domingo, 20 de dezembro de 2020

Trump reúne o seu "gabinete do ódio" e promete fazer um "protesto selvagem" no dia 6 de janeiro. Seus assessores querem que o chefe decrete Lei Marcial e anule as eleções...

por Flávio Sépia 

O barraco antidemocrático não acabou. Segundo as agências internacionais, que repercutem o New York Times, Donald Trump reuniu o seu "gabinete do ódio", na última sexta-feira, no Salão Oval, e a coisa fedeu. Dizem que os Pais Fundadores tremeram nas sepulturas. Os mais exaltados, já embalados pela happy hour, sugeriam aos gritos que Trump decretasse Lei Marcial e anulasse as eleições. Alegam que a Venezuela, que não tem mais dinheiro nem para pagar a conta de luz, liderou uma gigantesca operação para fraudar as eleições em favor de Joe Biden. 

Não ficou claro se Trump vai liderar um golpe e instaurar a primeira ditadura nos Estados Unidos desde que Thomas Jefferson redigiu a Constituição, mas o presidente prometeu fazer um "protesto selvagem" no dia 6 de janeiro, quando o Congresso se reúne para confirmar o resultado das eleições.

Infiltrada na adversária

 


Hoje, às 12.31, quem entrava na página da Istoé recebia uma proposta de assinatura da... Veja. Isso não é assédio jornalístico?

sábado, 19 de dezembro de 2020

Paçoca: o Viagra do pobre • Por Roberto Muggiati

Sim, a paçoca, aquela guloseima do nosso dia-a-dia, ganhou destaque na mídia em função da live deste sábado que mostra Caetano Veloso na intimidade. Entre outros detalhes, as imagens do celular de sua companheira Paula Lavigne revelam uma paixão gastronômica irresistível do cantor-compositor, a "fissura na paçoca". Cito da matéria do segundo caderno de O Globo, "O Mito de Pijama": "Paula achou engraçada a fixação dele pelo doce de amendoim e passou a registrar toda vez que papito, como ela o chama, abria um pacotinho. Era paçoca na cama do casal, no sofá amarelo da sala, na poltrona de leitura. Os flagras de um Caetano que parecia estar sendo pego numa travessura lhe renderam o apelido de Seu Paçoca."

Como sócio de carteirinha do clube dos consumidores de paçoca, só faço restrição à escolha que Caetano faz da modalidade diet, um verdadeiro crime de lesa-paçoquice ... Aliás, um de meus projetos literários pós-Covid é um tratado sobre filosofia budista intitulado Zen a arte de comer paçoca-rolha sem esfarelar.

Típica da comida caipira do estado de São Paulo, a paçoca de amendoim, ou capiroçava (na Região Norte), vem do tupi po-çoc ("esmigalhar") é feita de amendoimfarinha de mandioca e açúcar, e tradicionalmente preparada para as festividades da Semana Santa e festas juninas

Mas tem mais nessa história, muito mais. Por seu alto teor energético, o amendoim é reconhecido como um possante afrodisíaco. Sua versão concentrada, faz da paçoca uma verdadeira bomba. Nem todos os consumidores da guloseima de amendoim o fazem com segundas intenções. Mas a devastação na economia causada pela Covid-19 levou uma quantidade de casanovas inadimplentes a buscarem na paçoca o seu genérico barato do Viagra. Só podemos desejar boa sorte para eles...


Família Odebrecht ou Família Novonor?

por Ed Sá 

A Justiça permite em algumas situações e sob justificativas aceitáveis que uma pessoa peça a mudança do seu nome. Imagine: se um pai desnaturado batiza o filho ou a filha de Bolsonaro, Donald Trump, Hitler, Mussolini, Pinochet, Crivella, Flodelis, Janaína Paschoal, Damares ou qualquer outro nome que por acaso ofenda o rapaz ou a moça ao crescer, é justo que ele tente se livrar do peso. Há toda uma burocracia, mas a lei permite a mudança em casos pontuais. 

Para empresas, é mais fácil. Se, por algum motivo, a imagem da marca foi enlameada, os marqueteiros passam um pano no passado, desenham novo logotipo e vida que segue. 


O novo nome e marca da Odebrecht

A Odebrecht acaba de passar por uma dessas crises de identidade. Com o nome associado à corrupção desembestada, a holding quer ser chamada agora de NOVONOR. A marca escolhida estimulou especulações nas redes sociais. Há quem diga que é NOVONORMAL, uma tentativa de esquecer o antigo anormal. Também pode ser NOVONOR...BERTO, alusão sutil ao fundador do grupo, Norberto Odebrecht. Ou o ONOR seria uma insinuação da raiz latina para HONOR? Uma busca inconsciente da honorabilidade perdida? 

Entendi. Só não ficou claro se Marcelo Odebrecht, Emílio Odebrecht e Maurício Odebrecht, da família que controla o grupo, passarão a se chamar Marcelo Novonor, Emílio Novonor e Maurício Novonor.

PêGê, o garoto das capas da Veja


Tudo bem que a Veja é atualmente propriedade de corretores do mercado financeiro e Paulo Guedes é figura-chave no setor. Mas a revista não precisava exagerar. PêGê é capa da Veja dessa semana, Onde promete O Ano da Virada. Não fica claro se é "virada" no sentido de capotagem, de rolar a ribanceira. Não há duvidas de que PêGê, o recordista de capas da Veja, trabalha pela reeleição de Bolsonaro. Na famosa e desclassificada reunião dos palavrões de 22 ~e. de abril, o ministro da Economia foi enfático: “Não pode ministro pra querer ter um papel preponderante esse ano destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito". 

As oligarquias da mídia neoliberal amam Paulo Guedes. O mercado ama PêGê, os (as) jornalistas de mercado amam PêGê. Pode-se dizer que fazem uma oposição superficial ao governo Bolsonaro, que ajudaram a colocar lá, mas fecham mesmo é com o amado PêGê. 

Recentemente, o Ministério da Economia, do PêGê, encomendou um relatório investigativo sobre jornalistas. Um monitoramento que classificou os coleguinhas como  "detratores", "neutros informativos" e "favoráveis". O relatório foi encomendado pela pasta do Guedes. Pois bem, o arapongagem, embora grave, ficou pouco tempo na mídia e, enquanto ficou, a mídia conservadora fez um esforço danado para não vincular o monitoramento, que lembrou as fichas da ditadura, a Paulo Guedes, em suma, o homem que pagou a empresa para fazer o levantamento. Ninguém nem mesmo perguntou ao PêGê de quem foi a ideia do dossiê. 

Voltando à Veja. Geralmente, escolher a capa  de uma revista é tarefa crucial para um editor. A foto, a chamada, o impacto. Para a Veja, não. Se a semana não produz fatos relevantes, basta ao diretor mandar o rapaz do cafezinho pedir ao pessoal do banco de dados para enviar uma foto qualquer do Guedes, ele olhando de ladinho e se parecida com as demais de capas anteriores não em problema.







Barack Obama inclui "Bacurau" entre os melhores do ano... Filme foi esnobado pela Academia Brasileira de Cinema

 


"Bacurau". dos diretores  pernambucanos Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, perdeu no ano passado a vaga brasileira de concorrente a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar em uma escolha discutível e politicamente suspeita. Na ocasião, o eleito foi "A Vida Invisível", que foi logo desclassificado pelos americano. Apesar de esnobado pelos "especialistas" da Academia Brasileira de Cinema, "Bacurau", que a "kultura" bolsonarista detesta,  tornou-se um sucesso mundial, arrebatando prêmios em vários festivais. 


Ontem, o ex-presidente americano Barack Obama incluiu o longa brasileiro na sua lista de melhores filmes. New York Times e o The Guardian também elegeram ‘Bacurau‘ como um dos filmes do ano.

E "Bacurau" pode ter ainda uma chance no próximo Oscar marcado para 25 de abril de 2021. Em exibição nos Estados Unidos, e diante da repercussão, a distribuidora local faz campanha para submetê-lo à seleção para a premiação. 

