![]() |
| Reprodução Folha de São Paulo -21-8-2021. Clique na imagem para ampliar. |
O negócio era uma espécie de feirão de mensagens do governo.
![]() |
| Reprodução Folha de São Paulo -21-8-2021. Clique na imagem para ampliar. |
O negócio era uma espécie de feirão de mensagens do governo.
“Quero beber, cantar asneiras” – quem melhor antecipou o espírito da pandemia foi Manuel Bandeira. Guimarães Rosa, talvez só um pouquinho: “Viver é muito perigoso”. Sério demais pro meu gosto.
A pandemia fez do comum dos mortais aquilo que nem milhares de páginas de Sartre e Heidegger conseguiram. Viver o hoje. Abraçar o caos. Ela o obrigou a adotar o bordão de Chiquita-bacana-lá-da-Martinica, que, existencialista com toda a razão, “só faz o que manda o seu coração”.
Há quem não goste, há quem impaciente. Pô, quando é que vai acabar esse desgracido baile de máscaras?
O “novo normal” já passou sem sequer chegar. Ficamos pro que der e vier, sem eira nem beira, seguindo nosso caminho aos trancos e barrancos. Antenados no alerta dos baianos: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.
O ansiado fim da pandemia colocou a vida no palco do Teatro do Absurdo: somos todos vagabundos anônimos à beira da estrada esperando um Godot que nunca vai chegar.
Da minha parte, não tenho queixas. Desde que a Manchete faliu há vinte e um anos eu já vivia confinado, antes disso até merecera do Alberto o apelido de Eremita. Continuei escrevendo matérias sobre deus-e-todo-o-mundo (já leram A influência cultural do chapéu coco?), traduzindo livros (entre os últimos as "bacantes" Patricia Highsmith e Amy Winehouse. Apesar da Covid-19, não renunciei minha à saidinha diária. Escrevi até um “haicai safado”:
Pandemia?
Mamma Mia!
saio todo dia...
Além dos haicais, continuei cultivando outro dos meus cacoetes, rabiscar caras & bocas em discos de isopor de minipizzas.
À guisa de despedida, com um viés levemente narcísico (sim, venho me reconciliando também com a canastrice dos clichês), ofereço a tapa minha carantonha oitentona, ostentando com orgulho os rascunhos de autorretrato que chamo de meus emuggis...
Diz a lenda que Roque teria nascido com um sinal no peito em forma de cruz avermelhada que o predestinava à santidade. Herdeiro de importante família de Montpellier, seria o herdeiro de considerável fortuna. Órfão de pai e mãe muito jovem, foi criado por um tio. Teria estudado medicina na sua cidade natal, não concluindo os estudos. Desde muito cedo optou uma vida ascética, praticando a caridade. Ao chegar à maioridade, distribuiu todos os seus bens aos pobres. Deixando uma pequena parte confiada ao tio, partiu em peregrinação a Roma. Ao chegar às proximidades de Viterbo, encontrou-a assediada pela grande epidemia da Peste Negra. Ofereceu-se prontamente como voluntário na ajuda aos doentes, fazendo as primeiras curas milagrosas, usando apenas um bisturi e o sinal da cruz. Onde surgia um foco de peste, lá estava Roque ajudando e curando, revelando-se cada vez mais um místico e taumaturgo. Depois de visitar Roma, onde rezava diariamente sobre o túmulo de São Pedro e onde também curou vítimas da peste, voltou para Montpellier. No meio da viagem, foi ele próprio tomado pela doença. Para não contagiar ninguém, isolou-se na floresta, onde teria morrido de fome se um cão não lhe trouxesse diariamente um pão e se da terra não tivesse nascido uma fonte de água com a qual matava a sede. O cão pertenceria a um homem rico que, percebendo miraculosamente a presença de Roque, o ajudou.
Curado milagrosamente, ao voltar a Montpellier foi acusado de espionagem e encarcerado por cinco anos, até morrer, abandonado e esquecido por todos. Só então foi reconhecido, pela cruz que tinha marcada no peito.
No Brasil, a cidade de São Roque (“Terra do Vinho”), na região de Sorocaba, festeja o padroeiro do primeiro domingo de agosto até o dia 16. de agosto. Fundada na segunda metade do século XVII pelo bandeirante Pedro Vaz de Barros, a aldeia surgiu de uma enorme fazenda e uma capela que ele e dedicou a São Roque. Essa área foi comprada em 1936 pelo escritor Mário de Andrade, que queria erguer ali um retiro para artistas e intelectuais. Por vontade expressa de Mário, morto em 1945, o local foi doado à municipalidade e é hoje um centro cultural.
As Festas de Agosto em São Roque abrem com a entrada dos carros de lenha e vão até o dia 16 de agosto com uma monumental procissão dedicada ao Santo. Os shows incluem todo tipo de música, até pagode: é bom lembrar que, nas religiões afro-brasileiras, São Roque (com São Lázaro) é sincretizado como o orixá Omolu/Obaluaiê.Este ano, a Paróquia de São Roque “cancelou os shows, a entrada dos carros de lenhas, as alvoradas e procissões da Festa devido aos números da pandemia que ainda persiste na cidade. As celebrações litúrgicas e missas, porém, vão acontecer com a presença de fiéis conforme os protocolos de saúde recomendados pela e pelo Ministério da Saúde do Brasil.”
