sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Eu choro por ti, Huelva • Por Roberto Muggiati

Huelva. Foto Booking.com

Em outubro de 1960, antes de chegar a Paris para a bolsa de estudos, passei uma semana em Portugal e Espanha. Não era só turismo, eu tinha uma missão específica a cumprir: comprar em Sevilha uma mantilha para o casamento de minha irmã Regina. Depois de uns bordejos por Lisboa – e de uma corrida de touros em Santarém – parti para a Espanha. Tomei uma barca até a gare do outro lado do Tejo, onde embarquei num comboio (trem em bom lusitanês) para a fronteira com a Andaluzia. Lá trocamos o trem por um ônibus e sua primeira parada – para esticarmos as pernas e comer um sanduiche – foi na cidade Huelva, com população de menos de cem mil habitantes, caberiam todos no Maracanã. Era por volta das dez da noite e a praça principal, com uma iluminação exuberante que competia com a luz do dia, vibrava numa feliz celebração da vida. Huelva, minha primeira cidade espanhola, foi para mim, uma verdadeira epifania. Com imensa tristeza, vi agora na TV que ela figurava entre as cidades mais atingidas pelo desastre das chuvas. Uma desgraça a mais no noticiário nosso de cada dia e – para mim – com um tom particular de tragédia. 


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Eleições em Sucupira



 
Da Folha de São Paulo - Clique para ampliar

Comentário do blog - O sistema eleitoral estadunidense é um dos mais bizarros do mundo. Os "pais da pátria" criaram regras destinadas a evitar surpresas. Apenas candidatos dos partidos Republicano e Democrata podem, na prática, se revezarem no poder. Ruy Castro, na Folha de São Paulo, definiu bem o imbroglio do voto, onde qualquer um pode acusar fraude e, no meio de tanta confusão, pode ter razão. O absurdo maior - e que já aconteceu vásrias vezes - é um candidato obter a maoria dos votos populares e perder a eleição para um concorrente menos votado, que arregimenta mais "delegados". Aí mora a mutreta que derrotou Hillary Clinton e, antes, Al Gore, ambos "por acaso" democratas.     

Faixa bolsonarista em Washington: " Trump, anexa nóis"

por O. V. Pochê

O que acontecerá no mundo a partir da posse de Donald Trump não é totalmente previsível. A caça aos imigrantes ilegais e legais, sanções comerciais contra inimigos e aliados, pauta de costumes sob direção conservadora, fogo na diversidade, na política de direitos humanos e nas campanhas contra o racismo, proibição do aborto sob quaisquer circunstâncias são esperados. Desacreditar a crise do clima será  prioridade. O resto só o magnata e seus assessores sabem.

O que Washington não perde por esperar é a invasão brasileira para a posse de Trump, em janeiro de 2025. Nas redes sociais já há sinais de formação de caravanas da extrema direita. A família Bolsonaro irá em peso. Até o Bozo vai recuperar o passaporte para reverenciar o seu Big Boss.

Mas alguém avise a Washington que a coisa não vai acabar aí. Especula-se que haverá show de Gustavo Lima e Jojo Todinho, o Veio de Havan já mandou fazer smoking verde. Regina Duarte vai apresentar no Salão Oval o monólogo "Me assedia Tio Sam", Ao pé do obelisco um grupo de "patriotas" vai cantar o hino dos Estados Unidos para um pneu. Cassia Kiss vai puxar um "louvor" na hora do discurso de Trump. Alguns "patriotas" protestarão porque receberam crachá de "cucaracha" para entrar na Casa Branca. "I am bolsonarista, friend do Trump, Eu love Trump, please, I am deputada in Brazil, I love America, não me prenda, I want kiss ass do Mr.Trump", assim vai se desesperar uma fã. Uma comitiva de jornalistas e comentaristas brasileiros de extrema direita irá fantasiada de proud boys, a  organização neonazista que fez campanha para Trump. A deputada que usa guirlandas de inspiração nazista distribuirá o adereço nas ruas. Evangélicos levarão banheira de plástico para batizar Donald Trump, se for preciso adentrarão a limusine presidencial. Filhos de bolsonaristas irão fantasiados de peru de Ação de Graças e seus pais interpretarão os pioneiros e os pais da pátria. No meio da multidão de camisas verde-amarela uma faixa revelará a nova palavra de ordem dos bolsonaristas:

"Trump, anexa nóis" ! 

Qualquer semelhança não será mera coincidência.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Qualquer pingo de chuva paralisa um GP. Atualmente é mais perigoso ser motorista de aplicativo do que piloto de F1

por Niko Bolontrin 

O que Ayrton Senna, Alan Prost, Nígel Mansell, Graham Hill, Niki Lauda, Jim Clark, só para citar algumas lendas combativas da Fórmula 1, diriam das regras atuais e dos novos critérios para bandeiras amarelas e vermelhas nas corridas?

Hoje talvez seja mais perigoso ser motorista de aplicativo no trânsito das grandes cidades do que dirigir Ferrari, McLaren, Mercedes etc. Basta cair um pingo de chuva para a direção das provas tremer no Paddock e mandar recolher os bólidos à garagem. 

Não é mais possível identificar pilotos bons de chuva simplesmente porque chuva na pista no máximo vai espalhar resfriado, não mais é desafio para pilotos. 

Não por acaso, bandeiras amarelas e vermelhas têm decidido corridas e até títulos. Vestappen, por exemplo, será tetracampeão. Deveria, quando subir ao pódio, prestar uma homenagem à direção das provas e aos fiscais. Talvez erguendo as bandeiras amarelas e vermelhas como forma de agradecer pelos títulos conquistados sob irregularidades provocadas por sucessivas paralizações de provas que facilitaram seu trabalho.

