sábado, 6 de outubro de 2018

A eleição da fake news...


Capas falsas de Veja, Época e Exame circularam durante a semana nas redes sociais. Segundo as montagens, o diretor da OEA, Gerardo de Icaza, denunciava esquema de fraudes nas urnas eletrônicas para beneficiar Fernando Haddad. O próprio Icaza desmentiu no twitter a mentira eleitoral.

Fake news, usos de robôs, contas falsas, invasão de contas, ofensas, ameaças e difamação congestionaram as redes nas últimas semanas.

Há alguns meses, Luís Fux, então presidente do TSE, botou força na peruca disse ter montado uma força-tarefa para combater fake news em campanhas eleitorais. Anunciou parcerias com empresas de tecnologia e garantiu que a estratégia de notícias falsas como marketing político podia levar até à anulação de candidaturas.

Pelo jeito, a luta contra fake news era fake news.

Hoje, o Globo informa que o Ministério Público Eleitoral planeja acionar o WhatsApp "para que adote procedimentos que permitam direito de resposta a fake news propagadas pela plataforma".

Qualquer um que não more em Marte já sabia que o WhatsApp, com 120 milhões de usuários no Brasil, é o canal preferido para propagação de mentiras, mas as autoridades descobriram isso agora.

A campanha pode até acabar amanhã e o MPE ainda "planeja" medidas para o segundo turno.


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Tá explicado...


Leitura Dinâmica: notícias do front...


* Temer tuitando - Ligado na rede, o ilegítimo manda recado para jornalista.

* Eficiência - Se você tem uma causa parada por falta de um oficial de justiça esperto que entregue uma notificação, peça à Globo o contato do agente que à 1h da madrugada estava trabalhando. O sujeito ganhou crachá para entregar uma citação ao candidato Ciro Gomes. Detalhe: o processo movido por João Dória por suposta calúnia e difamação é de 2017. José Serra estava na plateia, mas não foi incomodado por nenhum oficial de justiça madrugador. Ciro protestou contra a "emboscada" e diz que não bota mais os pés na Globo.

*Euforia - Dizem as redes sociais que Álvaro Dias era o candidato mais animado no debate da Globo. Apesar disso, era também o mais lento quando se deslocava da cadeira rumo à bancada. Atrapalhou-se algumas vezes, mas nada demais. William Bonner também se enrolou na mediação. Formaram a dupla Dede´e Didi do debate.

* Acordou - Não se pode dizer que a Lava Jato não trabalha. Andava meio devagar mas nos últimos dias acelerou, tomou energético e abriu gavetas. Nada a ver com a eleição...

* Bolsa bolacha -  Alckmin revelou uma das conquistas da sua gestão. O tucano orgulhou-se de ter desonerado um produto essencial: o biscoito sem recheio.

* Calamity Jane - Os marqueteiros de Marina tentaram mudar o visual da candidata. Uma das recomendações foi reformar o penteado e o figurino. Ontem, ela usou o que parecia uma roupa de montaria do Velho Oeste. Teria acabado de apear do cavalo? Outra recomendação dos assessores teria sido na entonação da voz, enfatizá-la para não passar a impressão de "frágil". Marina tem a voz naturalmente fina e não foi possível mudar isso. A solução parece ter sido mandá-la aumentar o volume. A candidata quase gritava e mandava os decibéis às alturas.

* Gesticula, candidato - Já os assessores de Meireles recomendaram que ele gesticulasse mais ao enfatizar suas opiniões. O candidato obedeceu. Mas exagerou. Em matéria de gestos, ele competia com a o gestual da moça da linguagem Libra no canto da telinha. Só que Meireles era descoordenado às vezes. Parecia que estava com delay: o movimento da mãos vinha geralmente atrasado em relação à voz.

* Recado de Boulos: "ando com sem teto, com sem terra, só não ando com sem-vergonha'.

* Fui ali e volto já - Ciro Gomes sobre a decisão de Bolsonaro de escapar do debate da Globo e optar por um entrevista combinada na Record; "Amarelou", disse ele.

* Suspense nas ruas - Haverá segundo turno ou no domingo, 28 de outubro ,vai dar praia?


* Engrossando a abstenção - A Veja perdeu o prazo do cadastramento biométrico e não vai poder votar. É o que a capa dessa semana sugere. Finalmente a revista vai assumir neutralidade em uma eleição?

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Vai vendo: em livre interpretação, novo filme retrata bastidores sexuais dos acontecimentos políticos

por O.V.Pochê

O novo "cinema político" brasileiro ganha mais um lançamento.

O filme vem se juntar a uma série de produções que, cada uma à sua maneira e livre interpretação, retratam a atual conjuntura ou fatos relevantes da República.

Depois de "O Mecanismo", "Polícia Federal: a lei é para todos", "Real, o plano por trás da história, "O Paciente", entre outros, circularem nas salas de cinema e nos canais de streaming, a produtora Brasileirinhas lança "Tudo acaba em pizza", fechando uma trilogia que já lançou "Leva Jato" e "Felação Premiada".

Não se pode negar que essa é uma visão inédita e muito particular sobre os acontecimentos que abalaram o Brasil.

Revista VIP também passa o ponto e dá adeus às bancas...


Com Juliana Paes na capa de setembro a VIP encerra sua edição impressa. A ex-revista da Abril será incorporada pela Exame e se transformará em um caderno chamado Exame Vip, com oito páginas.
Já a maioria dos jornalistas que integravam o que restava da redação será incorporada às estatísticas de desemprego. 

Afinidades...

