segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Phil Spector: gênio do rock morre na prisão • Por Roberto Muggiati

 


Phil Spector em estúdio com John Lennon, que o chamou de "o maior produtor musical 
de todos os tempos, e...

... ao ser detido por assassinar a mulher, a atriz Lana Clarkson 

Al Pacino viveu o papel do produtor no longa-metragem "Phil Spector" em...

...uma caracterização perfeita, como se vê acima em cena do julgamento

Filho de imigrantes judeus nascido no Bronx, NY, em 26 de dezembro de 1939, Harvey Phillip Spector se tornaria uma das figuras mais importantes do rock. John Lennon, que recebeu sua ajuda na gravação de Imagine, o chamou “o maior produtor musical de todos os tempos”. Tom Wolfe, o papa do Novo Jornalismo, o definiu como “o primeiro magnata da juventude.”.  Spector ficou famoso ao criar a chamada Wall of Sound (parede sonora) – um complexo de técnicas de gravação que só ele sabia administrar e que ironicamente definia como “uma abordagem wagneriana do rock ‘n’ roll, sinfonietas para crianças.” Produtor convidado do álbum dos Beatles Let It Be, ele produziu All Things Must Pass de George Harrison e Rock ‘n’ Roll de John Lennon, além de discos dos Ramones, de Leonard Cohen, de Ika e Tina Turner.

Em 2003, Spector matou em sua casa, com um tiro de carabina na boca, a atriz Lana Clarkson. Em 2009, foi condenado a 19 anos de prisão. Ele morreu no sábado 16 de janeiro, aos 81 anos, de coronavirus num hospital-prisão de Stockton, Califórnia. Seu rumoroso julgamento foi tema de um longa-metragem, Phil Spector (2013), dirigido por David Mamet e estrelado por Al Pacino e Helen Mirren. Phil não só inspirou vários personagens ao cinema (um deles interpretado por John Turturro), como fez incontáveis “pontas”. A primeira, num episódio de Jeannie é um gênio, em 1967; a mais famosa de todas, na cena de abertura do Easy Rider (1969), com Peter Fonda e Denis Hopper. Vejam aí

https://www.youtube.com/watch?v=qqvI-DOIMEc

domingo, 17 de janeiro de 2021

E a luta continua... Anvisa ainda segura vacina liberada por outros países. A Baêa tá reclamando

 


O Brasil precisa de um exorcista

 


Pesquisa realizada pela Hoper Educação constatou que 78,9% dos candidatos ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) preferiam realizar as provas em maio. No meios de comunicação, foram muitas as declarações de médico e infectologias desaconselhando o Enem em pleno rebote da pandemia. 

Em vários estados, juízes derrubaram liminares que proibiam a realização da prova, mesmo diante de um  forte argumento: os estudantes iriam se arriscar nos transportes públicos e nos locais de realização do exame, com alto risco de levar o vírus para casa e para pessoas de grupo de risco ainda em quarentena. 

Nem mesmo a dramática situação de Manaus, um alerta ao resto do país, sensibilizou as autoridades. A Prefeitura de Manau, cidade sitiada pelo vírus, se recusou a ceder escolas para a realização das provas. 


Cena do filme O Exorcista, momento em que especialista expulsa espírito maligno

A pressão para o Enem a qualquer custo teria sido mais forte por parte das mantenedoras de universidades privadas de olho no caixa do primeira semestre de 2021, movimento quer se somou às já conhecidas alas negacionistas da Covid-19, que formam maioria no governo bolsonarista. Em relação à pandemia, o lema é "morte acima de tudo, o diabo acima de todos".

O Brasil precisa de um exorcista.

Sobre gado, galinhas e o voo que não aconteceu

 

O avião que se preparava para seguir rmo à Índia para buscar carga de vacina que não existia. Foto:Reprodução Twitter

por O.V.Pochê 

Mais um vexame internacional dos coveiros federais. Contrataram um avião, gastaram uma grana para botar um adesivo de propaganda da vacinação, supostamente festejando tudo o que trabalharam contra até agora. A negociação deve ter sido feita com um camelô indiano que se mandou na hora de entregar o produto. Com o jato no aeroporto de Recife a poucas horas de decolar, verificou-se que não havia vacina, o governo indiano não liberou o lote. Restou o adesivo ufanista. 

Tudo indica que o presidente indiano, que se chama Ram Nath Kovind, foi convencido a cair na real e cuidar do seu país. Alguns dados sobre a Índia. População 1.300.000.000 – seis vezes a do Brasil; e duas coisas em comum com o nosso país: um presidente que é da ultradireita e 210 milhões de cabeças de gado, número igual à população humana do Brasil,. Já o nosso gado soma 214 milhões de cabeças. Isso mesmo, o Brasil tem mais gado do que gente. Mas IBGE constatou que no ano passado que esse número de bovinos foi superado pelo de galinhas: 249 milhões de cabeças e penas. Não se sabe o que isso significa.

A PALAVRA DA HORA H

f a c í n o r a

homem perverso, assassino, um grande criminoso

Facínora era, em latim, o plural de facinus: “ações” – boas ou más. Como terá passado a “praticante de más ações”, “autor de crimes”, “criminoso”? Possivelmente, facínora derivou do adjetivo latino facinorosus = “que comete ações condenáveis”, “cheio de crimes”, “façanhudo” (de façanha, outro possível derivado de facere), “criminoso”. 


* Uso célebre: Em O homem que matou o facínora, título brasileiro do filme The Man Who Shot Liberty Valance (1962), de John Ford. 


Vacina no pau-de-arara...

 

por O.V. Pochê

A Anvisa está em reality show nacional sobre vacinas. Parece reunião de cientistas detentores do Nobel tal o rigor anunciado nas "análises" de algo que laboratórios mundiais desenvolveram. Pergunta de um leigo: se a Anvisa sabe tanto de vacinas porque não ajudou o Butantan e a Fiocruz a desenvolverem  uma? A Anvisa libera agrotóxicos proibidos em vários países com velocidade de foguete. E não são um ou dois venenos, são centenas. E faz firula com vacinas já aprovadas em dezenas de países.

