores principais das indenizações. Também é fato que muitos foram levados a fazer "acordos" que reduziram esses valores. Posteriormente, segundo relatos de jornalistas que trabalharam na Bloch,  receberam parte da correção monetária devida sobre o montante daquelas indenizações. Contudo, esses pagamentos, chamados "rateios", foram suspensos há cerca de cinco anos. Outro grupo de ex-funcionários da Bloch, numericamente menor, permanece habilitado aguardando ainda o pagamento dos valores chamados principais a que tem direito. E um terceiro grupo - daqueles ex-funcionários da Bloch que indicaram ter funções na Rede Manchete - optou por entrar com ações trabalhistas contra a TV Ômega, a adquirente das concessões das emissoras. A Ômega chegou a pagar indenizações a muitos ex-Bloch, mas quando a Justiça determinou que a empresa que controla a RedeTV não era sucessora da TV Manchete e muito menos da Bloch Editores a conta de muitos e muitos dígitos - apenas um desses "boletos" está em torno de R$ 4 milhões - foi espetada no caixa da Massa Falida da Bloch Editores.

A legitimidade e o volume dos custos da MF da Bloch. as disputas jurídicas, não estão em questão aqui. O que se constata é o que o tempo consumiu e consome dos bens destinados a  garantir os direitos plenos dos credores trabalhistas. E o quanto esse mesmo tempo impactou os ex-funcionários, suas famílias, seus herdeiros.

Por fim: há meses ex-funcionários da Bloch pedem ao administrador da Massa Falida da Bloch Editores uma reunião para discutir a quitação da correção monetária e das indenizações trabalhistas ainda pendentes. Você recebeu uma resposta? Nem eles. 

21 anos? Isso não é massa! (J.E)


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Você conhece algum letão?

 

Evandro boquiaberto diante de Točs. Foto de Pilar Olivares/Reuters  (*)

Você conhece algum letão? 

Nem eu. Isto é, posso dizer que passei a conhecer na madrugada desta segunda-feira a fenomenal dupla de vôlei-de-praia Edgars Točs e Mārtiņš Pļaviņš, que eliminou os brasileiros Evandro-Bruno Schmidt e agora enfrenta Alison e Álvaro Filho no próximo mata-mata. As meninas letãs, Graudina e Kravčenoka, também mostraram que são boas de bola em Tóquio: bateram a dupla brasileira Ana Patrícia e Rebecca por dois sets a um. 

E o hóquei-no-gelo é que é o esporte nacional da Letônia, uma das três repúblicas bálticas, com a Estônia, ao norte, e a Lituânia, ao sul. A população do país está em torno dos dois milhões de habitantes, equivalente à da cidade de Curitiba. E a grande contribuição cultural da Letônia é o fato de ser um letão o personagem principal do primeiro romance do belga Georges Simenon sobre o Comissário Maigret, um dos maiores investigadores da literatura policial. Maigret aparece em 75 romances e 28 contos e surgiu pela primeira vez em 1931 – há exatos 90 anos – no livro Pietr-o-letão. R.M.

(*) Uma Olimpíada produz muitas imagens, mas algumas são especiais. Como essa que ilustra esse post. A defesa de Točs parece deixar perplexo o brasileiro Evandro. A foto é de Pilar Olivares, fotógrafa que mora no Brasil e tem um trabalho importante sobre as cores e dores da América do Sul. Clique AQUI para conhecer um pouco mais do trabalho da peruana. Ou acesse  https://www.instagram.com/pilarrio/?hl=pt

Na capa do Globo: Paolla Oliveira é vacina contra a tradição de desfortunas de Agosto

 

por Flávio Sépia 

Em tempos sombrios o Globo enfeitou o domingo, 1° de agosto, com uma capa que destaca a  exuberante Paolla Oliveira em foto de Fe Pinheiro para a revista ELA. Um tipo de primeira página mais rara na linha do jornal carioca. Bem melhor do que uma capa com Michel Temer, Bolsonaro e, com todo o respeito, o Dalai Lama também citados no noticiário de ontem. 

É um mês que costuma aprontar. A história da política brasileira guarda decepções o ano todo, mas Agosto, que homenageia o imperador César Augusto, é campeão em crises. 

Que a bela Paolla seja a melhor vacina. 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Incêndio da Cinemateca Brasileira: as chamas do ódio à Cultura.

 

Foto Instagram

Manifesto dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira sobre o incêndio na unidade da Vila Leopoldina

"O incêndio que acometeu o edifício da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina na noite de 29 de julho de 2021 foi um crime anunciado, que culminou na perda irreparável de inúmeras obras e documentos da história do cinema brasileiro. Essas instalações são parte fundamental e complementar em relação ao espaço da Vila Clementino, onde se encontra armazenada a maior parte do acervo da Cinemateca Brasileira. Recentemente, em fevereiro de 2020, uma enchente já havia afetado grande parte do acervo documental e audiovisual lá depositado.

Há mais de um ano denunciamos publicamente a possibilidade de incêndio nas dependências da Cinemateca pela ausência de quaisquer trabalhadores de documentação, preservação e difusão. Houve o alerta sobre a chance de o sinistro ocorrer nos acervos de nitrato da Vila Clementino, pois trata-se de material inflamável que pode entrar em autocombustão sem revisão periódica. Não foi o caso deste, o quinto incêndio na instituição. No entanto, as causas são as mesmas. Seguramente, muitas perdas poderiam ter sido evitadas se os trabalhadores estivessem contratados e participando do dia a dia da instituição.

No próximo dia 8 de agosto completará um ano do abandono da Cinemateca Brasileira pelo Governo Federal e a demissão de todo seu corpo técnico, que sequer recebeu os salários não pagos e as rescisões pela anterior gestora,

Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto – Acerp. Ainda assim foi noticiada a contratação de equipes de manutenção, bombeiros e limpeza. Apesar de serem fundamentais para o funcionamento do arquivo de filmes, não são suficientes para suas demandas específicas, como evidenciado neste dia fatídico.

A situação se torna mais crítica se pensarmos que essa ausência de equipe técnica especializada por um ano possivelmente teve consequências irreversíveis para o estado de conservação dos materiais. Certos danos são silenciosos, porém tão trágicos quanto um incêndio, e igualmente irrecuperáveis. Trata-se do tempo de vida dos diversos materiais, diminuindo drasticamente, e da perigosa deterioração dos filmes de nitrato e de acetato. Apenas com o retorno da equipe especializada será possível avaliar as extensões das perdas e danos para que então as atividades de conservação sejam retomadas.