ONTEM (HÁ 55 ANOS, QUANDO JOÃO GOULART PROMULGOU O DÉCIMO-TERCEIRO SALÁRIO). 


HOJE


O mês do terror... Confirma?


Na terra do Tio Trump, o mês de outubro terá 31 noites de terror. A ABC Family comemora o Halloween com uma seleção de filmes do gênero.
No Brasil não há notícia de programação semelhante. Parece que as eleições já bastam...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Cuidado! Alerta de fakenews...

por O.V. Pochê 

* Revisando a História - O que se diz é que depois de redefinir a ditadura como "movimento", Dias Toffoli prepara novas correções de fake history, segundo ele, da humanidade. A Revolução Francesa foi apenas uma passeata #elanão contra Maria Antonieta; Hitler era só um clone do Carlitos; a carta de Getúlio era uma antiga redação escolar de Alzirinha;  ninguém foi pro exílio depois de 64, só uns poucos desocupados se "movimentaram" para Paris; os 18 do Forte participavam na verdade de uma minimaratona do posto 6 ao Leme; a bomba do Riocentro era parte da cenografia do Show do Trabalhador; a Guerra do Paraguai foi um pretexto para muambeiros comprarem baratinho umas tralhas chinesas; a Boeing e a Embraer inventaram o avião, Santos Dumont só foi o garoto-propaganda; Napoleão invadiu a Rússia porque o czar tinhas armas de destruição em massa;  não houve escravidão no Brasil, apenas um "movimento" de africano em direção às praias baianas e cariocas.

* Bye, bye - Marina Silva já se prepara para se recolher ao seringal nos próximos quatro anos. Antes, vai subir o monte com o cabo Daciolo.

* Emprego novo - Ciro Gomes vai deixar a política, como prometeu. Não está confirmado se aceitará o cargo de auditor do SPC.

* Desemprego - Alckmin vai engrossar as estatísticas de desocupados depois de anos de reinado em São Paulo. Mas tem aposentadoria firme e não é verdade que vai dividir apartamento no Brás com FHC e José Serra.

* Hashtag - Essa é a eleição da hashtag. E o maior alvo das redes sociais, Bolsonaro, é o favorito para subir a rampa. Um leitor envia a mais nova indexação: #vamosbotarnoBolsoo(ig)naro. Mas, segundo Regina #semmedo Duarte, o que está pintando é #bolsonaropresidente...

* O meu também - No escurinho da cabine, vai ser difícil Romário deixar de votar em Ciro. O ex-jogador se emociona cada vez que o candidato fala em "vou tirar seu nome do SPC".

* No Faustão - Não é verdade que após as eleições Fernando Haddad vai representar Lula no quadro "Dança dos Famosos".

* Estoque - Fábrica de botox está trabalhando em três turnos para abastecer um certo candidato. Ele enfrenta dois problemas de campanha: com tantas entrevistas e debates na TV, ele precisa refazer a aplicação várias vezes ao dia; e ao fazer caminhadas ao sol o material derrete e assessores têm que providenciar refil.

* Corre que o caixa vai fechar - Governo Temer vai privatizar Lençóis Maranhenses e Jericoacoara. Isso já foi anunciado. Por enquanto não está confirmado que serão entregues a concessionárias após licitação O Círio de Nazaré, a Praia de Ipanema, Fernando de Noronha, o Palácio do Jaburu, as bocas de fumo do Alemão, a igreja do Senhor do Bonfim, o pijama de Getúlio, o coronel amigo e assessor do presidente, Geddel Vieira Lima e a Papuda, a Lava Jato, o Pantanal e todos os venezuelanos que entrarem no Brasil.

Fotografia - Olha isso... a velha guarda do jazz em galeria de imagens do New York Times...

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ATUALIZAÇÃO EM 03/10/2018 -

por Roberto Muggiati

Nós, que sempre copiamos os irmãos do Norte - nem sempre nas melhores coisas -   nos omitimos totalmente em registrar nos anos 50 os grandes da Velha Guarda com os novos da Bossa Nova, Jovem Guarda e MPB – estavam todos vivos. Não só para uma foto tipo álbum de família, como para gravações reunindo veteranos e jovens, como fizeram amplamente nos EUA – repito, muita gente boa ainda estava viva – Pixinguinha só morreu em 1973, podia ter gravado com a rapaziada da Tropicália, imaginaram?!

A foto de Art Kane inspirou um filme a Steven Spielberg, O terminal (2004). Tom Hanks é Victor Navorksi, de uma republiqueta do leste europeu chamada  Krakozhia. Quando desce em Nova York no Aeroporto JFK há um golpe de estado em seu país. 

Os EUA não reconhecem o novo governo e ele fica ilhado no aeroporto, sem poder entrar no país, nem sair. Navorski viajou numa missão sentimental. Seu pai possuía uma cópia da foto de Art Kane com os autógrafos de 57 dos 58 músicos. Hanks passa o filme agarrado com a misteriosa foto enrolada dentro de uma latinha. Só falta um autógrafo – o do saxofonista Benny Golson, que faz temporada num hotel de NY. Claro, com Spielberg não pode deixar de ter happy ending. Finalmente, Hanks consegue escapulir para Manhattan e colhe o último autógrafo. By the way, Benny Golson é um dos dois sobreviventes da foto famosa de 1958. O outro – também saxofonista tenor – é Sonny Rollins.



Mídia, volver...


(Da Revista Fórum)

Em seu artigo diário no jornal O Globo, Merval Pereira, dá sinais do que se vê na na manhã desta terça-feira (2) na maioria dos veículos da grande mídia: embarcar de vez na candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) para conter o crescimento de Fernando Haddad.