Faz sentido. O Santo que protege contra as pandemias está sempre atento e forte, como vem fazendo ao longo dos últimos oito séculos.
| Roberto Muggiati entrega Polanski, em 1988, foto do cineasta quando fez sua primeira visita à Manchete, em 1974. Ao fundo o jornalista Arnaldo Bloch e Anna Bentes Bloch. Foto: Acervo Pessoal |
Nasceu em Paris em 1933, filho único de poloneses, o pai judeu, a mãe católica de ascendência russa. Num gesto desastrado do pai, a família voltou em 1936 para a Polônia, um dos principais alvos do antissemitismo de Hitler. A mãe morreria em Auschwitz; o pai, internado num campo de extermínio austríaco, seria um dos raros judeus poloneses a escapar do Holocausto. E o menino Roman sobreviveria em fuga na zona rural quase na mendicância, escondendo-se em fazendas de famílias católicas. (O pianista, filme sobre um judeu de Varsóvia que consegue o milagre de sobreviver aos seis anos de guerra, é fortemente autobiográfico.)
Quando a guerra terminou Roman tinha doze anos e acabaria reencontrando o pai: da opressão nazista, passaram a viver os terrores do estalinismo.
O talentoso Polanski abriu as portas do mercado internacional com Faca nágua em 1962. Em agosto de 1967 começou a rodar O bebê de Rosemary, em que uma jovem inocente é escolhida por um grupo satânico para parir o filho do demônio. Ela mora em Nova York no sinistro edifício Dakota, onde John Lennon seria assassinado treze anos depois. A atriz principal, Mia Farrow, ameaçou abandonar as filmagens quando recebeu no set, diante de toda a equipe, das mãos de um oficial de justiça, um inesperado pedido de divórcio de Frank Sinatra, trinta anos mais velho, com quem foi casada dois anos.
No dia 9 de agosto de 1969, em Los Angeles, o bando de Charles Manson chacinou a mulher de Polanski, Sharon Tate – grávida de oito meses e meio – mais uma amiga e dois amigos que passavam a noite de sábado em sua casa, e também o jovem caseiro. As paredes da casa foram pixadas de palavrões escritos com o sangue das vítimas. Foi um trágico equívoco: os Polanski tinham alugado a casa do filho de Doris Day, Terry Melcher, produtor musical que se recusou a gravar Manson, cantor e guitarrista medíocre com ambições a superstar Como vingança, Manson mandou os fanáticos da sua “Família” matarem todo mundo na casa, acreditando que Melcher ainda morava nela. Polanski deveria estar lá naquela noite, mas à última hora foi retido em Nova York para assinar um documento na segunda-feira.
Encontrei Polanski pela primeira vez pouco antes, no Rio, em março de 1969, no 2º Festival Internacional de Cinema, onde ele concorria com O bebê de Rosemary. Numa brincadeira de mau gosto (Roman é um eterno moleque, adoro esse lado dele...), tentou jogar Jane Birkin na piscina do Copacabana Palace, a moça passou raspando por mim como um foguete e quase me arrastou consigo para as águas. (Jane estrelava Wonderwall, filme com a trilha sonora de George Harrison).
Em 1974, voltei a encontrar Polanski, desta vez com Jack Nicholson, na visita que fizeram à Manchete promovendo o filme Chinatown. A grande encrenca da sua vida o esperava em 1977 na casa de Jack Nicholson em Los Angeles. Escalado pela revista Vogue para fotografar uma ninfeta de treze anos numa piscina, Polanski não perdeu a viagem e transou com a menina, levemente dopada por um Boa Tarde, Cinderela. Acusado de abuso sexual, ficou preso 74 dias e foi solto após pagar fiança. Ao saber em 1978 que seria preso definitivamente, Polanski alugou um jatinho e escapou pelo México. Há 43 anos, a justiça norte-americana o caça implacavelmente, embora a “ninfeta”, hoje uma rechonchuda senhora de 58 anos, tenha perdoado Polanski. Em 2009, foi preso na Suíça – onde tem uma casa em Gstaad – e quase extraditado para os EUA.
Nosso terceiro encontro foi em 88, quando ele visitou novamente a Manchete, com a atriz que se tornaria sua mulher até hoje e mãe de seus dois filhos, Emmanuelle Seigner. Adolpho Bloch o convidou para um chá das cinco en petit comité no restaurante do Russell, os dois se conheciam desde os anos 60, quando a sucursal da Manchete em Paris ficava no prédio de Polanski na Avenue Montaigne. Polanski se atrasou porque ficou mais de meia hora na calçada numa intensa DR com a mulher. Chegou falando em russo: “Pô, Adolpho, chá? Você me convida para um chá? Eu queria mesmo é uma boa vodca polonesa!” Em segundos surgiu uma garrafa glacialmente gelada de Wiborowa, a marca favorita de um cracoviano célebre, Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II. E o ucraniano e o polonês parisiense se enredaram num longo papo em russo, deixando o resto do pessoal por fora.
Aproveitei a ocasião para entregar a Polanski uma cópia da foto dele com Jack Nicholson feita na visita de 1974. Pena que a Manchete tenha fechado as portas em agosto de 2000. Não fosse isso – estou seguro – teríamos recebido outras visitas do nosso querido amigo Roman.
