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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O que Calígula, o Epstein do império romano, tem a ver com os canais de streaming e o modo de ver filmes?




por José Esmeraldo Gonçalves

Kristen Stewart comprou a Highland Theatre. A sala centenária, de 1925, em Los Angeles, corria o risco de ser demolida. A atriz pretende restaurar o local e torná-lo um símbolo de resistência cultural, privilegiando a experiência de exibição de filmes em telas grandes. Não se trata apenas de conservar um prédio. Esse tipo de iniciativa preserva o modo de ver filmes. 

É inevitável o avanço do streaming, não dá para pausar a história, mas é possível respeitá-la. No Brasil há esforços para preservar cinemas de rua, especialmente no Rio, São Paulo, Recife e outras grandes cidades. Apesar disso, muitas salas tradicionais viraram igrejas, supermercados e mega lojas. Nas pequenas localidades, foram praticamente extintas. Salvam-se aquelas instaladas em shopping centers. 

As plataformas de streaming censuram filmes ?

O modo streaming impõe uma grave característica. A censura privada a determinadas cenas de violência, sexo, ideologia etc que as empresas do ramo considerem "impróprias". É aí apelam para as tais tarjas irritantes e cenas desfocadas a interferirem nos filmes, sem falar no chatíssimo "pii, pii, pii" sonoro para encobrir palavrões. 

Os canais de streaming são donos do acervo de grandes produtoras de Hollywood, o que não quer dizer que disponibilizem todos os clássicos de várias épocas ou filmes que foram polêmicos em certos momentos e que representam marcos na história do cinema. Deveriam ser, como nome diz, plataformas de transmissão, mas sem manipular conteúdos por implicações morais ou vá lá o que seja. 

Claro que há canais independentes que dão acesso a cópias piratas muitas vezes sem a íntegra dos filmes ou a qualidade técnica da reprodução.

Em 1976, há 50 anos, o produtor Bob Guccione, criador da revista Penthouse, começou a filmar a história de Caio Augusto César Germânico, mais conhecido como Calígula. O sujeito foi um imperador romano pansexual. Para a geração Z entender: ele era o Jeffrey Epstein de Roma. 

As filmagens foram tumultuadas e interrompidas várias vezes e "Calígula" só chegou aos cinemas em 1980. A vida real de Calígula era uma tarja só. Claro que o filme provocou uma polêmica mundial. Provavelmente sob o pretexto de escrever critícas para L'Osservatore Romano um cardeal teria sido visto no escurinho do Dei Piccoli, da Villa Borghese, um cinema pequeno e discreto que exibiu o filme em sessão especial para autoridades, longe da curiosidade dos paparazzi. 

Lembrando que em 2013,  o Festival de Cannes exibiu a versão restaurada "Calígula: o corte final" , incluindo parte de 96 horas de cenas não aproveitadas no original e encontradas anos depois, mas com cortes de cenas "excessivamente explícitas". A nova versão não causou muita repercussão ao chegar ao circuito brasileiro. Para as novas gerações, o sexo grupal da vida real tripulado por Jeffrey Epstein com participação de Donald Trump, o ex-príncipe Andrew, Bill Clinton e outros poderosos deve fazer Calígula parecer tímido. E olha que as fotos e vídeos do Caso Epstein ainda nem vieram inteiramente a público. 

A propósito, em 1980, "Calígula" mereceu da antiga revista Manchete uma reportagem de cinco páginas assinada pelo jornalista e crítico conceituado Wilson Cunha. Aqui, o filme teve cenas cortadas e enfrentou resistências nas distribuidoras. Nos anos 1990, foi vetado para exibição na TV. Atualmente, "Calígula: o corte final"   pode ser visto na plataforma de streaming Prime. Para saber mais sobre o filme do "Epstein" romano leia abaixo a reportagem de Wilson Cunha. 










1980- Páginas reproduzidas da antiga revista Manchete.

                                                    Clique nas imagens para ampliá-las.

Ou, para melhor leitura você pode acessar a seção de periódicos digitalizados da Biblioteca Nacional (Edição 1446 da antiga Revista Manchete)  




quarta-feira, 16 de abril de 2025

O fotojornalista Guina Ramos recorda o dia em que fotografou Mario Vargas llosa para a antiga Manchete. O repórter Ib Teixeira entrevistou o escritor peruano que faleceu aos 89 anos

 

Mario Vargas Llosa
Não é toda hora que um fotojornalista mediano que nem eu tem oportunidade de fotografar um Prêmio Nobel de Literatura.

Mario Vargas Llosa - Foto Guina A. Ramos, 1979
Ao que me lembre, só me aconteceu uma vez (até vou revisar meus arquivos...), mas, evidentemente sem que eu nem nem o próprio soubéssemos que lhe caberia, uns 30 anos depois, este galardão da literatura mundial...