O acervo que estava armazenado na Vila Leopoldina, apesar de em menor número, possuía igual relevância e importância ao da Vila Clementino. Abaixo listamos alguns dos materiais possivelmente perdidos ou afetados no incêndio de 29 de julho de 2021:

Do acervo documental: grande parte dos arquivos de órgãos extintos do audiovisual como parte do Arquivo Embrafilme – Empresa Brasileira de Filmes S.A. (1969 – 1990), parte do Arquivo do Instituto Nacional do Cinema – INC (1966 – 1975) e Concine – Conselho Nacional de Cinema (1976 – 1990), além de documentos de arquivo ainda em processo de incorporação. Para evitar que novas enchentes atingissem o acervo, parte desses materiais foi transferida do térreo para os depósitos climatizados no primeiro andar, principal área atingida pelo incêndio. Tal medida ocorreu após uma grave enchente em fevereiro de 2020. Parte do acervo de documentos oriundos do arquivo Tempo Glauber, do Rio de Janeiro, inclusive duplicatas da biblioteca de Glauber Rocha e documentos da própria instituição.

Do acervo audiovisual: parte do acervo da distribuidora Pandora Filmes, de cópias de filmes brasileiros e estrangeiros em 35mm. Matrizes e cópias de cinejornais únicos, trailers, publicidade, filmes documentais, filmes de ficção, filmes domésticos, além de elementos complementares de matrizes de longas-metragens, todos estes potencialmente únicos. Essa parcela do acervo já havia sido parcialmente afetada pela enchente recente. Parte do acervo da ECA/USP – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo da produção discente em 16mm e 35mm. Parte do acervo de vídeo do jornalista Goulart de Andrade.

Do acervo de equipamentos e mobiliário de cinema, fotografia e processamento laboratorial: além do seu valor museológico, muitos desses objetos eram fundamentais para consertos de equipamentos em uso corrente, pois, para exibir ou mesmo duplicar materiais em película ou vídeo, é necessário maquinário já obsoleto e sem reposição no mercado.

O incêndio da noite de ontem é mais um motivo pelo qual não podemos esperar para dar um basta à política de terra arrasada e de apagamento da memória nacional! Estamos em luto, pela perda de mais de meio milhão de brasileiros, e agora pela perda de parte da nossa história. Incêndio na Cinemateca Brasileira em 2016, no Museu Nacional em 2018 e, novamente, na Cinemateca em 2021. Além de todas as mortes evitáveis, nossa história vem sendo continuamente extirpada – como um projeto. Infelizmente, perdemos mais uma parte do patrimônio histórico-cultural brasileiro.

A Cinemateca Brasileira não pode ficar à mercê de novas intempéries. A gestão da instituição por meio de terceirização via Organização Social, da forma como foi realizada, mostrou como pode ser frágil essa relação, e que tal modelo não

dá conta da complexidade de um órgão cultural desse porte. O edital prometido pelo Governo Federal, sem debate, ferramentas de transparência, a participação da população, de pessoas da área de patrimônio cultural e, principalmente, do coletivo dos ex-trabalhadores da instituição, não será a solução. Alerta-se ainda que o orçamento anunciado é significativamente inferior ao necessário. É preciso estabilidade e garantia de equipe técnica a longo prazo, oferecendo à instituição um orçamento compatível com os necessários serviços de preservação e difusão do audiovisual brasileiro."

Sem trabalhadores não se preservam acervos!

Trabalhadores da Cinemateca Brasileira

São Paulo, 30 de julho de 2021.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

China protesta contra a Reuters. Na edição de fotos só a chinesa é "feia"?

Todo atleta faz careta em momento crítico. Mas a edição da Reuters só
não poupou a chinesa. Foto Reprodução Twitter


por Clara S. Britto
Confira acima. O embaixador chinês viu preconceito na escolha da foto "feia".
Quando não gostava de uma foto Adolpho Bloch mastigava e comia o indigitado cromo. Era a versão que corria na Bloch, sempre melhor do que o fato.  Ontem, o embaixador chinês em Sri Lanka praticamente deglutiu uma foto da Reuters. Ele não gostou de uma montagem que a agência divulgou no Twitter com três fotos de atletas ocidentais como espécimes quase perfeitos ao lado de um halterofilista chinesa fazendo careta, obviamente contraída pelo esforça ao levantar mais de 150kg. O embaixador achou a foto "feia" do postada de propósito ao lado de sorridentes ocidentais e acusou a Reuters de preconceito. 

Isso leva a um observação. De fato, aparentemente, as rede sociais passaram a observar a estética dos atletas. E não raro com preconceito. A goleira Bárbara, da seleção brasileira feminina, tem sido alvo de críticas preconceituosas. É acusada de "gorda".

Felizmente, a Olimpíada ainda permite uma diversidade de corpos e raças. Essa é a beleza do jogo. Os halterofilistas têm curvas e músculos, nadadores são enxutos, quenianos são magros,  judocas são pesados, arqueiros são gordos, magros ou barrigudinhos, ao pessoal do tiro não importa o peso, a galera da luta romana repete várias vezes o prato feito do restaurante olímpico, as lançadoras do martelo são volumosas. 

Cabe tudo na passarela dos Jogos.


Rebeca Andrade, a menina de prata

Rebeca quer inspirar crianças. Foto de Ricardo Bufolin/CBG/Divulgação

/

por Niko Bolontrin 

A primeira medalha da ginástica artística feminina do Brasil em Jogos Olímpicos. Esse é o tamanho do feito de Rebeca Andrade. 

E tudo isso ao som do funk Baile de Favela. 

Você acha que a vida está fácil? Pois bem antes de ganhar a prata inédita e escalar o degrau do pódio, a menina de Guarulhos (SP) passou por três cirurgias no joelho. 

“Eu nem sei explicar o que passou pela minha cabeça. Eu queria muito me sair bem hoje, não digo nem para ganhar medalha, mas fazer uma boa ginástica, uma boa inspiração para outras crianças pretas, brancas, todas as crianças que estão vendo. E um orgulho para o Brasil. Está sendo incrível. Todas as mulheres que passaram pela ginástica artística do Brasil se veem nessa medalha, elas estão muito orgulhosas de mim e se sentindo orgulhosas dessa história”, disse ela ao site do COB.  

Os melhores resultados da ginástica feminina do Brasil até então eram os quintos lugares de Daiane dos Santos (solo), em Atenas 2004, e de Flavia Saraiva (trave), no Rio 2016.