 Críticas como essa são apenas murmuradas no circo da F1. E só muito discretamente chegam à mídia especializada. Claro, Red Bull é poderosa, faz campanhas publicitárias bilionárias e mostrou força ao superar todas as polêmicas que acumulou nas últimas quatro temporadas.

A irreverência certeira do Charlie Hebdo


 

Evandro Teixeira, 1936-2024, (*) - O mágico das imagens históricas

por José Esmeraldo Gonçalves

Durante 48 anos Manchete reuniu os mais prestigiados fotojornalistas brasileiros, de várias gerações. Semanalmente, como em uma grande exposição, as bancas - e eram milhares em todo o Brasil - penduravam exemplares abertos em páginas duplas com a foto mais marcante assinada por craques da fotografia. Como um curador, o jornaleiro sabia escolher a imagem da Manchete que mais atraíam atenção. Mas faltou um mestre naquele imensa mostra que transformava a Avenida Paulista, a Rio Branco e tantas outras ruas e praças no Brasil em uma galeria aberta e vibrante.

Evandro Teixeira nunca trabalhou na Manchete.

As coleções mostram apenas uma matéria assinada por ele adquirida da Agência JB. Outras raras imagens, especialmente de 1968, são creditadas à agência.

Editores de revistas ilustradas costumam se apaixonar por fotografias. De certa forma, aprendem a vê-las, mesmo que não ousem fazê-las. 

Muitas vezes, a primeira página do JB provocava nas redações da Manchete Fatos & Fotos alguma frustração que logo se transformava em irresistível admiração.

Evandro não esteve na galeria a céu aberto de Manchete e Fatos & Fotos nas bancas do país? Pena. As duas revistas saíram perdendo. Suas fotos inesquecíveis - Passeata dos 100 Mil, Tomada do Forte de Copacabana, Repressão da Cavalaria das PM na Candelária, Golpe Militar no Chile, Morte de Pablo Neruda e muitas outras publicadas no Jornal do Brasil - estão na memória do fotojornalismo brasileiro e mundial. 

Além disso, ganhou de Carlos Drummond de Andrade um poema que define o próprio fotojornalismo sob a lente mágica de Evandro. Quem mais?

Diante das Fotos de Evandro Teixeira 
(Carlos Drummond de Andrade)

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

Fotografia – é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência, cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas da enchente e do despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.

 

* Evandro Teixeira faleceu ao 88 anos, no dia 4 de novembro, vítima de pneumonia, no Rio de Janeiro. O fotojornalista cumpriu com brilhantismo uma extraordinária carreira profissional de 70 anos, 47 dos quais integrando a fabulosa equipe do Jornal do Brasil, onde fez história..  

sábado, 2 de novembro de 2024

Memórias da redação: o craque do fraque e o grito do rito • Por Roberto Muggiati


Arthur Moreira Lima (*) e o pianinho. Reprodução. Foto Lena Muggiati

Tivemos certa vez um entrevero, Artur Moreira Lima e a revista Manchete, representada por mim, seu editor. Em 1983, ele estava em evidência por sua campanha para eliminar as barreiras entre popular e erudito levando a música até os mais recônditos rincões do país no projeto Piano na Estrada, com palco e pianos sobre um caminhão. Combinamos que Renato Sérgio faria com ele uma de suas grandes entrevistas-perfis, com direito a não menos do que cinco páginas e uma foto de abertura de gala em página dupla. Moreira Lima apareceria de casaca negra, a toga do seu ofício sacramentada pela temporada no Conservatório Tchaikovsky em Moscou. Todo editor de Manchete tinha de ser também um produtor fotográfico. Achei que umas pitadas de cor contrabalançariam o excesso de preto. Sugeri à fotógrafa Lena Muggiati que levasse um desses pianinhos de brinquedo multicoloridos e pedisse a Moreira Lima que simulasse tocar nele. Uma piada visual daquelas que faziam a fama da revista, mas o rei Artur, apegado ao rito das salas de concerto, reagiu com um grito: “Não!”

Renato Sérgio chamou o VAR e ligou para mim. 

             – Muggiati, ele não quer fazer a foto com o pianinho.

–  Diga a ele que sem foto não tem matéria – fui peremptório.

O pianista parou para pensar e, em questão de segundos, mostrou toda a sua – para usar a palavra do momento, não aguento mais – resiliência. Afinal, cinco páginas da Manchete não é coisa de se jogar fora. 

A matéria foi um sucesso. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

(*) Arthur Moreira Lima morreu aos 84 anos, em Florianópolis, no dia 30/10/2024

  

Na capa da Time: voto é seguro, diz revista. Mas Time não diz que Estados Unidos têm o mais caótico sistema eleitoral do mundo

 

Donald Trump está preparado para forjar "denúncias" de fraudes caso perca a eleição. Já é esperado que seus apoiadores tentarão criar casos de "manipulação" de votos. O que não é difícil diante do confuso e tosco sistema eleitoral dos Estados Unidos onde democratas, principalmente, obtiveram maior número de votos populares e mesmo assim perderam a eleição por não ganhar em um ou estados beneficiados com mais "delegados". Os Estados Unidos usam um sistema obsoleto criado pelos "pais da pátria", há mais de duzentos anos. No fundo é o sistema que Maduro gostaria de implantar na Venezuela.

Na capa da IstoÉ: o crime impune silenciado por acordo


Na semana em que burocratas federais, estaduais e municipais e representantes de empresas se reuniram para autodecretar uma espécie de anistia das suas culpas no desastre de Mariana, a revista IstoÉ denuncia mais um crime no rastro da tragédia. A Vale do Rio Doce utilizou produto cancerígeno para "despoluir" as águas do Rio Doce que utilizadas para abastecimento das populações e cidades à margem do curso d'água.