“O fato é que a candidatura de Bolsonaro mostrou-se capaz de neutralizar as notícias ruins com mobilizações a favor dele grandes o suficiente, no domingo, para reafirmar sua posição de liderança”, escreve Merval, após tecer destilar críticas ao PT (?) por “utilizar a Justiça para validar uma jogada política”, referindo-se à censura imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à decisão do ministro Ricardo Lewandowski de autorizar entrevista do ex-presidente Lula à Folha de S.Paulo, à Rede Minas e ao jornal espanhol El País.

LEIA A MATÉRIA COMPLETA NA FÓRUM,  AQUI

A vida não é bela - Governo americano prende crianças imigrantes em campos no deserto do Texas...

Reprodução o Globo

É dramática a situação dos filhos dos imigrantes detidos em campos instalados no deserto do Texas. Segundo matéria do New York Times, reproduzida pelo Globo, ontem, até a assistência jurídica aos  pequenos prisioneiros é limitada. O visual dos campos americanos e a logística não deixam de fazer referência distante, mas presente, com a tragédia nazista que o mundo teima em reconfigurar.

As crianças, em vários pontos do país, são acordadas no meio da noite, colocadas em comboios de ônibus que, semanalmente, cruzam as estradas rumo ao deserto. São cerca de 13 mil meninos e meninas detidos, de várias idades, desacompanhados do pais.

O Texas não é Birkenau, mas vistos do alto, com os detidos em longas filas, os barracões, que comportam 20 crianças cada um em fileiras de beliches, lembram a triste arquitetura  do passado.
Birkenau. Reprodução

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Alô, é do passado? Conheça um acervo digital da imprensa alternativa




por Ed Sá

Quando nuvens pesadas ameaçam encobrir o sol, chega em boa hora uma iniciativa do Núcleo de Pesquisa e Ciências da Comunicação da PUCRS. O acervo digital da instituição disponibiliza coleções dos alternativos Coojornal, Movimento e Pato Macho, este editado por Luís Fernando Veríssimo, além do histórico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil.
O passado está batendo na sua porta? Conheça a cara dele. AQUI

Não é só piada de brasileiro...


Do Jornal de Notícias, hoje: portugueses não sustentam juízes e procuradores tão milionários quanto os brasileiros, mas também se queixam dos privilégios da casta. Lá, o governo que acabar com os benefícios dos togados.

Futebol: clube escala meninas como gandulas e cartolas criticam shorts curtos...

Jogadoras de vôlei atuam como gandulas do Vicenza, time italiano de futebol. Foto Facebook Volley Vicenza. 

Foto Facebook/Reprodução

Reprodução Volley Vicenza
por Clara S. Britto

Enquanto a Fórmula 1 eliminou as grid girls para evitar acusações de sexismo, o Vicenza Virtus, da terceira divisão do futebol italiano, convocou seu time de vôlei para atuar como ball girls (gandulas).
As jovens usam shorts preto e bodysuit justa. Elas entraram em campo, em Vicenza, no estádio Romeu Menti, e logo provocaram polêmica. Cartolas da federação italiana não gostaram. O clube alega que a participação das jogadoras é voluntária e a intenção é promover as divisões inferiores do vôlei e dar mais visibilidade ao patrocinador. Em 2012, o Botafogo escalou como gandula a professora de Educação Física Fernanda Maia. Ela fez sucesso no Engenhão e, na época, não provocou tanta polêmica. Os tempos mudaram tão rápido?

FENAJ: Carta aberta aos candidatos à Presidência da República

Da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)

Jornalismo integra a base da democracia

Introdução

"É obrigação dos candidatos ao cargo de maior importância da República apresentar ao povo o plano de governo que pretende implementar, caso eleito. As propostas a serem debatidas, por necessidade, devem tratar dos grandes temas nacionais e, em especial, dos assuntos que são da competência da União.

O setor das comunicações, entretanto, tem sido esquecido. Não há propostas a discutir; não há reflexões sobre o passado, o presente e o futuro. Esse “esquecimento” é proposital e revelador: não mostra a pouca importância do setor, mas a omissão histórica dos governos brasileiros em relação às comunicações, área estratégica para a vida cultural, política e econômica de qualquer nação.

A Constituição brasileira confere à União – e somente a ela – a exploração e/ou organização dos serviços de telecomunicações e da comunicação social. A exploração desses serviços está majoritariamente nas mãos da iniciativa privada, mas o governo federal não pode deixar de cumprir o seu papel de ser o organizador e fiscalizador do setor, sob pena da prevalência de interesses privados sobre os interesses públicos, como tem ocorrido historicamente.

Assim, o governo federal deve se responsabilizar pelas políticas para a área das comunicações que, em determinados aspectos, é essencial para a garantia da soberania nacional. Também deve assumir a tarefa de fortalecer o sistema público de comunicação, em especial a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), fortemente atacada no atual governo.

A FENAJ, por ser a entidade máxima de representação dos jornalistas brasileiros, chama a atenção especialmente para a Política de Comunicação Social, na qual o Jornalismo deve estar inserido. E reafirma sua reivindicação para que o país se debruce sobre o tema, visando a construção de um novo marco regulatório para o setor e reforça os aspectos que devem ser observados, conforme documento (anexo) do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), do qual a FENAJ é integrante.

O papel do Jornalismo

A ênfase da FENAJ ao Jornalismo brasileiro justifica-se pela natureza da entidade e, principalmente, em razão da importância do Jornalismo para a constituição da cidadania, elemento fundante da democracia. Sem cidadãos e cidadãs com conhecimento da realidade imediata e capacidade de formulação de juízos não há debate público real nem tomada de decisões conscientes.