Empresas privatizadas devem ajudar os governos a comprarem vacinas e seringas. Ganharam tanto dinheiro na xepa das estatais que poderiam retribuir o presente neste Natal

 O governo federal já avisou que não tem dinheiro para comprar vacina para todos os brasileiros. Na verdade Bolsonaro e o seu bando ligaram o foda-se desde que a pandemia chegou ao Brasil. 

O Brasil não tem tradição de magnatas preocupados com questões sociais do país. A grande maioria só se mexe em interesse próprio. Mas diante da tragédia do Covid-19 muitas empresas teriam condições de ajudar, comprando vacinas e seringas, por exemplo. Este seria o momento dos donos de empresas retribuírem. Afinal, ganharam presentões do Estado nas últimas décadas, participando da maior black friday do mundo, arrematando a preço de banana rico patrimônio e, ainda, por força de suspeitos contratos de privatização botando no bolso recursos do BNDES a jurus subsidiados, recebendo trens, barcas e até ajuda estatal para pagar até contas de luz, sem falar em dispensa de investimentos que deveriam ter sido assumidos. 

Diante do maná, Vale, CSN,  concessionários de estradas e aeroportos (que recentemente tiveram alívio na dívida de outorgas), distribuidoras de eletricidade, portos, Embraer, Embratel e demais telefônicas, metrôs, ferrovias e bancos poderiam patrocinar parte da vacinação. Ou, pelo, menos, pafgar impostos atrasados ou sonegados, isso já seria um ajuda substancial.

Em tempos de neoliberalismo selvagem poucos lembram que entre as funções sociais das empresas está a solidariedade. 

Se nada disso sensibiliza as corporações, debelar a pandemia é agora um importante pilar da economia. 

Até Paulo Guedes demorou mas percebeu isso.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

ACONTECEU, FILMOU... DEPUTADA É VÍTIMA DE ASSÉDIO SEXUAL EM SESSÃO NADA NOBRE...


Faltava a disseminação de câmeras para a humanidade ser desvendada ou revelada. Câmeras de segurança e câmeras de celulares estão reescrevendo comportamentos. Para pior, com maior frequência, diante de tantas cenas degradantes que nos chegam via redes sociais e para melhor, quando os vídeos mostram dignidade, coragem, honestidade, solidariedade. 

As câmeras fazem, afinal, uma ultrassonografia útil e social e exibem os sociopatas em ação. É bom que eles se revelem. Melhor vê-los do que desconhecê-los. 

É estarrecedor o vídeo que circula desde ontem na internet e nos veículos jornalísticos. Durante uma sessão da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, um deputado abusador cola o corpo ostensivamente em uma deputada, toca-lhe o seio e aproxima o rosto do pescoço da mulher. Antes, parece avisar a um colega sobre o que iria fazer, e este, aparentemente, tenta impedir a investida. A jovem assediada é a deputada do PSOL Isa Penna. O importunador sexual é o deputado Fernando Cury, do Cidadania. Entre os colegas, já apareceram desclassificados que o defendem, talvez por acharem normal atacar as mulheres que começam a conquistar espaços que lhes pertencem e que o machismo estrutural lhes negava. Ou, talvez, por serem filhos de chocadeira, não têm filhas, irmãs, mães, esposas... 

A deputada Isa Penna contou à CNN Brasil que há outros casos de assédio na ALESP, a diferença é que este foi filmado. Deputadas também são importunadas em Brasília. Há muitos relatos de jornalistas que são assediadas por políticos vulgares no centro do poder. 

O crime cometido contra Isa Penna será apurado por comissões de ética. Espera-se que o importunador seja punido e que nenhum deputado apresente uma resolução para retirar as câmeras do plenário. Tirar o sofá da sala é, às vezes, a solução ditada pelo corporativismo.

VEJA O VÍDEO. É UMA CENA ABSURDA E GROSSEIRAMENTE REAL, AQUI

Feminismo 2020, parte 2: o antivírus chinês • Por Roberto Muggiati


Tan Weiwei: uma canção contra o machismo chinês

Uma em cada cinco mulheres no planeta é chinesa. Ou seja, dez por cento da população mundial persistiam sendo um mistério até bem pouco tempo atrás. Num dos países de cultura mais tradicionalista e machista, elas começam finalmente a romper as correntes que as mantinham em absoluto isolamento e silêncio. O mais recente grito de protesto é a canção da estrela pop Tan Weiwei Xiao Juan, do seu novo álbum, inteiramente dedicado à violência contra as mulheres no seu país. 

Em três dias, o lançamento teve 320 milhões de visualizações no Twitter chinês, o Weibo. Diz a canção, inspirando-se em casos reais de agressão à mulher: “Vocês gastam enorme energia para nos silenciar/Ninguém ousa desobedecer/Usam punhos, gasolina, ácido sulfúrico/Raspam nossas cabeças. Nos assediam, ou nos julgam em silêncio.” Xiao Juan – o título da canção – é o pseudônimo genérico usado pelas autoridades para as vítimas de crimes violentos. Tan Weiwei canta, nos versos de abertura: “Nossos nomes não são Xiao Juan. O pseudônimo é a nossa última defesa.”

A pressão mais recente das mulheres chinesas obteve resultados. Só em 2015, foi aprovada a primeira lei contra a violência doméstica, ainda assim contraditória, pois seu texto fala em preservar “a harmonia da família e a estabilidade social.” E só em maio de 2020 o assédio sexual foi introduzido como crime no Código Civil chinês. Enfim, é um mundo a ser descoberto. Se querem saber mais, leiam o livro da jornalista Leta Hong Fincher Enfrentando o Dragão: o despertar do feminismo na China (Editora Matrix). E se querem sentir mais, vejam e ouçam esse vídeo de Tai Weiwei cantando Xiao Juan.

https://www.youtube.com/watch?v=B8Ygse_mJzo

E, em tradução livre, conheça trechos da canção: Nossos nomes não são Xiao Juan/A propósito, essa é a nossa última defesa/Você nos vê nas últimas notícias/Em fotos pixelizadas da cena do crime/Você gasta muita energia para nos silenciar/Ninguém se atreve a desobedecer/Você usa seus punhos, gasolina e ácido sulfúrico/Raspar nossas cabeças, nos rastrear ou nos julgar em silêncio/No final, é assim que você nos descreve: megera, prostituta e prostituta/Mulher-peixe, vadia, devoradora de homens,vadia/Olha, é assim que você nos menospreza/Apague nossos nomes, esqueça nossos seres/a mesma tragédia continua e se repetir/Prenda nossos corpos, corte nossas línguas/E silenciosamente use nossas lágrimas para tecer um brocado de seda/Jogue-nos pelo ralo/Do leito nupcial ao leito do rio/Enfiar meu corpo em uma mala/Ou coloque-o em um freezer na sua varanda/Perto de uma escola, fábrica ou rua movimentada/Um bom lugar que nossos entes queridos escolhem/No final, é assim que você nos disciplina.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Efeito Trump: Estados Unidos votam contra resolução da ONU que proíbe "glorificação do nazismo".

Sinal dos tempos e um alerta para quem se diverte com a ascensão da ultradireita. Por orientação do magnata Trump, os Estados Unidos votaram contra uma resolução apresentada na ONU para combater "a glorificação do nazismo e do neonazismo”. 

Em vários países, o neonazismo é uma assustadora realidade. Parece a volta do parafuso na história. Remete à Alemanha e Itália dos anos 1920/1930, quando o vertiginoso crescimento da direita radical também foi "normalizado" por figuras como Churchill,  Chamberlain, Pétain etc.

Estados Unidos e Ucrânia foram os únicos a votar, na prática, a favor da "glorificação". Brasil votou contra, não se sabe ainda se com a  concordância ou não do Planalto. Rússia, China e maioria dos países pobres também aprovaram a resolução contra a "exaltação" do nazismo. 