Rebeca Andrade ainda competirá nas finais do salto, no dia 1 de agosto, e do solo, no dia 2.

Boa sorte!

Em Tóquio, a geopolítica não sobe ao pódio. Os atletas, sim.

O Globo, 28-7-2021

por José Esmeraldo Gonçalves

No endereço que atende pelo nome 1600 Pennsylvania Ave NW, Washington, DC, o editorial do Globo ontem, deve ter sido recebido com muita satisfação.

Joe Biden e o Departamento de Estado assinariam embaixo.

O jornal não está contente com a participação da Rússia na Olímpiada do Japão. A cada medalha, lábios trêmulos e olho rútilo, como descreveria Nelson Rodrigues, ele baba a espuma da indignação. 

Como todos sabem, a Rússia está competindo em Tóquio sob a bandeira do ROC (Russian Olympic Cometee, na sigla em inglês, sem lenços, documentos e bandeira. O uniforme exibe discretamente as cores nacionais. Quando sobem ao pódio, o que tem acontecido com frequência, os atletas russos ouvem música de Tchaikovsky, como o Concerto para Piano Nº1. 

Mas o editorialista acha pouco e quer botar pra quebrar. Decreta que a Rússia deveria competir sem nome e apenas com a bandeira do Comitê Olímpico Internacional, assim como atuam os refugiados. 

Nos estádios, piscinas, ginásios, pistas e raias de Tóquio ninguém está preocupado com a geopolítica.  

Os atletas de todos os países dão exemplo de confraternização, estão em uma prateleira acima da raiva. Convivem com os colegas russos, tiram selfies juntos.  

De fato, são polêmicos o contexto, as conclusões e as punições que resultaram de uma suposta e massificada operação de doping comandada pela Rússia. Cerca de mil atletas russos sofreram sanções, 14 medalhas olímpicas conquistadas em Londres 2012 foram cassadas. Depois dessa primeira onda de punições, vieram outras em 2019 e o país foi banido de competições esportivas até 2022. Isso inclui a Copa do Catar e a próxima Olimpíada de Inverno  A Rússia acusa a WADA (World Anti-Doping Agency) de atuar sob comando de americanos e ingleses, com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos participando da investigação. Parece claro que a isenção não ganhou medalha nesse rumoroso caso.

Folha de São Paulo, 29-7-2021

Ao tratar do mesmo assunto, a Folha de São Paulo "controlou o psicológico", como dizem os atletas, e foi mais sóbria. Não ligou o megafone do ativismo para pedir mais punicões. 

Apesar da pandemia e da indefinição sobre a realização dos jogos, o que tornou tensa a preparação dos atletas, tem sido bonita a festa e o brilho dos atletas em Tóquio. 

Inclusive dos atletas russos.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Governo homenageia o "Rambo" ruralista

 

Reprodução Twitter

Além de ter armas como "instrumentos de trabalho", traficantes e milicianos cultivam uma espécie de fetiche por fuzis, pistolas e espingardas 12. É comum postarem nas redes sociais fotos em que exibem o arsenal. 

A Secom, da Presidência da Republica, parece gostar da mesma estética. 

Para homenagear os ruralistas - hoje é o Dia do Agricultor - o Planalto elaborou uma campanha cujo destaque é um homem com um rifle em meio a uma plantação. Os "gênios" da Secom devem achar que essa é a ferramenta principal dos agricultores, antes de arados, tratores e enxadas. A cena remete à política do governo Bolsonaro empenhado em armar apoiadores. 

Para a ultra direita em se plantando tudo é bala.


Brasileiro tem que ser estudado... O Bananão, como dizia Ivan Lessa, não é para amadores

 

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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Sobrou emoção no Japão. Rayssa é prata! Ítalo é ouro!

 

Rayssa, a pequena  heroína. Foto de Wander Roberto/ COB/Divulgação

Rayssa Leal, 13, circulava pelo Skate Park Olímpico com a mesma naturalidade que demonstra nos seus vídeos na cidade natal, Imperatriz, no Maranhão. A menina que conquistou Tóquio fez história nos como a atleta mais jovem a ganhar uma medalha nas Olimpíadas, isso em longos 85 anos, e na estreia do skate como modalidade olímpica..

“Não caiu a ficha ainda. Poder representar o Brasil e ser uma das mais novas a ganhar uma medalha. Eu estou muito feliz, esse dia vai ser marcado na história. Eu tento ao máximo me divertir porque eu tenho certeza de se divertindo as coisas fluem”, disse, ainda sob a emoção da vitória. Na disputa final, Rayssa somou 14,64 pontos. As japonesas Nishiya Momiji, com 15s26, foi ouro, e Funa Nakayama, com 14,49, ganhou a medalha de bronze. 

Rayssa revelou esperar que em 2024, nos Jogos de Paris, as meninas do Brasil estejam de novo representando país. 


Italo Ferreira: na onda do ouro. Foto Jonne Roriz. COB/Divulgação

Italo Ferreira, de Baía Formosa, Rio Grande do Norte, ganhou medalha de ouro. Também fez história ao subir no pódio na estreia do surfe nas Olimpíadas. Ítalo deu um show nos aéreos. Certamente, em 2024, poderá brilhar ainda mais nas ondas gigantes de Teahupoo, no Taiti, Polinésia Francesa, que será o palco da disputa como parte da Olimpíada de Paris.

domingo, 25 de julho de 2021

Já temos polícia política. Leia o artigo abaixo que circula nas redes sociais desde as manifestações de ontem

por Mauro Ventura (do Facebook)

Ao fim da manifestação do dia 3 de julho, no Rio, um amigo jornalista passou por um cordão de policiais e ouviu:

- Vontade de jogar uma granada.

A frase foi dita provavelmente como uma afronta a ele, que estava com uma bandeira de “Fora Bolsonoro”. Meu amigo, claro, não reagiu. Com meu pessimismo habitual, pensei: “Vai chegar o momento em que as provocações vão deixar de ficar na ameaça e se tornar realidade.” É explicável. À medida que os protestos se avolumam e incomodam cada vez mais o governo, a tendência é começarem as confusões, numa tentativa de macular e criminalizar as manifestações. Seja por parte de vândalos, black blocs, policiais ou extremistas de direita infiltrados. 