O Jornalismo surgiu de uma demanda social das sociedades republicanas, assentadas nos valores da liberdade, igualdade e fraternidade. A princípio, foi o local das manifestações de grupos que defendiam causas específicas. Mas evoluiu; deixou de representar interesses particulares (ainda que justos) para tratar dos interesses coletivos. O Jornalismo passou a defender o interesse público, compreendido como o interesse da maioria.

Mas a mercantilização da informação e o predomínio de grupos econômicos na produção da notícia trouxe novas mudanças, frutos dos tempos atuais. O Jornalismo passou a defender os valores desses novos tempos: redução da presença do Estado; defesa do mercado como condutor das coisas econômicas e políticas; desregulamentação do setor financeiro e das relações de trabalho, e outros preceitos neoliberais.

O que se tem, na atualidade, é a imposição do interesse privado sobre o público, a desconstituição da política como mediadora das relações humanas e sociais, a negação e a criminalização dos movimentos sociais e a defesa do lucro como finalidade última das atividades humanas.

O Jornalismo presente, quase sempre, não defende o interesse público, o interesse da maioria. E não trabalha para que a maioria perceba quais são, de fato, os seus interesses.

Mas essa não é uma condição inexorável; é uma construção humana, de uma época, e que pode/deve ser novamente mudada. O Jornalismo não está condenado à falácia e à manipulação e os jornalistas podem mostrar, com sua prática profissional, que é possível informar à sociedade, reportar fatos, promover o debate de ideias e dar aos cidadãos e cidadãs condições de formar seus juízos e agir em sociedade.

É preciso, ainda, reforçar o papel a ser desempenhado pelo sistema público de comunicação, em especial pela EBC, para a produção de um Jornalismo paradigmático, que sirva de referência para a sociedade.

Para o desenvolvimento do Jornalismo brasileiro e para que os jornalistas tenham garantidas suas condições de trabalho e autonomia intelectual. A FENAJ propõe que o presidente eleito:

– Após aprovação pela Confecom, apresente projeto de lei para criação do Estatuto do Jornalismo Brasileiro, como um dos mecanismos de controle público para garantia da qualidade da informação jornalística difundida pelos veículos de comunicação social, sejam impressos, audiovisuais ou digitais.

– Encaminhe ao Congresso Nacional projeto de lei para criação e implementação do Conselho Federal de Jornalistas, para promover a autorregulamentação profissional, a partir do Código de Ética do Jornalistas Brasileiros (proposta já aprovada na 1ª Confecom).

Uma nova Confecom

É grande o déficit democrático no setor da comunicação social no Brasil, a começar pela concentração da propriedade dos meios nas mãos de poucas famílias ou grupos econômicos. Essa concentração permite o monopólio da pauta dos debates públicos, com interdição de temas e de grupos sociais.

Na área das telecomunicações, há uma desastrosa política de desnacionalização que precisa ser revertida, assim como há a necessidade de fortalecimento da Telebrás, como empresa pública do setor, capaz de garantir a universalização dos serviços.

Também é urgente a adoção de uma política de universalização do acesso à banda larga para que toda a população brasileira, independentemente de seu local de moradia e condição social, tenha acesso à internet.

Todos esses temas, além do Jornalismo e da produção cultural, devem ser objeto de amplo debate nacional para que haja, de fato, uma construção democrática de um novo marco regulatório para o setor das comunicações.

A primeira Confecom (Conferência Nacional de Comunicação) foi realizada com êxito, no final de 2009, e resultou em 672 propostas aprovadas. Mas não houve seguimento nas ações.

A FENAJ defende que o presidente eleito convoque uma nova Confecom, como ação inicial para a construção de um novo e democrático marco regulatório para o setor".

Brasília, 27 de setembro de 2018.

Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ.

domingo, 30 de setembro de 2018

Brasil na capa do Le Monde hoje. E não é pra elogiar...


William Waack agora é coisa de Band

Segundo o Na Telinha, William Waack vai exibir o seu "Painell WW" na Band. Cinco meses depois de tentar emplacar um canal próprio no You Tube, o jornalista encerra seu projeto digital e volta a um veículo tradicional.

ATUALIZAÇÃO EM 04/10/2018 - a Medialink Comunicação, que assessora William Waack nega que o jornalista tenha sido contratado pela Bandnews. Nega, mas não de forma absoluta. A agência informa que o projeto de webjornalismo de Waack tem atraído interessados, mas como canal de distribuição, "sem alterar o que existe hoje", e permanecerá nas redes sociais "mesmo com a eventual transmissão em TV fechada". 

A primavera é das mulheres: "Ele Não!"


São Paulo. Foto Rovena Rosa - Fotos Públicas
Rio de Janeiro. Foto de Bruno Alencastro. Reprodução Twitter

Rio de Janeiro. Foto bqvMANCHETE


Curitiba. Foto Ricardo Stukert
Brasília. Foto Lula Marques. Fotos Públicas

O dramático alerta de Stephen Fry

Stephen Fry entrevistou Jair Bolsonaro em 2013. Não guarda boas lembranças. O cineasta, ator, roteirista e apresentador britânico acaba de divulgar um vídeo onde relata sua experiência - que chama de "tenebrosa". Fry manda de Londres um grito de alerta. Veja o vídeo AQUI

Jóias do twitter... Janaína dá um gás na campanha eleitoral...


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Políticos brasileiros obrigam Deus a fazer hora extra

por O.V.Pochê

Deus não esperava ser tão convocado para intervir nas atuais eleições.