A milícia digital "patriota" se omite diante da tragédia anunciada de Manaus

 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A tragédia de Manaus na mídia internacional.

O drama de Manaus estarrece o mundo. É mais um capítulo de terror escrito por um presidente desprezível já conhecido como Jair do Caixão. Mas até para os padrões criminosos do indivíduo em relação à pandemia, brasileiros morrendo em dramática sequência, sufocados, por falta de oxigênio, alcança um nível inimaginável de desprezo pela vida. Esse mau elemento é doente. Tornou-se um  problema político, claro, mas ultrapassou essa fase. A crise pede tratamento psiquiátrico. É manicomial. Muitos países passaram por momentos difíceis e foram surpreendidos durante o enfrentamento da

Clarín


La Repubblica


The Guardian 


Ultimas Noticias


The Washington Pòst

Covid-19. Falta de leitos, hospitais lotados, as terríveis estatísticas de mortes diárias, o povo forçando aglomeração. Mas nenhuma deles fez do desprezo pela vida humana, do deboche, uma estratégia política, uma campanha do mal, incentivando a população a se aglomerar, fazendo piada de procedimentos, como o uso da máscara, recomendando medicamentos não recomendados pela ciência. 

A consultoria britânica Brand Finance divulgou um estudo sobre a imagem de cada nação quanto ao desempenho no enfrentamento da Covid-19. Alemanha e Nova Zelândia lideram o ranking. Estados Unidos têm a pior avaliação segundo a opinião pública. Nesse critério, o Brasil está em antepenúltimo. Mas na enquete apenas entre  cientistas, médicos e economistas, o Brasil está em último lugar. O governo brasileiro dificultou a luta contra a pandemia alegando que tinha que cuidar da economia. Foi desastroso em ambos os quesitos. Ao protelar medidas, ao fazer pregação contra a ciência, mergulhar em trapalhadas na compra de vacinas e de seringas, desmoralizar publicamente o uso de máscaras e a necessidade de lockdown, o governo não atendeu a saúde e prejudicou a economia. 

Tragédia carioca. Um jovem guitarrista de Madureira entra para o Clube dos 27. • Por Roberto Muggiati

Embora só aceite defuntos entre seus membros, o Clube dos 27 não deixa de ostentar um toque de sofisticação e refinamento. Fundado nos anos 60, reúne popstars famosos como o rolling stone Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse, todos mortos com essa idade (Torquato Neto suicidou-se um dia depois de ter completado 28 anos, fiel à máxima de Groucho Marx: “Eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio.”). 

Nessa quarta-feira, 13 de janeiro, um modesto carioca ingressou no Clube dos 27 ao ser assassinado com um tiro na cabeça por assaltantes em Madureira. O cabo da Marinha Israel Aarão Marcelo da Silva Correa (até que tinha um nome vistoso) tornou-se mais uma na lista diária de vítimas da violência que assola a cidade. Israel tinha acabado de deixar o Centro de Instrução da Marinha na Penha, onde fazia o curso de sargento. Bom filho, rapaz de bem, também tocava guitarra, nos cultos da igreja evangélica que costumava frequentar. Parafraseio letras do nosso inocente cancioneiro: “Madureira chorou”... Mas a mais cabível seria: “Quero chorar, não tenho lágrimas...”

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Deputada bolsonarista Bia Kicis comemorou fim do lockdown em Manaus. A conta trágica chegou. Pacientes estão morrendo asfixiados.

 


Fotomemória Carioca: essa imagem de 1972 diz muito sobre os políticos brasileiros. Entenda.



Foto Correio da Manhã/Arquivo Nacional

por Flávio Sépia

Só a burrice, a ação dos lobbies e a corrupção explicam. Ou os três fatores juntos. Até os anos 1960, as capitais brasileiras dispunham de extensas linhas de bonde. Verdade que o povo reclamava, e com razão. As companhias, embora privadas, não mais investiam no sistema. Todas eram ligadas a empresas estrangeiras, como a Light. O fim das concessões se aproximava, e parecia não haver interesse em renová-las. No Rio, o corte de energia que se repetia várias vezes ao dia paralisava o tráfego de bondes. O Brasil precisava de grandes investimentos em hidrelétricas, de retorno financeiro demorado, e o capital privado preferia não encarar esse risco. O sucateamento estava à vista. A superlotação era abusiva. 

Em 1963, o governador Carlos Lacerda decretou com uma canetada a extinção dos bondes cariocas e as picaretas em todos os sentidos foram às ruas dar início ao quebra-quebra. Outras capitais fizeram o mesmo. Praticamente de um de um dia para o outro, as empresas de ônibus triplicaram de tamanho, passaram a faturar altos lucros e, com o tempo, ganharam enorme poder político projetado nas décadas seguintes. As mais ambiciosas enchiam os bolsos de autoridades da popular propina, como até hoje investigações esporádicas revelam. Não por acaso, os donos dos cartéis de ônibus tornaram-se milionários. Não ocorreu ao poder público nem aos gestores de então decisão mais racional, como oferecer os bondes em concessão ou mesmo criar empresas públicas - a CTC assumiu o sistema apenas para coordenar a destruição - para administrá-los e modernizá-los. Foi o que fizeram, por exemplo, muitas capitais da Europa, onde até hoje são mantidos sistemas de bondes integrados aos metrôs. 

A CTC implantou ônibus elétricos no Rio, várias capitais fizeram o mesmo, bilhões foram gastos para instalação de cabos e aquisição de veículos. Muitos intermediários (o termo "operadores" não era usado ainda para tais casos) novamente saíram de bolsos cheios. Mas os trólebus não duraram muito. Acusados de atrapalhar o tráfego, foram desativados. A mesma acusação antes invocada para destruir as linhas do antigo bonde, 

Com a invasão dos automóveis, o sistema sobre trilhos provocava engarrafamentos insuportáveis para a nova classe média motorizada. Em vez de cuidar do transporte público, os picaretas nacionais privilegiaram o privado. Pois a foto acima, quase dez anos depois da arrancada dos trilhos, mostra um trecho da Avenida Rio Branco coalhada de ônibus. A fim dos bondes não resolveu, ajudou a agravar os congestionamentos. Observe os fusquinhas da classe média ascendente engolidos pelos 'busões'.