PS • Especulando se o fato de Polanski ter filmado O bebê de Rosemary no edifício Dakota teria algo a ver com o assassinato de John Lennon, lembrei que, na verdade, foi Lennon quem, involuntariamente, teve um importante papel no assassinato de Sharon Tate em agosto de 1969.
Ouça o Helter Skelter AQUI
https://www.youtube.com/watch?
Atualização em 19-8-2021 -
Cabala nazista
De Edimburgo, meu filho me ensina que 88, nos países de língua germânica durante a 2ª Guerra significava “Heil, Hitler!” Sendo H a oitava letra do alfabeto, 88=HH. Polanski, assim, involuntariamente, homenageia com sua nova idade o Führer. Eu também, com meu nome. Nascido em 1937, meu pai queria que eu me chamasse Benito. Minha mãe não quis, de jeito nenhum. Então ele optou por Roberto. Um nome simples só na aparência: Mussolini o indicava para os apoiadores do nazifascismo porque suas três sílabas correspondiam às primeiras sílabas das capitais do Eixo: ROma + BERlim + TOquio. Meu pai – como todo mundo nos estados do Sul e até o próprio Presidente Getúlio Vargas – era simpatizante do Eixo. A propaganda foi uma arma terrível a mais que os Aliados tiveram de enfrentar. Nas manifestações diante do Palácio do Catete, no final dos anos 1930, os apoiadores do Duce e do Führer hospedavam-se no Florida Hotel. As letras do seu nome formavam o anagrama de Adolfo Hitler. Mesmo com essa sopa de letras infernal, o Eixo Kaput!, em boa gíriacarioca, sifu! (Roberto Muggiati)
Imagem/Simulação Nasa
por O. V. Pochê
A Nasa informou ontem aos navegantes da Terra: o asteroide Bennu poderá colidir com o nosso planeta no dia 24 de setembro de 2.135. Caso aconteça, a vida nesse nosso CEP espacial será extinta. Nem os cientistas estão chocados com a notícia. É desimportante. Lamento dizer que daqui a 134 anos haverá pouco ou nada a extinguir na Terra. Palavra da ciência.
Siga esse pequeno exercício futurista ambiental.
O Brasil que hoje basicamente produz commodities predatórias (mineração, exploração madeireira, agronegócio, petróleo, aço, etc), de enormes impactos ambientais, já sofre os efeitos da devastação e degradação (está aí a crise do clima com impacto na geração de energia) estará entre os países onde a tragédia ambiental se agravará bem antes, provavelmente o segundo no ranking após a África.
- Os surtos epidêmicos que começaram com a aceleração do desmatamento serão frequentes e levarão até lá milhões de vida a cada ano.
- A desertificação da Amazônia, do Nordeste e do Centro Oeste terá transformado parte do Brasil em um deserto. Processos já em andamento no Cerrado, na Bahia, Pernambuco e Ceará. Sem camelos, que estarão extintos. Sem cachaça, que a cana de açúcar só poderá ser encontrada em museus biológicos.
- Por motivos óbvios, a energia solar será predominante. Mas antes disso, com usinas hidrelétricas inviabilizadas por falta d'água, os governos investirão em usinas nucleares.
- A capital Brasília terá sido abandonada há muitos anos por excesso de ar seco e risco de desidratação. Com o Brasil governado por milícias desde os anos 40 do século anterior, a capital mudou-se para um condomínio da Barra da Tijuca.
- Os políticos morarão em torres de 2km de altura construídas com verba de 2 trilhões em emendas parlamentares. O objetivo é evitar contato com o povaréu revoltado. Só se reunirão por meio de holografia. Eleições acontecerão de 15 em 15 anos. As urnas serão biotecnológicas. colherão o DNA do eleitor, mas a exigência secular do voto imprenso continua vigente.
- O Brasil continuará governado pela Dinastia Zero. O presidente da vez é o Capitão 036.
- A fome devasta a população apesar do programa do governo Auxílio Brasil, que distribui latas de Leite Moça e bolacha Maria em compra intermediada pela Covachin Br, a maior empresa brasileira, uma gigante centenária, fornecedora exclusiva do governo e famosa por ganhar todas as concorrências lançadas desde o distante 2020.
- Viveremos em uma teocracia neopentecostal. A guarda fundamentalista percorrerá as ruas punindo que não participa das três edições da "fogueira santa" diárias, quem não porta sua mochila com "óleo de Judá", "farofa de Nazaré" e o "cheaseburguer sagrado de Elias". .
- O novo Estatuto do Armamento permitirá a cada pessoa portar 15 fuzis de raio laser, 20 granadas de ulrtrassom, um aeromóvel de combate e andar com guarda pessoal formada por generais da reserva do histórico batalhão que leva o nome do heró nacional Augusto Heleno. .
- O asteroide atingirá o Brasil no dia previsto pela Nasa e exatamente na data em que desde décadas se comemora o Dia da Motociata Patriótica Voadora, a maior comemoração anual da Milícia Federativa do Brasil.
- A boa notícia é que em 2.135 o Brasil não será mais considerado República de Bananas. A designação não faz mais sentido. A banana está extinta desde o ano 2085.
- Bom fim de semana.