Não deu outra, ainda que de forma isolada. Eu só não poderia imaginar que viraria alvo. Antes de continuar o relato, recuemos até o início do ato deste 24 de julho. Estava lindo, como os anteriores. Mas a impressão que dava era a de que os cariocas vivem na cidade mais tranquila do mundo - e a de que todos os possíveis criminosos estavam concentrados na Avenida Presidente Vargas. Afinal, parecia que boa parte do aparato policial do Rio tinha sido deslocado para lá. Isso criava uma tensão desnecessária no ar – as pessoas ali estavam mais interessadas em se manifestar de forma incisiva, mas ao mesmo tempo criativa contra o governo. 

 Em alguns trechos, os policiais chegaram a montar barreiras para bloquear o caminho das pessoas, algo que não havia acontecido nos três primeiros atos. Fiquei me perguntando a razão. Um dos PMs exibia ostensivamente a arma - que me parecia de bala de borracha -, movendo-a de um lado para outro, numa manifestação de força dispensável.

Mais para o fim do protesto, um grupo de policiais começou a se movimentar ruidosamente para a Avenida Rio Branco. A curiosidade profissional falou mais alto e decidi segui-los. Junto, havia um pequeno grupo de manifestantes, fotógrafos e jornalistas. 

A certa altura, os policiais começaram a revistar aleatoriamente quem estava em volta. Não sei por que me pouparam. Não encontraram nada além de documentos, álcool gel, celulares. Um dos policiais disse aos demais:

- Vamos arrumar um sozinho. Faz um cerco por todos os lados. 

Os PMs formaram então um cordão. O que parecia o chefe elegeu um rapaz que estava com uma mochila e alguns malabares e disse: 

- Tá preso! Desacato.

Não entendi a razão. O problema é que desacato a autoridade é algo complicado. Debaixo desse guarda-chuva, pode estar de fato uma ofensa a um funcionário público como pode estar uma simples cisma de uma autoridade. 

Os policiais empurraram o rapaz para a parede, revistaram-no e o obrigaram a se sentar. As pessoas em volta, indignadas, começaram a gritar: “Solta!”, “Os bandidos estão em Brasília!”, “Polícia de Bolsonaro!”. 

Os PMs fizeram uma barreira para impedir que as pessoas se aproximassem, e trataram de afastar quem protestava – e até quem só observava, como era meu caso. Primeiro com empurrões, depois com spray de pimenta. Num determinado momento, um dos jatos atingiu meus olhos, provocando uma ardência indesejada. Para minha sorte, não foi disparado diretamente a mim, mas sim a quem estava a meu lado. Mas foi suficiente para me deixar ligeiramente desnorteado.

 Nessa hora, percebi que todo mundo se afastava de mim. Esfreguei os olhos, espiei para baixo e notei a razão. Haviam jogado o que parecia ser uma bomba do meu lado. Não tinha ideia do que poderia ser. Se fosse de gás lacrimogêneo, eu ia penar. Já estive em protestos em que a polícia jogou bombas de gás e sofri, mesmo estando à distância. E se, por outro lado, fosse bomba de efeito moral, daquelas que explodem com grande estrondo e soltam nuvem de talco? Ou daquelas que produzem um clarão que desorienta temporariamente? Na hora, não deu para pensar em nada disso. Somente: “Ferrou.”

O artefato explodiu junto a meus pés. Felizmente, não era nada demais. Fiquei curioso de saber do que se tratava, já que só fez algum barulho. Não teve nenhuma consequência além de um susto. 

- Vou tacar outra! – gritou um policial. 

Ainda que a primeira não tenha causado nenhum estrago, achei mais prudente me afastar. E continuei acompanhando. Logo depois, os policiais pararam uma patrulhinha do 5º Batalhão, pegaram uma algema e arrastaram o malabarista agressivamente para dentro da viatura. 

- Malabar agora é crime – espantou-se uma moça a meu lado.

Na capa da Veja: uma teocracia sobre a sua cabeça


Da Veja: "A defesa dos interesses da Universal em Angola — uma violação à Constituição — é o exemplo mais recente da aproximação Igreja-Estado no Brasil"



Arles: do café de Van Gogh à Torre de Frank Gehry • Por Roberto Muggiati

Le Café de nuit,Van Gogh, Arles

Como bolsista do Centre de Formation des Journalistes de Paris, em 1961 – já rolaram 60 anos num piscar de olhos – fui escalado nas férias de Páscoa para estagiar no Midi Libre de Montpellier. Um redator do jornal, ex-aluno do CFJ, me despachou logo: não tinham tempo para me dar atenção, os fechamentos eram corridos e desgastantes. O diretor de redação assinou uma carta atestando que eu fizera um brilhante estágio e me liberaram. Além do estágio, eu devia escrever uma matéria sobre a região, o Hérault. Passei dois dias ouvindo funcionários locais e recolhendo farto material, escreveria quando voltasse a Paris. Sobrou muito tempo para fazer turismo no local, na época um destino de viagem quase virgem na França.

Visitei Carcassonne – cidade medieval preservada intacta – a região selvagem e pantanosa da Camarga – onde os ciganos da Europa fazem seu encontro anual em Les Saintes Maries de la Mer – e, na segunda-feira de Páscoa, fui até Arles – era dia de touradas – mas preferi procurar o café amarelo pintado por Van Gogh. Não existia mais, fora destruído por uma bomba na Segunda Guerra. (Nos anos 1990, reconstruíram algo no local simulando o “café Van Gogh”, atração turística que os incautos julgavam fosse o original.) Percorri os Alyscamps – também pintados por Van Gogh – necrópoles romanas: na língua da Ocitânia Alys Camps nada mais eram do que Campos Elísios... Depois de visitar em Paris a ilha da Grande Jatte – a obra-prima do pontilhista Seurat, que retrata um domingo de verão da belle époque, onde só encontrei lixo e ferro-velho – o Terraço do café à noite em Arles de Van Gogh foi outra que me ficaram devendo...

Luma Arles, de Frank
Gehry. Foto Divulgação
Um fato novo me leva àqueles tempos. Arles acaba de ganhar um museu fabuloso projetado pelo arquiteto canadense especialista em grandes museus, Frank Gehry – aquele do Guggenheim de Bilbao. A torre de sessenta metros não teria surgido sem o patrocínio da grande colecionadora suíça Maja Hoffman, herdeira das indústrias farmacêuticas do mesmo nome, em cujos laboratórios o cientista Albert Hoffman sintetizou em 1938 o ácido lisérgico, mais conhecido como LSD. Gehry disse que a inspiração da torre Luma foi a tela pintada por Van Gogh em Arles, Noite estrelada. Pelo visual da coisa, suspeito que ele possa ter recebido um “little help” psicodélico. Aliás, Van Gogh pintava como se tivesse tomado ácido. 