The Economist, a bíblia do neoliberalismo teme o autoritarismo deTrump

 


Na Carta Capital: o candidato a ditador

 


Comentário do blog: A Carta Capital analisa a possibilidade de vitória de Donald Trump. A eleição para a Casa Branca está indefinida nos estados decisivos. Se Trump perder vai denunciar fraude. Se ganhar, sai de baixo. Sua agenda de governo consiste em varrer a democracia como um furacão incontrolável. Os princípios do seu governo ele não esconde. Defende que Israel transfira os palestinos para um campo de concentração no deserto; vai caçar imigrantes ilegais e equipará-los a traficantes; chegou a defender pena de morte para imigrantes ilegais; vai forçar o fim da guerra na Ucrânia com a anexação de parte do país em favor da Rússia (os limites seriam as áreas ocupadas no momento do armistício; Trump vai endurecer a guerra comercial e não apenas com a China. Europa será vítima dessa ofensiva. Brasil também. Nos comícios de Trump, os prouds boys (grupo de neonazistas violentos) se destacam na platéia. São uma sinalização do que vem por ai caso Kamala Harris condeifa virar o jogo nessa difícil reta final.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

O jogo sujo de Max Vestappen (Red Bull) na Formula 1. Lando Norris, da McLaren, denuncia no Guardian, hoje


por Niko Bolontrin 

O piloto Max Vestappen é a propria polêmica sobre rodas. Já ganhou três títulos na F1, todos a bordo de incidentes que levaram a decisões ou interpretações duvidosas por parte dos fiscais. Ele lidera a temporada 2024, quase no fim. Provavelmente será campeão mais uma vez e, mais uma vez, beneficiado em várias ocasiões. No GP do México, no último domingo, Vestappen abusou do jogo sujo. Tanto que Norris denunciou no Guardian o que está por trás da estratégia do piloto holandés da poderosa (também comercialmente) Red Bull. Norris pode ultrapassar a pontuação de Vestappen, pelo menos matematicamente. Sabendo disso, o holandês passou a adiminstrar sua vantagem (atualmente de 57 pontos) esquecendo qualquer fair play. O piloto da Mc Laren declarou ao Guardian que nas últimas corridas tem sido o alvo preferencial do Red Bull. No México, Vestappen foi punido duas vezes por ter feito "manobras inaceitáveis" ao atacar ou se defender de Norris. 

"Vestappen está em posição confortável no campeonato. Tem grande vantagem. Por isso, pilota acima do limite". 

O que Norris quis dizer, mas não disse, é que Vestappen não perde nada se provocar a saída dos dois em uma corrida ou se forem punidos juntos, como já aconteceu. A sua vantagem apenas se mantém, como é seu objetivo. Ele não precisa necessariamente terminar uma corrida, desde que Norris também não saia da prova.     

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

TIME machine - capa publicada em outubro de 2004. Menos do mesmo

 

Véspera das eleições nos Estados Unidos em 2004. George W. Bush e John Kerry. O primeiro disputava a reeleição e acabou e ganhando um segundo mandato. Pra variar, duas guerras estavam ativas: Iraque e Afeganistão. Vinte anos depois,  Trump e Kamala se enfrentam. Ao fundo, como sempre, guerras. Dessa vez, na Ucrânia e em Gaza, com extensões no Síria, no Líbano e, a qualquer momento, provavelmente no Irã. (Flávio Sépia)

Na Carta Capital dessa semana: como o mercado organizado captura o orçamento público

 

Comentário do blog - O mercado e, vale dizer, os jornalistas de mercado (a mídia neoliberal não tem mais jornalistas de economia) defendem no limite da histeria o ajuste fiscal, desde que os cortes não eliminem os enormes e bilionários privilégios privados na forma de isenções, incalculável renúncia fiscal (por parte de estados, municípios e União) e subsídios adoidados etc. À maneira de Milei, eles querem convencer o governo a abduzir verbas para educação e saúde públicas, programas sociais, empregos, previdência, e quaisquer tostões que não sejam destinados aos bolsos dos "capitalistas". Para o mercado viciado e os jornalistas limers, o cofre público é o crack financeiro.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Le Monde, hoje: ex-chefe de gabinete de Trump confirma que candidato à Casa Branca é fã de Hitler

 

John Kelly denuncia que Donald Trump tem admiração por Hitler. Matéria publicada no Lê Monde.

Publimemória - Sensualidade proibida. Um anúncio desses não seria aprovado atualmente, Quem viu, viu

 


por Ed Sá

Assim como o jornalismo, a publicidade como a conhecíamos foi arrastada pelo tornado tecnológico da internet. A morte recente de Washington Olivetto, um dos craques da comunicação brasileira, levou a uma reflexão sobre a criatividade na propaganda atual. Todos os veículos, praticamente, foram buscar referências muito antigas para pontuar a genialidade do Olivetto. Uma das peças citadas foi o famoso comercial do "primeiro sutiã". Outro foi o do "rapaz do Bombril". 

A crise das revistas ilustradas eliminou ou reduziu significativamente um dos principais displays da mídia impressa: as vistosas páginas simples, duplas e quartas capas das publicações de grande circulação. A progressiva queda de audiência da TV aberta, também atinge a publicidade. Qualidade custa altas verbas que só a grande repercussão justifica  O maior volume de veiculação de publicidade está atualmente com big techs como You Tube, X, Instagram, Facebook ou influencers com números expressivos de seguidores. 

A internet exige nova linguagem, é um desafio que, aparentemente, a publicidade não está conseguindo responder com criatividade. Faça um teste e procure apontar uma anúncio antológico visto exclusivamente na internet. Difícil, não é? 

