quarta-feira, 17 de março de 2021

Hélio Fernandes (1921-2021): o rebelde com causa e sua passagem pela Manchete

Libertado após uma das suas prisões durante a ditadura, Hélio Fernandes ganha o abraço dos filhos na pista do Aeroporto Santos Dumont, em 1967. A foto é de Alberto Jacob que registrou
a cena comovente para o JB.


por José Esmeraldo Gonçalves

Para Hélio Fernandes, jornalismo era combate. Não temia adversários, do porte que estes o fossem. Em julho de 1967, quando o protótipo de ditador Castello Branco morreu em um desastre de avião, Hélio não achou que a morte redimia o golpista.  

No dia seguinte, enquanto os militares se esforçavam para incentivar lágrimas "patrióticas" e os políticos que formavam a corte serviçal da caserna gastavam elogios ao sujeito, o editorial da Tribuna da Imprensa fazia o contraponto: “Com a morte de Castelo Branco, a humanidade perdeu pouca coisa, ou melhor, não perdeu coisa alguma. Com o ex-presidente, desapareceu um homem frio, impiedoso, vingativo, implacável, desumano, calculista, ressentido, cruel, frustrado, sem grandeza, sem nobreza, seco por dentro e por fora, com um coração que era um verdadeiro deserto do Saara”. 

A resposta da ditadura veio rápida. O jornalista foi levado para o desterro em Fernando de Noronha e depois transferido para uma prisão em Pirassununga (SP). A sua volta ao Rio, em outubro do mesmo ano, rendeu uma bela foto ainda na pista do Aeroporto Santos Dumont, ao ser recebido e abraçado pelos filhos. Alberto Jacob, que trabalhou na Manchete e foi o autor da imagem emocionante para o Jornal do Brasil,  contava que o JB não publicou a foto no dia seguinte por temer a reação do regime.  Só depois, a cena tornou-se uma referência histórica de um momento da vida nacional. 

A Tribuna, alvo permanente da ditadura, foi financeiramente sufocada na década seguinte. Em 1981, quando a ditadura dava sinais de exaustão mas gestava uma linha-dura terrorista, o sobrado da Rua do Lavradio foi atacado por um comando armado que lançou seis bombas na sede do jornal, destruindo as instalações gráficas. 

O jornal, como Hélio resistiu. 

Hélio Fernandes morreu no último dia 11, aos 100 anos. Na última semana, jornais e sites relembraram sua longa trajetória. Aqui focalizamos sua passagem pela Manchete. 

Lançada em abril de 1952, a revista procurava ainda, ao longo do ano, uma identidade. Naquele difícil começo, Hélio atuava como repórter. Destacava-se na cobertura política, seu campo de ação, mas fazia reportagem de interesse geral, algo raro na sua carreira, como desvendar para a revista o funcionamento do jogo do bicho no então Distrito Federal. Apurou também uma curiosa matéria sobre sexo, que identificava como "problema" de uma geração. Também nessa época ele investigou um "escândalo do metrô". Isso mesmo, o metrô só chegaria ao Rio em 1979, mas o trambique saiu do trilho bem antes. 

A primeira matéria de Hélio Fernandes para a Manchete, em 1953

Hélio desvendou para a Manchete a estrutura do jogo do bicho no Rio.
Hoje, essa matéria seria chamada de investigativa

Uma rara incursão de Hélio Fernandes em pautas de comportamento.

Em fins de 1952, promovido a diretor da Manchete

A revista comunica aos leitores a saída de Hélio Fernandes,...

...que manteve vínculo com a  Manchete como colaborador
a partir de Londres


Em outubro de 1952, Adolpho Bloch nomeou Hélio Fernandes como diretor-responsável da Manchete. Cabia ao jornalista encontrar um nicho para a revista em um mercado dominado por publicações tradicionais, como o Cruzeiro, Revista da Semana, etc.  No primeiro ano, conta-se que em várias ocasiões Adolpho, um gráfico bem-sucedido, quis desistir de dar o primeiro passo para iniciar o que seria seu império jornalístico. Talvez a gestão de Hélio tenha ajustado uma rota jornalística e preparado a revista para resistir até que viessem, nos anos seguintes, quando ele já deixara o cargo, os marcos que impulsionaram a Manchete definitivamente: Brasília, JK, a industrialização do país, uma cobertura atenta de atualidades e a era Justino Martins que modernizou revista e, em seguida, desbancou a líder O Cruzeiro.  

Ao deixar a direção da Manchete, Hélio foi para Londres, de onde ainda fez matérias para a revista.  Seu posto seguinte no jornalismo brasileiro foi a direção do vespertino A Noite. Em 1962, ele adquiriu o controle da Tribuna da Imprensa que circulou até 2008 e ao fechar deixou pendências trabalhistas com jornalistas e gráficos.

terça-feira, 16 de março de 2021

Viagem ao fim da Noite • Por Roberto Muggiati

 

Edifício A Noite, em 1929 e...

...hoje, na Praça Mauá reconstruída. Foto de Alexandre Macieira/Riotur

Entre as joias do “feirão” de imóveis promovido pelo governo federal para arrecadar dinheiro no Rio de Janeiro está o edifício A Noite, na Praça Mauá. Primeiro arranha-céu da América Latina, inaugurado em 1929, projeto do arquiteto francês Joseph Gire – o mesmo dos hotéis Glória e Copacabana Palace – tinha 22 andares e 102 metros de altura. Foi sede de A Noite, (1911-64), um dos primeiros jornais populares do Rio, que chegou a ter cinco edições diárias e uma tiragem de 200 mil exemplares, a maior do país. Nélson Rodrigues escreveu: “Estou certo de que, se saísse em branco, sem uma linha impressa, todos comprariam A Noite da mesma maneira e por amor". Também trabalharam em A Noite os escritores Lima Barreto e Clarice Lispector.

 

O famoso auditório da Rádio Nacional. Foto D.P.

Mas a glória maior do edifício foi ter sido a casa da Rádio Nacional, que na década de 1940 chegou a ocupar cinco andares. Maior rádio das Américas e uma das maiores do mundo, teve no auge um elenco de mais de 120 atores contratados, sete orquestras e quatro maestros. A emissora ficou no prédio da sua inauguração, em 1936, até 2012, ou seja, 76 anos. Ali se escreveram alguns dos capítulos mais importantes da Era do Rádio no Brasil. Aproveito para transcrever a matéria que publiquei em 2010 no caderno cultural da Gazeta do Povo de Curitiba, com destaque para a Rádio Nacional.

 

 

A Era do Rádio

 

 “Foi a melhor época, foi a pior época, foi a era da sabedoria, foi a era da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas” – é Charles Dickens falando da Revolução Francesa, mas pode se aplicar também à Era do Rádio no Brasil, aqueles anos de definição da nacionalidade sob a ambígua "ordem" getulista à beira do cataclismo global. Foi o rádio que começou a soldar o país, do Oiapóque ao Chuí – como se dizia então – na base de uma cultura oral rica e variada.