Em 2016, os bondes voltaram ao Centro do Rio. Agora com o nome de VLT. Circulam em 28km de trilhos. 

O sistema dos antigos bondes, quando foram extintos, contava com mais de 400km de trilhos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Nem Bolsonaro nem Dória: quem começou a vacinação no Brasil foi a Embaixada da Rússia. Funcionários brasileiros da representação já foram vacinados

 



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ABI se coloca à disposição dos jornalistas Ruy Castro e Ricardo Noblat para enfrentar ameaça do governo à liberdade de expressão

 


Do site oficial da ABI

"O presidente da ABI, Paulo Jeronimo, telefonou nesta segunda-feira,11, para o jornalista e escritor Ruy Castro, manifestando solidariedade e colocando a  Casa do Jornalista à disposição do companheiro, alvo do ministro da Justiça, André Mendonça, que anunciou no domingo, 10,  que pedirá abertura de inquérito contra Ruy Castro após texto sobre Bolsonaro.

Paulo Jeronimo ouviu de Castro que a questão está sendo acompanhada e conduzida pelo jurídico do jornal “Folha de S.Paulo”, do qual ele é colunista. E mostrou-se “reconfortado” com o apoio da ABI.

O ministro André Mendonça, anunciou no último domingo que vai pedir abertura de inquérito policial contra o escritor Ruy Castro e contra o jornalista Ricardo Noblat.

Em sua coluna no jornal “Folha de S.Paulo”, Ruy Castro ironizou o presidente americano, Donald Trump, após a crise da invasão do Capitólio na última quarta-feira. O escritor disse que se o presidente americano desejasse se tornar um “mártir”, “herói” ou “ícone” para seus seguidores, poderia se matar.

Ao falar de Bolsonaro, lembrou que o presidente brasileiro costuma imitar ações de Trump. E sugeriu que ele também cometesse suicídio.

“Se Trump optar pelo suicídio, Bolsonaro deveria imitá-lo. Mas para que esperar pela derrota na eleição? Por que não fazer isso hoje, já, agora, neste momento? Para o bem do Brasil, nenhum minuto sem Bolsonaro será cedo”.

Ricardo Noblat replicou o texto nas redes sociais, o que causou a reação de apoiadores de Bolsonaro".

Fotomemória da redação: quando os roqueiros franceses John Hallyday e Sylvie Vartan foram resgatados da chuva por uma Rural Willys da Manchete

John Hallyday e Sylvie Vartan foram resgatados de um temporal carioca pela Rural da Manchete.

Mesmo assim, no caminho para o hotel, tiveram que se abrigar na Rodoviário Novo Rio enquanto esperavam as águas baixarem. O fotógrafo Orlando Abrunhosa registrou o casal, em primeiro plano, vivendo involuntariamente uma típica experiência de cariocas. 

por José Esmeraldo Gonçalves

Como o livro "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou" descreve, o oitavo andar do prédio da Rua do Russell era uma espécie de sala de visitas para personalidades de várias áreas. 

Cientistas como Albert Sabin e Christian Barnard, astronautas como John Glenn e Yuri Gagarin, escritores como Jean-Paul Sartre, astros como Kirk Douglas, Gina Lollobrígida, Claudia Cardinale e muitos outros visitaram a redação. Esse desfile de famosos era praticamente uma rotina. Distribuidoras de filmes, editoras de livros, gravadoras e embaixadas geralmente agendavam uma ida à Manchete como parte do roteiro carioca das celebridades internacionais. Se o oitavo andar era a "recepção", a frota de camionetes Rural Willys  que servia a repórteres e fotógrafos vivia  muitas vezes momentos de viatura vip ao transportar os convidados. 

A foto acima, de março de 1967, mostra o cantor de rock francês Johnny Halliday e a mulher, a também cantora de sucesso Sylvie Vartan a bordo de uma Rural.  O casal vinha de São Paulo e uma equipe de reportagem foi ao aeroporto. Mas era verão no Rio e a coisa não acabou bem. O diretor de redação da principal revista da casa, Justino Martins, escreveu: 

"Johnny Hallyday desceu do avião paulista e consultou o relógio. Eram seis horas da tarde. Às nove, ele devia cantar no Maracanãzinho. Chovia a cântaros. Mas, como bom francês, ele murmurou para a sua bela Sylvie: 'Que d'eau, que d'eau! Vamos em frente. Em qualquer cidade do mundo, quando chove, a vida continua". Só mais tarde, às cinco da manhã, constatou o quanto se enganara: no Rio, quando chove, a cidade morre afogada. O casal de cantores foi apanhado pelas inundações torrenciais e , salvo por uma camionete da Manchete, abrigou-se na estação rodoviária, e o Maracanã, em vez de fãs do iê-iê, acolheu milhares de flagelados, sobreviventes de uma dessas calamidades que ultimamente vêm enlutando o Rio."

A repórter Vera Rachel e o fotógrafo Orlando Abrunhosa cobriram a inesperada aventura dos cantores no Rio. 

Por algumas horas, os roqueiros franceses aguardaram em um banco da rodoviária Novo Rio a chuva diminuir. O show foi adiado e o dia já amanhecia quando o casal chegou, finalmente, ao hotel Copacabana Palace.

Pães e peitos (continuação) • Por Roberto Muggiati

Santa Águeda
Curiosa coincidência: ao ver a história da colega Clara Brito sobre Santa Águeda ao lado da minha matéria sobre pães, pensei: “Eu conheço esta senhora.” O encontro se deu nas viagens que fiz a Catania, na Sicília, em 1961 e 1999, em cuja catedral presenciei o culto de Santa Ágata, como também é conhecida. O fabuloso óleo sobre tela de Sebastiano del Piombo que a retrata (1520, Palazzo Pitti, Florença) é inédito na iconografia católica por mostrar uma santa de peito totalmente descoberto. 

Ágata está entre as seis mulheres que, ao lado da Virgem Maria, são celebradas nominalmente no Cânone da Missa (as demais são Felicidade, Perpétua, Luzia, Inês, Cecília e Anastácia.)  