Além da crise dos veículos impressos, mudanças de comportamento também limitam a publicidade. O anúncio acima, publicado nos anos 1980, criação da agência Aroldo Araújo, era provocativo, impossível passar despercebido, mas inconcebível no dias de hoje quando clientes relutam em associar seus produtos à senualidade, temendo "cancelamento" nas redes sociais. Mas essa é outra questão que podemos abordar em um futuro post.   

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Antonio Ribeiro (1961-2024) - O fotógrafo que fez celebridades da Globo esperarem horas para posar com um galo e transformou Cony no "Diógenes do Castelo de Caras"


Rosamaria Murtinho, Mauro Mendonça, o chef Wagner Moret e Le Coq.
 Reprodução de página dupla da Revista Caras do ano 2000. Foto de Antonio Ribeiro


O casal de atores no Castelo de Caras. Reprodução da Caras.
Foto Antonio Ribeiro


O chef dormindo: detalhe bem-humorado. Reprodução de Caras.
Foto Antonio Ribeiro

por José Esmeraldo Gonçalves

Um diagramador da Manchete, o saudoso J.A.Barros gostava de ler sobre a mitologia grega e romana. Quando recebia a notícia da morte de um colega, geralmente recorria a um dos personagens da antiguidade e passava o recado para redação. "Gente, acabo de saber que a barca de Caronte levou fulano".

- A barca de Niterói? - perguntou, certa vez, um distraído.

Caronte, a divindade que conduzia as almas dos mortos, veio buscar o próprio Barros, no ano passado. Por isso, não ele pôde passar para a comunidade dos ex-Manchete a notícia da partida do fotojornalista Antonio Ribeiro, aos 63 anos, no dia 13 de outubro. 

Só agora registro aqui algumas rápidas lembranças do Ribeiro. Eu o conheci na redação do Russell nos anos 1980. Foi um grande fotógrafo, era perfeccionista, não se contentava apenas com o que a câmera enquadrava, invariavelmente buscava destacar um detalhe original que, no fim, fazia toda a diferença. Na Manchete e na Fatos & Fotos, não tive a oportunidade de trabalhar diretamente com o Ribeiro,  mas admirava suas fotos na mesa de luz das revistas.

Só em 2000, quando eu já estava na Revista Caras fiz uma matéria com Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, fotografados por ele, no Castelo de Caras. O tema era gastronomia e Ribeiro teve a ideia de inserir em quase todas as fotos, uma imagem incidental do chef Wagner Moret, o brasileiro responsável pela cozinha do castelo, em Brissac, no Vale do Loire. Funcionou como um toque de humor fino, mas uma das fotos, a que mostrava o casal à mesa levou horas para se realizar. Ribeiro insistia em colocar na imagem um galo como referência a Le Coq, uma das mais famosas representações da identidade francesa. O problema foi que o gallus  (dos gauleses) era altivo, pescoço levantado, pose de guerreiro. Já o galo do castelo parecia meio blasée e se recusava a empinar a postura. Para complicar, o galo não se sentia à vontade com a presença do chef deitado ao seu lado. Enquanto isso, pacientemente, Rosamaria e Mauro ficaram à disposição do Coq durante uma tarde inteira. O casal voltaria para o Brasil no dia seguinte e eu ainda não havia feito a entrevista, o que só aconteceu, quase às pressas, no dia seguinte.  Enfim, deu-se um jeito. 

Em outra temporada no Castelo de Caras, Carlos Heitor Cony era um dos ilustres convidados. Em princípio relutou - de fato badalar não era bem seu estilo - mas acabou aceitando, talvez porque tanto Sergio Zalis, diretor, quanto eu, editor da redação da Caras, no Rio, havíamos trabalhado com ele. Antonio Ribeiro foi escalado para fotografar Cony no castelo. Fotos maravilhosas. Infelizmente, quando a matéria estava editada, Cony ligou para mim e pediu que a revista evitasse publicar uma das fotos boladas pelo Ribeiro. Era a melhor imagem da série. Ribeiro havia convencido Cony a posar nos jardins do castelo, com o sol quase posto, luminosidade baixa, segurando uma antiga lanterna de bronze, a óleo, mas nós não conseguimos que ele aprovasse a foto.   

Você já deve ter detectado a intenção do Ribeiro. Isso mesmo, Cony fazia a figuração do filósofo grego Diógenes, aquele que caminhava pelas ruas de Atenas, noitinha, erguendo uma laterna à procura de um "homem honesto".

Por algum motivo Cony não gostou da comparação. Avisei aos escalões superiores da Caras. A foto foi retirada da página. Ribeiro não gostou, mas Diógenes (413 aC -323 aC) e Cony não foram alcançados pela reclamação dele, eu fui o alvo. De resto, meus argumentos jamais o convenceram. Acontece que o Castelo de Caras era uma produção com características especiais e incomuns. A revista era a anfitriã das celebridades e por elas prestigiada naquele projeto editorial. Não se tratava de uma reportagem investigativa. E uma anfitriã não deprecia seus convidados. Não tive mais contato com o Ribeiro e jamais pude lhe dizer que a foto do Cony/Diógenes era excepcional. Não sei o arquivo da Caras ainda a guarda, mesmo não tendo sido usada. Acho que Cony era mesmo o Diógenes do jornalismo. Ribeiro captou isso.               

sábado, 19 de outubro de 2024

Na capa da Carta Capital: como nasce uma noite tropical dos "Longos Punhais"

 

Comentário do blog- A serpente da direita tem muitos ovos. Além desse focalizado pela Carta Capital, as impressões digitais da extrema direita estão na privatização da saúde - caso do laboratório que falsificou laudos de órgãos para transplante e contaminou pacientes com vírus do HIV -, estão na arrogância da ENEL, nas queimadas criminosas que devastam ecossistemas na Amazônia e no Pantanal, nos escândalos impunes da raspadinha, nas campanhas contra vacinas, nas fake news eleitoreiras, nas bets, nas emendas Pix, nas religiões que se apropriam de verbas públicas do Estado oficialmente laico e malandramente "confessional", no pior Congresso que o Brasil já elegeu, nos colégios públicos militarizados e evangelizados, e em certos colunistas que atuam na mídia neoliberal e em sites bancados por empresários engajados na busca de um "Pinochet" pra chamar de seu.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A eterna enganação

"Ibama multa servidor do BC em R$ 10 milhões por pesca de tubarão-azul" .