O lançamento de "Minha vida na Rede Manchete e algumas histórias da TV e do Rádio" acontecerá nesta sexta-feira, 13/08, a partir das 19h30, no restaurante Garota da Gávea, Praça Santos Dumont, Rio de Janeiro (RJ). Como pesquisador, Santoro também mantém viva a memória da Rede Manchete no site https://manchete.org/historia/ e em postagens do You Tube.
![]() |
| O exército brancaleone buscava um feudo, uma "boquinha!, digamos. Tudo |
![]() |
| O fumacê do blindado. Internautas sugerem que a Marinha se inscreva no quadro Lata Velha do programa de Luciano Huck, que reforma carros caidinhos. Foto: Reprodução Twitter |
![]() |
| Reprodução de foto de Omar Haj Kadour/AFP publicada na Folha de São Paulo em 10/8/2021 |
| Reprodução de foto de Omar Haj Kadour/AFP publicada no jornal El Comercio |
![]() |
| O que sobrou do carro Facel Vega de Albert Camus.. Foto de Jean-Jacques Levy. Reprodução Eurochannel |
“De todas as maneiras de morrer, a morte num acidente de automóvel é a mais absurda.” ALBERT CAMUS
![]() |
| Camus. Foto Reprodução |
A lista de Nogueira me levou imediatamente para a lista que venho elaborando nos últimos tempos sobre “cadáveres excelentes” em desastres de automóvel. Além dos escritores citados por Nogueira, um verdadeiro Quem-é-quem de notáveis do século 20:
Em sua arrojada coreografia final, em 1927, aos 50 anos, a dançarina Isadora Duncan, ao ser lançada para fora de um carro esporte aberto quando sua longa echarpe se prendeu à roda e quebrou o seu pescoço.
O cineasta alemão F.W. Murnau, às vésperas de lançar seu filme Tabu: em 1931, aos 42 anos, numa estrada da Califórnia em uma Rolls-Royce alugada dirigida por um criado filipino de 14 anos; James Dean em seu carro de corrida, também na Califórnia, em 1955, aos 24 anos; em 1961, aos 25 anos, ainda na Califórnia – na estrada de Las Vegas para Los Angeles, Belinda Lee, a “Loren britânica”; Jayne Mansfield, decapitada, em 1967, aos 34 anos, numa estrada da Louisiana; Françoise Dorleac – irmã de Catherine Deneuve, também atriz – tentando não perder o voo no aeroporto de Nice, carbonizada no carro alugado cuja porta não conseguiu abrir, em 1967, aos 25 anos; a musa maior do cinema pornô, Linda Lovelace, em 2002, aos 53 anos, em Denver, Colorado, onde morava há dez anos. Linda já tinha sofrido um desastre de carro em 1970, que lhe causou hepatite em consequência de uma transfusão de sangue; e um transplante de fígado em 1987.
Em Paris, os playboys do século: o príncipe Ali Khan, ex-marido de Rita Hayworth, em 1960, aos 48 anos; e, em 1965, aos 56 anos, o diplomata dominicano Porfírio Rubirosa – entre suas conquistas amorosas figuram Rita Hayworth, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Judy Garland, Kim Novak, a ex-Princesa Soraya, Evita Perón. Depois de passar a noite comemorando a vitória do seu time de polo na Copa da França, Rubirosa bateu com sua Ferrari numa árvore do Bois de Boulogne. Um dos maiores pintores do expressionismo abstrato, Jackson Pollock, alcoolizado, jogou seu carro contra uma árvore em 1956, aos 44 anos, numa inequívoca – e bem sucedida – tentativa de suicídio. A cantora de blues Bessie Smith, em 1937, aos 43 anos: teve o braço amputado depois de um acidente numa estrada do Sul dos EUA e sua morte, atribuída à demora no atendimento hospitalar por motivos racistas, inspirou uma peça de protesto de Edward Albee, A morte de Bessie Smith, em 1959. O trompetista de jazz Clifford Brown e o pianista Richie Powell, caíram de um viaduto na Pensilvânia , em 1956, num carro dirigido pela inexperiente mulher de Powell. Morreram todos. Clifford tinha 25 anos, Richie 24 e Ms. Powell 19. Em 1961, a sensação do contrabaixo no jazz, Scott LaFaro, do Bill Evans Trio, morreu num acidente em Flint, estado de Nova York, depois de acompanhar Stan Getz no Festival de Newport. Sua morte, aos 25 anos, deixou Bill Evans em estado de choque durante vários meses.
“Chora Estácio, Salgueiro e Mangueira, todo Brasil emudeceu, chora o mundo inteiro, o Chico Viola morreu...” SAMBA DE 1952, DE ANTÔNIO NÁSSARA E WILSON BATISTA
![]() |
| O enterro de Chico Viola. Reprodução Manchete |
Musa da bossa nova, a cantora Sylvia Telles escapou em 1964 com pequenas escoriações ao dormir no volante voltando de um show. Dois anos depois, quem dormiu ao volante foi seu namorado, Horacinho de Carvalho, na estrada de Maricá, e morreram os dois. Sylvinha, 32 anos, viajaria no dia seguinte para gravar um álbum em Nova York.