A primeira transmissão radiofônica no Brasil foi no dia 7 de setembro de 1922, na inauguração da Exposição do Centenário da Independência na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro. O público ouviu um discurso do Presidente da República, Epitácio Pessoa, e a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, transmitida diretamente do Teatro Municipal. No ano seguinte, Roquette Pinto inaugurou a primeira emissora, a Rádio Sociedade. Vieram depois a Rádio Clube, a Mayrink Veiga, a Rádio Educadora e outras, na Bahia, no Pará e em Pernambuco. Quando a Rádio Nacional foi fundada em 1936, o aparelho de rádio já era não apenas um ornamento das salas de estar da classe média, mas um eletrodoméstico permanentemente ligado. A partir daí, até o final dos anos 1950, o rádio conheceu os seus anos dourados.

Lembro de "assistir" aos prantos à final da Copa do Mundo de 1950, como se estivesse no Maracanã naquela trágica tarde de domingo em que o Brasil perdeu para o Uruguai. Na infância e na adolescência eu passava horas ao lado do rádio, com meu avô, que era cego. "Víamos" tudo através das "ondas do éter" —– ele até mais do eu – pois o rádio era um veículo de comunicação que estimulava a imaginação. 

Ríamos às gargalhadas com programas humorísticos como a PRK-30 e o Balança, mas Não Cai; chorávamos com novelas como O Direito de Nascer, que ficou três anos no ar, e com as histórias comoventes da série Obrigado, Doutor. A dramaturgia radiofônica tinha o apoio de anunciantes como Philips, Gessy e Bayer como nos Estados Unidos, onde as novelas eram patrocinadas por marcas de sabonete, daí a expressão soap opera para designar "novela". Éramos bem informados pelos boletins do Repórter Esso, que anunciava, depois da fanfarra de clarins, "Aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da História". Quando ouvíamos suas trombetas do Apocalipse fora do horário habitual, anunciando uma edição extra, sabíamos que algo de muito grave tinha acontecido no Brasil ou no mundo. Em compensação, caíamos de sono ou simplesmente desligávamos o rádio, coisa rara de acontecer  durante o programa oficial de notícias A Hora do Brasil, criado por Getúlio Vargas em 1935 e obrigatório em todas as emissoras.

Garoto, eu me ligava particularmente em seriados como Tarzã, o Rei da Selva, cujo insólito prefixo musical era a abertura de "Orfeu no Inferno", de Offenbach, justamente a dança do cancã dos cabarés franceses da belle époque. (De tanto ouvir Tarzã, ainda hoje associo mais o tema de Offenbach à selva inóspita do que aos tablados do cancã.) Tinha ainda Jerônimo, o Herói do Sertão, criado por Moysés Weltman, que também dirigiu revistas na Bloch; e O Sombra, que começava com o sinistro bordão: "Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe." Eu ouvia sempre um programa de histórias trágicas cujo prefixo musical era a tristíssima Pavana Para Uma Infanta Defunta, de Ravel: nas noites frias e escuras do inverno curitibano era quase um convite ao suicídio.

Mas o rádio era, acima de tudo, música. Até a propaganda se fazia através de canções, os irresistíveis jingles. Lembro de alguns, geralmente ligados a remédios: Grindélia de Oliveira Júnior, Phimatosan, Pílulas de Vida do Dr. Ross, do "Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal" e das Pastilhas Valda, calcada no tema de "La Cucaracha". E, ainda, o famoso anúncio do Óleo Maria, iniciado com o apelo: "Maria, sai da lata!".

Cauby Peixoto

Emilinha Borba

Era principalmente nos programas de auditório ao vivo que a música florescia. Cada emissora costumava ter sua orquestra residente, regida por um maestro famoso. Para citar alguns nomes: Radamés Gnatalli, Ghiarone, Maestro Chiquinho, Maestro Fon-Fon, Maestro Cipó, elogiado pelo jazzista Dizzy Gillespie. A Rádio Nacional tinha até um programa, Quando os Maestros Se Encontram, um duelo musical entre talentos como Leo Peracchi, Alceu Bocchino, Lírio Panicalli e Lindolfo Gaya. O auditório era o território sagrado onde surgiram os Cantores do Rádio, ídolos cultuados por seus fã-clubes e que ostentavam apelidos singulares, em alguns casos verdadeiros slogans: Francisco Alves (O Rei da Voz), Orlando Silva (O Cantor das Multidões), Sílvio Caldas (O Caboclinho Querido), Carlos Galhardo (O Cantor que Dispensa Adjetivos), Nélson Gonçalves (O Rei do Rádio), Francisco Carlos (O Broto), Cauby Peixoto (Professor), Luiz Gonzaga (O Rei do Baião). E, entre as mulheres: Linda Batista (A Maioral do Samba), Emilinha Borba (A Favorita da Marinha), Marlene (A Que Canta e Dança Diferente), Aracy de Almeida (O Samba em Pessoa), Elizeth Cardoso (A Divina), Ângela Maria (Sapoti), Carmen Miranda (A Pequena Notável).


O assédio aos astros nos auditórios lembrava as bobby-soxers de Frank Sinatra e as tietes da beatlemania. Na época, talvez pela coloração um pouco tisnada da pele, as fãs ganharam o apelido politicamente incorretíssimo de "macacas de auditório." Miguel Gustavo as celebrizou numa marchinha do Carnaval de 1958, Fãzoca de Rádio: "Ela é fã da Emilinha,/ Não sai do César de Alencar./ Grita o nome do Cauby/ E depois de desmaiar/ Pega a Revista do Rádio/ E começa a se abanar." Mesmo no coração do mais humilde fã havia uma esperança de chegar um dia a desfrutar de fama igual à de seus ídolos. Para isso se prestavam os programas de calouros, que revelaram muitas novas estrelas para a música popular brasileira. Ary Barroso comandava os Calouros em Desfile, na Tupi: qualquer deslize e o postulante a astro era desclassificado com a sonora batida de um gongo; na Rádio Nacional, Heber Bôscoli reinava na Hora do Pato e mandava os desafinados passearem com um humilhante grasnado da ave palmípede; na Rádio Clube, do Rio, Renato Murce submetia seus calouros ao teste do Papel Carbono. Dalva de Oliveira não precisou submeter-se ao ritual de passagem dos calouros. A Rainha do Rádio foi descoberta aos 19 anos por seu Pigmaleão, Herivelto Martins. Para quem não lembra, Pigmaleão foi o artista que, ao esculpir sua imagem da mulher ideal, se apaixonou pela estátua. Na mitologia grega como na MPB, a tragédia foi que Herivelto, o criador, se apaixonou por sua criatura, Dalva, e a realidade acabou demolindo o sonho.

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Memória da reportagem - Roberto Muggiati completa 67 anos de carreira neste 15 de março

No ano passado, o jornalista e escritor Roberto Muggiati deu no PANIS uma geral dos seus 66 anos de imprensa, você pode ler e ver aqui: 

https://paniscumovum.blogspot.com/search?q=os+idos+de+mar%C3%A7o+roberto+muggiati

Este ano, Muggiati conta um episódio inédito em torno da tragédia nacional que foi a queda do Convair da Cruzeiro do Sul em Curitiba em junho de 1958. O relato dá uma visão crítica do jornalismo brasileiro da época. 