Desculpe, Metrópoles, isso não é notícia. Nem essa nem nenhuma outra informação sobre multas de pessoas físicas, de concessionárias, de empresas do agronegócio etc. Jornalismo de fato seria noticiar a multa efetivamente paga. Aliás uma boa pauta para vocês: levantar o total ou o percentual multas que são pagas na boca do caixa. 

Eu tenho um palpite: nenhuma ou apenas 0000000,1 de algumas.

Surto moralista em Camboriú. "Ninguém vai exibir os mamilos da mulher balneocamboriuense".

Reprodução de imagem que viralizou nas redes sociais: a ciclista de "farol aceso". 

por José Esmeraldo Gonçalves

Há poucos dias uma mulher foi expulsa de uma escola de ciclismo em Santa Catarina porque cometeu um falha grave, na avaliação dos seus treinadores. Tuani Basotti ousou pedalar usando um agasalho sem sutiã. Para a organização que pedalou o conservadorismo, ela errou ao exibir sob a blusa o relevo dos mamilos, o popular "farol aceso”. O caso viralizou na internet e Tuani agora se sente perseguida e vigiada cada vez que sai à rua. O Balneário Camboriú, onde o caso ocorreu, é uma província esquisita. Fica em Santa Catarina, estado que, de uns tempos pra cá, assumiu o título de grande reduto da extrema direita do país, uma espécie de Saxônia brasileira. Nas recentes eleições municipais, os votantes locais conduziram à Câmara dos Vereadores ninguém menos do que Jair Renan, filho 04 do elemento ex-presidente. 

Há quem suspeite que Camboriú e sua coleção de altos edifícios à moda de Dubaí configurem uma skyline em homenagem à lavagem de dinheiro, mas esse não é o assunto dessa nota. A cidade, sem dúvida, namora a extrema direita e Santa Catarina, segundo o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) denunciou à ONU, abriga mesmo um grande número de células neonazistas. 

Sabe-se agora que um dos códigos de vestimenta do balneário coloca "faróis acesos" na lista negra que mistura o índex moral com um tipo de fashion evangelismo. 

Nos anos 1960, a vilã da vez foi a minissaia. Vendo fotos da Manchete, onde cariocas exibiam saias bem acima dos joelhos, um deputado mineiro, católico, protestou contra o pouco pano e, segundo ele, a pouca vergonha das moças, e liderou uma cruzada contra a depravação do figurino. "Ninguém levanta a saia da mulher mineira", teria dito, segundo o jornalista Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, registrou em seu livro sobre o Festival de Besteiras que assolava o Brasil (Febeapá) no rastro da ditadura mlitar que se dizia "com deus pela democracia". 


A reação à minissaia aconteceu em vários países. No Meio Oeste dos Estados Unidos, pastores alertavam  que aquele palmo acima dos joelhos era um instrumento comunista para dissolução das famílias. Certamente diziam isso depois de dar uma boa conferida nas pernas das meninas. Mesmo na França, acostumada a liderar a revolução dos costumes, a minissaia chegou a ser inicialmente combatida. No caso, talvez por inveja, como a Manchete publicou, já que a criação de Mary Quant nasceu na rival Inglaterra.  

Não estranhe o título desse post. Em 2000, uma lei municipal ordinária, e bota ordinária nisso, determinou que o "adjetivo pátrio" de quem nasce no Balneário Camboriú, é balneocamboriuense.

Isso também é Febeapá.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

A decadência da Copa do Mundo da FIFA

por José Esmeraldo Gonçalves 

Os jogadores brasileiros estão mansos e calados. Na Europa, entidades representativas começam a se mobilizar por meio de ações judiciais contra o novo e exaustivo formato do campeonato mundial de clubes. Cogitam até boicotar a coisa. A FIFA criou esse monstro por dois motivos principais: instinto caça níquel e uma tentativa desesperada para explorar o prestígio e a força de audiência dos clubes, especialmente aqueles da elite da Champions. 

Entenda-se: a Copa do Mundo está entrando em espiral de decadência. O aumento de vagas para seleções habilitadas à fase final resultou em baixo nível técnico da maioria dos jogos. Para a Copa do Mundo de 2026, quando as seleções vão perambular por México, Estados Unidos e Canadá, a previsão é que o número de peladas seja insuportável. Quem não quiser sofrer de tédio deve ligar o receptor, seja televisor, tablet, smartphone ou o que mais inventarem só a partir das quartas de final. 

A pedra na chuteira da FIFA é a Champions, da UEFA, atualmente o mais importante torneio de futebol do planeta. Daí a decisão de engordar o mundial de clubes. Os jogadores europeus protestam contra a novidade que ocupará datas durante férias. A UEFA, por sua vez, deu um troco na FIFA criando mais um torneio de seleções que ocupa as chamadas datas FIFA, a Liga das Nações, além das Eliminatórias. Sem falar na Copa da UEFA, sucesso futebolístico do continente. Tudo isso e mais os campeonatos regionais importam em sobrecarga para os atletas. Claro que são altamente remunerados, mas tudo tem um limite. Essa é a razão da mobilização atual dos craques europeus.

A FIFA ainda tem muito poder, mas a crise está à vista.