Nas representações  artísticas, os seios de Ágata aparecem muitas vezes cortados sobre uma bandeja. Na Idade Média foram comumente confundidos com pães, o que teria originado a cerimônia na qual pães são levados ao altar numa bandeja. 



No sul da Alemanha e na Áustria, pães são cozidos na forma de seios pequenos e abençoados no dia 5 de fevereiro ou na véspera para ajudarem a combater  doenças nas mamas, febre e queimaduras; nas mães lactantes e no gado acredita-se que estes pães reforcem o fluxo do leite e suas migalhas são também espalhadas pelas casas e estábulos para prevenir incêndios. Santa Ágata foi também adotada como padroeira pelos médicos especializados em mamas e, na sua data, celebra-se o Dia do Mastologista.

A festa da santa está chegando. Que tal preparar, para 5 de fevereiro, umas deliciosas cassatinhas de Santa Ágata? Aqui vai a receita, sugestão especial de Carla Maitá.

Minne Di Sant'Agata - [Seios De Santa Ágata]

 "Foi graças à devoção de minha avó que todo dia 5 de fevereiro a família Badalamenti se reunia para comemorar a festa de suas Ágatas com um almoço em grande estilo, que terminava com os doces votivos - as Minne de Santa Ágata justamente - feitos à mão por ela mesma, por graças recebidas ou a receber. Minha vó, de quem levo o nome, tinha estabelecido que eu a ajudaria na cozinha na delicada preparação dos docinhos e me designou protetora oficial da receita e sua única herdeira. Na família Badalamenti a herança passava aos descendentes segundo o direito do mais velho: isto é, o patrimônio ia para o primeiro filho macho, que tinha obrigação de conservá-lo, mantê-los guardado e passá-lo integralmente ao próprio descendente. Embora esse direito tivesse sido abolido após a unificação da Itália, em nossa família, aliás, em toda a região meridional, permaneceu o costume de privilegiar o filho mais velho, reconhecendo às mulheres um dote em dinheiro que tinha o objetivo de prevenir disputas longas e violentas. Minha avó, feminista ao seu modo, quis legar a mim o mais precioso bem da família, a receita das Minne de Santa Ágata.

Na cozinha, na penumbra era realizado o sagrado ritual da preparação dos doces, do qual eram excluídos os outros parentes, que, incapazes de uma fé genuína, banalizariam o sacrifício da minha avó e causariam irritação à Santuzza, que poderia até retirar a sua benévola proteção.

Eu lavava as mãos com cuidado especial, o mesmo que anos depois eu usaria para assistir aos partos no hospital. Defronte à mesa de mármore eu trabalhava a massa e o creme de ricota com dedicação e seriedade. Um pouco para me entreter; um pouco para me instruir; um pouco para me contagiar com sua fé religiosa ingênua, sincera e apaixonada, minha avó me contava a vida da Santuzza, de modo como a conhecia."

Esse trecho foi retirado do livro Mamas Sicilianas (Il conto delle minne), segundo livro da siciliana Giuseppina Torregrossa, autora que tive o prazer de conhecer ano passado, quando um amigo me indicou a leitura. 

Acho que terminei o livro em menos de 48h e ele tem sido um presente constante às minhas amigas, pois é um livro que trata da força feminina e também de suas vulnerabilidades. É um livro intenso, curioso, sensual e  muito feminino. Foi nele que conheci a história de Santa Ágata - mártir siciliana que entre outras atrocidades, teve seus seios cortados-, e de suas cassatas que tantas sicilianas preparam no dia 5 de fevereiro.

Nem preciso dizer que indico muito a leitura.

Receita da Minne di Sant'Agata - Cassatinhas de Santa Ágata
O visual instigante das Cassatinhas sagradas.

INGREDIENTES

Massa

600 gramas de farinha de trigo peneirada

120 gramas de banha

150 gramas de açúcar de confeiteiro

Essência de baunilha

2 ovos

Corte a banha em pedacinhos e trabelhe com as mãos junto com a farinha. Quando os dois ingredientes estiverem misturados (tipo uma farofa), junte o açúcar de confeiteiro, os ovos e a baunilha. Sove rapidamente, e se necessário, molhe as mãos para dar mais umidade à massa.

"Quando a massa adquirir uma consistência macia e elástica, que permita afundar os dedos como se fosse um seio voluptuoso, cobrir com uma pano de prato e deixar descansar."

Recheio

500 gramas de ricota de leite de ovelha (não consegui, usei creme de ricota)

100 gramas de frutas cristalizadas em pedacinhos (usei damasco, tâmaras, cidra, laranja, figo turco)

100 gramas de lascas de chocolate

80 gramas de açúcar

Misture a ricota e o açúcar até obter um creme. Acrescente as frutas picadas e o chocolate. Deixe descansar na geladeira por 1h.

Unte com manteiga e farinha forminhas redondas* para o doce adquirir a forma de um seio. Abra a massa bem fininha e forre as forminhas. Coloque o recheio e cubra com mais uma camada de massa. Feche as bordinhas, cuidando para que não saia recheio.

Coloque as forminhas, viradas com as bordas para baixo, em uma forma untada e leve ao forno pré aquecido a 180ºC. Asse por 30 minutos. Retire do forno e deixe esfriar.

*para o efeito arredondado é necessário uma forma meia esfera. Consegui a "luna" no Barra Doce.

Glacê

350 gramas de açúcar de confeiteiro

2 colheres (sopa) de suco de limão

2 claras

Bata as claras em neve com uma pitada de sal. Junte o açúcar, o suco de limão e continue misturando até obter um creme branco, brilhante.

Retire as cassatinhas das formas e coloque em uma grade. Derrame o glacê em cada uma delas para cobrir.

"Para as simples cassatinhas se transformarem como que por encanto em seios maliciosos, minne completas, decore essas magníficas, brancas e perfumadas esferas com uma cerejinha cristalizada."