...e o governador coube numa caixinha de meio metro cúbico • Por Roberto Muggiati




1 Temporal na Ilha do Desterro

"Esta história chafurda em alguns aspectos sórdidos da profissão de jornalista nos anos 1950. Trabalhando na Gazeta do Povo de Curitiba desde 1954, sequer recebia salário. Por sorte, o jornal era aliado do governador Moisés Lupion e ganhei um emprego (um cabide, dizia-se na época) no Departamento de Arrecadação de Rendas, que ficava a cinquenta metros da Gazeta, dirigido pelo lendário Anfrísio Siqueira, o fundador da Boca Maldita. Outros colegas, mais ávidos, não se contentavam com um salariozinho de barnabé e recorriam à prática da “picaretagem”: vendiam e assinavam matérias pagas dando uma pequena comissão ao jornal. Era o caso de nosso brilhante gramático Dicesar Plaisant, na casa dos cinquenta anos, respeitável membro da Academia Paranaense de Letras, que jogou ao ar todos os escrúpulos para correr atrás do dinheiro. Por que não nós? – nos perguntamos um dia eu e o colega Carlos Augusto Cavalcanti de Albuquerque. Tínhamos ouvido falar que o Governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, estava soltando dinheiro a rodo. Um belo dia, empreendemos nossa excursão de caça a Florianópolis. Jornalista na época viajava de graça, bastava a empresa requisitar a passagem. Às vezes o barato saía caro. Na segunda-feira, 11 de novembro de 1957, pegamos um avião decrépito das Linhas Aéreas Sadia, uma mistura de transportadora de humanos e porcinos. O voo era triangulado, fazendo escala em Concórdia, no oeste catarinense – onde a Sadia abatia e embalava seus suínos – e seguindo depois para Florianópolis. 

Governador Jorge Lacerda
Do aeroporto fomos diretamente ao Palácio Rosado, suntuosa sede do governo catarinense. O governador sequer nos recebeu. Um ajudante de ordens que mais parecia um contínuo alegou que Jorge Lacerda viajaria para uma série de compromissos importantes e nos despachou laconicamente. Confesso que fiquei com um ódio mortal do governador, político de sucesso e poeta conceituado. 

Prevendo passar apenas um dia na cidade, nos hospedamos num hotel de relativo conforto. Naquela madrugada, o céu desabou sobre Florianópolis. De manhã, quando acertávamos as contas na recepção, nos informaram que todos os voos haviam sido cancelados. A Ilha do Desterro estava literalmente ilhada e nós acabaríamos desterrados pelo temporal, que duraria mais alguns dias. Com o orçamento limitado, mudamos para uma pensão. Fomos ajudados pelo Gabriel, de Indaial, um jovem louro de feições angelicais, conterrâneo do Carlos Augusto, que estudava em Florianópolis. Anos depois Gabriel viveria em Indaial uma tragédia dostoievsquiana, ao matar a tiros um colega numa discussão de bar. 

Aquelas foram noites reclusas, lembro que eu lia A Spy in the House of Love, de Anaïs Nin. Uma noite fomos a um cinema do centro ver Sweet Smell of Success/A embriaguez do sucesso – uma fábula cáustica sobre jornalismo, poder e corrupção, com o brilho cínico de Burt Lancaster e Tony Curtis – incrível que o filme chegasse ao Brasil na mesma época do seu lançamento mundial. Noutra noite chuvosa, com os trocados que nos restavam, fomos à única boate local, quase vazia, ainda ajudamos um catedrático de direito a voltar para casa de táxi – mal imaginava que quatro anos depois eu teria um namoro breve e turbulento com sua filha, a atriz Elizabeth Galotti, bolsista em Paris como eu. 

A tempestade só amainou na sexta-feira, era o feriado de 15 de novembro e voltamos a Curitiba, num voo plácido com um céu de brigadeiro, mas com uma amarga sensação de derrota no coração.


O Convair destroçado, um cenário chocante. 

2 Tragédia em São José dos Pinhais

Na segunda-feira. 16 de junho de 1958, uma noite chuvosa de final de outono, sou arrancado da paz da redação e mandado às pressas com um fotógrafo ao Hospital da Cruz Vermelha para entrevistar o sobrevivente de um desastre aéreo nas imediações do aeroporto Afonso Pena. “Estava muito escuro, só ouvi um baita estrondo. Por sorte eu estava na traseira do avião e não sofri nada!” O rapaz alourado, ainda na casa dos vinte anos, apesar de atrelado a uma aparatosa cama hospitalar, não exibia um arranhão ou curativo sequer. Havia sido um dos oito sobreviventes do voo do Convair 440 PP-CEP da Cruzeiro do Sul que partira de Porto Alegre, com escalas previstas em Florianópolis, Curitiba, São Paulo e destinação final ao Rio de Janeiro. Mas 22 outras pessoas, 17 passageiros e cinco tripulantes – piloto, copiloto e três aeromoças – não tiveram a mesma sorte e seus corpos foram destroçados na queda do avião. Sem visibilidade no fim de tarde tempestuoso, o piloto, que deveria ter arremetido e ganhado altitude, chocou a aeronave contra o solo e foi arrancando as centenas de árvores que cobriam o território da Colônia Murici.

"É uma coisa que a gente não esquece, porque é uma coisa forte. Fortíssima", disse o agricultor Ladislau Holtman, de 76 anos, morador do local. O Convair foi visto pela última vez no céu às 17h51.

"Não deu para ouvir nada porque o temporal era muito forte", conta Leonardo Valenga. Dois sobreviventes conseguiram caminhar por alguns quilômetros e chegaram até o vizinho de propriedade do agricultor. Mesmo desconfiados, eles se dispuseram a ajudar. "O acesso à Colônia Murici era muito difícil. O aeroporto era um mero galpão", explicou o perito criminal Leonardo Straube. De caminhão, os bombeiros e socorristas chegaram penosamente ao local do acidente.

Na escala em Florianópolis, haviam embarcado três importantes políticos de expressão nacional. O catarinense Nereu Ramos, 69 anos, que desempenhou um papel vital para a democracia brasileira ao assumir – como 1º vice-presidente do Senado – a Presidência da República de 11 de novembro de 1955 até 30 de janeiro de 1956 e garantir assim a posse do Presidente eleito Juscelino Kubitschek; o deputado federal catarinense Leoberto Leal, 45 anos, provável futuro governador do estado; e o governador em exercício de Santa Catarina, Jorge Lacerda, 43 anos. Filho de imigrantes gregos, nascido em Paranaguá (PR), Lacerda, ao deixar o governo, estava destinado a se eleger senador da República. Formado em medicina pela Faculdade Federal do Paraná em Curitiba, também se diplomara pela Faculdade de Direito de Niterói. Poeta, Lacerda se destacou ainda no jornalismo cultural ao fundar, em A Manhã, do Rio, em 1946, o Suplemento “Letras e Artes”, do qual assumiria a direção, tendo entre seus colaboradores escritores e artistas de renome nacional, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Dinah Silveira de Queiróz, José Lins do Rego e Santa Rosa.

A cobertura frenética da noite de 16 de junho me levou também à emergência do Hospital Cajuru, onde estavam chegando alguns corpos. De repente, dois padioleiros desceram de uma ambulância, cada um segurando a alça de uma caixa metálica de meio metro cúbico.

“O que é isto?” – perguntei.

“É o corpo do governador Jorge Lacerda.”

Na hora não consegui assimilar a sensação de ver realizado o desejo de ter um desafeto tão prontamente morto, em apenas sete meses, e ainda daquela maneira. Seriam precisos anos, décadas, para que exorcizasse completamente o sentimento de culpa em relação à morte do infeliz Jorge Lacerda.