E, já que estou viajando, vamos ao prelúdio da Suite L’Arlesienne, dedicada à mulher de Arles, composta por Georges Bizet – sim, o pai da Carmen – adoro Bizet, pena que só viveu 36 anos, reparem o saxofone já no naipe de sopros, numa época em que a sinfônica esnobava o instrumento criado por Adolphe Sax.

Ouçam AQUI



sábado, 24 de julho de 2021

Até o dia clarear

Reprodução Twitter

A liturgia da bandalha

Reproduzido d Globo (24-7-2021)

O colunista Ascânio Seleme, do Globo, compara a primeira camada da linguagem do Senado e da Câmara, a versão cenográfica, com a segunda camada, a verdadeira. Entre uma e outra o jogo sem vergonha dos eufemismos. 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Cicciolina ainda choca? • Por Roberto Muggiati

Cicciolina na Manchete.
Foto de João Miguel Jr/Manchete


Dewi Sukarno, também à mesa na sede da Rua do Russel

Foto de Gil Pinheiro/Manchete


Em 1997, aos 45 anos, a musa do pornô italiano chocava (duplo sentido), em poses lascivas de galinha poedeira – só ela mesmo seria capaz – sobre a grande mesa de jacarandá do restaurante da Bloch para as câmeras da Manchete e da imprensa brasileira e internacional. (Na ocasião, fez uma ponta na telenovela Xica da Silva como uma cortesã genovesa.)

É bom explicar à rapaziada que pegou o bonde da História andando no milênio: Ilona Staller nasceu em 1950 na Hungria, foi espiã soviética na Itália, ganhou cidadania ao casar com um italiano, entrou com furor no nascente pornô peninsular com o nome de guerra de Cicciolina (“Fofinha”), daí como um vendaval na política radical, fundando o Partido do Amor e depois o DNA (Democracia, Natureza e Amor), tendo sido a segunda deputada mais votada nas eleições de 1987.

Agora, à véspera dos 70 anos, ela embarcou num projeto polêmico, o “Classic Nudes” (disponível no You Tube), um guia interativo que faz, sem autorização, para o site Pornhub, uma releitura picante de mais de cem obras-primas de museus como Louvre, Prado, MoMA, Uffizi e outros grandes. A volta de Cicciolina às manchetes me lembrou que não foi ela a única a sentir uma atração erótica irresistível pelas mesas da Manchete

Nos anos 1970, Adolpho Bloch recebeu no primeiro prédio do Russell a viúva do presidente da Indonésia, Dewi Sukarno, hoje com 81 anos, socialite, celebridade da TV, filantropa. Nascida em Tóquio, estudante de artes e garçonete, aos 19 anos conheceu o presidente indonésio de 57 anos, que casou com ela em 1962, nomeando-a Ratna Sari Dewi Sukarno – no sânscrito javanês, “a joia essência de uma deusa”. Presidente desde 1945, Sukarno foi derrubado por um golpe de Suharto em 1967 e morreu três anos depois. Ao visitar o Teatro Adolpho Bloch em novembro de 1974, a bela Dewi, no viço dos seus 34 anos, posou soberana e suavemente sexy sobre a mesa do foyer. 

Reparem: Cicciolina e Dewi ambas virginalmente de branco...


quinta-feira, 22 de julho de 2021

Forças nada ocultas (e o "voto impresso" como pretexto para um ataque desesperado à democracia)




por José Esmeraldo Gonçalves
O fato político do dia decorre de uma matéria do Estadão. Segundo o jornal, o ministro da Defesa, general Braga Neto, teria mandado um recado para o presidente da Câmara, Arthur Lira, basicamente avisando que as eleições de 2022 só acontecerão se o voto impresso for aprovado. 

O motivo da suposta pressão é a emenda em análise na Câmara que se aprovada obrigará a emissão de um "recibo" impresso do voto (mais conhecido, nas redes sociais, como "boleto da milícia", uma irônica referência ao que poderia ser um "comprovante" da compra e venda do voto. O projeto propõe que uma cédula seja impressa após a votação eletrônica, de modo que o eleitor possa conferir o voto antes que ele seja depositado 

(Veja informação abaixo, ao fim do post*)

Há cerca de duas semanas Bolsonaro expressou a mesma ameaça, publicamente. O que o general fez agora, de acordo com a reportagem, foi referendar e assinar embaixo da ofensiva contra a Constituição e a democracia. 

A matéria do Estadão protege as fontes, mas ressalta que vários políticos e até um ministro do STF têm conhecimento da ameaça de Braga, alguns testemunharam o recado. Os repórteres, como mostra a denúncia, checaram as informações em vários níveis. Braga Neto nega que tenha enviado o recado, mas admite que o Governo Federal defende o "voto eletrônico auditável". 

Bolsonaro e adeptos denunciam repetidamente fraude na apuração de votos. Desafiado a mostrar provas se acovarda também seguidamente. E já antecipa que só a fraude impedirá sua reeleição no ano que vem. Bolsonaro não é original ao lançar suspeitas sobre as urnas. Apenas segue a tática de Donald Trump, que aliás levou uma horda de apoiadores a invadir o Congresso americano, no dia 6 de janeiro, quando deputados e senadores confirmavam oficialmente a vitória de Joe Biden. 

A propósito dos instintos do ex-presidente americano, os jornalistas investigativos Philip Rucker e Carol Leonnig, do Washington Post, lançam o livro “I alone can fix it: Donald J. Trump's catastrophic final year” (“Só eu posso resolver isso: o catastrófico ano final de Donald J. Trump”), onde revelam que a cúpula militar dos Estados Unidos chegou a temer um golpe de Estado e teria se preparado para reagir. A primeira resposta seria um pedido de demissão coletiva caso Trump passasse a dar ordem ilegais. 

(*) O projeto que cria o voto impresso, apoiado pelo governo, vem na sequência de fake news que circulam nas redes sociais, Os defensores da medida alegam que o voto eletrônico não pode ser auditado. O TSE desmente. Veja trechos de matéria no site do tribunal: 

"Depois que a votação é encerrada, o total de votos registrados em cada aparelho é gravado em uma mídia digital. Posteriormente, o resultado é transmitido ao TSE por meio de uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral, o que impede qualquer tentativa de interceptação por hackers. Os dados chegam criptografados ao Tribunal, onde são checados e somados por um programa. (...) Todo o processo pode sim ser auditado".