O justificativa da diplomacia americana defende o direito de expressão dos nazistas. Inacreditável. Vejam: 

"Os Estados Unidos devem expressar oposição a esta resolução, um documento mais notável por suas tentativas veladas de legitimar narrativas de desinformação russas de longa data denegrindo nações vizinhas sob o pretexto cínico de impedir a glorificação nazista. A Suprema Corte dos Estados Unidos tem afirmado consistentemente o direito constitucional à liberdade de expressão e os direitos de reunião e associação pacíficas, incluindo nazistas declarados, cujo ódio e xenofobia são amplamente desprezados pelo povo americano. Ao mesmo tempo, defendemos firmemente os direitos constitucionais daqueles que exercem seus direitos para combater a intolerância e expressamos forte oposição ao odioso credo nazista e outros que defendem ódios semelhantes".

Preocupante também foi a posição de vários países da UE que optaram pela cínica abstenção. 

Ficar em cima do muro contra o nazismo também ajudou a impulsionar uma das maiores tragédias da humanidade. 

Paul McCartney diz que "adora" a máscara. Com ela, finalmente pode circular nas ruas sem ser reconhecido...

 Há quem diga que mesmo quando a pandemia passar a máscara fica. O vírus vai continuar circulando, dizem os cientistas. Algumas pessoais mais preocupadas e mesmo vacinadas não vão abrir mão de proteção em meio multidões ou aglomerações. 


Reprodução Instagram

O ex-beatle Paul McCartney já admite que vê vantagens no uso da máscara, além das funções sanitárias. 

A privacidade.  

Ele contou ao programa ‘The Howard Stern Show’ que "adora" a máscara. "Com ela, é  possível ir a qualquer lugar e fazer qualquer coisa”.

A máscara tende a se tornar um problema a mais para os paparazzi.

"Garota de Ipanema" é um canto ou uma cantada?





Fotos de Sergio Alberto Cunha

por Ed Sá

Há poucos dias, em meio a uma polêmica qualquer sobre assédio, uma tuiteira comentou que, se fosse hoje, a letra da música Garota de Ipanema seria um típico relato de importunação sexual. 

Dois homens mais velhos em uma mesa do Bar Veloso a observar a menina de 19 anos? Puro assédio, condenavam. 

Ipanema, em 1962, não tinha se "copacabanizado", a Rua Montenegro ainda era uma tranquila transversal que levava à praia, com pouco trânsito. Helô Pinheiro, a menina, ia ao Veloso algumas vezes por semana comprar cigarros para a mãe. Segundo Ruy Castro no livro Ela é Carioca, ela morava na esquina de Montenegro com Vieira Souto e não precisava passar na frente do bar para ir à praia. 

De tanto a verem chegar, Tom Jobim e Vinícius de Moraes foram inspirados pela cena que a canção, originalmente chamada "Menina que passa", descreve em detalhes. 

Para algumas ativistas das redes sociais, certos versos são uma pura "cantada". "Olha que coisa mais linda mais cheia de graça/É ela menina que vem que passa/Num doce balanço caminho do mar/Moça do corpo dourado do sol de Ipanema/O seu balançado é mais que um poema/É a coisa mais linda que eu já vi passar/Ah, porque estou tão sozinho..."

Pode ser. Mas a verdade é que Helô Pinheiro não foi assediada no sentido grosseiro de hoje e só veio a saber que o "doce balanço" cantado por Tom e Vinícius era seu em 1965, quando a música já se transformara em um grande sucesso. 

A revelação foi da Manchete que naquele ano ouviu de Vinícius a confirmação de quem afinal era a musa da canção. Só então Helô conheceu o poeta em encontro promovido pela revista fotografado por Sergio Alberto.

Tom e Vinicius se foram sem imaginar que um dia o clássico da bossa nova nascido de um olhar poderia ser interpretado como uma espécie de melô de assédio. Mas também há bom senso nas redes sociais. Uma voz feminina menos radical argumentou que galanteio e assédio não devem ser confundidos. O que começa com um elogio deixa de ser aceitável e se torna importunação quando é vulgar ou se a mulher demonstrar que não gostou e se sentir constrangida. 

Não foi o caso, obviamente, como a própria Garota de Ipanema contou em centenas de entrevistas desde que se tornou o símbolo de uma época.  

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Passaralho no Globo atinge repórteres e até colunistas "cardeais"

Desde ontem circula nas redes sociais um extensa lista de jornalistas demitidos do jornal O Globo. Além de repórteres e editores sumariamente afastados, fala-se que colunistas alinhados com o grupo também foram atingidos. No caso, perdem colunas diárias e sofrem cortes de salários. Como algumas colunas passam a ser semanais, os titulares teriam os salários renegociados para baixo em função da diminuição de jornada. 

É preocupante a situação dos meios de comunicação, notadamente das versões impressas dos veículos. 

Um tema a ser estudado: impressos entraram em crise no mundo inteiro, mas no mundo desenvolvido, importantes veículos impressos já encontraram um modelo de negócios que abre perspectivas de sobrevivência. Não precisa acabar tão rápido. The New York Times é o exemplo mais evidente. Mas há vários outros. França e Portugal ainda exibem em bancas uma grande variedade de títulos de revistas, por exemplo. No Brasil, o quadro para os impressos é de acelerada devastação. Um apocalipse visível na decadência das bancas de jornais transformadas em mercearias. A velocidade com que o setor desaparece aqui merece uma análise. É porque somos subdesenvolvidos ? (sim, o rótulo que andava disfarçado de "em desenvolvimento" voltou); temos péssima distribuição de renda e as pessoas estão preocupadas em comer e não em comprar jornais e revistas?; temos um alto índice de desemprego e subemprego?  

Claro, a Covid-19 impacta todos setores. Mas é bom lembrar que a economia, no Brasil, já estava no chão antes da pandemia.

Ou será porque a mídia ajudou a implodir o país institucionalmente com mais um golpe, pelo qual trabalhou intensamente, entre os vários que defendeu ao longo da história. Ou será porque apoia incondicionalmente uma política financeira predadora ditada pelo mercado e seus prepostos, como o especulador Paulo Guedes, que só pensa nas fórmulas neoliberais de Pinochet para o qual trabalhou? 

Seja qual for a resposta, não se pode brigar com os fatos. O país, com a intensa ajuda da mídia, foi jogado em um abismo político, social e econômico. 

O resultado aí está. Pena que os trabalhadores recebem a bordoada. 

E vazou o áudio. Para uma boa repórter, a ofensa de um medíocre Secretário de Vigilância Sanitária indicado pelo Centrão é elogio


O cara é indicado pelo Centrão. Caiu de paraquedas na Anvisa, como muitos que descolaram uma boquinha na agência. Dizem que tem títulos, mas em outubro o sujeito bradava a queda da média móvel de mortos pela Covid e foi incapaz de prever o rebote, como seria sua obrigação. Claro que ele tem costas largas políticas e não respeita a função de jornalistas. Para os medíocres, jornalista é mesmo chato porque pode perguntar o que ele não é capaz ou não sabe responder. 

Nesta quarta-feira, durante a ridícula apresentação de um "plano de vacinação" que nada tem de real, é peça ficção sem vacina e sem seringa, o Secretário de Vigilância Sanitária, Arnaldo Medeiros, preposto do Centrão, do PL, partido do notório cacique Valdemar Costa Neto, lembram?, e que está lá como moeda política, não percebeu que o microfone estava ligado. 

Quando a repórter Valquíria Homero, do portal Poder 360, se apresentou para fazer uma pergunta, o elemento resmungou: "Afe, essa daí é chata, viu? essa é um porre". 

Isso no mesmo evento em que o ministro da Saúde diz que os brasileiros estão "ansiosos" pela vacina. Deve ser porque os brasileiros não privilegiados não têm o plano de saúde estatal que o ministro tem e estão morrendo nas portas dos hospitais lotados. Veja o vídeo AQUI

Plano de vacinação: a triste comédia da vida pública

Pressionado a apresentar um plano de vacinação, o governo federal produziu uma piada de generalidades. É uma carta de intenções que anuncia pendências. Um bando de pessoas que desprezou desde o início a chegada, os cuidados, as consequências e as mortes causas pela pandemia faz um rascunho de alguma coisa que pode acontecer ou não. 