Na quinta-feira, 19 de junho, com a volta do sol, mas o terreno ainda encharcado, fomos visitar o local do acidente numa camionete de reportagem. Pelo rádio do carro ouvíamos ansiosos o jogo do Brasil contra o País de Gales na Copa do Mundo da Suécia. Um gol providencial de Pelé aos 18 minutos do segundo tempo garantiu a ida da seleção para as semifinais. 

É difícil imaginar o cenário de devastação no local de um acidente aéreo – só mesmo indo até lá. Fuselagens retorcidas, as entranhas escancaradas da decoração interna da aeronave, detalhes íntimos de dezenas de malas espalhados pelo solo lamacento. Mas nada me chocou mais – então e pelo resto da vida, com uma ponta de remorso, por ter desejado sua morte – do que ver os despojos de toda aquela promessa humana reduzidos a um pequeno cubo metálico salpicado de lama e sangue.

domingo, 14 de março de 2021

Jeannine Áñez e Gabigol: pessoal anda sem imaginação para se esconder da polícia... cama baú e mesa?

A ex-presidente da Bolívia foi encontrada em uma cama baú. 

~

O jogador do Flamengo Gabigol se escondeu embaixo de
uma mesa do cassino clandestino, segundo a polícia.


por O.V.Pochê

Duas notícias quase simultâneas mostram que está faltando imaginação para quem precisa se esconder da polícia. A ex-presidente da Bolívia, Jeannine Áñez, que governou o país por alguns meses após um golpe de Estado, era procurada porque tem contas a prestar. É acusada de sedição, terrorismo e conspiração. A investigação também vai vasculhar a movimentações financeiras da gangue racista que tomou o poder no pais vizinho. Sem uma ideia melhor para evitar ser presa, Jeannine se escondeu em uma cama baú. A polícia logo achou a pilantra.

No Brasil, em São Paulo, o jogador do Flamengo Gabigol foi flagrado em um cassino clandestino onde endinheirados bebiam, jogavam e se aglomeravam sem máscaras. Quando a polícia estourou o cassino, Gabigol, que estava de cara para a roleta, deu um pique, tentou driblar a situação e se homiziou embaixo de uma mesa, segundo informação policial. Foi fácil para a força-tarefa que estourou o cassino polícia decretar o impedimento do jogador rubro-negro.

Pessoal que se envolve com a Dona Justa precisa de um tutorial para encontrar esconderijos menos óbvios.

"Desculpa aí, foi mal" - Volkswagen lamenta atuação durante a ditadura e defende Estado Democrático de Direito

 


por José Esmeraldo Gonçalves

Alguns jornais publicam hoje um informe publicitário da Volkswagen. Entre outras empresas que atuavam no Brasil durante a ditadura, a montadora alemã foi acusada de colaborar com a ditadura militar. Ao comprar um simpático Fusquinha, o freguês ajudava sem saber o sinistro "consórcio" de empresários que instalavam e apoiavam núcleos internos e externos de informações e deduragem. Muitos, nem sempre ligados a grandes marcas, compareceram com ajuda financeira para instalação de centros de torturas e "casas da morte". A FIESP, por exemplo, representando a indústria paulista, era especialmente ativa na parcerias com a repressão. Os principais meios de comunicação apoiaram nas suas páginas o golpe de 1964 e a ditadura. Alguns deram uma passo a mais, como a Folha de São Paulo que, comprovadamente, chegou a ceder carros de reportagem para operações dos órgãos de segurança do regime militar. A Folha já reconheceu o erro, assim como o Globo que se manifestou em editorial: "a verdade é dura, O Globo apoiou a ditadura", assumiu. . 

Sem se importar com o que acontecia nos cárceres, a elite empresarial estava feliz. Afinal, não era incomodada com greves e, a pretexto de combater a "subversão", praticava espionagem, estimulava delações e reprimia reivindicações. 

Um  manifesto desses, como o da Volkswagen, é uma exceção. A Comissão da Verdade apurou que mais de 80 empresas estavam no esquema de terror. Chrysler, Ford, GM, Toyota, Scania, Brastemp, Kodak, Johnson & Johnson, Telesp, Embraer e outras escreveram um prontuário vergonhoso nos anos de chumbo. 

Nenhuma se manifestou e todas devem uma satisfação.  

O comunicado da Volkswagem em defesa do Estado  de Direito foi emitido tanto tempo depois que adquire uma nova conotação em um novo momento crítico: o da defesa da Democracia ameaçada. 

sábado, 13 de março de 2021

A anta do Passeio Público • Por Roberto Muggiati

Os portais do Passeio Público de Curitiba foram copiados do portão do
 Cemitério dos Cães de Asnières, em Paris.

Reprodução FB

O acesso ao Colégio Estadual do Paraná nos anos 1950 muitas vezes era feito através do Passeio Público, uma imensa área verde que era uma mistura de jardim zoológico e botânico. E também praça de alimentação de dia e reduto de boates à noite. Foi numa destas que meu amigo trombonista Raul de Souza travou amizade com um búfalo d’água (devia ser uma búfala) que ele ia visitar toda noite no seu lago de pedalinho e fazer duetos de jazz a altas horas. Mas isso já é outra história. Meninas e meninos que se dirigiam ao CEP pelo Passeio Público tinham de passar obrigatoriamente pelo cercado das antas. Muitas vezes a passagem coincidia com o acasalamento das antas e a anta macho exibia seu membro de tamanho descomunal. Engraçado que, com um pau daquele tamanho, ela fosse referida no feminino: a anta. Até o veado tinha direito ao masculino.

 As meninas, com seus sapatinhos pretos de colegial, meias soquetes, sainhas azuis curtas e blusas brancas de mangas curtas, enrubesciam e fingiam que não viam nada, mas ficavam espiando tudo pelo canto dos olhos. O Colégio Estadual do Paraná nunca teve aulas de educação sexual. E nem era preciso...

quinta-feira, 11 de março de 2021

James Dean, 90 anos: só que não...

Imagem computadorizada mostra James Dean aos 90 anos que teriam sido
comemorados em fevereiro último.


James Dean em ângulo aproximado, a poucos dias da morte, em 1955. Foto D.P.


por Ed Sá 

Post publicado neste blog, ontem, levanta a possibilidade tecnicamente viável para Hollywood recriar digitalmente e com perfeição astros e estrelas quando jovens. James Dean, que teve carreira curta e tinha apenas 24 anos quando morreu em uma acidente de carro, seria um dos ressuscitados. 

Há pouco mais de um mês, precisamente no dia 8 de fevereiro, Dean teria completado 90 anos. O software que pode ajudar o cinema a trazer de volta antigos ídolos devolverá a juventude a atores e atrizes, mas aqui, ao contrário, você pode ver como seria o rosto de James Dean se estivesse vivo para comemorar suas oito décadas de vida.  O ator ocupa o 18° lugar na lista dos 100 nomes mais representativos da era de ouro de Hollywood.