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O pão nosso de cada dia • Por Roberto Muggiati

 

Foto Adobe Stock

Foi na última viagem do fim do meu primeiro casamento. Depois daquele porre que é a visita guiada a Versalhes fomos a um café enquanto o ônibus de Paris não chegava. A lembrança é clara. Ouvi, de um grupo de paulistas, a voz esganiçada de uma jovem: “Mas eles não servem cacetinho aqui!?” Me deu vontade de dizer: “Cacetinho é o cacete! Aqui eles não servem pães, só brioches...” Refreei o impulso, a cultura da mocinha não devia chegar à frase famosa atribuída a Maria Antonieta.

Entre as muitas coisas que tenho colecionado nestes tempos erráticos da pandemia está a quantidade de nomes usados para designar o pão nosso de todo dia: pão francês, careca, cavaca, baguete, bisnaga, broa. A baguete chamada de brigite entrou para o repertório depois da visita famosa da Bardot a Búzios no verão de 1964. Pão australiano, suíço, italiano, ciabatta, focaccia. Pão ázimo. Pão de queijo, pão de mel, de alho, de cebola, com gergelim, provolone, parmesão. Pão alemão: Pumpernickel, Kümmelbrot, aquele pão de cominho. Pão árabe, pão sírio. Pão de hambúrguer, pão de cachorro quente. Todas as formas de pão de forma com seus múltiplos sabores, grãos e fibras. Conhecem a sacadura? Imaginei que o nome fosse homenagem a Sacadura Cabral, o aviador que fez em 1922 com Gago Coutinho a primeira travessia do Atlântico Sul. Até hoje não tive confirmada essa teoria.

Quando ainda trabalhava na Manchete, descobri um pãozinho maravilhoso numa padaria da Rua Tonelero, vizinha ao prédio Albervânia, onde Carlos Lacerda sofreu o famoso atentado de 1954. Como tinha dificuldade em fixar o nome do pão, eu o associei ao do mandachuva do garimpo de Serra Pelada, o Major Curió. Era um minipão francês crocante, com uns cinco centímetros de comprimento e eu costumava compra-lo por peso.

Querendo reeditar a experiência gustativa de contornos proustianos, busquei a tal da padaria na internet. Apareceu logo uma Panificação e Confeitaria Curió, à Rua Tonelero, 202lj, telefone 2547.6266. Só que a Vivo informa:  “Esse telefone não existe”. E, navegando na Tonelero pelo Google Maps, não encontrei nenhuma padaria, o 204 é o número da portaria de um edifício novo sem lojas no térreo. Por enquanto, a vida fica me devendo o gostinho do curió. Mas a pesquisa sobre nomes de pães continua e toda colaboração dos leitores do nosso Panis (!) será bem-vinda. 

A revolução dos cyber seios (e o que isso tem a ver com a História)


As bem-dotadas estrelas dos videogames

por Clara S. Britto 

Vamos falar sobre seios. Tenho uma amiga com filhos adolescentes que, como muitos, são entusiastas dos videogames de última geração, como Playstation e Xbox. Alguns jogos têm como protagonistas super heróis e super heroínas. Estas, invariavelmente, são mega peitudas. 

Esse tipo de curvas acentuadas parece seduzir a garotada. 

Mas o fenômeno não está apenas na ficção digital. Um fabricante brasileiro de lingerie detectou que a venda de sutiãs tamanho P, que nos anos 1990 representava 20% do total, caiu em 6% e 15%, dependendo da região do país. Alimentação, sedentarismo e aumento da estatura média da população e a procura precoce por próteses estão entre os fatores que fazem os seios pularem dos decotes. 

Aquela jovem dos anos 1960/1970 que estava mais preocupada em conquistar direitos e exibia seios geralmente pequenos já era. Basta ver como as musas da época, Leila Diniz e Helô Pinheiro (a Garota de Ipanema), eram contidas no quesito. Ou as estrelas da Nouvelle Vague. Uma Sophia Loren tinha mais busto do que Anna Karina, Bernadette Lafont e Anne Wiazemsky juntas. 

Voltando ao Brasil. Hoje, um simples caminhada nos calçadões das cidades praianas prova que as novas gerações pouco ou nada deixam a desejar em relação às heroínas dos videogames. Vai longe o tempo em que a vibe dos peitões era tipicamente americana. Seios poderosos, dignos desse adjetivo, só no cinema. Os símbolos eram Jayne Mansfield, Jane Russel, Sophia Loren. Hoje, como um revival estético, suas medidas correspondem às das estrelas dos videogames.

Mas houve outros tempos em que os peitos foram valorizados. Os pintores clássicos, aí por volta de 1400/1500, foram pródigos em retratar belas damas em topless. Rafael teria sido o mais ousado. Tanto que a Igreja Católica atribuiu ao pintor a profusão e a profundidade dos decotes então adotados pela mulherada nos salões da reta final da Idade Média. 

Curiosamente, muito antes de Rafael, a igreja já havia passado a cultuar uma jovem e nobre siciliana de grande beleza e seios turbinados. Agueda, o nome da musa, despertou desejos intensos no cônsul Quinciano, que a pediu em casamento. A moça recusou, era cristã, já estava comprometida com Deus. Enfurecido pela negativa, e com o apoio do imperador Trajano, o cônsul mandou prender a jovem sob a acusação de prática de bruxaria. Ágata teve os seios arrancados. Por um milagre, os seios renasceram dias depois. A Igreja a reconheceu como mártir da virtude e santa. Para muitas crentes, Águeda tornou-se uma espécie de protetora dos seios. É cultuada até hoje, há orações em seu nome. Chegou a ser representada em pinturas com os seios nus, mas essas versões foram condenadas pelo clero e a imagem foi redesenhada. Mesmo assim, é a única santa retratada em muitas pinturas ou imagens com o volume do busto aparente sob as vestes. Há muitos mais mistérios entre a preferência dos games e o martiriológio romano do que pensa a vã filosofia digital.

Eu vou pro Carnaval de Muggia, eu vou... • Por Roberto Muggiati

 


Muggia aglomerada em carnavais passados. Em 2021, a folia só depende da vacinação em massa

À tranquila Muggia, às margens do Adriático, se agita no carnaval desde 1420.