Basta ver o conteúdo mais usado no documento: "prevê", "previsão", "ainda não tem uma data para começar", "depende da disponibilidade de vacinas", "memorandos de entendimento que expõem a intenção de acordo", "prossegue com as negociações para efetuar os contratos", "disponibilizar o quanto antes", "acordo para receber 100 milhões de doses dessa vacina até julho", "pretende comprar". 

Efetivamente, o governo não comprou vacinas, não comprou seringas e o sinal verde para todos os imunizantes vai depender da politizada Anvisa, que também não fala em prazo, mas já informa que a aprovação prévia de vacinas por agências e instituições estrangeiras nada significa porque todas elas serão avaliadas segundo parâmetros nacionais. E uma delas, a Coronavac, por ser chinesa, tem questões geopolíticas sob exame. 

Vai ver, no caso da chinesa, caberá à Abin vai aprovar ou não.

Enquanto o governo federal faz planinhos encadernados sem nada de concreto, alguns países já estão vacinando e outros adquirindo milhões de doses. Quando, finalmente, Balsonaro e Pazuello chegarem ao balcão de compra, restará ao vendedor falar o popular "tem mas acabou". 

A pátria desprezada

 

Autoridades falavam hoje com um cartaz atrás da súcia. "Patria Amada", estampava. "Pátria Desprezada" devia estar escrito lá. 

Pazuello, o incompetente ministro da Saúde,  diz que "cobrança por vacina é ansiedade". Isso é uma ofensa aos brasileiros. Há milhares de famílias que perderam entes e estão com outros internados. 

Esse sujeito, forrado com a grana e a estrutura que tem como funcionário público, bon vivant da verba pública (outro dia se divertia em uma festa privê) é um arrogante. 

Que ele saiba que há pessoas morrendo de Covid-19 por falta de vagas na UTIs. 

Este é o pais ansioso.

A ansiedade é medo. É revolta com um governo desprezível, desumano e criminoso. 

Homem mau dorme bem • Por Roberto Muggiati




O chavão “sono dos justos” não passa disso, um chavão mentiroso. Os justos sempre dormiram mal e há muito tempo perderam até o sono. Quem dorme bem nos dias em que vivemos é o homem mau, o injusto – como já provava admiravelmente há sessenta anos o grande Akira Kurosawa em Homem mau dorme bem. Por artes da pandemia, pude finalmente ver esse filme, de uma atualidade brutal. Quinze anos depois do fim da guerra, homens de negócios transformam o esforço de reconstrução japonês num grande bazar de falcatruas. Baseada em Hamlet – Akira adora o Bardo – a trama traz o herói justiceiro buscando vingar o suicídio do pai, provocado por um bando de corruptos. O protagonista é interpretado pelo ator-fetiche de Kurosawa, Toshiro Mifune, muito distante dos papeis extrovertidos e picarescos habituais. De óculos, terno escuro e capa de chuva, Mifune faz um jovem executivo recém-saído da universidade que casa com a filha de um alto executivo, uma manca cobiçada pelo dinheiro e poder do pai. Paro por aqui com os spoilers. O filme tem uma pegada noir alucinante e não acaba como desejaria o espectador. Só nos resta, como homens de bem, dormir mal...

Estadão revela o pacto dos idiotas

 


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Vazou telefonema de Bolsonaro para Biden

 - Alô, alô, Bolsonaro espinquing, Bidê tá aí? Baiden. Desculpe, Damares tá me corrigindo aqui. 

- Could you put a translator on the line... não entendi, o senhor é algum tipo de entregador? O pedido do presidente Joe Biden já chegou. O senhor é do Mc Donalds?

- Mc Donalds? Meu filho zero 3 trabalhou no Popeyes, talkey?

- Zero? Desculpe, vou desligar, estamos ocupados, senhor.

- Stop, stop. Quero dar minhas congratulations pro Dr. Baiden. Me presidente do Brazil, me brazuca amigo. Quero dar um happy birthday pra ele, happy birthday to you em nome aí do povo do Brasil

- Ah, really?, o senhor se recusou a reconhecer a vitória do presidente Joe Biden...

- No, no, mistake, mistake, foi Mouron que não me deixou ligar, aimesorry, aimesorry

- O senhor queria invadir os Estados Unidos, a CIA alertou

- No, no, outro mistake... é a mídia safada que inventa, fuck news, fuck news

- What? A CIA disse que o senhor vinha com pólvora...

- No, no, pólvora pra comemorar, comé Damares, como fala? Fireworks, fireworks!

- Motherfucker!

- O que? Sim dou lembrança pra minha mãe, obrigado!

- Sorry, Mr. Biden não pode falar agora, está entrando no túnel... 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

The Guardian: a palavra certa...

 


Ocupação gourmet. Torres e shopping no Ibirapuera. Área cobiçada há muito anos finalmente vai ser conquistada por empresários.

 


por Ed Sá

Contam os mais velhos que ao ser aterrada a praia, à altura da Glória, para a realização do Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1953, surgiu a ideia de ampliar o projeto rumo ao vizinho Flamengo. 

Aterros no Rio não eram novidade. Ali perto, toda a região da Avenida Beira Mar e do Aeroporto Santos Dumont eram áreas conquistadas ao Atlântico.  A Beira Mar tornou-se uma avenida com prédios então luxuosos. Anos depois, quando o projeto do Aterro do Flamengo começou a tomar forma, logo um lobby de empreiteiros, com apoio de pelo menos um grupo de mídia, defendeu que parte do novo território não fosse inteiramente reservado para um parque público, mas que se permitisse a construção de prédios residenciais. O então Distrito Federal ou o novo Estado da Guanabara poderia vender terrenos e a cidade ganharia um novo bairro elegante. 

Felizmente, o Rio ganhou muito mais com a resistência de quem manteve o parque, hoje um patrimônio dos cariocas.

Certas parcerias entre interesses empresariais associados a políticos costumam ser letais para a qualidade da vida urbana. Quando se discutia a transformação do Parque Lage em instituição pública, como é até hoje, um poderoso grupo manobrou para comprar o local e tentou pressionar governantes a permitirem ali a construção de um cemitério vertical. O que seria hoje um crime ambiental também não vingou, para sorte do Rio.

A ambição privada está sempre à espreita. Agora São Paulo é a vítima. E o Ibirapuera o alvo. A anunciada privatização do parque inclui concessões para potencializar o lucro dos investidores. Acredite, serão construídos no local um shopping e três torres para hotel, apart-hotel e escritórios. Tais empreendimentos vão configurar um presentão: além dos terrenos serem públicos os construtores estarão isentos do IPTU. Ou seja, a população vai perder duas vezes. Não terá acesso a uma parte do parque e a cidade perderá arrecadação de um tributo importante, o que não é pouca coisa já que a área em questão é nobre. Dizem que uma das interessadas é uma empresa chamada Time for Fun... bota divertimento nisso.

ATUALIZADO EM 15/12.

O RIO DEVE MUITO A QUEM DEFENDEU, PROJETOU E CONSTRUIU 

O ATERRO DO FLAMENGO


FOTO DE ALEXANDRE MACIEIRA - RIOTUR - DIVULGAÇÃO

O amigo J.A.Barros, um dos mais ativos participantes deste blog, comentou sobre o post que relata a ameaça ao Parque Ibirapuera, em São Paulo - e que também se refere ao Aterro, no Rio -, e indagou sobre o grupo de pessoas que lutou pelo mais belo parque carioca. 

Este adendo faz justiça a esses verdadeiros heróis, que legaram um presente para a cidade e para as gerações que os sucederam. Um tempo em que os interesses particulares ainda eram desafiados e se construíam espaços para a população, sem distinguir ricos e pobres, e não se destruíam ou roubavam das cidades áreas públicas, transformando-as em uma espécie de clube particular. 