Lucia Leme: o adeus da jornalista

 

Com Bethânia e Caetano. Em reportagem de 1985, Lucia Leme juntou os irmãos para a Manchete. A foto é de Antonio Ribeiro/Reprodução Manchete


Reprodução JC&Cia

quarta-feira, 10 de março de 2021

O novo logo da MGM. Saiba o que mudou. Não foi pouco. E o que vem por aí pode ressuscitar astros e estrelas de Hollywood

 

O novo leão da Metro. Clique AQUI para vê-lo "vivo".
Ligue o som que a fera ruge.

por Ed Sá

A MGM acaba de lançar a nova versão do seu famoso logo. O leão que faz abertura dos filmes continua lá. Agora em digital. O leão vivo é passado. O aperfeiçoamento do software fotorrealístico de computação gráfica que recriou a imagem oferece a Hollywood novas possibilidades. 

Astros e estrelas considerados campeões de bilheteria envelhecem e se aposentam ou, ainda, passam a não ser escalados a não ser para papéis de avôs e avós. Dois exemplos conhecidos são Sophia Loren e Jane Fonda, por exemplo. Pois a computação gráfica poderá escanear suas juventude e torná-los para sempre atuantes. É o software da ressurreição.

Hollywood já utiliza o digital normalmente para recriar dinossauros ou exterminadores espaciais. A perspectiva que se abre agora, com a facilidade que o avanço constante a tecnologias oferece, é rcriar pessoas em alta e perfeita definição, é manter atores e atrizes "vivos" e rendendo blockbusters. Elizabeth Taylor estrelando produções atuais, Greta Garbo, Marilyn Monroe e Kim Novak de volta, astros já meio passados como Antonio Banderas ou Kevin Costner voltando à antiga forma. O Marlon Brando de Uma Rua Chamada Pecado pode voltar incólume. Os diretores das novas gerações poderão orientar tons de vozes e selecionar expressões para extrair o melhor desempenho possível. Quer dizer: poderão dirigir digitalmente atrizes que morreram muito antes deles nascerem. Podem até transformar canastrões como Robert Mitchum em intérpretes shakespeareanos. 

A notícia está no Gizmodo. 

Claro que haverá problema legais a administrar com os herdeiros, mas nada que as super bancadas de advogados das grandes produtoras não possam administrar. 

Polarização e Suspeição: a semana em duas palavras

por Flávio Sépia

Tão logo o jogo Lula X Lava Jato foi zerado no STF, as palavras polarização e suspeição se espalharam nas redes sociais e nos comentários de 11 em cada 10 analistas políticos. Falam em polarização - e repetem à exaustão o vocábulo - como se fosse o apocalipse, a oitava praga do Egito, caso Lula e Bolsonaro sejam adversários nas próximas eleições. Diante de um governo desastroso e criminoso como esse atual, quem tiver algum apreço pela democracia tem mais é que polarizar. Lembrando que alguns dos antônimos de polarização são concordância, conformidade e compatibilidade. Dá para encarar?

A outra palavra, suspeição, está ligada ao julgamento do ex-juiz Sergio Moro, agora indigitado por evidências de que a parcialidade era seu código venal na Lava Jato. Nas últimas semanas, jornalistas gastaram a sola do dito termo. 

Ao declarar seu voto, ontem, o ministro Gilmar Mendes ampliou o alcance do conceito e colocou a mídia sob suspeição. Segundo as mensagens vazadas por hackers e publicadas pelo Intercept, que revelaram os intestinos em pleno funcionamento da Lava Jato, houve uma nada ética parceria entre os principais veículos e a Lava Jato. Jornais e TVs foram pautados por Moro e procuradores. Os "vazamentos" eram uma estratégia política da força-tarefa. O "jornalismo investigativo" era combinado. Até o fluxo de publicação dos "vazamentos" era comandado. Além disso, jornalistas prestavam uma espécie de "assessoria" aos procuradores. Gilmar Mendes citou várias vezes no STF um dos mais ativos deles e sempre à disposição. Era Vladimir Netto, o mesmo que escreveu um livro sobre a Lava Jato, na verdade uma declaração de intensa admiração ao juiz Sergio Moro. A histórica revelação do modus operandi da força-tarefa, expôs, ao desmoralizar, o conteúdo-propaganda do tal livro e tornou suspeito o derrame laudatório. O mesmo aconteceu com o "documentário de ficção" do cineasta José Padilha. Ambas as obras, coitadas, morreram na contramão da verdade atrapalhando o tráfego da  história.   

terça-feira, 9 de março de 2021

A torcida pela tragédia

 

Reprodução Twitter

O futebol foi suspenso em São Paulo. Já o Rio, coitado, tem um governador bolsonarista e um prefeito que não quer problema com o negacionismo do governo federal e faz uma aposta funerária.

Atualização em 10/3/2021 - Apesar da recomendação do Ministério Público e da explosão dos números de mortos e contaminados, o governo de São Paulo ainda não determinou a interrupção de jogos. A federação local mantém o calendário. A CBF também mantém a Copa do Brasil que implica em intenso descolamento de jogadores pelo país em voos comerciais junto com demais passageiros. Já a Federação do Rio de Janeiro considera permitir torcida nos estádios em número limitado de "convidados" no momento em que infectologistas alarmados com o avanço mortal da Covid-19 ao mesmo tempo em que a vacinação acontece em marcha lenta e com interrupção frequente por falta de imunizantes.


Racismo na família real britânica: Será que o menino vai nascer muito preto? - Essa era a questão que atormentava o Palácio de Buckingham

Foto CBS

 
Será que menino é muito preto?

por Jean-Paul Lagarride
Harry e Meghan, os dissidentes da realeza britânica deram um entrevista de cerca de três horas à apresentadora Oprah para a CBS. Depois da edição, pouco mais de uma hora do material foi ao ar, mas foi o suficiente para abalar os Windsor. A acusação principal foi a de racismo. Havia uma preocupação do Buckingham sobre a pele de Archie, o filho do casal. Será que vai nascer muito preto? Era basicamente o temor da corte. E a família teve a cara de pau de levar a Harry, o pai, essa grande e racista dúvida

Meghan contou que de tão massacrada, tão intenso eram os preconceitos e o bullying, chegou a pensar em suicídio.  Embora anacrônica e contestada por expressiva parcela da população, a monarquia é um instituição ainda firme do Reino Unido. E consome uma montanha de dinheiro do contribuinte. Apesar disso, o abalo provocado pela entrevista é de alta intensidade. Hoje, haverá um reunião de crise reunindo Charles, William e Elizabeth, além de assessores. Devi vir chumbo grosso contra Meghan Markle. A família real não perdoa. Diana foi massacrada até ter comprometida a saúde mental e enfrentar aguda depressão. A mãe de Harry, após se separar, deu uma histórica e dramática entrevista mostrando que os muros dos palácios escondiam um inferno que não aparecia na imagem pública da monarquia. Outras duas mulheres rejeitadas pela corte, Sarah Ferguson e Wally Simpson também já contaram o pesadelo que viveram jogadas pela família em um simbólica Torre de Londres, a sombria fortaleza onde eram encarcerados os inimigos do trono.

Outro tópico da entrevista foi o ataque aos tabloides britânicos. O tema é sensível aos dois. Harry carrega um trauma relacionado à perseguição que a mãe sofreu e que culminou com a morte em acidente de trânsito em Paris no momento em que o motorista que a conduzia tentava escapar de paparazzi. Meghan também é alvo dos jornais. Ela os culpou também por abordagem racista e se por valerem da sua própria família para promoverem escândalos. O casal já obteve mais de uma vitória na justiça contra alguns jornais. Um dos processos foi por publicarem fotos do' menino Archie dentro de casa. Lady Gaga, aliás, tem uma canção chamada "Paparazzi" que tem trechos bem sugestivos para o caso:  "Tenho meu flash ligado, é verdade, preciso daquela foto sua" (...) "Prometo que serei gentil/Mas eu não vou parar até que aquele menino seja meu". (...) "Eu vou te seguir até que você me ame".