As autoridades garantem e eu acredito piamente. Em fevereiro estarei vacinado contra a Covid. Já que não rola nada por aqui – e o mercado de peixes de Wuhan está fechado – decidi que vou passar o Carnaval em Muggia, a pequena cidade italiana origem do meu sobrenome. Quase ninguém ouviu falar de Muggia, nem mesmo os italianos – com exceção dos seus 13.299 habitantes. Acontece que Muggia não fica na “bota”, mas num naco do território italiano na cabeça da península ístria, vizinho da Eslovênia. daí a denominação de origem usada pelos heraldistas de araque contratados por meu tio Achilles para desenhar o brasão da família: “Muggia de l’Istria Veneta.” A adesão à Sereníssima República de Veneza é meritória, embora a procedência mais recente da família, antes de migrar para o Brasil em 1889, seja Stradella, nos arredores de Milão. Outra referência notável: aos vinte anos, estudante de medicina em Viena – fazendo um estágio no Instituto Oceanográfico de Trieste, que pertencia ao Império Austro-Húngaro – Sigmund Freud passa um domingo em Muggia. Numa carta a um amigo, Freud, que só pensava naquilo, comenta sobre as mulheres muggisanas: “São ruivas em sua maioria, o que não coincide nem com a raça italiana, nem com a judia...” Outro marco: vinte quilômetros ao norte de Muggia fica o Castelo de Duino, onde Rainer Maria Rilke escreveu suas famosas elegias de Duino. E James Joyce, que morou doze anos em Trieste, deve ter passado alguns domingos com Nora em Muggia.

Mas chega de literatura, vamos à folia de Muggia que é o que interessa! Dura dez dias, culminando no domingo de Carnaval com um grande desfile de carros alegóricos. Iniciado há 600 anos, em 1420, o Carnaval de Muggia guarda também um compromisso com o verde, com a agricultura e o meio ambiente, vejam aí:

https://www.youtube.com/watch?v=FgmoRz2CRA0

Considerado um dos mais animados da Europa, o Carnaval de Muggia tem a característica peculiar de incluir o desfile de alguns “defuntos” – carregados em macas alegóricas – lembrando a faceta carnavalesca do Dia dos Mortos mexicano. Este ano o domingo de Carnaval cai em 14 de fevereiro, vejam só, Valentine’s Day – o Dia dos Namorados dos gringos. 

Devidamente imunizado contra o corona, eu vou pro Carnaval de Muggia! Se Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, mas pro Carnaval de Muggia eu vou...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Gargalhada na escuridão

 


Polêmica nas redes sociais: a revista Vogue americana é acusada de "embranquecer" a vice-presidente Kamala Harris

 


As redes sociais criticam a Vogue. A revista preparou duas opções de capa com a primeira vice-presidente negra dos Estados Unidos.  Kamala Harris teria gostado da foto de terninho azul. A revista escolheu a outra, despojada, de tênis, um fundo rosa amarrotado. Mas a crítica mais contundente é sobre o suposto clareamento da pele.

por Clara S. Britto

A foto de Kamala Harris, a vice-presidente americana, na capa da Vogue Magazine, edição de fevereiro, está dando o que falar nas redes sociais. A Vogue pode clareado o tom de pele da Harris. 

A revista  postou duas capas, ontem, no Twitter. Em uma delas, Harris aparece de terninho. Na outra, está casual, de jaqueta, tênis, diante de um estranho fundo verde. Essa segunda opção, que vazou no fim de semana, irritou a web. O tom de pele, a iluminação ruim, o fundo amarrotado, a informalidade excessiva não agradaram. Houve quem achasse que a capa era falsa. Não era. "Capa desleixada para uma revista de moda", foi uma das críticas. A equipe de Kamala Harris teria aprovado a capa com ela de terninho azul. Mas a capa impressa foi a de qualidade muito inferior e estilo idem. A Vogue alegou que quis "capturar a personalidade e autenticidade". Ambas as fotos foram feitas por Tyler Mitchell, um fotógrafo negro, que revelou ter imaginado homenagear os anos de universitária da vice-presidente, daí a casualidade. 

Mas o jornal The Guardian registrou o estranhamento: "uma capa desbotada".  E a vice-presidente não comentou a escolha da foto. 

Fotomemória da redação: em 1977, 25 anos depois da Manchete número 1, o encontro dos pioneiros

 


por José Esmeraldo Gonçalves

A foto rara mostra Gervásio Baptista, Nelson Alves, Wilson Passos, Nicolau Drei e, à direita, Dirceu Torres Nascimento. Em abril de 1977, a redação preparava uma edição especial sobre os 25 anos da Manchete. O jornalista Joel Silveira escrevia um texto que reconstruía os bastidores do fechamento do número 1 da revista. Com um reconhecido talento para mostrar os fatos através dos protagonistas, tal como fazia nas suas grandes reportagens, Joel foi buscar alguns  "pioneiros" que ainda trabalhavam na Manchete, como a própria história viva de parte da primeira redação 25 anos depois. 

O quarteto subiu ao oitavo andar do prédio da Rua do Russell e posou junto para o registro acima. Foto relâmpago, os dois fotógrafos, Gervásio e Nicolau estavam de saída para pautas. Wilson, o  chefe da Arte da revista, tinha páginas a fazer, Dirceu e Nelson eram solicitados pela administração da editora, mesmo assim ajudaram Joel Silveira a contar a saga do número 1. 

Àquela altura, 1952, lançar uma semanal ilustrada para concorrer com a poderosa O Cruzeiro equivalia a mandar David ir à luta contra Golias sem levar pedras no alforje nem a funda para derrotar o filisteu. Manchete tinha então poucos recursos para enfrentar a revista de Assis Chateaubriand. E, de fato, com pouca publicidade, quase não sobreviveu ao primeiro ano. 