Ao vencer as eleições para o Estado da Guanabara, em 1960, Carlos Lacerda convidou Lotta Macedo Soares para colaborar com o seu governo. Já se falava em construir pistas na área aterrada. Ela sugeriu a implantação de um grande parque. Com apoio de Lacerda, assumiu a responsabilidade e convidou o arquiteto Afonso Reidy para se integrar ao projeto, que logo enfrentou resistência. Um diretor de Urbanização da Sursan (Superintendência de Urbanismo e Saneamento do Estado da Guanabara) queria, em vez do Parque, construir  no local quatro avenidas e prédios à beira-mar. A pressão foi tamanha por parte do diretor e aliados no mercado imobiliário e na mídia que Lacerda foi obrigado a demitir o sujeito e nomear Enaldo Carvo Peixoto para a Sursan. Foi formado um grupo de trabalho do qual participavam Lotta, Afonso Reidy e Lotta, Jorge Machado Moreira (projeto arquitetônico), Berta Leitchic (engenharia, Ethel Bauzer Medeiros (recreação), Carlos Werneck de Carvalho, Sérgio Bernardes e Hélio Mamede (desenvolvimento de projetos), Luiz Emygdio de Mello Filho, botânico, Hélio Modesto, que fazia importante ligação com a administração estadual. Também atuaram no grupo Maria Augusta Leão da Costa Ribeiro, Flávio de Britto Pereira, Alexandre Wollner, Cláudio Marinho de A. Cavalcanti, Maria Hanna Siedlikowski, Maria Laura Osser, Gelse Paciello da Motta, Juan Derlis Scarpellini Ortega, Júlio César Pessolani Zavala, Sérgio Rodrigues e Silva, Mário Ferreira Sophia, Fernanda Abrantes Pinheiro e Swany Rodrigues e Silva. E foram contratados Roberto Burle Marx e Arquitetos Associado, o Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa e o designer americano Richard Kelly.

VOCÊ PODE CONHECER MUITO MAIS DESSE CAPÍTULO QUE ORGULHA OS CARIOCAS NO SITE DO INSTITUTO LOTTA -  https://institutolotta.org.br/o-parque-do-flamengo

domingo, 13 de dezembro de 2020

Sujou! Todo mundo pegando o retorno que tem cagalhão na linha

 


Sadomasô nos aeroportos

Sessão de apalpação

Bebê como bagagem de mão

Na esteira inativa à espera da conexão

Travesseiro próprio

O polêmico scanner corporal pode revelar linhas da intimidade 

por O.V. Pochê

Se você é sadomasoquista e antigamente gastava uma grana em casas especializadas em S&M. Poupe seu dinheiro. Apenas com o que gasta em taxas de embarque você poderá ter prazer em sofrer á vontade em aeroportos. E não só os do Brasil. Dos procedimentos de segurança e de scanner corporal, passando pelos atrasos e remanejamentos de voos, conexões demoradas, filas e, agora, os protocolos da Covid-19, você poderá ser um figurante do filme "50 tons de cinza" sem sair da sala de espera. 

Há situações ridículas também, algo que certamente o passageiro evitar viver em qualquer outro lugar, mas que em aeroporto se submete numa boa. O vexame se normalizou, digamos.

O site Illumeably publica uma seleção de fotos de algumas dessas situações constrangedoras pelas quais milhões de pessoas pagam cara. Para sofrer ou pagar mico.

Em tempos de Bolsonaro, o jornalismo investigativo, quem diria, sumiu ou quando aparece fica constrangido

 


E a Época? O repórter Guilherme Amado foi o autor do furo jornalístico da semana; a matéria sobre os relatórios da ABIN para jogar no forno de pizza  a roubalheira detectada no caso das "Rachadinhas", o escândalo em banho maria que envolve a facção no poder. 

Foi uma novidade na fase atual da grande mídia. As revistas de informação, Veja, Istoé, Época, há muito perderam o apetite para matérias de "denúncia".  Seja porque perderam a fonte de abastecimento que brotava na Lava Jato, seja porque participaram ativamente do processo que levou Bolsonaro ao poder e, ainda agora, mantém o pé de apoio no governo através de afinidades profundas com o czar da política econômica, Paulo Guedes. 

Em outros tempos, a matéria de Guilherme Amado seria capa, sem dúvida, ganharia bom espaço no Jornal Nacional, repercussão ampla na Folha, Estadão etc. 

Tente imaginar a ABIN fazendo hora extra para produzir relatórios em defesa de um filho do Lula ou a filha da Dilma. Sacou o barulho de muitos megatons? Já estou até vendo os editoriais praticamente pedindo a intervenção da Quarta Frota americana, a polícia do Atlântico Sul, para "salvar a democracia brasileira". Miguel Reale se descabelava. Janaína Paschoal estaria a ponto de se enrolar na bandeira do Brasil e se imolar em praça pública. Roger correria pelado na Paulista em puro desespero. O MBL em peso ameaçaria se atirar do Edifício Itália. As senhoras de Copacabana e seus maridos de gordas aposentadorias e fraldas idem ocupariam a Av.Atlântica pedindo a ocupação militar de Brasília, de preferência bombardeando o Planalto, o Alvorada e o apê do Lula em São Bernardo. 

Pois é. 

Vivemos novos tempo. A grave denúncia de Guilherme Amado mereceu da Época apenas uma chamadinha de capa.

Quase constrangida.


sábado, 12 de dezembro de 2020

Irã condena jornalista à morte. Teocracias costumam fazer isso...

A Anistia Internacional denuncia a execução do jornalista opositor Ruhollah Zam. Ele foi enforcado hoje. A Suprema Corte do Irã manteve a condenação apesar dos apelos de várias organizações de direitos humanos. Zam foi condenado por, segundo o governo, liderar protesto contra os aiatolás em 2019. Chegou a se asilar na França, mas durante uma viagem ao Iraque foi capturado por militares iranianos. "O contrarrevolucionário Zam foi enforcado durante a manhã, após a confirmação de sua sentença pela Suprema Corte devido à gravidade dos crimes cometidos contra a República Islâmica", anunciou a televisão estatal". Parte da esquerda brasileira apoia a violenta teocracia iraniana, assim como paparica os religiosos fundamentalistas tupiniquins. Se quer sair do buraco junto às novas gerações, a esquerda deveria rever essas posições. No mínimo, em nome da democracia.  

 


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

 


PSG e Istambul Basaksehir fazem história ao parar o jogo em protesto contra o racismo. Desde 2014, furar a bola diante de ofensas raciais já deveria ser uma forma de luta

 

O post acima foi publicado aqui há mais de seis anos, após um caso de racismo no futebol brasileiro. 

Ao parar o jogo e deixar o campo -  depois do quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu, proferir ofensa racial a Pierre Webo, ex-jogador e assistente técnico do time turco - PSG e  Istanbul Basaksehir fizeram história. 

A efetiva reação dos jogadores ao racismo no futebol pode alertar dirigentes,. Que caiam na real e finalmente aprendam que apenas "campanhas educativas" não são suficientes para reprimir um crime. 

A frase de Coltescu  - "aquele negro ali" - ecoou no estádio vazio em função das restrições impostas pela pandemia. Liderados inicialmente por Demba Ba, ao qual se juntaram Neymar e Mbappé, os jogadores abandonaram o gramado. O jogo só foi concluído no dia seguinte, com a substituição do quarto árbitro. 

Em 2014, Aranha foi alvo de racismo em jogo na Arena do Grêmio. O goleiro fechava o gol na vitória do Santos por 2x0 sobre o gaúchos, quando uma torcedora gremista o chamou de 'macaco". Ele tentou parar o jogo, o árbitro não o ouviu, os demais jogadores apenas mostraram solidariedade. E bola que segue. Leia, abaixo, no destaque, o nosso post publicado na época.