Você pode ver Lady Gaga cantando Paparazzi AQUI

sexta-feira, 5 de março de 2021

Fotomemória da redação: a casa dos tempos ditosos

 

1967: Edifício Manchete quase pronto 


por José Esmeraldo Gonçalves (*)

Em 1967, a Manchete vivia a expectativa de mudar de casa. Preparava-se para deixar a Rua Frei Caneca e instalar-se em um moderno prédio assinado por Oscar Niemeyer e projetado para abrigar redações, fotocomposição, estúdio fotográfico, restaurantes, transporte, posto médico, setores administrativos e de publicidade. Justino cita acima o aspecto cultural da nova sede da Bloch Editores: o teatro, galeria de arte e um museu do carnaval. Este último não saiu do papel. 

A década de 1960 impulsionou o sucesso da Manchete. Foi quando a revista superou definitivamente a rival O Cruzeiro e se consolidou como a semanal de maior circulação do pais. O avanço da industrialização do Brasil se refletia nas páginas da Manchete em impressionante volume de anúncios.  Automóveis, eletrodomésticos, companhias aéreas, instituições financeiras, produtos alimentícios, refrigerantes etc pontuavam dezenas de páginas. Uma explosão de consumo, especialmente da classe média ascendente, beneficiava as revistas da Bloch, bem impressas e com as cores vivas que a TV e os jornais ainda não mostravam,. 

Os anos 1970 se anunciavam  promissores. E, de fato, foram, do ponto de vista econômico. Mas as consequências para a Manchete como veículo jornalístico já não se realizaram tão ditosas. O "Brasil Grande", da ditadura tornou-se um grande anunciante da revista, especialmente um indutor de muitas matérias pagas sobre as obras dos generais. A grande mídia em geral apoiou a ditadura, mas na revista ilustrada a alinhamento ganhava cores e páginas duplas vistosas. 

O dinheiro entrava, a credibilidade saía. 

O jornalismo ainda conseguia respirar. Como se pode ver na coleção da Manchete digitalizada pela Biblioteca Nacional, houve episódios de censura em Manchete e Fatos & Fotos, por várias vezes repreendidas pelo Ministério da Justiça com editores "convidados" a comparecer à Polícia Federal e com a EleEla sob raivosa censura prévia. Coberturas de acontecimentos como a Frente Ampla que desafiava o regime militar, as várias reportagens exclusivas que mostravam a vida dos exilados na Europa, matérias sobre o Esquadrão da Morte e a epidemia de meningite que os generais tentaram esconder eram exemplos de pautas que incomodavam a linha dura. Armando Falcão era um dos esbulhos grosseiros e arrogantes que telefonavam diretamente para Adolpho Bloch e reclamavam de certas matérias em termos nada educados.   

Os espaços cedidos à ditadura, contudo, marcaram fortemente a revista e comprometeram sua imagem, apesar de faturamento e circulação passarem quase incólumes por essa difícil fase. 

A nódoa do adesismo só começaria a se atenuar a partir de 1978, com as pautas da Anistia, o destaque dado à volta dos exilados e, em seguida, aos primeiros governadores de oposição eleitos, como Brizola, que fez histórica visita à Bloch e recebeu aplausos dos funcionários ao entrar no restaurante lotado. A  campanha das Diretas também recebeu ampla cobertura, assim como Tancredo Neves em oposição a Paulo Maluf, candidato da linha dura no então colégio eleitoral da ditadura. 

Manchete bateu recordes de tiragem com a visita do Papa, a inauguração do Sambódromo turbinou as vendas das edições de carnaval. Produtos da Rede Manchete, como as novelas Marquesa de Santos, Dona Beija e Pantanal motivavam capas e levantavam as vendas das revistas. O horizonte não parecia fechado naquele momento.

Aquele edifício que Justino Martins saudou foi ampliado em mais dois que formaram o grande conjunto da Rua do Russell  a virar referência carioca. Mas o que parecia anunciar nova era virtuosa se transformou em crise ao fim dos anos 1980, instalando-se a bomba-relógio financeira que levaria à falência da editora em agosto de 2000.

O prédio que uma vez anunciou bons tempos foi leiloado e atualmente abriga empresas diversas. Das redações que lá funcionaram, restam apenas breves lembranças despertadas nos mais antigos que passam por ali a caminho do centro do Rio. 



(*) José Esmeraldo Gonçalves é um dos autores da coletânea Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou, lançada em 2008 pela editora Desiderata, que revela muito do que eram o trabalho e a vida que corriam nos bastidores dos prédios da Rua do Russell. 
O livro, que não é a história oficial, muito ao contrário, ainda pode ser encontrado em canais de venda como Amazon, Americanas, Saraiva, Estante Virtual, Mercado Livre e sebos digitais. 

Afanaram a isenção de imposto...

 


Sabe a pregação neoliberal de acabar com impostos. Não tem erro. Quando o governo - qualquer governo - elimina um imposto de algum produto o valor da isenção não é passado para o consumidor. O tributo é apenas privatizado. Você continua pagando, apenas o destinatário deixa de ser o governo e a grana vai para o bolso do empresário do setor Com isso, some também da mídia qualquer "reclamação" neoliberal sobre impostos. As empresas apontam uma infinidade de motivos, mas mesmo quando não há algum, menos de 20% do valor do imposto extinto ou suspenso chega ao consumidos, e por pouco tempo. 

Sigam o dinheiro...

 

Reprodução Folha de São Paulo

quinta-feira, 4 de março de 2021

Fala do inominável. E o Brasil avançando acelerado para 300 mil mortos da pandemia. É debochar da tragédia. como ele faz desde março do ano passado.

 

Reprodução Folha de São Paulo

Como identificar um sociopata antes de votar nele


por José Esmeraldo Gonçalves

Você que visita esse blog já deve ter percebido que o termo sociopata é às vezes utilizado para definir o modo de ser do elemento nocivo que o Brasil elegeu. Claro que isso provoca reações de seguidores do sujeito armados de xingamentos e palavrões. 

Entre outros, o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais editado pela Associação Americana de Psiquiatria pode ajudar a identificar esse transtorno. O guia dá 15 dicas para você identificar um sociopata. Anote, no mínimo, vai ensinar os brasilinos a votarem melhor. 

Atenção, este é apenas um texto irônico-político. Se você tiver nas suas relações alguém que se encaixe no mapa abaixo, indique um especialista, busque ajuda para ele. Se o prefeito, o deputado, o governador, o vereador, o senador, o presidente em quem você pretende votar nas próximas eleições combinam com o "diagnóstico" e mesmo assim você sufraga o indigitado, então sinto dizer que quem precisa de tratamento é você.

O sociopata...