"Antes da eleição, os códigos-fonte usados na urna eletrônica podem ser conferidos no TSE. Durante todo o processo eleitoral, é permitido checar e auditar todos os softwares que realizam a totalização dos votos. Por fim, depois da votação, tudo fica registrado no Boletim de Urna (BU), um relatório detalhado, que contém, entre outras informações, o total de votos por partido e por candidato, bem como a totalidade de eleitores aptos a votar na seção e a quantidade de votos nulos e brancos".

"Quer verificar o resultado da sua seção eleitoral, cidade ou até de todo o país? Você pode: basta checar o Boletim de Urna disponibilizado após o término da votação ou no Portal do TSE. 

Nas telas do 'Braziu!'

sábado, 17 de julho de 2021

Braziu!

 

Reprodução Twitter

A olimpíada do vírus: medalhas no álcool gel

 

A Veja levanta a polêmica da realização da Olímpiada em plena pandemia. Já se sabe que a "bolha" não funciona. Já há casos em hotéis e até na cidade olímpica. 

E o Brasil deu sua contribuição para o risco sanitário. Parte da delegação brasileira se recusou a se vacinas. O COB calcula que 25% dos atletas apostaram no risco, outros, outros tomaram apernas a primeira dose. 

Tremenda falta de consciência social. O esporte não pode estar acima da responsabilidade cidadã.  

Com aparência de brinquedo, essa pistola mata

 

Reprodução Instagram Culter Precision

A empresa norte-americana Culper Precision desenvolveu um arma letal com aparência de brinquedo. Por força do poderoso lobby da NFA (National Rifle Association) muitas pessoas nos Estados Unidos talvez não se choquem tanto com o produto, mas o design da peça sinistra, com aparência de lego, é atraente para crianças. Criticada, a empresa diz que sua intenção foi prestigiar os esportes de tiro. 

O Brasil vive a era do liberou geral das armas de fogo. Inundado de pistolas e até armas de guerra, o país já constata os efeitos mortais das nova legislação nas recentes estatísticas. Parte dessas armas, a polícia alerta sobre isso, vai parar nas mãos de assaltante ou elementos do tráfico e da milícia.

Aqui, há casos de assaltantes desmonetizados que usam réplicas de armas. A polícia também aconselha ao cidadão não reagir nunca, mesmo diante da duvida se a arma é de brinquedo ou de verdade. Então, vale o aviso: se a arma parecer de brinquedo, não reaja. Pode ser a irresponsável pistola da Culter. O "brinquedo" dispara balas fatais.

Publimemória: quando a Varig era top, passageiro não passava fome e a Manchete pegava carona...

 


Anos 1960. O Boeing 707 da Varig voava absoluto para os principais destinos do mundo. O passageiro da empresa brasileira, que tinha à disposição o "diner a la carte", jamais imaginou que um dia empresas aéreas ofereceriam jejum a bordo ou amendoim ressecado como primeiro "prato" seguido de barra de cereal. 

No tempo das fotos analógicas em que o material dos fotógrafos era despachado por avião, a Varig era grande parceira da Manchete. Solícitos, pilotos e tripulantes traziam os envelopes com filmes para fechamento do material internacional das edições. Quando não era possível alcançar a tripulação antes do embarque, a solução era apelar para um passageiro. Com base na descrição que chegava por telex ou telefone - "homem alto, de óculos, cabelo reco" ou "mulher loura, magra, de blusa verde e minissaia", alguém da equipe dos Serviços Editoriais, da redação carioca, recebia o portador no velho Galeão. O jargão interno para despachar e receber fotos era "fazer um passageiro".

Hoje, com tanta segurança, seria bem difícil um passageiro abordado no aeroporto topar carregar um envelope entregue por um desconhecido. 

Outra resultante da parceria Manchete-Varig era a disponibilidade da edição semanal da revista para os passageiros de todos os voos da companhia. No anúncio reproduzido acima uma aeromoça - atualmente o correto é comissária de bordo - no seu beliche de descanso lê uma revista. 

A ilustração acima foi enviada ao blog pelo colega Nilton Muniz que trabalhou nos Serviços Editoriais da Bloch, precisamente o setor que durante décadas, até a chegada do digital, era encarregado de resgatar nos aeroportos filmes e fotos que a Varig transportava por cortesia e as redações das revistas aguardavam com ansiedade para fechar páginas abertas. Sem atrasar a happy hour no Novo Mundo. (José Esmeraldo Gonçalves)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Caparam o Capão, ou Aqui Jazz • Por Roberto Muggiati*

Festival de Jazz do Capão. Foto Divulgação



Os regimes totalitários odeiam o jazz, vejam o nazismo e o estalinismo. As facções racistas e reacionárias odeiam o jazz, vejam a quantidade de músicos norte-americanos que preferiu morar e tocar na Europa. 

Agora – retardado como sempre – o “Brasil oficial” adere à onda de ódio ao jazz, uma das manifestações de arte mais libertárias da nossa época, ao lado do cinema. A Funarte acaba de vetar apoio da Lei Rouanet à nona edição do Festival de Jazz do Capão, na Chapada Diamantina, Bahia. O motivo do veto foi que o evento se declarou “antifascista e pela democracia” – como se isso fosse algo nocivo à sociedade brasileira. Mais um vexame para nossa cultura aos olhos do mundo. Para Tiago Tao, o produtor do evento, a não aprovação tem viés ideológico: “Não houve um parecer técnico, nenhuma avaliação do programa. O governo usa argumentos que beiram a bizarrice. Aliás, o governo não foi citado, mas vestiu a carapuça.”

Raul de Souza. Foto Emmanuelle Nemoz/rauldesouza.net  

Realizado há dez anos, o Festival do Capão já reuniu Hermeto Pascoal, Raul de Souza, Ivan Lins, Naná Vasconcelos, Toninho Horta, Orquestra Rumpilezz, Egberto Gismonti e outros nomes de relevo internacional.


... E o Mago tirou um Coelho da cartola 

Paulo Coelho e Christina Oiticica. Foto paulocoelhoblog.com

• O jazz já foi chamado “o som da surpresa”. Enquanto essa matéria ia para nossas prensas digitais, foi anunciado que o escritor Paulo Coelho e sua mulher, a pintora Christina Oiticica, se ofereciam para bancar os custos do Festival de Jazz do Capão. (“Única condição: que seja antifascista e pela democracia”.) Como diria Shakespeare, bem está o que bem acaba... Bela notícia para um 14 de julho em que se comemoram os 232 anos da Queda da Bastilha.