Façamos um pequeno exercício. Segue abaixo um ranking dos cinco campeonatos mais relevantes do futebol da atualidade no quesito nível técnico.

1- Champions (UEFA)

2- Premier League (Inglaterra)

3 - La Ligue (Espanha)

4 - Copa da UEFA (seleções)

5 -Brasileirão (CBF).

Na minha opinião, os campeonatos francês e italiano não entram na lista. Estados Unidos e Arábia Saudita são, para dizer o mínimo, exóticos. A Libertadores (Comenbol) bem que poderia entrar em um sexto lugar. Pelo critério técnico,  Copa do Mundo não entra nem entre os dez melhores. As Eliminatórias da Copa estariam fora de qualquer lista. 

Faça seu ranking.

O apagão neoliberal

 

Reproduzido do X

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

A Guerra Fria, quem diria, deixou saudades. A bomba nuclear agora está nas mãos de líderes porras-loucas

Este é o relógio simbólico do fim do mundo. Imagem reproduzida
do Bulletin of the Atomic Scientists
 

por José Esmeraldo Gonçalves

Desde que Estados Unidos e União Soviética desenvolveram e multiplicaram seus arsenais nucleares o mundo passou a viver dias de suspense. A crise dos mísseis instalados em Cuba foi um momento tenso; a guerra no Vietnã, outro. Em várias ocasiões, os ponteiros do relógio do fim do mundo, que classifica os risco de uma guerra nuclear, chegaram perto do apocalipse. Esforços diplomáticos, comunicação através dos telefones vermelhos instalados na Casa Branca e no Kremlin, além, é claro, do medo da mútua retaliação inevitável foram capazes de conter os "falcões" de ambos os lados. 

"Falcões", como se sabe, são conselheiros "porras-loucas" que querem sempre botar pra quebrar. 

O clássico de Stanley  Kubrick, "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" ("Dr. Fantástico", no Brasil) satirizou em 1964  a paranóia da guerra nuclear.  No filme, um general americano enlouquece, burla os protocolos de segurança e despacha um bombardeiro com a missão de destruir a URSS. Os líderes dos dois países se unem na tentativa de fazer voltar o avião, mas é  tarde. 

Quando a Guerra Fria acabou, o relógio chegou a marcar confortáveis 17 minutos para o Juízo Final. O alívio durou pouco e de lá pra cá o poder nuclear de certa forma se banalizou e o ponteiro avançou. No momento, Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coréia do Norte têm o poder de deflagrar  o que pode ser a última guerra no planeta. Suspeita-se que a Bielorússia disponha de ogivas cedidas pela Rússia e, agora, o Irã pode ter entrado no terrível clube. Cientistas desconfiam que abalos sísmicos no deserto da antiga Pérsia teriam características semelhantes a um teste de bomba nuclear. Por enquanto, sem confirmação. 

Desde o ano passado, os "relojoeiros" do comitê científico nuclear fixaram o ponteiro em 90 segundos fatais para a meia-noite. As guerras na Ucrânia, na Palestina, no Líbano, na Síria, as ações militares dos  dos houtis e a série de testes na Coreia no Norte ainda não mexeram com o ponteiro em 2024,  o que certamente acontecerá caso se confirme a suposta explosão iraniana. 

Aí complica. Um eventual confronto direto entre o Irã e Israel tem o poder de colocar na mesa de extrema direita de Benjamim Netanyahu e sob as túnicas imprevisíveis dos aiatolás um componente que não pesava na Guerra Fria: a religião. Um dado que tira de qualquer embate um mínimo de recionalidade. 

A Guerra Fria escapou dessa soma de fanatismo com sadismo. Só por isso, antes de disparar os mísseis,  sempre uma voz de "calma aí" ouvida no Kremlin ou na Casa Branca conseguiu evitar o pior. 

Nas atuais circunstâncias, esqueçam: no núcleo duro dos poderes citados - Netanyahu e Khamenei, sem esquecer um Kim Jong-un correndo por fora, um Putin e, a partir de janeiro, um Trump ou ou uma Kamala - não há turma do deixa disso. 

Em caso de guerra nuclear não vai ter para onde correr, mas se você quiser acompanhar o relógio simbólico acesse o Bulletin of the Atomic Scientists no link https://thebulletin.org/ , que agora também marca ameaças como as mudanças climáticas e os efeitos danosos de tecnologias disruptivas. 

Boa sorte para todos.  

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ao recorrer à Justiça e mandar a 777 para escanteio, o presidente Pedrinho salvou o Vasco de uma furada provocada pela possível falência da 777


A 777 Partner, que controlava a SAF do Vasco, está à beira da falência, segundo jornal norueguês citado no Globo de hoje. O desastre da 777, tão exaltada por jornalistas brasileiros que se dizem especialistas em mercado esportivo, só não é um problemão maior para o Vasco porque o atual presidente, o ex-jogador Pedrinho, recorreu à justiça a tempo de afastar a empresa estadunidense do comando do futebol vascaíno. Analistas exageradamente empolgados com a SAF criticaram a inicitiva de Pedrinho que se revelou oportuna. Sediada em Miami, a 777, proprietária de outros clubes na Inglaterra e na Bélgica, está envolvida em irregularidades financeiras. Um dos tais analistas do mercado da bola avaliou que ao juducializar a questão o Vasgo traria "insegurança" para investidores estrangeiros supostamente interessados em adquirir SAFs brasileirias. Como diria o folclórico Mário Viana, errrrou, errrou!  

domingo, 6 de outubro de 2024

Liberdade de imprensa está em jogo na disputa eleitoral para a Prefeitura de Curitiba