1 - Detesta leis, acha que legislação atrapalha 
2 - Tende a ser enganador, mentiroso e ludibriador, visando vantagens pessoais.
3 - É impulsivo, não planeja seus atos.
4- É irritável e agressivo. 
5 -Não sente remorso, é indiferente ao sofrimento dos outros.
6- Facilidade para mentir, enganar,.
7- Inventa desculpas e costuma responsabilizar terceiros pelos seus erros.
8 -São hábeis em descobrir pontos fracos ou pretensões das pessoas e usar isso a seu favor.
9- É manipulador.
10 -Pode ser cruéis com as palavras
11- Não sente remorso.
12- Não se preocupa pelo mal que causa.  
13 -Tem dificuldades para pedir desculpas.
13- Vê inimigos em toda parte.
14 - Finge não sentir medo, o que o faz ter comportamento inconsequente.
15 - Demonstra desrespeito pela normas que defendem a sociedade, Não acredita que conceitos como democracia, por exemplo, se aplicam a eles, .

A Covid-19 é a Espanhola2?

 

Reprodução Twitter

por José Bálsamo

Um especialista amigo explica. Os vírus são diferentes. O da Espanhola, que surgiu nos Estados Unidos, era o mortal H1N1. O da Covid-19 é o SARS-Cov2, que apareceu na China e é igualmente devastador. 

Em 1918-1920, a população mundial era de cerca de 2 bilhões de pessoas. Uma quarto disso foi contaminado.  Hoje, o planeta tem quase 8 bilhões de habitantes e o vírus contaminou até agora cerca de 115 milhões de pessoas. Para igualar percentualmente o número da Espanhola, a cifra global de infectados pela Covid-19 teria que chegar a cerca de 2 bilhões de pessoas para alcançar um quarto da população atual. 

A Espanhola matou oficialmente 17 milhões de pessoas, mas a subnotificação ou nenhuma notificação foram a regra. Estima-se que morreram em torno de 100 milhões de pessoas. A Covid vitimou 2 milhões e meio de pessoas oficialmente, até agora. Também há subnotificação. Algumas pesquisas indicam o número de mortos pode ser 50% maior. 

Biologicamente, a Espanhola2 seria a epidemia de 2009, essa sim transmitida pelo mesmo H1N1, para o qual foi desenvolvida vacina eficiente. 

Em termos de impacto na saúde mundial, a Covid-19 está mais para Espanhola 2, mas, além dos vírus,  os contextos sociais são bem diferentes. A Espanhola 1 foi impulsionada pelo ambiente. A Europa, o vetor principal, estava devastada pela guerra, havia fome, má nutrição, deficiência de comunicação com as populações e pouca higiene.  Já o SARS-Cov2 se espalha mais rápido em um mundo onde as pessoas circulam intensamente e tem potencial para produzir mais mutações, mas a ciência e a comunicação estão mais avançadas, a necessidade de seguir protocolos chega ao público - embora muitos não cumpram as normas - e as vacinas foram desenvolvidas em tempo recorde. 

A maioria do países, apesar de dificuldades pontuais, consegue controlar a pandemia com medidas duras. Os Estados Unidos e o Brasil se apresentam como exemplos negativos, a terra de Joe Biden conseguiu se livrar do negativista Trump, a vacinação avançou e os números entraram em queda. Resta o Brasil fora de controle, estabelecendo-se como um perigoso vetor que ameaça o mundo e ainda submetido ao comportamento de sociopata do perverso Jair Bolsonaro, que ri dos mortos e os despreza. 

Vivemos a maior tragédia da história do Brasil.   

Eu quero o meu Vasco de volta! • Por Roberto Muggiati

 

A indignação de mais uma derrota pífia me acordou. Resolvi lembrar aquela quarta-feira à noite no Maraca, com minha filha Natasha, em que vibrei como nunca com o futebol do meu time, que enfiou 4 x 1 no Flamengo. Era uma semifinal do Campeonato Brasileiro de 1997, no qual o Vasco seria tricampeão. Naquele jogo, cito da internet, “Edmundo acabou com a molambada, marcando três golaços e fazendo suas comemorações que ficariam na memória dos vascaínos por toda a eternidade.” Cruzmaltinos, vejam aí e acordem o gigante adormecido da colina, refém da cartolagem maligna. Quatro rebaixamentos é dose! Daqui a pouco caímos para a terceirona... Vascaínos do (Ed)mundo, uni-vos! 

RELEMBRE UM JOGO HISTÓRICO AQUI

quarta-feira, 3 de março de 2021

E você ainda acha que não está em um regime autoritário? Véspera de uma ditadura?

 


No ar, fake news contra a vacina

Além de porão do bolsonarismo radical, a rádio Jovem Pan divulga fake news. A Revista Fórum conta que a emissora deu espaço à também bolsonarista Ana Paulo, ex-jogadora de vôlei, para veicular dados falsos sobre a morte de 500 pessoas nos Estados Unidos após serem vacinadas contra a Covid-19. Depois do bolsonarista Augusto Nunes, comentarista da JP, condenar a vacinação em apoio ao negativismo do seu inspirador, a ex-atleta soltou a fake news citando o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.  A médica infectologista Denise Garret, que já trabalhou na instituição imediatamente desmascarou a farsa com links da própria agência americana. Veja a matéria completa no site da Fórum AQUI

Há 25 anos: Assassinaram os Mamonas? • Por Roberto Muggiati

 

Foto; Divulgação/EMI

Por mais de cinco anos a banda de Guarulhos chamada Utopia não passou disso: uma utopia. Sua música, rotulada como “rock cômico”, misturava o imisturável: pagode romântico (!), sertanejo, brega, vira, música mexicana e heavy metal. Bastou mudar o nome para Mamonas Assassinas e lançar o único álbum de estúdio, gravado em Los Angeles, Mamonas Assassinas, em junho de 1995, para estourar nas paradas, vendendo quase dois milhões de cópias.

A origem do nome não é clara, mas Mamonas se referia não à planta, mas aos seios fartos de uma musa desconhecida. Seu cachê subiu em pouco tempo de oito mil para setenta mil reais O sucesso instantâneo levou a banda a trocar o seu veículo-fetiche, a Brasília amarela, por jatos fretados. A partir do momento em que literalmente decolaram, os Mamonas fizeram 190 shows em 180 dias por todo o país (só não estiveram no Acre, Roraima e Tocantins). Segundo o Centro de Investigações e Prevenções de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), a causa final do desastre foi fadiga de voo, após uma longa escala pelas cidades onde a banda se apresentava, imperícia do copiloto – que não tinha horas de voo suficientes para aquele modelo de aeronave e não era contratado pela empresa de táxi aéreo – falha de comunicação entre a torre de controle e os pilotos, cotejamento e fraseologia incorretos das informações prestadas pela torre. O Learjet 25D caiu na Serra da Cantareira, às 23:16 do sábado 2 de março de 1996, matando os sete passageiros e dois tripulantes. Ironicamente, o prefixo do jatinho era PT-LSD. E o boneco verdinho do logo da banda parece uma alusão profética ao coronavírus.