![]() |
| O carro Brasília que Maysa diriga. Foto Manchete |
Gonzaguinha nasceu condenado a viver à sombra do Gonzagão. Mas conseguiu abrir seu próprio caminho e tudo ia às mil maravilhas quando a morte o pegou na estrada para Foz do Iguaçu, onde pegaria um avião para um show em Florianópolis. Em 1991, aos 45 anos.
Em 1990, aos 19 anos, o filho de Gilberto Gil, Pedro, baterista promissor, morreu ao se chocar com uma árvore na Curva do Calombo, na Lagoa Rodrigo de Freitas; em 1998, morre aos 19 anos num desastre de carro no Aterro do Flamengo o filho de Tom Jobim, João Francisco Lontra Jobim.
Criador do mangue beat, Chico Science seguia em 1997 de Recife a Olinda quando foi fechado por outro carro e bateu num poste. Teria sobrevivido não fossem as falhas no cinto de segurança. A Fiat pagou dez milhões de reais à família, mas isso não trouxe Chico de volta. Tinha 30 anos.
Sertanejos vivem na estrada – e morrem também. Uma curva traiçoeira levou João Paulo. Sua canção favorita: Poeira da estrada.Sertanejos vivem na estrada – e morrem também: João Paulo, parceiro de Daniel, em 1997 , aos 37 anos, na Rodovia dos Bandeirantes, SP. Seu carro capotou várias vezes e pegou fogo, o cantor ficou preso entre as ferragens. Sua música favorita era Poeira da estrada. Cristiano Araújo, em 2015, aos 29 anos, em Goiânia: ele e a namorada, sem cinto de segurança no banco traseiro, foram projetados para fora do carro.
Integrante da dupla do funk Claudinho & Buchecha, Cláudio Rodrigues de Mattos, em 2002 aos 26 anos, ao volante de seu carro, bateu numa árvore voltando de um show em Seropédica, RJ.
Às vésperas do Natal de 1974, a atriz Adriana Prieto, aos 24 anos, depois de bater com seu fusca numa viatura da PM na Avenida Nossa Senhora de Copacabana e atingir a vitrine de uma butique. Apesar da pouca idade, fez dezoito filmes em seis anos de carreira.
Em 1998, o craque Edmundo chocou-se com outro carro na Lagoa Rodrigo de Freitas. Três pessoas morreram no acidente. Condenado por triplo homicídio culposo, obteve liberdade provisória e em 2020 a sentença prescreveu. Quase no mesmo local da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos craques mais promissores da nova geração, Dener, morreu aos 23 anos, asfixiado pelo cinto de segurança no banco do carona – o carro era dirigido por um amigo que dormiu ao volante. Também na Lagoa, a poucos metros, na antevéspera do Natal de 1987, morreu aos 44 anos o jornalista Paulo César de Araujo, num carro dirigido pela diretora de jornalismo da TV Globo Alice-Maria, que sofreu várias fraturas. PC, como era conhecido, tinha deixado recentemente a chefia de reportagem da revista Manchete para trabalhar na TV Globo.
Um dos luminares do glam rock, Marc Bolan, vocalista e guitarrista da banda T. Rex, em Londres, em 1977, aos 29 anos: um Mini dirigido pela namorada estourou o pneu e bateu numa árvore.
Um dos mais importantes filósofos da comunicação, Roland Barthes, em 1980, aos 64 anos, atropelado por um furgão de tinturaria em Paris.
Dono de um dos talk shows mais famosos da TV americana, compositor de oito mil canções, escritor e artista polivalente, Steve Allen morreu em 2000, aos 78 anos, em decorrência de um trauma nas costelas que não parecia grave. Um “barbeiro” atingiu seu carro numa marcha a ré desastrada. Allen, espirituoso e cordial, disse ao sujeito: “Veja só o que as pessoas são capazes de fazer para conseguir um autógrafo meu!...”
Ted Kennedy pôs fim à dinastia política de sua família num desastre mal explicado numa ponte de Massachusetts.| Ted Kennedy dirigia o carro em que Mary Jo Kopechne morreu. Reprodução |
Alexander Dubček, líder da Primavera de Praga, em 1992, aos 70 anos, num desastre de estrada perto de Humpolec. Barack Obama Senior, político queniano e pai do futuro Presidente dos Estados Unidos, em 1982 aos 48 anos. O automóvel perseguiu implacavelmente Obama Sr: um primeiro acidente, em 1970, o deixou com uma perna prejudicada; no segundo acidente, teve as pernas amputadas e no terceiro morreu.
Eden Ahbez, judeu americano do Brooklyn, primeiro hippie e vegano, vivia ao relento debaixo do primeiro L do famoso letreiro HOLLYWOOD em Los Angeles, quando sua composição Nature Boy se tornou um hit na voz de Nat King Cole. Ahbez viveu saudável até os 86 anos, mas não escapou às sequelas de um desastre de carro em Los Angeles, em 1995.
O terceiro homem a caminhar pelo solo da Lua morreu num banal passeio de moto na Califórnia.