O Cabo Daciolo garante que Deus o levará à vitória.

A família Bolsonaro diz que Deus desviou a faca de um órgão vital e o salvou da morte.

O autor do atentado, Adélio Bispo de Oliveira, informa à PF que agiu "em nome de Deus".

A CNBB pede que os eleitores sejam iluminados pelo Espírito Santo de Deus na hora do "confirma".

O ex-governador Garotinho, condenado em segunda instância sob acusação de desvio de verbas, tem sua candidatura barrada pelo TSE, com base na Lei da Ficha Limpa, e avisa que vai resistir. "Deus é maior", afirma.

Não está fácil nem pra Deus.

Do Jornalistas & Cia: o dia em que um repórter da Manchete ajudou Éder Jofre a mandar um adversário à lona...

José Maria dos Santos foi repórter da Manchete nos anos 1970, atuando na Sucursal de São Paulo. A matéria acima foi reproduzida do Jornalistas & Cia. Clique na imagem para ampliar.

Ainda sobre passaralhos que atacam a qualidade do jornalismo...

por Flávio Sépia

Passaralhos em série estão levando no bico a precisão que o jornalismo exige. Exemplos são diários. Hoje, Estadão, Globo e O Dia dão pequena prova disso. Um turista foi preso acusado de racismo no Museu de Arte do Rio (MAR). Segundo funcionários do museu e testemunhas, o americano se recusava a ser atendido por negros ("não quero negros"). Ao chegar à delegacia e ser revistado por policiais negros, repetiu a frase "no black people".

A matéria ainda informa que o turista estava sem documento e "foi identificado apenas como  Anthony, natural dos Estados Unidos" e que, ao sair da delegacia, se negou a falar sobre o caso. Há lacunas. Não informa se o sujeito foi indiciado e se o B.O. classifica a agressão de racismo, que é mais grave, ou injúria racial. Nem como a delegacia consegui indiciá-lo se o elemento, ainda segundo a reportagem, estava sem documentos e nem a polícia tem certeza de que ele é quem diz ser. Mesmo sendo acusado de um crime e apesar de não ter sido identificado, o turista quase anônimo, indiciado ou não, foi liberado em pouco tempo. A matéria não teve a curiosidade de saber porque.

Se o leitor ou internauta quiser se informar desses detalhes que, ao que parece, foram considerados irrelevantes vai ter que ir à delegacia.

A reportagem até poderia vir com um aviso: "não tem spoiler".  Claro, não informa o desfecho da trama.



Política do 'ajuste fiscal' leva Flamengo pro buraco...

por Niko Bolontrin

O Flamengo lembra Argentina e Brasil. Os três têm a economia controlada pelo "homens do mercado financeiro" e gostam mais da "religião" do ajuste fiscal do que de desenvolvimento e gols, respectivamente.

Dizem que na sala da presidência e no caixa, o Flamengo vai bem, refinanciou dívidas, parcelou, saiu do SPC etc.

Se fosse uma corretora ou emprestasse dinheiro a juros estava bem.

O problema é quando entra em campo. Está sempre negativado.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Memória da propaganda: Há 40 anos, o balanço de Adele Fátima vendia uma marca cheia de curvas: as Sardinhas 88


por Ed Sá 

Em 1978, a moça de biquini amarelo conquistou o Brasil ao cruzar as areias cariocas. O comercial das Sardinhas 88, estrelado por Adele Fátima estava em todas as TVs. A musa reinava nos intervalos e viralizava no Brasil. Se fosse hoje, "quebraria a internet", como se diz.

Não se sabe se inspirado pela curvas da sua marca - as Sardinhas 88 - o português Rubens Gomes da Costa, dono da fábrica de processamento de pescados, em Niterói, convidou Adele Fátima para incendiar corações e mentes. Foram gravados ao longo do ano três comerciais da campanha.

Os leitores da faixa sênior lembram da musiquinha? "Nem oito, nem oitenta, sardinha é... 88"

VEJA O COMERCIAL DAS SARDINHAS 88 NA MOFO TV, CLIQUE AQUI

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Eu vi (e vivi) o Exército... e não gostei • Por Roberto Muggiati

Com minha mãe no baile da Sociedade Thalia


Confraternização na caserna com o cadete das Agulhas Negras Pimpão
(o nome diz tudo), veja minha cara de tédio.


Por Roberto Muggiati
Fotos: Arquivo Pessoal

Arrastando-me de noites insones pela manhã de Botafogo, depois de – num gesto de cortesia e para fazer algum exercício – passear os cachorros Belo e Linda, de minha doce amiga e vizinha Dona Irinéia, 92 anos, costumo tomar o café da manhã tardio – já tem gente chegando para o almoço à quilo, sim com crase mesmo, é mais gostoso – na Lanchonete Kemp’s (preciso perguntar se é homenagem ao herói argentino da Copa de 78). Média meio-a-meio com pão-na-chapa tostadíssimo, o melhor do Rio, apenas seis 'real', servido por uma garçonete mignon fofíssima - a Gabriela, de Carnaubal, CE -  com um sorriso que já me faz ganhar o dia.

A capa da biografia do patrono da Arma  de Engenharia.

Atravessando a Rua das Palmeiras, esquina com Voluntários, tem um xexelento sebo de rua ao qual não resisto. Hoje mesmo encontrei – e comprei – um livro sobre o patrono da arma de engenharia, Vilagran Cabrita – um uruguaio, imaginem só – biografia assinada pelo General A. de Lyra Tavares – o Aurélio que não era o Aurélio e cometia poesias sob o pseudônimo um tanto suspeito de Adelyta, imortal da ABL.