Manchete, março de 1996: a tragédia na capa.
Foto Fernando Figueiredo. Reprodução/Manchete


Foto João Mário Nunes. Reprodução Manchete


Apenas dois meses antes do acidente, os Mamonas haviam posado para a capa e
matéria especial da Manchete assinada por Ana Gaio, André Felipe e Mauro Trindsde. A foto é de João Mário Nunes. Reprodução

Como editor, participei ativamente do fechamento antecipado da Manchete no domingo. Soube do acidente pelo jornaleiro da minha banca na manhã de domingo. As equipes da sucursal de São Paulo partiram cedo para a região de mata cerrada da Cantareira à altitude de 1006 metros. Devido a um excelente relacionamento com a assessora de comunicação da EMI, Marília Van Boekel Cheola, a revista dispunha de fotos fabulosas e exclusivas dos Mamonas. Pressentindo o sucesso da banda, Marília praticamente sequestrara os meninos durante um dia inteiro e os fizera fotografar com os figurinos mais coloridos e extravagantes. Quanto à cobertura no local do acidente, nossos fotógrafos não chegavam a ser alpinistas e tivemos de recorrer também a fotos de agências. Aí ocorreu um terrível equívoco de tecnologia, que quase nos custou a apreensão da revista. No calor do fechamento, madrugada de domingo para segunda, recebemos algumas radiofotos em cores. Na redação, não tínhamos recursos para visualizar a imagem. Quem faria o acoplamento das três radiofotos separadas nas cores básicas era a gráfica em Parada de Lucas, que imprimiu a imagem conforme paginada, sem entrar no mérito do seu conteúdo. Publicamos assim, involuntariamente, uma foto mostrando os corpos dilacerados dos Mamonas, o que causaria não só o protesto dos fãs como a quase-censura das autoridades.

No meio de toda aquela confusão do fechamento, recebemos de São Paulo um envelope enviado pelo fotógrafo Vic Parisi com um pedaço do avião dos Mamonas. Pedi a um fotógrafo, dentre os muitos que cercavam a mesa de edição, que fizesse uma reprodução caprichada do “troféu”. O pedaço de metal amarelo cheirando a querosene do jatinho PT-LSD sumiu naquela noite – e para sempre na noite dos tempos. Nos meses e anos que se seguiram, Vic Parisi – com sua perseverança de pastor evangélico – me atormentou com cobranças para que lhe devolvesse a peça. Acho que deve estar pensando até hoje que lhe surrupiei aquela “relíquia macabra”...

segunda-feira, 1 de março de 2021

Afinal, uma Billie real • Por Roberto Muggiati


Escrevi há pouco aqui sobre a atualidade do gênio de Billie Holiday. Mais uma prova disso chegou às telas na sexta-feira, 26 de fevereiro, The United States vs. Billie Holiday, que redime o cinema de um dos piores filmes biográficos, O ocaso de uma estrela (1972), com uma equivocada Diana Ross no papel de Lady Day. Billie agora não só canta com sua própria voz, como tem uma interpretação à altura por Andra Day, premiada nesse domingo com o Globo de Ouro de melhor atriz. 

O diretor do filme é Lee Daniels, que em 2001 se tornou o primeiro afroamericano a produzir sozinho um filme vencedor do Oscar. A história se baseou no livro do jornalista Johann Hari Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs e mostra a perseguição movida pelo Departamento de Narcóticos contra a cantora por causa do sucesso de sua canção-de-protesto  Strange Fruit, sobre o linchamento de negros nos estados sulinos. Agentes infiltrados chegam a mover uma operação de caça à cantora, chefiada por um afrodescendente com o qual ela tem um tumultuado caso amoroso. A estreia do filme no Brasil está marcada para 18 de março. 

Veja o trailer AQUI

O editorial do jornalismo doido...

 

O programa Minha Casa, Minha Vida completará 12 anos no próximo dia 25. Mas já é falecido. O governo Bolsonaro não contratou mais nenhuma casa para os mais pobres. 

Mais de 5 milhões de casas foram entregues até hoje. O Globo publica um editorial confuso sobre o programa. Na ânsia de criticar - o jornal sempre condenou a iniciativa desde o governo Lula - consegue ser negativo até quando esboça algo que se aproxima de um elogio.  Como quando diz que o programa entregou milhões de casas, mas o Brasil ainda aponta um déficit de 6 milhões de residências. O passivo não parece ser culpa do programa, ao contrário, aponta sua necessidade e o quanto é grave a interrupção.  Desde o golpe que derrubou Dilma, e que o jornal apoiou, a construção de casas pelo MCMV entrou em marcha lenta e, desde 2019, em coma.  

Transferir a população para zonas periféricas é outra crítica que O Globo faz. Significa uma mudança para o jornal que nos anos 1960 apoiou a remoção das populações das favelas da Zona Sul do Rio para a Zona Oeste distante e, na época, longínqua e sem transportes coletivos. 

O editorialista destaca um estudo de uma economista da FGV para constatar que os pobres sorteados com uma oportunidade de morar melhor (o MCMV seleciona os interessados em sorteios) são, na verdade, "perdedores". Aponta que, para os pobres, é mais barato morar em barracos. 

A economista, apesar disso, concede identificar que a maior contribuição do programa é o fato de famílias morarem em casas com acesso a água e esgoto. E mostra que, comparando com aqueles que vivem em barracos, registra-se aumento de peso nos recém-nascidos, além de redução na mortalidade infantil. Diria que essa é uma das consequência mais elogiáveis do programa para os "perdedores", que é como o editorial rotula os contemplados com casas. E não vale dizer que essa foi uma conclusão da pesquisador. O editoria não usa a rubrica "opinião" à toa. O selo está ali para dizer que o jornal assina embaixo de tudo o que está escrito na seção. Sobre esse fato, o Globo produziu uma frase ímpar. Alguém decifra? Alguém decifre essa frase de quem tem plano de saúde five stars: "Habitação melhor resulta em melhoria de saúde, mas não é uma política ótima".

Por fim, a especialista que forneceu os dados para o editorial admite que "é preciso estudar mais", o Minha Casa, Minha Vida. Ou seja, suas conclusões são baseadas em uma obra ainda em progresso. 

É possível que, para "comemorar" o aniversário, o Globo escale equipes para visitar os conjuntos e mostrar como os mais de 5 milhões que receberam casa própria são "perdedores". E talvez até reúna uma multidão de pobres que abandonaram suas casas do Minha Casa, Minha Vida para voltar a morar em barracos "mais baratos".

Fotomemória da redação: quando Roberto Barreira localizou, nos Alpes italianos, o irmão do embaixador suíço sequestrado no Brasil

 

1971: Roberto Barreira, de terno escuro, localiza e entrevista para a Manchete o irmão do embaixador Giovanni Bucher, então sequestrado no Brasil. Reprodução Manchete

Em 7 de dezembro de 1970, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que combatia a ditadura, sequestrou o embaixador suíço Giovanni Bucher. Foi o assunto da mídia nas semanas seguintes.

Roberto Barreira, então chefe da Sucursal da Manchete em Milão, viajou para a região do Lago Como, no Alpes Italianos e ali localizou o hoteleiro Rodolpho Bucher, irmão do diplomata suíço. Depois de quebrar uma resistência natural - os Bucher até então não haviam sido procurados pela mídia -  Roberto foi recebido na residência da família e conversou com o apreensivo Rodolpho. Um feito do saudoso Roberto que, poucos anos depois, voltou ao Brasil para dirigir a revista Desfile e a transformou em um dos sucessos editoriais e comerciais da Bloch.

Giovanni Bucher foi liberado pelos guerrilheiros em 16 de janeiro de 1971 em troca de 70 prisioneiros políticos. Na mesma ocasião, com outra dupla - o repórter Carlos Freire e o fotógrafo Alécio de Andrade - Manchete ouviu, em Luxemburgo, Anne Marie Mailet,  irmã do embaixador sequestrado,