O Portal dos Jornalistas denuncia a censura a reportagens do Jornal Plural. A Justiça do Paraná determinou a retirada de matérias do Plural que informavam sobre coação a funcionários da Prefeitura de Curitiba "que receberam ordens de adquirir ingressos para um jantar do PSD". A censura através de liminar foi dada a pedido da coligação de Eduardo Pimentel, vice-prefeito e candidato à prefeitura de Curitiba pelo PSD. Segundo o juiz Marcelo Mazzali, os posts faziam “propaganda negativa” e poderiam criar “estados mentais artificias” contra o vice-prefeito. O jornal Plural declarou que vai recorrer da decisão e o caso deve ser julgado pela Justiça Eleitoral. "Entidades defensoras da liberdade de imprensa repudiaram a decisão judicial. Em nota conjunta, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor) e o Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná (Sindijor Norte) pediram para que a decisão “seja revista à luz do interesse público, uma vez que a liberdade de imprensa se trata de um importante pilar das sociedades democráticas. Sem acesso a informações produzidas com ética e responsabilidade de forma livre, resta prejudicada a capacidade das eleitoras e eleitores conseguirem formular senso crítico e opinião sobre os postulantes a cargos políticos”, relata o Portal dos Jornalistas.

sábado, 5 de outubro de 2024

Cid Moreira (*). Paz e harmonia na última morada

 

Imagem reproduzida da Revista Contigo!



Foto Tabach
por José Esmeraldo Gonçalves
 

(matéria publicada na Revista Contigo! em 2015)

A nova casa de Cid Moreira é um estado de espírito. Aos 87 anos, 70 de carreira e 14 de casamento com a jornalista Fátima Sampaio, o apresentador encontra na Serra Fluminense o ambiente perfeito para seu momento atual: viver em paz e levar a Bíblia ao maior número de pessoas.

 A iluminação à base de spots, refletores e rebatedores se destaca na sala principal da nova casa de Cid Moreira e de Fátima Sampaio, 51. Mas são precisamente detalhes como esses que traduzem a linha e a essência dos ambientes. Parecem estar ali para dizer que a casa tem dono, alma e nada de impessoal. E não por acaso. Decidido a montar o refúgio perfeito, o próprio casal cuidou da decoração. “Eu só dei alguns palpites”, corrige Cid. “Fátima é a autora de 95% de tudo o que está aqui. E não terminou. A cada dia, aparece uma coisa nova, uma planta diferente no jardim. Ela se distrai aí, bolou tudo”, brinca. A jornalista, que se divide entre a logística da casa e administração da carreira e da agenda de compromissos do apresentador, concorda, mas explica que tentou imprimir em cada canto o jeito e o gosto do marido. “Pensei nesses spots como uma referência carinhosa à trajetória dele, tão brilhante. Ao mesmo tempo, podem ser usados em gravações de vídeos para a Internet, quando ele quiser. O uso de muito vidro, principalmente na parte que dá para o lago, foi decidido também depois de um comentário dele sobre a beleza da natureza na serra. Segundo ele, ‘é um quadro vivo’, diz Fátima. De fato, a partir da sala principal, da mesa onde o casal faz as refeições e até da cozinha, a vista é panorâmica. Cid pontua: “Foi o William Bonner quem me indicou esse local, sabia? É muito tranquilo”. Mesmo conhecendo as preferências do marido – além da convivência, ela é autora da biografia do apresentador, “Boa Noite”, lançada em 2010, Fátima buscou a opinião dele sobre muitos aspectos da decoração.“A gente discutiu junto o que fazer. O piso, as imitações de madeira, o balcão da cozinha. Aproveitamos as viagens e reunimos móveis e objetos de várias regiões do Brasil. É muito legal ele confiar no meu gosto. A gente brinca de casinha enquanto Deus quiser, não é?”, diz ela, que equipou a casa com sistema de captação de água da chuva e instalará, ainda no próximo verão, quando poderá definir a posição dos painéis, um projeto de energia solar. “Temos uma horta, pegamos rúcula, couve e alface no quintal”, lembra-se de acrescentar. Um ambiente assim justifica um comentário do Cid, que admite ser difícil deixar, quando precisa, a rotina da casa. “Fátima é um presente que Deus me deu, a minha parceira que me completou. E, hoje, o que quero é só isso, viver em paz, fazer meu trabalho”. Fátima, que o acompanha em todas a viagens e tenta dosá-las para que ele não se afaste muito da tranquilidade da serra, confirma: “A gente está sempre juntinho. Às vezes, ele está trabalhando no estúdio e eu estou lendo na sala, aí ele aparece, quer saber se está tudo bem, traz um café. Gosto muito dele. Tudo passa tão depressa, a diferença de idade, ninguém sabe o prazo de validade de cada um aqui. Acho que por causa da diferença de idade, a sensação é de aproveitar todo o tempo para amar, deixar as bobagens de lado. Essa é uma sensação bem real pra mim”.