Abro mais um parêntese. Fui colega de vestibular do Itamaraty em 1965 dos irmãos Alfredo e Mário Grieco, cujo pai também diplomata, Donatelo, era filho do velho Agripino Grieco. Não passei no Itamaraty e tive de me consolar com a Manchete, acho que até foi melhor assim. Com seu invejável “QI”, Alfredo foi designado, nos Anos de Chumbo, para seu primeiro cargo no exterior, na Embaixada do Brasil em Paris, avenue Montaigne, uma rua de nobreza excepcional. Ao chegar, o embaixador, Aurélio de Lyra Tavares, designou-lhe uma mesa no posto mais nobre da grande sala no andar térreo. “Mas, embaixador,” contestou o Alfredo “por que está me colocando na mesa mais hierárquica da sala, que deveria caber ao embaixador?” O general-embaixador respondeu: “Com todas estas bombas explodindo por aí, este lugar, perto da janela dando para a rua, é o mais visado...” Por estas e outras, Alfredo não ficaria muito tempo na carrière. Em 1985, foi colaborador da revista Fatos, da Bloch, um projeto que, vinculado a Tancredo Neves, começou sua vida já na UTI e fecharia pouco mais de um ano depois.

Voltando à manhã de hoje. No livro sobre Vilagran Cabrita é transcrito o hino da engenharia – que eu era forçado a suportar no CPOR – e, justamente, as letras são “versos do tenente A. Lyra Tavares.” Uma pequena amostra; “Companhia de louros e de glória/ Das vanguardas impávido cruzeiro/ Pois a estrada do triumpho e da victoria/ É feita pelo sapador mineiro.”

Transcrevo a seguir uma memória da minha experiência castrense, encerrada sete anos antes do golpe militar de 1964. O texto foi publicado em 2016 na revista da Academia Paranaense de Letras.


DIREITA, VOLVER! 

1955-1957: Memórias do quartel

Por ROBERTO MUGGIATI

Quartel do CPOR, em Curitiba, hoje: a moldura foi preservada,
o miolo transformado em shopping. Foto: Reprodução


Em dezembro de 1955, terminado o curso científico no Colégio Estadual do Paraná, vesti pela primeira vez a farda. Começava meus dois anos de CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) no imenso quartel que ocupava uma quadra inteira diante da Praça Oswaldo Cruz, em Curitiba.

Naqueles tempos você só escapava do serviço militar obrigatório se fosse cego ou aleijado. Jovens que se destinavam à universidade podiam fazer o CPOR e fugir do castigo e humilhação de passar dois anos encarcerados como soldado raso na caserna. A coisa funcionava assim: nos meses de férias (dezembro a março e julho), o aspirante a oficial da reserva comparecia ao quartel todo dia (menos domingo) e, no fim da tarde, voltava para casa. Havia marchas forçadas e acampamentos fora de Curitiba nesses períodos. Quando as aulas na faculdade recomeçavam, você só precisava comparecer ao CPOR aos sábados. Como ia fazer vestibular para engenharia, incorri no erro de me inscrever na arma de engenharia. Arrependo-me dessa escolha até hoje. Podia ter-me alistado na cavalaria e pelo menos uma coisa útil aprenderia – a montar – além de conviver com um animal que sempre admirei, o cavalo.

A arma de engenharia era um horror. A maioria dos oficiais frequentava a Faculdade de Engenharia em anos mais avançados – eu ainda nem havia passado no vestibular. Eram cursos tão puxados e áridos quanto os da própria faculdade. Passados vinte anos da data em que deixei o CPOR, eu ainda tinha pesadelos recorrentes em que era reprovado e ficava condenado a repetir eternamente o ano. O objetivo da engenharia militar era construir pontes e outras estruturas juntando pesadas partes de madeira e metal que pareciam aquelas peças de montar Mecano, precursoras do Lego. Mas uma das atividades mais importantes da nossa arma era também destruir e demolir todo tipo de estrutura e aprender a lidar com explosivos.

 A partitura do Sapador Mineiro com versos
do então tenente Lyra Tavares

Daí o hino da engenharia exaltar o sapador mineiro em meio a toda aquela patriotada (“Lança pontes e estradas, nunca falha,/E em lutas as suas glórias ressuscita,/Honrando, em todo o campo de batalha,/As tradições de Villagran Cabrita./O castelo lendário, da Arma azul-turquesa/Que a tropa ostenta, a desfilar, com galhardia/É um escudo de luta, é o brasão da grandeza/E da glória sem fim, com que forja a defesa/E é esteio, do Brasil, a Engenharia.”)

Não pensem que basta enrolar umas bananas de dinamite ao redor de uma pilastra. Toda explosão, para funcionar, precisa ter rigorosamente calculada a quantidade exata de explosivo e sua localização precisa. Só lamento não ter me dedicado a fundo a essa arte e ciência para usar aqueles conhecimentos doze anos depois, nos Anos de Chumbo, e explodir com a ditadura.

Curioso: quando deixei o CPOR, estávamos a sete anos do golpe, mas as relações entre civis e militares eram mansas. Não senti naqueles homens de farda nenhum açodamento pelo poder, nenhuma noção de que a classe militar fosse ungida da missão de “salvar o país”. Na verdade, em 1964 foi a própria sociedade civil que empurrou os militares para o poder: as ilusões de uma esquerda despreparada (estimulada pelo exemplo de Cuba) e o reacionarismo da classe média apavorada pelo fantasma do comunismo (El paredón de Fidel era assustador...)