 *Roberto Muggiati é autor dos livros O que é jazz, New Jazz: de volta para o futuro e Improvisando Soluções.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

O país do enema

por O.V.Pochê
As redes sociais estão agitadas. A obstrução intestinal de Bolsonaro está entupindo os vasos digitais. Há quem ore pelo prevaricador, há quem faça piada e há que ache que tudo é encenação diante das acusações de corrupção, das pesquisas que atestam queda radical de popularidade, das revelações da CPI. Outros desconfiam que tudo não passa da sequência do episódio da "Facada", que desviaria a atenção da crise e provocaria a compaixão nacional. Oremos.

terça-feira, 13 de julho de 2021

A seleção triste...

por José Esmeraldo Gonçalves

A seleção conseguiu o que parecia impossível: tornar triste o futebol brasileiro. 

A CBF e alguns jogadores fizeram  a escolha de levar a política para o campo ao se associarem ao desgoverno Bolsonaro. Foi uma tomada de posição, okey, como diria o "mito" deles. Mas no momento em que o prevaricador se desgasta junto à maioria dos brasileiros é claro que ia sobrar para a popularidade da seleção. 

Apesar disso, esqueçamos aqui a política. Independentemente da adesão à figura cujo negacionismo e suspeitas de corrupção foram responsáveis pela morte de um número absurdo de pessoas - um recorde mundial de vítimas por habitante - a seleção tem outros ângulos desfavoráveis. Empatia não é o forte do time. Ao contrário, exala amargura, no que parece ter sido contaminado por Neymar, eternamente contra o mundo. 

O jogador do PSG critica a mídia por noticiar seu comportamento extracampo, quando se trata apenas disso: noticiar fatos. Fatos que são frequentemente gerados por ele mesmo. Reconhecidamente um craque, Neymar parece estar com o modo revoltoso em on por ultimamente acumular derrotas. As frustrações do PSG na busca do Santo Graal, a Champions; a perda do título regional francês; os problemas pessoais; as questões com o fisco. Talvez tudo isso junto explique porque ele, em campo, também parece em guerra contra adversários invisíveis e visíveis. Estes sabem que o brasileiro é sempre um alvo a desestabilizar. E conseguem neutralizá-lo, muitas vezes com deslealdade.  

Reparem,  a seleção é desgostosa, a bola rola com melancolia. 

Já se vão quase vinte anos do última Copa de 2002, a do penta. O futebol mudou. O drible já não é tão festejado. Os narradores parecem vibrar mais com as estatísticas, a posse de bola, o jogo de posições, a marcação alta. Não sei se Pelé, Garrincha, Rivelino, Gérson, Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno, entre outros, teriam liberdade nos campos de hoje. Se seriam convocados para a marcação alta ou baixa, na maior parte do tempo afastando-se da "zona do agrião", como definia João Saldanha as proximidades da grande área. (N.R. o terreno próprio para cultivo do agrião é quase um lamaçal, retém muita água, se bobear o sujeito que caminha por ali vai ao chão). 

Para os treinadores europeus, que influenciam o mundo, o passe dá velocidade ao jogo - e vimos na Eurocopa como as seleções são bem treinadas na troca de passes - já o drible é jogada de contato, se não é bem-sucedido implica em interrupção da sequência de ataque, coloca em risco a festejada posse de bola, interrompe a fluência do jogo. Por isso, a firula está em em crise. Sobrevive à custa do talento de poucos jogadores, um deles Neymar. 

Em entrevistas Tite valoriza o craque resistente, aquele que faz diferença, mas o treinador costuma descrever o modo de jogar da seleção brasileira como se estivesse no centro de controle da Nasa comandando uma viagem espacial e a complexidade de um pouso em Marte. O povão quer papo fácil e bola no filó.

Tite é vitorioso, não se negue. Tem poucas derrotas na seleção. Pena que duas delas fundamentais: diante da Bélgica, que tirou o Brasil da Copa da Rússia, e contra a Argentina de Messi, que nos relegou a vice na Copa América. 

Para se reconciliar com o torcedor, a seleção precisa jogar bola e dar um cartão vermelho pro prevaricador.

Em suma, o time tem 16 meses, antes da Copa do Catar, para mostrar que ainda gosta do jogo e é solidário com o Brasil que sofre.

sábado, 10 de julho de 2021

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo protesta contra ataques à repórter Juliana Dal Piva

Na tarde de 09.jul.2021, Frederick Wassef, que se apresenta como advogado do presidente Jair Bolsonaro, atacou Juliana Dal Piva, uma das jornalistas investigativas mais consagradas do país. A colunista do UOL foi xingada com rótulos pejorativos e recebeu ameaças veladas.

Demonstrando desprezo à liberdade de imprensa e sem temer possíveis punições, o advogado recomendou que a jornalista mudasse para a China:  "Faça lá o que você faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema político que você tanto ama faria com você. Lá na China você desapareceria e não iriam nem encontrar o seu corpo".

Há anos, Juliana Dal Piva investiga o esquema das rachadinhas envolvendo os filhos de Jair Bolsonaro. No início da semana, foi além. Revelou, por meio de áudios e de uma apuração minuciosa, conexões diretas do presidente com a apropriação de salário de servidores na Câmara dos Deputados.

A Abraji não reproduzirá aqui as hostilidades proferidas por Wassef por se tratar de afirmações toscas e ultrajantes. O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, disse que vai pedir à corregedoria do órgão que apure o fato e tome as medidas necessárias.

Defendemos a liberdade de imprensa como direito garantido pela Constituição e pilar do Estado Democrático de Direito. Todo o apoio a Dal Piva, ao UOL e a todos os veículos e profissionais de imprensa que vêm sendo atacados sistematicamente desde que o governo Bolsonaro assumiu o poder, em janeiro de 2019.

Exigimos que sejam tomadas as medidas legais cabíveis contra Wassef e todos os que vilipendiam o trabalho essencial da imprensa de levar à sociedade assuntos de interesse público. Esperamos que as instituições que defendem a democracia façam seu papel e resistam à destruição do espaço cívico promovida pelos autoritários de plantão e seus militantes.

Diretoria da Abraji, 10 de julho de 2021.

...para usar a linguagem do Planalto, a Democracia pede tratamento de dejetos

Do Valor: a escolha da elite...

A pergunta da semana: Por que o PIB faz historicamente as piores escolhas para o Brasil?

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Itália X Inglaterra: quem vai decidir esse jogo? O VAR ou a rainha?