Uma morte incomum: o terceiro homem a andar sobre a Lua, Charles “Pete” Conrad Jr, comandante da missão Apolo 12, morreu num passeio de motocicleta na Califórnia em 1999, aos 69 anos. A moto também participa ativamente desta carnificina. O roqueiro Duane Allman, da banda Allman Brothers, em Macon, Georgia, em 1971, aos 24 anos. Um ano depois, a três quadras do local do seu acidente, também numa moto, morre o baixista da banda, Berry Oakley, aos 24 anos. Foi sepultado ao lado de Duane, no cemitério de Macon. Escritor, compositor, cantor folk, ícone da contracultura, Richard Farina ia na garupa de uma moto que se acidentou em Carmel, California, em 1966. Tinha 29 anos. Outros roqueiros famosos também sofreram acidentes de moto: Bob Dylan, Billy Joel, Billy Idol, Ozzy Osbourne, Steven Tyler, Mark Knopfler.
Um detalhe curioso: a moto em que morreu Lawrence da Arábia foi presente da mulher de George Bernard Shaw. Outro: o neurocirurgião que pesquisou a morte de Lawrence se tornaria o pioneiro do capacete de proteção.
E a bicicleta? Em 2014, no Central Park de Nova York, o roqueiro Bono, do U2, caiu ao tentar se desviar de outro ciclista. Fraturou a omoplata, o úmero, a órbita ocular e o dedo mínimo. Numa cirurgia de cinco horas recebeu três placas metálicas e 18 parafusos. Por muito tempo, Bono pensou que jamais voltasse a tocar guitarra.
A cultura sempre glamurizou o carro. Já nos anos 1920 o italiano Filippo Marinetti, autor do Manifesto Futurista, afirmava: “O esplendor do mundo se enriqueceu com uma nova beleza, a beleza da velocidade: um carro de corrida é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.”A pintora maior do estilo art déco, Tamara de Lempicka, celebrou o automóvel em 1929 no famoso autorretrato Tamara numa Bugatti verde.
O automóvel tem presença tão marcante no cinema que chegou a criar um gênero: o chamado road movie
No primeiro filme de Steven Spielberg, Duel/Encurralado, um homem que viaja sozinho de carro sofre a perseguição implacável de um grande caminhão dirigido por um motorista sem rosto. Com a sofisticação da “sétima arte”, surgem os “road movies”, filmes que se passam quase todos sobre quatros rodas (às vezes duas, como os Diários de motocicleta, de Walter Salles, que levaram Coppola a escolher o brasileiro para dirigir o clássico estradeiro On the Road, baseado no romance de Jack Kerouac.) Wim Wenders fez Paris, Texas, em que o protagonista passa a maior parte do tempo percorrendo a pé as estradas poeirentas da América. Entre meus favoritos estão o noir Detour/Curva do destino (1945), de Edgar Ulmer; o febril Vanishing Point/Corrida contra o destino (1971), de Richard Sarafian; o feminista Thelma e Louise, de Ridley Scott; e Il Sorpasso/Aquele quer sabia viver de Dino Risi, de 1966, com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant. De uma dinastia de pilotos de corrida, Trintignant também foi corredor, campeão em sua categoria no Rally de Monte Carlo, e herói romântico de Um homem, uma mulher, ao volante do seu bólido de Fórmula-1. (Não vou entrar nisso aqui, mas o automobilismo esportivo [!] é uma rica arena em estatísticas mortais, não só de pilotos, mas de uma quantidade de inocentes espectadores.)
Entre as cenas de perseguição antológicas estão as de Bullitt, nas ruas de San Francisco, e Operação França, nas ruas debaixo do metrô elevado de Nova York. Também em Nova York, entrou para a história a cena surreal de Al Pacino, um cego, dirigindo loucamente em Perfume de mulher. O filme de perseguições de 2001, Velozes e furiosos, criou uma espécie de franquia que já chegou a nove filmes. Um de seus atores, Paul Walker – numa espécie de macabro marketing involuntário, morreu em 2013, aos 40 anos, num Porsche que bateu num poste, numa árvore e pegou fogo. Houve rumores de que Walker estaria participando de um racha.
As histórias de Stephen King estão cheias de carros. Em Christine, o carro assassino, ele levou a alegoria ao pé da letra. Em Pet Sematary/O cemitério, uma família se muda para uma casa à margem de uma autoestrada trafegada por grandes caminhões e o filho morre atropelado. Em Misery/Louca obsessão um escritor de sucesso, depois de um grave acidente de carro, é socorrido por uma fã que o mantém sob cativeiro para obriga-lo a escrever o próximo romance do jeito que ela quer.
Em 1999, o destino deu o troco: um homem que dirigia sozinho, importunado por um cão solto dentro da sua van, atingiu Stephen King pelas costas enquanto ele caminhava no acostamento de uma estrada perto de sua casa. O autor de 52 anos sofreu traumatismo craniano, fraturas múltiplas e perfurações num pulmão. Foi submetido a três cirurgias. Quase impossibilitado de trabalhar, King pensou em parar de escrever em 2002, mas acabou reconsiderando a decisão.
Em 1996, um filme polêmico, Crash – Estranhos prazeres, revelou o mundo dos simforofílicos – pessoas sexualmente excitadas por desastres de carro. Dirigido por David Cronenberg, recebeu em Cannes o Prêmio Especial do Juri, cujo presidente, Francis Ford Coppola, anunciou o premiação pela originalidade, ousadia e audácia”. Cito a sinopse pela Wikipedia: “Um acidente de trânsito envolve um publicitário e um casal, cujo marido morre e a mulher fica em estado grave. Quando se recupera, ela e o publicitário se tornam amantes e conhecem grupo de pessoas cujo fetiche sexual é reconstituir acidentes automobilísticos sem nenhuma segurança, aumentando a excitação de todos. O publicitário e a mulher acabam descobrindo um novo prazer, e o sexo passa a ser mais frequente dentro de carros acidentados.