Passados aqueles difíceis primeiros meses, o potencial da revista em progresso começou a aparecer. Um bom time de cronistas, criatividade para cobrir os acontecimentos, embora ainda sem condições de fazer grandes reportagens, a vocação para o fotojornalismo e uma surpreendente agilidade para levar os fatos importantes às bancas. Em setembro de 1952, Manchete mostrou essas qualidades ao cobrir a morte do cantor Chico Alves, então o maior ídolo nacional. Foi o primeiro sucesso de vendas. Em 1954,  a crise institucional, a morte e o enterro de Getúlio Vargas, com o país em estado de comoção, resultaram em grande repercussão. Era como se a Manchete estivesse finalmente se apresentando aos leitores. Em 1955, em outro acontecimento marcante, a morte de Carmen Miranda, Manchete mostrou mais uma vez a capacidade de chegar antes às bancas das principais capitais. Nos anos seguintes, a industrialização do Brasil, os bens de consumo desembarcando nos lares da classe média em ascensão e gerando publicidade, a extraordinária cobertura da construção e da inauguração de Brasília, as reportagens, o fotojornalismo, a qualidade gráfica, a agilidade e a reforma editorial liderada por Justino Martins foram os gatilhos que levariam a revista a superar O Cruzeiro já na virada dos anos 1960. E os "pioneiros" fotografados naquela tarde de abril de 1977, no oitavo andar, simbolizaram as centenas de profissionais que integraram as redações que tornaram isso possível. 

O atropelamento e a morte de Otto Maria Carpeaux numa sexta-feira de Carnaval • Por Roberto Muggiati

Otto Maria Carpeaux
Foto Manchete
O primeiro não foi necessariamente causa do segundo, final e irreversível. Houve um hiato de três ou quatro anos entre os dois acontecimentos. Colaborador mais assíduo da série “As obras-primas que poucos leram” – publicada semanalmente pela Manchete entre 1972 e 1977 – Otto Maria Carpeaux costumava entregar pessoalmente seus textos na redação, geralmente a mim, secretário e depois editor-chefe. Ao contrário do que possa parecer, isso não implicava nenhum convívio ou papo literário. Ele meramente levava seu artigo à redação. Postava-se à minha frente do outro lado da grande mesa de edição, mudo, fazendo uma última leitura do texto impecavelmente datilografado por sua mulher, Hélène Silberherz (1899-1988), cantora que conhecera em Viena e com quem se casou em 1930, aos trinta anos. Inseria uma ou outra palavra com caneta esferográfica em sua letra miúda e serrilhada. Nas poucas vezes que falou comigo, mostrou um problema acentuado de dicção, as mandíbulas emperravam. Apresentava-se sempre elegante, de terno e gravata, com exceção da vez em que foi insolitamente atropelado diante do prédio do Russell, quando os carros ainda trafegavam em direção ao centro da cidade. O motorista freou antes de tocar levemente no escritor distraído, que foi ao chão, num tombo em câmera lenta sem maiores consequências. Dois homens da portaria o ampararam até a redação. Carpeaux estava inteiro e ficou amuado com todos aqueles cuidados. Desvencilhou-se, espanou com a ponta dos dedos a poeira que ainda restava sobre as ombreiras do paletó e tirou o texto da pequena pasta de couro. 

Carpeaux escreveu a maior parte dos 200 artigos da série. Não só explicou admiravelmente ao leigo clássicos como O castelo, de Kafka; Crime e castigo, de Dostoievski e Madame Bovary, de Flaubert, como mostrou sua versatilidade ao analisar o romance cult de J.D. Salinger O apanhador no campo de centeio. O mais notável é que só aprendera o português aos quarenta anos de idade, quando chegou ao Brasil em 1939, fugindo do nazismo. 

Judeu, nascido Otto Karpfen em Viena em 1900, participou ativamente da vida cultural da Áustria e da Alemanha, antes que a ascensão do hitlerismo começasse a lhe trazer problemas. Convertido ao catolicismo em 1933, acrescentou “Maria” ao nome e afrancesou o sobrenome para Carpeaux. Com a anexação da Áustria pela Alemanha, Carpeaux e a mulher foram obrigados a fugir, deixando para trás a mãe (o pai já tinha morrido) e levando consigo apenas um missal. Depois de um breve período em Antuérpia, na Bélgica, o casal pegou um navio para o Brasil, justo quando a Segunda Guerra se iniciava, com a invasão da Polônia pela Alemanha em 1º de setembro de 1939. Excepcionalmente dotado para línguas – falava alemão, francês, italiano, inglês, catalão, galego, provençal, servo-croata e latim – em um ano aprendeu e dominou o português. Por seu saber incomparável, Carpeaux traria, nas quatro décadas seguintes, uma contribuição vital para a cultura brasileira, em projetos individuais e coletivos. Sua predominância na série da Manchete é apenas uma amostra da incrível capacidade de trabalho. 

Eu já não o via mais desde que a série terminara em 1977. Na sexta-feira, 3 de fevereiro de 1978, estou na Praça Tiradentes com minha mulher, Lena, bisbilhotando a explosão do Carnaval gay, que costumava abrir com o Baile da Paulistinha. O lugar mais improvável para saber que Otto Maria Carpeaux – o homem que falou com Kafka em Berlim – morrera de um ataque cardíaco. A notícia foi trazida pelo Cony, que tinha ido ao enterro naquela tarde. Involuntariamente, Cony, Lena e eu – com olhares vagos para a folia ao nosso redor – fizemos um minuto de silêncio.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Há um ano, o vírus Sars-Cov-2 fazia a primeira vítima. Um organismo microscópico mudou o planeta para sempre


O mercado de Wuhan pode ter sido o ponto zero da pandemia global. Foto Twitter

Há um ano, em 10/1/2020, morria a primeira vítima oficial da Covid-19. Um homem de 61 anos, frequentador assíduo do mercado de Wuhan, cidade de 11 milhões de habitantes. Mas provavelmente o mundo jamais saberá quem foi a verdadeira vítima número 1. O vírus pode ter aparecido meses antes.

Infectologistas chineses constataram que o SARS-CoV-2, identificado em novembro de 2019 chegou tão devastador que já deveria estar circulando há algum tempo.

O nome da primeira vítima jamais foi divulgado pelas autoridades que anunciaram o óbito no dia seguinte.

O SARS-CoV-2 é medido em nanômetros, algo como um bilionésimo de um metro, tamanho inimaginável para um leigo, mas foi capaz de contaminar o planeta. E veio para ficar.