 

Ingleses erguem os braços comemorando o gol e a Copa de 1966. O mesmo gesto dos alemães
é de revolta e indignação. Foto Manchete


Em 1986, nos meses que antecederam a Copa do México, Manchete publicou a série Brasil de 12 Copas, assinada por Roberto Muggiati. Um dos capítulos focalizava a Copa de 1966, na Inglaterra. Naquele ano, o torneio foi marcado por três fatos. A desclassificação do Brasil, com a dramática contusão de Pelé, caçado em campo; o roubo da Taça Jules Rimet, depois localizada; e a bola que não entrou no gol da Alemanha, mesmo assim validado pelo árbitro. A irregularidade foi decisiva para o título da Inglaterra no lendário Wembley e na final mais discutida de todas as copas.. 

Depois de amanhã, domingo, Inglaterra e Itália decidem a Eurocopa. No mesmo estádio, agora reformado mas sempre mítico. Os ingleses se classificaram(2X1) para a final com a ajuda de um pênalti polêmico que despachou a Dinamarca, marcado também na prorrogação quando o atacante Sterling teria simulado uma falta. 

A indignação dos dinamarqueses em campo lembrou a revolta do alemães em 1966. Naquele final, o jogo acabou em 2X2, no tempo normal. Veio a prorrogação e, aos 11 minutos, o inglês Hurst chutou de fora da área, a bola bateu no travessão e caiu à frente da linha de gol. O suiço Gottifried Dienst validou o lance. A Alemanha perdeu o gás e os ingleses fizeram mais um gol, fechando o placar em 4X2 e ganhando a Copa.

A Itália confia que, dessa  vez, o árbitro não vai repetir a patriotada que vitimou a Alemanha há 55 anos e a Dinamarca, na última quarta-feira. Mesmo assim, a Azurra teme que, em possível dúvida, Sua Senhoria despreze o VAR e consulte a rainha.

Cem anos esta noite • Por Roberto Muggiati


O filósofo e escritor nas filmagens de Edgar Morin, chronique d’un regard. Foto Reprodução @edgarmorinparis


Morin na Casa da Suíça, no Rio, em 1972. Foto Arquivo Nacional.

Em 1963 fez sucesso o filme de Louis Malle Trinta anos esta noite: ao completar essa idade, o protagonista – sem rumo existencial e sem nenhum apego à vida, se mata com um tiro no coração. Bem o oposto tem sido a postura do parisiense Edgar Morin, que chegou aos cem anos neste 8 de julho. 

Não vou enumerar aqui as múltiplas manifestações do seu brilho intelectual, nem sua cultura humanista, que marcaram nossa época. Antropólogo, sociólogo e filósofo, Morin soube se valer de sua admirável longevidade para embarcar num ambicioso projeto de estudos, conhecido como o “pensamento complexo” ou “paradigma da complexidade”. Dos mais de trinta livros que publicou, seis se concentram no âmago da sua filosofia, reunidos no título geral O método, entre eles Introdução ao pensamento complexo e Ciência com consciência. 

O que mais me fascina em Morin é como ele conseguiu aliar o homem de reflexão ao homem de ação, participando ativamente dos embates político-ideológicos do nosso tempo. Filho único de pais judeus sefaraditas não praticantes, nasceu na época em que era fundado o Partido Comunista Chinês, fato que persistiu durante décadas como um dos segredos mais bem guardados da História. Concebido em Moscou, a sete mil quilômetros de distância, o PCC foi criado por treze homens – nenhum operário ou camponês – e seu discurso de abertura foi em inglês, porque os chineses não falavam russo e os russos não falavam mandarim. 

Em 1936, aos quinze anos, no seu primeiro ato político, durante a Guerra Civil espanhola, Morin adere a uma organização libertária, a Solidariedade Internacional Antifascista.

Aos vinte anos, filia-se ao Partido Comunista Francês, como “uma força capaz de resistir à Alemanha nazista”. Na pátria ocupada, entra para a resistência e se torna tenente das forças combatentes francesas. Na época, Edgar Nahoum adotou o codinome Morin; na verdade, optou pelo nome do personagem Manin, do romance de André Malraux A condição humana, mas um mal-entendido transformou Manin em Morin e assim ficou. No pós-guerra, divergindo do autoritarismo estalinista, desliga-se do Partido Comunista. 

Assiste ao esvaziamento do império colonial francês, marcado pela humilhante derrota militar em Dien Bien Phu, na Indochina, que se torna problema norte-americano com o nome de Vietnã. Empenha-se pessoalmente no embate final da descolonização, a libertação da Argélia, que acaba ocorrendo em 1962.

Mais recentemente, Edgar Morin se envolveu com a questão israelense-palestina, mostrando-se crítico da política adotada pelo governo de Israel. Lamentou que um povo perseguido e oprimido ao longo de séculos tenha assumido o papel de opressor em relação aos palestinos. O artigo em que expressou essa opinião, publicado em 2002 no jornal Le Monde, lhe valeu um processo por difamação racial e apologia de atos de terrorismo, movido pela Associação França-Israel. O processo provocou protestos, inclusive de outras entidades judaicas. Morin acabou sendo inocentado pela Corte de Cassação, a mais alta instância judiciária francesa.

Como no poema Uivo de Allen Ginsberg, Morin viu algumas das melhores cabeças da sua geração destruídas de maneira trágica. Viu Louis Althusser, o maior teórico do marxismo, estrangular a mulher enquanto massageava seu pescoço. Viu Roland Barthes, abalado pela morte da mãe, atravessar distraído o bulevar e ser atropelado por um ridículo furgão de tinturaria. Viu Michel Foucault ter seu nome conspurcado ao se tornar a primeira celebridade francesa morta de AIDS. Na ressaca midiática de Maio de 68, Morin ficou sabiamente ao largo da fogueira das vaidades de estruturalistas e “nouveaux philosophes”.

Teve tempo para viver o que Graciliano chama “uma sucessão de estados monogâmicos”. Casou aos 25 anos com a filósofa Violette Chapellaubeau, com quem teve duas filhas, Irène Nahoum e Véronique. Em 1970, casou com Johanne Harelle. Em 1982, com Edwige Lannegrace, da qual enviuvou em 2008. É casado desde 2012 com a socióloga Sabah Abouessalam, com quem escreveu o livro L'homme est faible devant la femme/O homem é fraco diante da mulher (2013) e, em 2020, Changeons de voie - Les leçons du coronavirus/Mudemos de rumo – as lições do coronavirus. 

Diante de uma biografia dessas, só podemos tomar fôlego e desejar: longa vida para Edgar Morin.