O casal se conheceu em 2000, durante um torneio de tênis que ela cobria, como jornalista, em Fortaleza. “E estamos juntos há 14 anos. Rápido, não e? O que aproximou a gente? Foi a simplicidade, apesar de ser muito conhecido, Cid é muito simples, não tem frescura. Temos a profissão em comum, Ele é um craque, eu sou uma operária comparada com ele, tive uma vida muito mais simples, trabalhei em lugares mais simples, sou básica, não tenho genialidade. E tenho admiração por ele e pelo o trabalho dele, que é muito bonito”, diz Fátima, que define o marido como um romântico à moda antiga. “Ele gosta de surpreender. Às vezes, em viagens, convida ‘vamos lá pra piscina, a gente coloca umas velas, toma um vinho. Ele tem muita disposição”, ri. Desde que deixou o Jornal Nacional, em 1996, e passou a fazer participações semanais no Fantástico (atualmente, de contrato renovado até  2017, ele vai à Globo quando é convocado para alguma tarefa especial), Cid Moreira se dedica intensamente à gravação de textos bíblicos. Nesse período, lançou Cds e Dvds e cumpriu a tarefa quase monumental de gravar toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, em uma produção que ultrapassou a simples leitura e incorporou personagens, dramaturgia e efeitos especiais. Para ele, a atividade espiritual ultrapassou a tarefa funcional. Não é apenas mais um trabalho. É profissão de fé. O apresentador não se considera ligado a igrejas específicas ou denominações religiosas, mas tem a divulgação e popularização da Bíblia como uma missão. “É um compromisso entre mim e Deus. Ele e eu. A cada dia me envolvo mais, leio diariamente, viajo, faço palestras, participo de eventos. Recentemente, subi em um trio elétrico em Salvador e falei para mais de 40 mil pessoas”, diz ele, que está com vários projetos em andamento. Um deles, gravar os chamados livros apócrifos católicos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Baruque, Sabedoria e Eclesiástico). Outro, o desenvolvimento de um site onde os internautas poderão receber mensagens personalizadas com o timbre da voz do “boa noite” mais famosos da história da televisão. Um caixinha semelhante às de música, na qual se pode ouvir Cid ler um salmo, é um dos trabalhos que ele faz, atualmente, no computador e no estúdio que montou na nova casa. Uma nova fase, tão intensa quanto as outras, em uma carreira de 70 anos, desde o primeiro emprego, em 1947, como locutor da Rádio Difusora de Taubaté, onde nasceu. De lá para cá, passou por todas as mídias, da mais analógica à mais digital. Rádio, cinema (como narrador de cinejornais, com o  famoso Canal 100), narração de comerciais, dublagens, a estréia como locutor de noticiários no Jornal de Vanguarda, na TV Rio, em 1963, até chegar à Globo e, em 1969 à bancada do Jornal Nacional, onde permaneceu até 1996, quando passou a narrar reportagens especiais do Fantástico. Há poucas semanas, Cid, em plena era multimídia, foi a voz do Natalis, um megaespectáculo de água e luz que conta o nascimento de Jesus, como parte da programação do Natal de Gramado, na serra gaúcha.

Quando não está viajando, Cid acorda cedo e, logo depois de um café da manhã à base de frutas, dirige-se à miniacademia instalada ao lado da piscina. Faz pilates, caminha na esteira ergométrica e, às vezes, joga tênis. O hábito, de longos anos, explica a energia que tem de reserva para atender aos compromissos em todo o Brasil. Confessa que já foi mais “fanático" nos treinos, hoje pega mais leve, depois de um problema no ilíaco. “Eu exagerava na velocidade da esteira”, admite. Na miniacademia, destaca-se, ao fundo, um cartaz com a palavra “relax”, um sutil recado, apesar de calma e tranquilidade fazerem parte do seu temperamento. Uma característica que o leva a atender os fãs, durante as viagens, com a maior paciência. E olha que, no caso do Cid Moreira, não basta apenas a foto selfie. Querem áudio. É de lei pedirem ao homem do ‘boa noite” que grave recados nas secretárias eletrônicas dos celulares.

(*) - O apresentador Cid Moreira morreu na manhã de quinta-feira (3/10/2024) aos 97 anos, no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O ex e histórico âncora do Jornal Nacional sofreu falência múltipla de órgãos após quadro de pneumonia.

Cid Moreira (1927-2024) - O dia em que o diretor do Jornal Nacional nos expulsou do estúdio da Globo

 por José Esmeraldo Gonçalves

Nos anos 1970, a Fatos & Fotos nos escalou para uma matéria sobre os bastidores do Jornal Nacional então apresentado por Cid Moreira e Sérgio Chapelin. Eu e Gi Pinheiro cumprimos a missão, mas aconteceu um incidente que conto a seguir. Esse texto foi publicado no Panis e também no livro "Aconteceu na Manchete as histórias que ninguém contou".   

Em entrevista a Amaury Jr., Cid Moreira revelou que até hoje tem pesadelos com falhas técnicas do Jornal Nacional.


Pois a Fatos & Fotos foi responsável por uma dessas falhas.

Nos distantes anos 70, uma dupla da revista foi ao estúdio do JN na sede da TV Globo, no Jardim Botânico, para fazer uma matéria com Cid e Sérgio Chapelin.

A entrevista já havia sido feita, mas o editor queria fotos dos dois apresentadores na bancada. Uma das fotos, em ângulo lateral, deveria mostrar ambos de corpo inteiro: uma brincadeira para desmentir que Cid e Chapelin apresentavam o JN de bermudas. Naquele noite, pelo menos, usavam paletó, gravata e jeans.

Os tempos eram outros, o prestígio da Bloch pesava e fotógrafo e repórter foram admitidos no estúdio poucos antes do JN entrar no ar. Hoje tal concessão é inimaginável.

Uns dois minutos antes, o diretor pede silêncio absoluto e ainda alerta pelo sistema de som que as fotos só poderão ser feitas nos intervalos. Óbvio, o som do disparador e do motor da câmera vazariam na transmissão ao vivo.

Infelizmente, a audição do fotógrafo - um grande e querido fotógrafo, por sinal - que se posicionou no lado oposto ao do repórter, não captou o aviso. Não deu outra. Logo no primeiro bloco, ele acionou a câmera. O clique e o zummmmm do motor, com um agudo no final, foram ouvidos no estúdio e, claro, em rede nacional. Mais de uma vez.

Não havia muito a fazer, não dava para interromper. Olhares furiosos miraram a dupla da Manchete.

No primeiro intervalo, a bronca do diretor explodiu no sistema de som e fotógrafo e repórter foram não muito gentilmente convidados a se retirarem do recinto.

Deve ter sido o pesadelo, ao vivo, do âncora Cid Moreira.