Já há alguns anos, este blog se manifesta favorável a uma campanha para sensibilizar os jogadores de futebol a interromper a partida sempre que vierem das arquibancadas ofensas racistas. Sentam na bola e esperam a polícia e os cartolas agirem, identificarem os racistas, botarem os canalhas pra fora e prendê-los devidamente.
Obviamente, esse tipo de campanha não vai partir de jornais, TVs e emissoras de rádio que têm interesses no futebol. O goleiro Aranha bem que tentou parar o jogo mas o juiz fingiu que não ouviu. Os colegas demonstraram solidariedade mas seguiram tocando a bola.
Um jogador sob bombardeio de ofensas e até de objetos lançados por racistas perde as condições psicológicas para continuar jogando, pode até perder a cabeça, partir para as arquibancadas e tentar resolver a questão no braço. E, se o fizer, não poderá ser criticado por isso. Retirá-lo de campo é premiar o racismo. Então, só resta uma atitude decente e segura: interromper o jogo.
A sociedade tem que se mexer. O Bom Senso Futebol Clube também. Chega de campanhas, faixas, apelos. Já se viu que nada disso tem funcionado. Ou a lei é imposta ou o Brasil, a CBF, a Fifa e as Federações estaduais, além dos dirigentes do clubes, Ministério dos Esportes, ministério da justiça, Ministério Público, seremos todos cumplicies de racismo.

Mas será longo o caminho, apesar da atitude dos jogadores do PSG e do Istanbul Basaksehir. Na última terça-feira, 8, no jogo do Palmeiras contra o Libertad, o atacante Rony se ajoelhou no gramado em apoio a Webo e à luta antirracista. A Conmebol ameaça multar o Palmeiras. Alega que o gesto de Rony fere o regulamento da Libertadores, que condena manifestações políticas, comerciais, pessoais, religiosas... Essa última categoria, contudo, não é objeto de ameaças de multa. Jogadores religiosos praticam o exibicionismo da fé, rotineiramente, em campo, sem contestação da cartolagem.  

Parar o jogo até que os racistas sejam identificados e presos é uma arma poderosa. Que essa tenha sido apenas a primeira vez e que os jogadores, a partir de agora, "furem a bola" a cada ofensa racista. 

Vivemos uma "ditabranda", Folha de São Paulo?

Ameaçada de morte por milícias bolsonaristas, a cientista política Ilona Szabó está morando no Canadá. Ela acaba de lançar o livro "A defesa do espaço cívico", onde aponta graves riscos à democracia desde que o sociopata chegou ao poder. No começo do ano passado, certamente por acreditar em alguma boa intenção dos novos governantes, a liberal Ilona aceitou um convite de Sergio Moro para participar do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Logo foi bombardeada pelas milícias. Bolsonaro rapidamente cancelou a nomeação. Por ter aceitado participar do governo, ela recebeu críticas à esquerda e ameaças à direita. Em entrevista ao Globo, Ilona Szabó conta que foi avisada de que estava sendo monitorada e de que poderia receber falsas acusações. Isso deve ser as "ditabranda" da qual a Folha de São Pàulo tanto fala.


Quem vai botar a camisa de força?

Reprodução Folha de São Paulo

Na capa da Time

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

União Europeia promulga lei que pode atingir o Brasil

Esta semana a UE assinou uma lei que á ao bloco o poder de proibir viagens e congelar bens de indivíduos, entidades e empresas envolvidas ou associadas à violação dos direitos humanos, incluindo genocídio, escravidão, prisões extrajudiciais e assassinatos, violência de gênero, tráfico de seres humanos e outros abusos.  Não se trata de algo simbólico. A lei pode impedir viagens de infratores, cpngelar bens de indivíduos e impor sanções. O Brasil atual, sob a presidência do sociopata, já  se encaixa em algumas dessas cláusulas.  

Paolo Rossi e a saga dos "carrascos" da seleção brasileira

por Niko Bolontrin 

Morreu Paolo Rossi. O "carrasco" do Brasil na Copa de 1982. O atacante que acabou com a festa de uma seleção que era favorita naquele ano. 

Rossi é apenas mais um dos "carrascos" que eliminaram a seleção brasileira em Copas. A lista é longa. O uruguaio Ghiggia em 1950; o húngaro Kocsis em 1954; o português Eusébio em 1966; o holandês Cruyff em 1974; em 1978, o Brasil foi eliminado por saldo de gols; em 1986, o "carrasco" atendia pelo apelido de "fogo amigo" (o pênalti perdido por Zico contra a França); em 1990, o argentino Caniggia eliminou o Brasil; em 1998, naquela tragédia do Stade de France, a seleção cometeu tantos erros na final, com Ronaldo exposto ao ridículo, que nem precisava de "carrasco". Mesmo assim, tinha um lá: Zidane. Em 2006, a França, e novo eliminou o Brasil, dessa vez com Henri; em 2010, o holandês Sneijder tirou a seleção brasileira da Copa; em 2014, todo um time de "carrascos", a Alemanha, fez do Brasil a "vadia" do futebol; em 2018, o "carrasco" pode ter sido Lukaku. Curiosamente, ele não fez gols, mas criou jogadas e parecia assustar a defesa brasileira, abrindo espaço para De Bruyne. E Fernandinho fez um contra. A Bélgica eliminou o Brasil. Todos os citados acima tiveram a honra de despachar a seleção pentacampeão. 

Em  1958, 1962,1970, 1994 e 2002, os "carrascos" estavam do nosso lado. Pelé, Garrincha, Jairzinho e Tostão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho trouxeram os títulos pra casa. 

E no Catar? É cedo ainda, a pandemia atrapalha a evolução de alguns. A França, o grande fantasma da seleção brasileira, deverá vir com Mbappé, mais maduro e experiente, Pogba, Greizmann; Argentina com  Messi e Dybala? O inglês Harry Kane? 

Ou, finalmente, Neymar?

A vida virou simulação...

 por Ed Sá

O pessoal endoidou. Só o desvario explica algumas novas tendências de comportamento. Chamam de "experiência". Por exemplo: o sujeito pode viver a "experiência" de voar em avião. Pode optar por fazer todos os procedimentos de check in, despacho de bagagem etc, embarcar em jato que decola, oferece serviço de bordo e faz um voo de 10 minutos.  Isso é moda em algumas capitais asiáticas. 

Em Brasília, inaugura-se em breve uma variável dessa "experiência". Um velho Focker foi reformado, estacionado no pátio de um igreja evangélica e poderá receber "passageiros" para uma simulação de voo, mediante o pagamento de uma "passagem", claro. O voo oferecerá também serviço de bordo, som ambiente que imita barulho de turbinas, avisos do comandante e outras realidades virtuais. No caso, óbvio, sem decolar. O que, tratando-se do Focker, avião que era um notório "fazedor de viúvas", é bem mais seguro.  

O Globo de hoje publica mais uma dessas esquisitices em voga. Se você não pode viajar porque a pandemia está braba e o dólar idem. relaxe. A matéria sugere transformar sua casa em um "hotel". Para isso, indica lojas on line que vendem roupões e pantufas, mostra como arrumar a cama com lençóis e travesseiros típicos de hotéis, caixinhas de som para reproduzir muzaks, dicas de receitas,  "caixa do café da manhã" e até "cheirinhos de férias (fragrâncias como "Lobby 5 estrelas" ou "Hotel-fazenda"). 

A "experiência" é brega, mas aproveite. E pare de dizer que não tem para onde ir nas próximas férias.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Feminismo 2020: do discurso aos tiros, facadas e tesouradas • Por Roberto Muggiati

“O problema é que eu odiava a ideia de ter de servir aos homens.”

SYLVIA PLATH


A francesa Pauline Harmange lança o livro "Eu odeio os homens", que reúne histórias de mulheres que retaliaram fisicamente os machões.