O conceito da linha de montagem da Ford transformou os operários em robôs décadas antes da robotização das indústrias.| A linha de montagem da Ford foi pioneira na indúsria. |
O fordismo assumiu até ares doutrinários. Edsel Ford, filho de Henry, contratou em 1932 o mexicano Diego Rivera para pintar uma série de afrescos gigantescos glorificando os métodos de produção da Ford, o que levou Diego e sua mulher, Frida Kahlo, a passarem dois anos em Detroit. Vale salientar que Frida não teria se tornado pintora – e o maior fenômeno de culto a um artista, superando até Marilyn Monroe, e ganhando projeção ainda maior no século 21 – se não tivesse sofrido aos 18 anos um terrível acidente de ônibus, abalroado por um bonde na capital mexicana. Nos longos meses de convalescença, ela desistiu da carreira médica e voltou à pintura, que a tornaria famosa e na qual o desastre de ônibus seria um leitmotiv, em telas ostensivamente autobiográficas expondo seus ferimentos e os coletes e aparelhos ortopédicos que usaria pelo resto da vida.
O aspecto religioso do fordismo é satirizado em 1932 por Aldous Huxley na sua distopia Admirável mundo novo, que se passa no ano de 632 DF (Depois de Ford). Em vez de Our Lord (Nosso Senhor), é usada a expressão Our Ford e a cruz católica é substituída pelo T, de Tecnologia.
A cada 24 segundos o carro mata uma pessoa na terra. Quantas vão morrer no ar com o novo “carro voador”?
A primeira morte de uma pessoa num acidente de automóvel foi a da irlandesa Mary Ward, 42 anos, naturalista e astrônoma. Em 31 de agosto de 1869, passeando nos arredores de Dublin num automóvel a vapor, fabricação caseira de um primo, foi jogada para fora do veículo numa curva e esmagada pelas rodas do carro.
A primeira pessoa a morrer atropelada por um carro foi a também irlandesa Bridget Driscoll, 44 anos, atingida por um automóvel que fazia uma demonstração no Crystal Palace de Londres, em 17 de agosto de 1896.
No cipoal das estatísticas sobre acidentes de carros na internet, não encontrei uma resposta simples para esta pergunta: quantas pessoas morreram até hoje em desastres de carro? Mesmo porque – segundo estatística recente – a cada 24 segundos morre alguém em decorrência dessa causa.
Cito um informe da Organização Mundial da Saúde que dá uma ideia da imensidão do problema:
“De acordo com o Global status report on road safety 2018, lançado em dezembro de 2018, as mortes nas estradas continuam aumentando em todo o mundo e mais de 1,35 milhão de pessoas perdem a vida todos os anos em decorrência de acidentes de trânsito, o que significa que, em média, morre uma pessoa a cada 24 segundos. O documento revela ainda que as lesões causadas pelo trânsito são hoje a principal causa de morte de crianças e jovens entre 5 e 29 anos.”
A conclusão é arrasadora: desde que passou a ocupar o espaço das ruas – os primeiros carros já circulavam na segunda metade do século 19 – o automóvel já matou mais gente do que todas as guerras, os genocídios, atentados terroristas, as pandemias e outras causas somadas.
| Representação artística do eVtol da Embraer. Imagem de divulgação |
•“Startup está perto de por o eVTOL* no ar” (*eVTOL = electric vertical take-off and landing)” • “Embraer forma parceria para desenvolver mercado de ‘carro voador’ na América Latina” • “Azul aposta em ‘carro voador’ para competir com helicóptero”.
Parabéns, bravos empreendedores! Como se não bastassem os acidentes de automóvel em terra, agora vão provoca-los também nos ares...
![]() |
| A capa do livro e o trecho que relaciona a revista com tocaia a Noratinho, o sargento que matou Lampião |
| New York Times ficou nervoso porque os russos mesmo punidos estão em Tóquio. |
Corr
|
![]() |
| L'Equipe também não adota o eufemismo. ´É Rússia. |
A Olimpíada é um evento fascinante. Uma pausa agradável em meio a conflitos e interesses de países, não importa a ideologia. Para todos é questão estratégica do tal soft power. O público em geral, uma audiência de bilhões de pessoas, se liga na TV, redes sociais e demais meios de comunicação para curtir apenas o Esporte.
À margem dos Jogos, a política sempre esteve e está presente. A visibilidade proporcionada pelos atletas costuma sofrer um sequestro por parte de chefes de governo e Estados. Dê como certo que em breve veremos uma ofensiva política por parte do governo brasileiro para receber atletas medalhados em Tóquio.
Meios de comunicação também extraem significados geopolíticos em torno das Olimpíadas. Fora do ambiente esportivo denúncias barulhentas, forças-tarefa do tipo Lava-Doping, disputas entre cartolas e acusações de suborno eventualmente permeiam algumas edições dos Jogos.