A OMS contabiliza hoje 1 919 126 mortes no mundo. Um esforço sem precedentes dos cientistas de vários países fez com que vacinas fossem desenvolvidas em tempo recorde. Surgiu a esperança. Mais de 50 países já estão em campanhas de vacinação.

O Brasil, por culpa de um presidente desequilibrado que debocha do vírus e politiza a tragédia, ainda patina. A contagem de mortos ainda avança mais do que as providências do governo genocida,

Da série Duelo no BLOK Corral • Por Roberto Muggiati

 

1975: Magalhães Júnior vs. João Antônio


Magalhães Júnior. Foto de Antonio Rudge/Manchete


Na Rua General Glicério tem uma espécie de pombal, uma caixinha com portinhola de vidro, destinada à doação ou troca de livros. Nunca encontrei algo que me interessasse ali, mas no último sábado foi diferente. Peguei logo a edição de bolso de Malagueta, Perus e Bacanaço, que João Antônio publicou em 1963 aos 28 anos. Tinha meus motivos pessoais: João Antônio trabalhou comigo na Manchete. Dez anos depois de publicar o elogiado livro de estreia, casado, com um filho pequeno, ele ganhava a vida como repórter da revista. Literatura – especialmente do seu tipo – não enchia a mesa de ninguém nesse país, particularmente nos tempos da ditadura militar. Amargurado, queima seu tempo e talento a escrever textos banais na semanal ilustrada das capas com mulheres bonitas, da qual me tornei o editor-chefe a partir de 1975. As matérias dos repórteres são reescritas por redatores mal-humorados, o R. Magalhães Júnior era o pior deles. Uma tarde, alto e bom som, na presença de toda a redação, ele achincalha um texto escrito pelo elogiado cronista do submundo, herdeiro de João do Rio e de Lima Barreto. João Antônio submete-se à humilhante reprimenda do Magalhães em silêncio. Ao voltar para casa, tem um surto de violência e quebra o apartamento inteiro. É imediatamente internado no Pinel, o manicômio de nove entre dez intelectuais cariocas.


A vida de João Antônio tomou outros rumos. Largou mulher e filho, viveu na Alemanha com uma bolsa de estudos e, ao voltar, concentrou seus esforços exclusivamente na literatura. Isolado como um eremita num apartamento na Praça Serzedelo Correa, em Copacabana, sua morte, aos 59 anos, só foi descoberta quinze dias depois.

Já o irascível – e, em raríssimos momentos, doce Raimundo Magalhães Júnior, morreu em 1981, aos 74 anos, atropelado quando atravessava teimosamente as pistas largas do Flamengo diante do prédio da Manchete. Para mim, foi um suicídio acidental. Dias antes, ao enfiar na cabeça a boina basca para ir embora, Magalhães confidenciou para mim: “Muggiati, que saber de uma coisa? Estou cansado. Acho que já vivi demais...”


1974: Maurício Gomes Leite vs. Sebastião Uchoa Leite

Sexta-feira, dia 25 de fevereiro de 1974, a redação do Russell a todo vapor fechando a matéria do pavoroso incêndio do Edifício Andraus, em São Paulo, ocorrido na véspera. Todo mundo fica com os nervos à flor da pele nestas ocasiões. 

Mauricio G. Leite


Sebastião Uchoa Leite 

O chefe de redação é o mineiro Maurício Gomes Leite (seu apelido: Maurício Gomes Leiaute), que tenta agilizar o fechamento das páginas para a gráfica. Tem um redator novo, uma espécie de estranho no ninho, com quem Maurício implicou desde o primeiro minuto. Por acaso seu sobrenome coincide com o do Maurício: Sebastião Uchoa Leite. É realmente uma figura fechada no seu universo e poeta de qualidade, não tem a menor paciência para fechar leiautes. Por um motivo fútil qualquer, Maurício e Sebastião começam a bater boca na redação e imediatamente vão às vias de fato, sendo separados pela turma do deixa-disso. Sebastião é sumariamente demitido. Maurício, das facções godardianas da crítica de filmes de BH, havia estreado como diretor do cinema novo em 1968 com A vida provisória. 

Em 1977 o visitei em Paris num pequeno apartamento ao lado da Torre Montparnasse, casado com a filha do Ministro das Relações Exteriores Azeredo da Silveira e com um bebê recém-nascido, que chorava sem parar. Graças ao sogro, tinha arranjado um emprego de tradutor na Unesco. 

Segundo um texto recente de seus camaradas cinéfilos mineiros, Maurício teria morrido em Paris sozinho e amargurado, em 1993, aos 57 anos. 


Já Sebastião Uchoa Leite, fez carreira discreta de poeta conceituado e morreu do coração aos 68 anos. Ignoro se foi cremado ou sepultado, mas, previdente, desde os tempos da Manchete ostentava já o seu epitáfio, assumindo toda o seu estranhamento social: “Aqui jaz, para o seu deleite, Sebastião Uchoa Leite.” 


Na capa da Time: e o fuhrer cumpriu a ameaça


No fundo da alma...

 


Mídia brasileira dá espaço para o lado podre da força

 

Reprodução Twitter
A CBN tem um programa chamado "Liberdade de Expressão", que durante muito tempo reuniu para debates sobre temas atuais os jornalistas Carlos Heitor Cony e Arthur Xexéo. Atualmente, a atração dá tempo igual para debatedores com opiniões opostas. Quando o tema é política, os mais obtusos bolsonaristas desfilam barbaridades na rádio. É a tal prática de "ouvir os dois lados", que legitima a ofensiva da ultra direita em sua campanha antidemocrática. O Capitólio tupiniquim é logo ali. A CBN é apenas um exemplo. Globo News, CNN Brasil, Folha, o Globo fazem o mesmo tipo de jornalismo declaratório. A página 3 do Globo em alguns dias da semana abriga certos colunistas que parecem saudosos do autoritarismo e que se arrepiam ao ouvir falar em combate ao racismo, à desigualdade, à função social do Estado ou qualquer coisas que conteste os dogmas do neoliberalismo selvagem.   

Anvisa leva vacina para interrogatório