Apenas um oficial da Engenharia não ia com a minha cara. Usando uma palavra atual, eu poderia dizer que o capitão Castilho praticava bullying contra mim. Eu era jornalista, portanto – na cabeça dele – comunista. Baixote, com um bigodinho brega, o capitão Castilho me escalou para dar guarda na noite do Ano Novo de 55 para 56. Aquela era uma das datas que eu mais prezava, quando ia com a família ao Réveillon do Graciosa Country Club, os homens de smoking, as mulheres de longo, o acontecimento social mais chique da cidade. Lá pelo fim da tarde de 31 de dezembro apresentei-me no quartel para a infausta obrigação. Troquei a farda pelo uniforme de serviço e preparei-me para o pior. Ao lado da guarita havia um quartinho infecto com um catre pulguento onde você dormia enquanto o companheiro fazia a vigília. De repente, uma novidade: o comandante determinou que apenas as guaritas da frente e dos fundos ficariam abertas; as guaritas laterais seriam fechadas. Quatro sentinelas seriam dispensadas. O capitão Castilho decidiu que seria por sorteio. Pediu que eu escrevesse em oito retalhos de papel os nomes dos guardas escalados. Papeis dobrados, jogados dentro de um capacete, mandou que eu fosse o primeiro a sacar. Pincei um papel e desdobrei-o: MUGGIATI. Para desgosto supremo do capitão Castilho. Eu estava liberado para o Réveillon do Graciosa. Da farda de serviço infecta para o requintado smoking. Foi minha primeira epifania castrense.

Cartum autocrítico publicado na Revista do CPOR de Curitiba de 1957. 
A segunda ocorreria no sábado de Carnaval, 11 de fevereiro de 1956. Naquele verão do meu descontentamento, eu andava às voltas com dois problemas: amigdalites que minavam meu sistema imunológico e me botavam de cama com muita frequência; e o vestibular para a Faculdade de Engenharia, no final  de fevereiro. Nos primeiros dias do mês, partimos para o primeiro grande acampamento na cidade de Porto União, Santa Catarina, onde ficava o 5º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado. Éramos 44, na turma da Engenharia – de Álvaro Doubek a Werner Zulauf. Domingo, sete da manhã, embarcamos num trem na Estação Ferroviária de Curitiba. Era uma composição da RVPSC (Rede Viação Paraná-Santa Catarina) – sigla com uma irônica sugestão de convite social: Répondez S’il Vous Plait (RSVP). Embora menos de 200 quilômetros separassem Curitiba de União da Vitória – a cidade do Paraná geminada com Porto União – a viagem levou o dia inteiro, o trem levantando poeira ao longo do percurso, para agonia do meu aparelho respiratório. Já era noite quando acampamos em barracas às margens do rio Iguaçu, que separava as duas cidades. O Iguaçu (“Água Grande” em guarani) nasce como um filete d’água nos arredores de Curitiba e, seguindo o sentido geral leste a oeste, vai terminar, mais de mil quilômetros depois, nas espetaculares cataratas de Foz do Iguaçu. Em muitos pontos, o rio faz a divisa natural entre Paraná e Santa Catarina.

Entre União da Vitória e Porto União, o Iguaçu ostenta uma largura superior a trezentos metros. Já naquela primeira noite eu conheceria na pele a força de suas águas: às três da madrugada o Iguaçu transbordou e invadiu nosso acampamento. Acordamos dentro das barracas boiando em suas águas. Um temporal a montante, em poucas horas engrossara o fluxo do rio. Escorraçados pela cheia, batemos em retirada para o quartel do 5º B.E. Fomos levados a uma grande sala sem móveis com assoalho de tábuas. Os mais rápidos ocuparam os armários vazios que cobriam as paredes laterais. Tínhamos lençóis e cobertas, mas nenhum colchonete para aliviar o lombo do contato com a madeira dura do piso.

Na manhã seguinte, exaustos, iniciamos as manobras às margens do inflado Iguaçu, com a montagem de pontes, em que éramos obrigados a carregar pesados módulos de madeira e ferro como burros de carga. Ao meio-dia, os trabalhos eram interrompidos para a hora do rancho. Entra em cena o versátil capacete de aço, que protege nossa cabeça das balas inimigas, mas não protege o nosso estômago da boia hedionda. É no bojo do capacete que os taifeiros despejam grandes porções de salada de tomate com cebola crua, macarrão com carne assada e arroz com feijão, tudo misturado num caldeirão infernal que ingerimos a duras penas, valendo-nos da colher de alumínio que carregamos na mochila com o cantil. A enchente, o trabalho pesado, o sono perdido, o rango infecto acabaram me derrubando: baixei enfermaria. E, o que é pior, num fim de semana. Embora já estivesse recuperado no sábado, eu e o colega Aramis Meyer Costa – à falta de um médico autorizado para nos dar alta – ficamos encarcerados na enfermagem sábado e domingo, olhando as nuvens brancas desfilarem num céu azul, reduzidos a uma sopinha rala como refeição. Companheiros solidários cataram espigas de milho das redondezas do quartel e as jogaram pela janela. E lá foram eles pimpões para os embalos de sábado à noite de Porto União, antecipando a dança de rosto colado com as donzelas locais, descendentes germânicas e eslavas de boa cepa. E eu tinha uma cantada irresistível. Os catarinenses são chamados de “barrigas verdes” por causa de sua heroica participação nos Voluntários da Pátria, durante a Guerra do Paraguai, ostentando na barriga uma faixa verde. Eu pediria à lourinha de olhos azuis: “Posso ver se a sua barriga é verde mesmo?” 