Só sei que (do pouco que me lembro) fui, um dia, em 1979, ao Hotel Glória, então um hotel realmente glorioso, a um evento sócio literário de que já não tenho a menor ideia, com a tarefa precípua de fotografar o escritor Mario Vargas Llosa, falecido neste 13/04/2025, aos 89 anos, em Lima, no seu país natal, o Peru. 

 

Esta foto felizmente me foi salva pela Biblioteca Nacional, que na Hemeroteca Digital Brasileira, nos fez, aos jornalistas da época e à memória brasileira, o grande favor de digitalizar todas as edições da revista Manchete. 

Este material nem sequer estava entre meus recortes de revistas e jornais, que ainda entopem algumas caixas e gavetas por aqui.


A entrevista, de Ib Teixeira, repórter especial da Manchete, acho que foi feita em sala à parte no hotel, e creio que continua merecedora de atenção, espero que a foto também.

Falaram de literatura, mas já havia na conversa sinais dos rumos políticos que o escritor tomava, questão importante na sua biografia, mas que não é nosso tema aqui.


Tenho, ao menos, uma ponta de filme (negativos) das fotos daquele dia. Fotos bem ruinzinhas, com as violentas sombras do flash direto, que fiz no saguão do auditório, à saída do evento, quando Vargas Llosa era envolvido em uma conversa por Vilma Guimarães Rosa Reeves, filha do celebrado escritor João Guimarães Rosa, ela também escritora e concorrente constante, mas não vitoriosa, a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Afinal, pelo que tiro da amostra publicada na revista, o melhor das fotos ficou mesmo para os arquivos da Manchete, que sabe-se lá onde estará...

* Matéria originalmente postada por Guina Ramos no blog Bonecos da História

sábado, 29 de março de 2025

Paulo Leminski Neto: o filho do homenageado da Flip 2025 é morador de rua no Rio • Por Roberto Muggiati


O cantor Paulo Leminski Neto vive um drama nas ruas da Lapa
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Na foto, o pai, poeta Paulo Leminski (1944-1989)

Identidade e semelhança comprovadas


Numa batida recente da PM na Praça São Salvador, um jornalista teve a atenção chamada para a identidade de um morador de rua: Paulo Leminski Neto. Era o filho do poeta curitibano Paulo Leminski Filho, que, nos anos 1980, agitou os meios culturais com seus talentos múltiplos como poeta, tradutor e ensaista (dialogando com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari e Wally Salomão), letrista da MPB (gravado por Caetano, Moraes Moreira e Ney Matogrosso) e judoca respeitado nos tatames da vida. Ele será um dos principais homenageados da Feira Literária de Paraty (Flip) deste ano.

Paulo Leminski Neto, cantor e professor de música, ficou sem trabalho no final do ano passado, foi despejado do quarto onde morava na Lapa e se viu na rua com a mulher, a figurinista Claudia Tonelli, com quem vive há seis anos. Como se desgraça não bastasse, ela sofreu agressão e tentativa de estupro por um delinquente de 29 anos com 22 passagens na polícia, saindo da emergência hospitalar com stress pós-traumático. O incidente levou ambos a se tornarem pacientes por depressão num Centro de Atenção Psicossocial (CAPs). Disse ela: “Viver e dormir nas ruas é um misto de invisibilidade e visibilidade incômoda.” O casal, em estado extremo de vulnerabilidade, precisa levantar 120 reais diários para pagar o hotel na Lapa onde Cláudia se recupera. Contam com a ajuda de pessoas solidárias, mas sem garantia de continuidade e podem ir parar de novo nas calçadas a qualquer momento.

Paulo Leminski Neto só passou a existir com carteira de identidade em agosto de 2021, depois que ele soube, pela biografia de Toninho Vaz, "O bandido que sabia latim", que era filho do poeta e que Leminski o havia registrado e, de posse da certidão do cartório, obteve o documento, com a data de nascimento de 31 de janeiro de 1968. A primeira mulher de Leminski, o registrou sob outro nome, não tinha sequer a certeza de que o poeta fosse seu pai, pois o casal vivia numa época de relações abertas.

Como sempre, Manchete tem um dedo nessa história. Na ocasião, Paulo Leminski veio tentar a sorte no Rio e hospedou-se no lendário Solar da Fossa, em Botafogo, demolido depois para a construção do Shopping Rio Sul. No casarão de dois andares com 85 quartos moraram, entre 1964 e 1971, intelectuais e artistas como Caetano Veloso, Gal Costa Gilberto Gil, Glauber Rocha, Paulo Coelho, Tim Maia, o jornalista Ruy Castro e os atores Cláudio Marzo e Beth Faria, que se casaram no pátio da pensão. O nome veio da deprê do carnavalesco Fernando Pamplona, que lá se refugiou depois de se separar da mulher. Mas o Solar era tão solar que a fossa não demorou muito, só o nome restou. Leminski ficou pouco e passou em brancas nuvens, assim como nas duas semanas em que trabalhou na antiga revista Manchete, escondido no Departamento de Pesquisa. Seu Grande Salto seria nos anos 1980, em São Paulo.