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terça-feira, 3 de março de 2026

Quando a Inteligência Artificial não existia os fotógrafos usavam a Malandragem Natural





Sem a imagem do Khamenei, largada no chão, acima, à direita, a foto do Libération registraria apenas um monte de lixo. Simbolicamente, o que Khamenei virou. O fotógrafo francês apelou para a Malandragem Natural e "produziu" a imagem final.
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por José Esmeraldo Gonçalves 

O mundo nem sonhava com o uso da IA na fotografia e os fotógrafos já davam um jeito de manipular certas fotos e situações. Era o tempo da artesanal MN (Malandragem Natural). O retratista era escalado para fotografar um trágico desastre em estrada. Ao chegar na cena deparava-se apenas com um ônibus capotado. Banal. Rapidamente ele revirava a bagagem e encontrava um pé de sapato ou uma boneca. Era o toque de emoção que faltava. A boneca ou o calçado em primeiro plano, o ônibus ao fundo. Dava-se o drama aduzido. 

Se uma casa desabava e deixava vítimas sob a laje, o primeiro plano ia para uma xícara de café. O último café da pobre vítima. A Fatos $ Fotos guardava algumas memórias da MN. 

A foto reproduzida do livro "A outra face das fotos",  de Aguinaldo Ramos, Um exemplo da antiga "tecnologia" MN, antecessora da IA. 

Estou livre para recontar um desses "causos", que o próprio fotógrafo, Aguinaldo Ramos, revelou no livro "A outra face das fotos". Um dia, ele saiu às ruas com a missão de fotografar um "presunto". O que nem seria tão difícil no Rio de Janeiro. Para sua surpresa, rodou bairros mais visados e não encontrou nem um simples mortinho. O dia acabando, a luz se mandando,  Guina não poderia voltar para a redação sem a foto de abertura de uma matéria especial sobre violência urbana. A solução? Produzir a imagem para o fechamento.  Foi para a Quinta da Boa Vista, cenário garantido, e nao demorou a escalar os personagens. Foto na mente, chamou uns garotos que passavam de bicicleta e pediu ao motorista da equipe que se deitasse no chão. Posicionou os figurantes e a roda da bicicleta, os meninos ao fundo como "espectadores'. O "morto" aparecia entre os raios da bike. Perfeito. Boa composição, sem apelação grosseira, sem sangue, afinal a Fatos&Fotos não era "Notícias Populares". Missão cumprida. Só décadas depois, o fotógrafo revelou seu truque.

Lembrei disso ao ver a foto publicada hoje no Libération, o famoso Libé, de Paris, fundado por Jean Paul Sartre. Tenho certeza que no meio dos destroços não havia originalmente a imagem do aiatolá Khamenei. O fotógrafo (aposto que seja da geração pré-tecnologia digital) apelou para a infalível MN que ainda resiste e hoje atende pelo nome de IA.