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quinta-feira, 5 de março de 2026

Considerações em torno da Maçã • Por Roberto Muggiati

À moda Magritte *

Brincando de artes gráficas com meus filhos e colocando-me sub-repticiamente dentro da tela mais famosa do pintor René Magritte, Filho do Homem (1964), * embrenhei-me logo nas conotações culturais mais amplas da obra genial do surrealista belga. O próprio Magritte comentou sobre sua obra: “Pelo menos ela esconde o rosto parcialmente bem, assim que você tem a face aparente, a maçã, escondendo o visível mas oculto, o rosto da pessoa. É algo que acontece constantemente. Tudo que nós vemos esconde outra coisa, nós sempre queremos ver o que está escondido pelo que nós vemos. Há um interesse naquilo que está escondido e no que o visível não nos mostra. Esse interesse pode tomar a forma de um sentimento relativamente intenso, um tipo de conflito, pode-se dizer, entre o visível que está escondido e o visível que está presente".

Em 1968, Paul McCartney viu pela primeira vez a tela de Magritte e batizou de Apple Records o selo fonográfico fundado pelos Beatles. Além de servir como um selo dos discos dos Beatles , passou também a ser usado em cada álbum solo de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr desde 1970, quando os Beatles se separaram, até a separação legal em 1975. O selo também contou com outros artistas, como Badfinger, Yoko Ono, Billy Preston, Ravi Shankar e James Taylor.  Nos discos, a maçã verde inteira aparecia no Lado A, e a maçã cortada ao meio no Lado B. 

Já a inspiração para o nome e o logotipo da Apple de Steve Jobs veio da simplicidade e do amor às frutas, e à busca de Steve Jobs por uma imagem amigável, criativa e rebelde. O logo simboliza conhecimento (a maçã de Newton) e o desejo de tornar a tecnologia acessível, além de homenagear a banda favorita de Jobs, os Beatles. Mas a Apple Records moveu um longo processo judicial contra a Apple Inc. de Steve Jobs, que em 1978 resultou em acordos, com a empresa de tecnologia concordando em não atuar na indústria musical, violados pelos iTunes . A maçã mordida do logotipo seria uma alusão ao Pecado Original, que expulsou a raça humana do Jardim do Éden, mas, principalmente, uma homenagem ao matemático Alan Turing, o pai da computação moderna, vítima de perseguição homofóbica, que se suicidou mordendo uma maçã envenenada com cianeto. Com direito a um trocadilho fino: mordida, em inglês, é bite, que obviamente lembra byte. Alan Turing foi oficialmente perdoado pela Rainha Elizabeth II em 2013, 59 anos após sua morte, devido à condenação por homossexualidade em 1952.

Encerro  com um brinde à sabedoria popular brasileira expressada na marchinha de Carnaval famosa de Jorge Goulart:

História da Maçã - Jorge Veiga (Carnaval de 1954) - YouTube ( https://www.youtube.com/watch?v=x4iSIj0wdgQ )

*A foto original, um retrato meu em trajes magritteanos, foi feita por Natasha Muggiati na casa de vila da Real Grandeza onde morei 37 anos, até 2020. A aplicação da maçã de Magritte sobre meu rosto foi feita por Roberto Mendonça Muggiati, há poucos dias, em Edimburgo.

PS • Estou consultando cada vez mais minha amiga IA, que me confirmou o que eu

já desconfiava: A palavra "maçã" não consta no relato do Gênesis como o fruto proibido. A

Bíblia descreve-o apenas genericamente como o "fruto da árvore do conhecimento do bem e

do mal". A associação com a maçã é uma construção artística e cultural posterior, popularizada

por traduções latinas na Idade Média.