A nova palavra da moda é “misandria” (ódio ou aversão aos homens), o oposto da nossa popular – e milenar – misoginia. A misandria acaba de ser posta em circulação pelas neofeministas francesas no rastro do livro-manifesto Moi les Hommes, Je les Déteste/Eu odeio os homens, que sai no Brasil pela Record e promete ser um dos lançamentos mais polêmicos de 2021. A autora, a francesa Pauline Harmange, 25 anos, tem toda a razão do mundo para odiar os homens. Trabalhou muito tempo numa organização que cuida de vítimas de estupro e assistiu de perto à violência e à impunidade. Pauline extravasa sua raiva e sensação de impotência diante da brutalidade masculina no plano do discurso teórico, valendo-se das palavras. Eu queria lembrar aqui casos célebres de mulheres que decidiram partir para uma retaliação física contra os machões. 

I Shot the Sheriff


Feminista radical - com razão, pois sofreu muito nas mãos de homens - Valerie Solanas é uma das mártires feministas do século passado. 

• Uma destas mais notáveis heroínas foi Valerie Solanas, autora do SCUM Manifesto, lançado em 1968 pela Olympia Press, editora parisiense que publicava em inglês livros proibidos nos Estados Unidos, como Lolita, de Vladimir Nabokov, e Almoço Nu, de William Burroughs. SCUM era a sigla de Society for Cutting Up Men/Sociedade para Esquartejar os Homens, a palavra “scum” (escória) representava para Solanas como as mulheres eram tratadas pelos homens. Na infância sofreu na pele abusos sexuais do pai; aos onze anos, a mãe a mandou morar com o avô, um alcoólatra que a surrava constantemente e depois a botou na rua. Sua experiência como mendiga e prostituta foi relatada na peça teatral Up Your Ass.  Valerie entregou o manuscrito para a apreciação do artista pop Andy Warhol, que o acabou perdendo e se recusou a compensá-la pelo prejuízo. No dia 3 de junho de 1968, Valerie foi ao ateliê de Warhol em Nova York e deu três tiros no artista. Só acertou um, mas o suficiente para que Warhol sofresse sequelas menores para o resto vida. Solanas foi condenada a passar três anos num hospital psiquiátrico, O médico que a avaliou disse que exibia uma “reação esquizofrênica, do tipo paranoide com marcas de depressão e potencial suficiente para agir". Warhol se recusou a testemunhar contra ela. A ousadia de suas ideias e o atentado a Warhol causaram um impacto profundo no movimento feminista. Vários grupos radicais surgiram, como a Frente de Libertação Feminina; filmes foram rodados, como Scum Manifesto (1976), em que a atriz de O ano passado em Marienbad, Delphine Seyrig, lê o texto histórico de Valerie. Morta em 1988, aos 52 anos, de enfisema e pneumonia, Solanas entrou para a galeria das mártires feministas do século 20.

Por um punhado de propinas

E a dama que esfaqueou o guru  da economia na ditadura

• Marisa Tupinambá ganhou celebridade instantânea em 1981 quando desferiu uma quantidade liberal de facadas no tórax e no abdome do amante Roberto Campos – o guru econômico da ditadura militar, apelidado de Bob Fields e execrado pela esquerda. Marisa quem? Funcionária da embaixada do Brasil em Paris na gestão Delfim Netto, em 1974, ela atuava como uma espécie de promoter, organizando eventos que atraíssem parceiros comerciais para o Brasil. A envolvente brasileira teve romances com o filho do rei Faiçal, com o joalheiro Alain Boucheron e com o conde Jean-Jacques de la Rochette, antes de se tornar amante de Campos, que a lotou na embaixada de Paris. Demitida um ano depois, Marisa mudou-se para Londres, onde recebia uma mesada da Odebrecht – o propinoduto já funcionava fullgás na época, segundo artigo do jornalista Elio Gaspari. Símbolo da respeitabilidade do regime autoritário, casado, pai de três filhos, embaixador do Brasil em Londres, Campos perdeu totalmente a cabeça ao conhecer a falsa loura. E acabou se dando mal. Marisa submeteu Campos a um constrangimento terrível quando o agrediu a bolsadas numa noite de gala no Royal Festival Hall na presença da Rainha Elizabeth II. O motivo da agressão? Campos a teria deixado fora das comissões em negociatas que ela intermediava com empreiteiras nacionais e poderosas multinacionais. Numa entrevista ao Pasquim em 1983, Marisa disse: “Roberto não deixava as pessoas me pagarem. Acho que tinha raiva, aquela história de amor e ódio. Para mim, dizia que os negócios não tinham sido fechados.” A relação acabou culminando em ódio escancarado na noite de 28 de abril de 1981, num apart-hotel de São Paulo, quando Campos, 63 anos, comunicou a Marisa, 35, que seu caso tinha chegado ao fim. Marisa reagiu a golpes de faca, que perfuraram os intestinos, o peito e a clavícula de Campos. Ao tentar se defender com as mãos, ele quase teve o polegar decepado. Amigos do embaixador tentaram abafar a história dizendo que Campos havia sido vítima de latrocínio no centro de São Paulo, mas a verdade não tardou a aparecer. Marisa não sofreu nenhuma ação legal e continuou sua vida numa boa. Com a fama de aguerrida e insubmissa, como a tribo que lhe deu o sobrenome.

Penis et circenses

Lorena Bobbit era estuprada e espancada pelo marido John Bobbit. Levada ao limite, uma noite ela decepou parte do pênis do agressor. 


O pênis fatiado de Bobbit foi reimplantado e ele teve alguns momentos de fama como ator pornô. 

• Na noite da véspera de São João de 1993, um episódio sangrento na Guerra dos Sexos abalou a América e repercutiu no mundo inteiro. O ex-marine John Wayne Bobbitt, 26 anos, chegou em casa bêbado e surrou e estuprou a mulher. O que não era novidade para Lorena Bobbitt, equatoriana, manicure, 22 anos. Em quatro anos e quatro dias de casamento, fora submetida a todo tipo de agressões físicas a abusos sexuais, incluindo estupro e sodomização forçada. Enquanto o marido dormia, Lorena foi à cozinha tomar uma água. Viu sobre a pia uma faca de trinchar perus de 20 centímetros e teve uma ideia. Ergue os lençóis que cobriam o corpo nu de John Wayne e cortou a parte superior do pênis do marido. Em seguida, saiu de carro e jogou o pedaço do membro decepado num descampado nos arredores da pequena cidade onde moravam, Manassas, Virginia, que até então só guardava a fama de ter sido o local da primeira batalha na Guerra da Secessão (1861-65). Milagrosamente, depois de horas de busca, a polícia encontrou o pedaço do pênis, ainda em condições de reimplante, o que aconteceu com sucesso após dez horas de cirurgia.

A imprensa não poupou superlativos em suas manchetes. A CASTRAÇÃO MAIS MIDIÁTICA DA HISTÓRIA. UMA TRAGÉDIA GREGA, UM THRILLER DE TERROR, UMA COMÉDIA DE HUMOR NEGRO. Pela primeira vez em seus 172 anos de vida, o New York Times publicou a palavra “pênis” em sua primeira página (usava o eufemismo “órgão sexual masculino”.)  O julgamento duplo também foi uma festa para a mídia. John foi inocentado pela acusação de abusos corporais e estupro, Lorena, pela acusação de castração sem chance de defesa. Bobbitt, cujo nome homenageava o ator John Wayne, símbolo dos valores da direita e do machismo, foi crucificado por uma nova onda de protestos feministas. Ele investiu na sua celebridade estrelando um filme pornô, John Wayne Bobbitt Uncut (jogando com o duplo sentido de “sem cortes/sem censura”), seguido de uma banda de rock (The Severed Parts, “as partes seccionadas”) e uma sequência pornô em 1996, Frankenpenis, que não tiveram o mesmo sucesso, mas Uncut se tornou um dos pornôs mais vendidos da história.

Depois do seu êxito fugaz, John Bobbit trabalhou como garçom, motorista de limusine, entregador de pizza, lutador de luta livre, recepcionista de boate e operador de guindaste. Em 1994, foi preso por bater numa stripper em Las Vegas durante sua turnê Love Hurts. Casou-se de novo e adotou o sobrenome da esposa, Joana Ferrell, mas o casal se divorciou em 2004 depois que a mulher o denunciou por maus-tratos.