A volta a Curitiba estava prevista para a sexta-feira antes do Carnaval e eu contava em sair no sábado tocando tamborim no bloco dos Capetas, formado por uma turminha do Clube Curitibano. Mas temporais, quedas de barreiras e descarrilamentos na linha da RVPSC ameaçaram, de repente, nos deixar ilhados em Porto União até depois do Carnaval. Na manhã de sábado fui à estação em busca de informações. Na rua principal, esbarrei com o irmão mais velho do meu vizinho Nilson, acompanhado da noiva. Estava de carro, prestes a voltar para Curitiba. Uma carona salvadora fez toda a felicidade do meu Carnaval.

Passei em vigésimo lugar no vestibular de engenharia. Como recompensa, extraí as amídalas e convalesci tomando sorvete e lendo O velho e o mar. Nas férias de julho, encarei outro acampamento insólito, nas campinas do Primeiro Planalto, às margens da estrada para Joinville, a rota do balneário de Guaratuba, que eu costumava frequentar em meus tempos de liberdade. Garotas, amigos desobrigados do serviço militar, famílias conhecidas e até parentes, a caminho dos seus folguedos, paravam por alguns minutos no acostamento para lastimar nossa triste sina. O local de exercícios da engenharia era, volta e meia, atingido por bombas dos morteiros e canhões da artilharia, que abriam crateras enormes na grama virgem das encostas. Eu não confiava muito na logística daquelas manobras, estávamos a um passo de uma grande tragédia, mas no final, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Isto é, com um pequeno reparo: numa noite de lua cheia, eu e dois colegas mais afoitos – um deles era o Leo Casella Bittencourt, com seu indefectível bigodinho – percorremos quilômetros da estrada deserta em busca de bebida. Encontramos, num rancho de colonos, um vinho caseiro, ainda em processo de fermentação, que prosseguiu seu estrago em nossos estômagos e provocou uma ressaca homérica.

Dois filmes marcaram fundo essa fase da minha vida. Não imagino por que motivo aconteceu no próprio quartel a projeção de um filme antimilitarista: Stalag 17/Inferno Nº 17, de Billy Wilder, com meu ator favorito, William Holden. E, no verão de 1957, programou-se uma marcha noturna de 30 quilômetros com mochila equipada de 36 quilos no lombo. Valendo-me de uma unha encravada, provocada por aqueles elegantes sapatos pretos de bico fino, consegui dispensa médica. Resolvi pegar a sessão das oito no Cine Luz. Quando ia saindo de casa às sete e meia, no alto da Carlos de Carvalho – o céu ainda claro, no verão curitibano – ouço aquele tropel cadenciado subindo a rua. Era a marcha dos meus colegas, a caminho das ladeiras do Bigorrilho e dos descampados da Campina do Siqueira e do Parque Barigui. Me escondi por trás da sebe de hortênsias que cercava o jardim da minha casa. Passado o perigo, peguei o ônibus na Vicente Machado rumo ao centro. O prazer estético de ver pela primeira vez Casablanca – a maior história de amor em tempo de guerra – foi intensificado mil vezes pelo senso do interdito, de ter escapado ao castigo da marcha.

Em agosto de 1957, o martírio chegou ao fim em clima festivo. No estádio Dorival Brito e Silva, houve o juramento à bandeira e a entrega das espadas aos novos aspirantes a oficial. Depois, a missa solene na Catedral Metropolitana e, à noite, o baile de gala na Sociedade Thalia. Cito da revista do CPOR: “As belas jovens que lá comparecem dão um colorido maior às festividades e aumentam em muito a alegria dos novos aspirantes. São milhares e milhares de belas toilettes a enfeitar os majestosos salões da Sociedade Thalia...”

A Engenharia brilhou. Nas Olimpíadas do CPOR, retomadas depois de vários anos, fomos os campeões disparados, 54 pontos à frente da segunda colocada, a Saúde, com 23 pontos. A Cavalaria teve apenas um ponto: imagino, mas não tenho certeza, que foi na prova de hipismo. A capa da revista do ano foi estampada pelo porta-estandarte do CPOR, a melhor nota de todos os cursos: o aluno da Engenharia Celso Luiz Pasquini Esmanhoto. E, quando todas as armas se reuniam em frente do quartel para cantar o Hino Nacional, o maestro era o sargento Sátiro Pohl Moreira de Castilho, da nossa Engenharia.

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Em 2006, quarenta e nove anos depois, cruzei de novo os portões do quartel na praça Oswaldo Cruz. Não mais quartel, agora era o Shopping Curitiba, mas os incorporadores tiveram a sensibilidade de preservar a moldura da fachada em toda a quadra. Percorrendo a parte antiga da estrutura, dava ainda para sentir as velhas vibrações da caserna, os fantasmas de incontáveis gerações que viveram seus dias da juventude brincando de soldado dentro daquelas imponentes fortificações.

Mesmo que a experiência seja adversa, sua lembrança meio século depois se torna agridoce. Ao deixar o CPOR, a primeira sensação foi de alívio. Lembro até hoje com intensidade um momento poético único, pessoal e intransferível, minha derradeira epifania castrense. Num dos últimos sábados que dediquei à Pátria, justo quando saía do quartel no fim de uma tarde cinzenta, tremendo de frio debaixo da farda fina, vi baixarem do céu silenciosamente em câmera lenta flocos de neve, que logo se derretiam ao contato do ar e eram apagados para sempre. Veio-me então à cabeça um refrão antigo de mais de quatrocentos anos, do transgressor poeta francês François Villon: “Mais où sont les neiges d’antan?”