Lorena, por sua vez, recuperou a identidade com seu sobrenome de solteira (Gallo), fundou a Lorena’s Red Wagon, uma organização de ajuda a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica. John, que diz ter ido para cama com mais de 70 mulheres desde a operação, acabou ficando sem lugar na vida de Lorena. Ela é casada há 15 anos e tem uma filha de catorze. Seu marido, segundo ela conta, dorme todas as noites ao seu lado, de barriga para cima e muito tranquilo.

O alcance do episódio na cultura popular é imenso. As expressões “Bobbittized punishment” (castigo bobbittizado) e “Bobbitt procedeure” (procedimento Bobbitt) ganharam reconhecimento social. Nos anos 1920, Babbitt (título do romance de Sinclair Lewis), simbolizava o cidadão conformista da época. Bobbitt poderia muito bem definir o cidadão dilacerado do final do século 20.

Tiros e tesouradas no Russell

• E o nosso cotidiano na Manchete, o maior império de comunicação do Brasil? É hora de desfazer uma mentira hedionda. Aquele companheirismo nostálgico tão decantado só é compartilhado pelos homens. A mulher na Bloch sofria os maiores abusos e humilhações – e ai daquela que ousasse reclamar ao patrão ou apontar seus molestadores, seria sumariamente demitida por justa causa. Havia homens decentes nas redações, mas grassava também na Bloch uma legião de bolinadores compulsivos, beliscadores de peitinhos, apalpadores de nádegas e o que mais se pudesse imaginar. Os sátiros de plantão do palácio de cristal do Russell agiam amparados por sua total garantia de impunidade. Se pudesse voltar àqueles tempos, eu espalharia placas por todos os andares: PROIBIDO APALPAR AS COLEGUINHAS. Vou lembrar aqui alguns casos mais notórios da Guerra dos Sexos na Bloch. 

Em 1969, contratado em Paris por Justino Martins, chega ao Rio de Janeiro o chefe de arte Serge Elmalan, com sua mulher e o nobre mastim do casal. Responsável pela diagramação da recém-criada revista feminina Desfile, Serge logo se envolve com a produtora de moda Regina Guerra – o nome não podia ser mais sugestivo, e agourento. Já no início da relação, num surto de ciúme, a belicosa rainha desfere três ou quatro tiros no Beau Serge. Uma bala se aloja numa área melindrosa da clavícula. Adolpho Bloch despacha Elmalan de ambulância, helicóptero e jato executivo para o maior cirurgião cardiovascular do mundo, o Dr. Michael DeBakey, de Houston, Texas. O grande especialista sentencia: “É melhor não mexer nisso...” E o canhoto Serge teve de seguir diagramando com a asa quebrada pela vida afora. Mas a história não acaba aí. Ao voltar recuperado ao trabalho, Serge ainda sofria a ameaça da amante injuriada. Toda tarde, no fim do expediente, o Marechal – chefe de segurança informal do Adolpho – se esgueirava por entre as árvores da Praça do Russell à procura da pistoleira. E Serge saía sempre escondido no assoalho do carro de um colega.de redação.

Alguns contínuos se destacaram nessa área. Um deles, recém-casado, recusou-se a fazer sexo com a Censora do governo militar, que o recebeu em sua casa de peignoir entreaberto para examinar a arte final de um número do EleEla. Outro contínuo topava qualquer parada, como ir para a cama com Marisa Raja Gabaglia quando coletava sua crônica da semana; e com Jean Genet, hospedado no Hotel Glória, quando entregava ao escritor famoso revistas e jornais que chegavam pelo malote de Paris. Marisa se celebrizaria depois por seu Amor bandido com o cirurgião plástico que aderiu ao mundo do crime, Hosmany Ramos.

Entre os episódios marcantes, tem o de um fotógrafo, apelidado por motivos óbvios de Tripé, encarregado de fazer um retrato do Ziembinski. O teatrólogo o recebeu de baby doll no alto de uma escada que corria sobre rodinhas ao longo de sua imensa biblioteca. “Meu filho, quando não consigo achar um livro, sinto uma vontade louca de dar a bunda...” O Tripé deu no pé. Apelidei a irritação particular causada pelo sumiço do livro de Síndrome de Ziembinski.

Um dos principais diretores da empresa passava o dia sofrendo um bullying cruel do Adolpho. Ao voltar para casa, sofria toda a pressão da mulher para que reagisse até que uma noite, aos gritos de “Covarde!” ela quase o matou com um golpe de cinzeiro de cristal na testa.

Nelson Rodrigues dizia que sem dentadas não há amor possível. Dois redatores da Bloch sofreram mais do que mordidas. Um deles costumava trazer para o trabalho, visíveis no rosto, marcas de rotineiras batalhas conjugais. Imaginação não lhe faltava para criar as mais diversas explicações para as escoriações. Se o corte fosse no supercílio, a culpa era da freada busca que o lançou contra o espelho retrovisor; no queixo, o vilão era a lâmina do barbeador; a mordida no braço era atribuída ao cão feroz que perambulava no bairro. O outro, casado, foi seduzido pela beleza rústica de uma repórter. A moça era forte. Pernas de quem foi criada em fazenda, curtida pelo sol do centro-oeste, com mais músculos em um braço do que o jornalista tinha em todo o seu corpo de boêmio. Durante um embate, ele ao volante, o redator perdeu a paciência com os argumentos da mulher-maravilha em torno de uma discussão banal e jogou o carro sobre a calçada. Mandou que a moça desembarcasse. Ela o fez, mas antes arrastou o indigitado pelo colarinho e deu-lhe uns tapas e um soco que tirou sangue. Sem poder entrar em casa com a roupa tingida de vermelho, o nosso personagem voltou para a Bloch, pegou emprestada a camisa de um segurança e recolheu-se à segurança do lar.     

Um incidente também insólito coroou o declínio e a queda do Império da Bloch, na segunda metade dos anos 1990, Adolpho já morto. Um dos mandarins da corte, que era amigo do Rei, teve seus privilégios mantidos pelo delfim. Entre eles o de ocupar um escritório num dos andares superiores do prédio do Russell, onde passava horas trancado com a secretária. Um dia, o mandarim desce esbaforido ao oitavo andar: “Jaquito! Ela está querendo me matar com tesouradas! Me arranje um segurança, por favor! Agora!”

A cena alimentou de fofocas por algum tempo aquela comunidade ameaçada pelo fantasma da falência e do desemprego. E então a tesoura foi recolhida e meses depois o casal beligerante se remendava os trapos em meio a braçadas de rosas. Como existe o amor bandido, existe também o amor sem vergonha e os dois seguiram juntos até que a morte do mandarim os separou.

Este foi um ano definitivo, 2020. A morte pegou pesado, Principalmente pela Covid-19 e pelo feminicídio, alimentado pela coabitação forçada da pandemia (só até junho tinham aumentado em 22,2% os casos de feminicidio, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.)  Muitas mulheres estão clamando por vingança (não esqueçam as Femen, que têm peito aberto para isso, mas podem de repente se munir de revólveres, facas e tesouras.)  E, falando de palavras novas,  qual seria o antônimo de feminícídio? Homicídio já existe como genérico para a raça humana – o homem sempre mandou em tudo, principalmente na linguagem. Sugiro hominicídio, tem ainda a vantagem de lembrar o hominídio, que é o estágio mental destes assassinos de mulheres. 

Do ponto de vista psicológico, a essa altura do campeonato, posso imaginar o pânico-paranoia que assola estes machões com culpa no cartório, fazendo-os reviver o pesadelo da vagina dentata,  assumindo inconscientemente a postura defensiva dos jogadores de futebol que cobrem a genitália com as mãos na hora da cobrança da falta. Meu amigo, lembre o trinchante da Lorena, tem de ficar acordado 24 horas. E, do jeito que a coisa anda, duas mãos só não vão ser suficientes...