É curioso observar como, às vezes, a cepa da política contamina sutilmente o jornalismo. Os meios de comunicação estadunidenses têm, por exemplo, um modo próprio e ultra patriota de contar as vitórias. Se os EUA perdem em ouros mas ganham no total de medalhas, os quadros publicados registram em primeiro lugar a soma dos pódios dourados mais a prata e o bronze; se, em algum momento, os EUA passam a totalizar mais ouros, a tabela é modificada e o primeiro lugar passa a ser do país que alcançou mais vezes o degrau mais alto do pódio, desde que esse pais seja os EUA. Eles se lixam para o padrão tradicional de contagem do Comitê Olímpico Internacional. A mídia brasileira por enquanto não adotou tal critério.
Outra anomalia surgiu agora em relação aos atletas da Rússia. As equipes foram envolvidas em um rumoroso escândalo de doping em grande escala, segundo investigação promovida pela Agência Mundial Antidoping com apoio dos Estados Unidos. Sofreu uma mega e inédita punição. Sentenciada em 2016 e agora, além de afastada da Copa do Catar (2022) e das Olimpíadas de Inverno na China, 2022 (não será surpresa se o caso for requentado e venha nova punição para a Rússia nos Jogos de Paris, em 2024), o país de Putin compete como Comitê Olímpico Russo, sem bandeira nacional e sem hino. Ouve-se Tchaicovsky na hora do pódio. O que, aliás, é ótimo. Foi a maneira que o COI encontrou para preservar os atletas ditos "limpos" e não lhes tirar o direito de competir. The New York Times e Washington Post não gostaram disso e analisam que a punição não valeu já que os russos permanecem visíveis e ainda por cima estão ganhando muitas medalhas. A "narrativa", como dizem os bolsonaristas, pegou. No Brasil, O Globo publicou editorial protestando contra o arranjo do COI e só se refere aos atletas como do Comitê Olímpico Russo (ROC na siglas em inglês). Veículos da França e da Itália, entre outros, não seguem a cartilha de Washington. Para eles, russos são russos.
Em Tóquio, restou aos atletas russos cantarem We will ROC you. Uma irônica paródia do clássico We will Rock You.
Vem mais aí. Como sede da próxima Olimpíada de Inverno, a China pode ser alvo de boicote. É o que recomenda oficialmente a União Europeia, embora deixe a cada país a decisão de ir ou não a Pequim.
Como se vê, a geopolítica não vai deixar de invadir o pódio dos atletas. Melhor seria a política virar logo modalidade. Daria grande audiência ver Biden, Macron, Boris Johnson, Xi Jinping, Putin etc disputando luta romana, por exemplo. É luta de contato intenso. No mínimo, conheceriam uns aos outros. Bem intimamente.
![]() |
| José Ramos Tinhorão. Foto Instituto Moreira Salles/Divulgação |
Num século em que a música popular se enriqueceu através de fusões internacionais, aceleradas pelo advento do rádio, do cinema e dos discos, Tinhorão ainda se apegava à ideia do nacionalismo cultural. Por esse critério, ele cancelava a arte de um Johnny Alf, por ter adotado um codinome ianque (sic), e a de Baden Powell, por homenagear com seu nome o criador do escotismo.
Inimigo ferrenho da bossa nova, que definia como “uma versão pasteurizada do jazz”, Tinhorão dizia ter pena de Tom Jobim, “porque ele imagina que está compondo música brasileira”. Ficou famoso o líde de um texto seu para a revista Senhor em 1963: “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música americana que é, inegavelmente, sua mãe – a bossa nova, no que se refere à paternidade, vive até hoje o drama de tantas crianças de Copacabana, o bairro em que nasceu: não sabe quem é o pai”.
Nascido em Santos, filho de português, José Ramos teve o Tinhorão acrescido ao seu nome na redação do Diário Carioca nos anos 50. Explicação: o tinhorão é uma planta altamente venenosa. Recorro aos compêndios:
“O tinhorão (nome científico Caladium bicolor) é considerado uma planta muito tóxica, devido à presença de cristais de oxalato de cálcio e saponinas em suas folhas. O contato destas substâncias com os olhos, mucosas e pele pode provocar intensa ardência, inflamação e vermelhidão. A ingestão pode provocar edema de glote e consequente asfixia e morte.”
No auge de suas investidas contra a bossa, Tom Jobim plantou um pé de tinhorão em seu jardim, no qual fazia pipi religiosamente toda noite antes de dormir.
Conheci Tinhorão de perto em 1968, quando ele foi trabalhar na editoria da Veja que eu chefiava, a de Artes e Espetáculos. Nunca entendi como um jornalista opiniático da sua cepa foi contratado por uma revista que pretendia implantar no Brasil o jornalismo objetivo da Time. Na verdade, Tinhorão chegou à minha editoria transferido da de Vida Moderna, com a qual se incompatibilizara. Uma coisa foi consenso na Veja: o Tinhorão não poderia nunca escrever sobre música. Principalmente no momento em que a bossa fazia o seu nome lá fora, com Sinatra gravando Jobim, e em que a Tropicália desfraldava a bandeira multicolorida da contestação. Não tive outra opção: escalei-o para responder as cartas dos leitores. Lembro-me do Tinhorão numa das “baias” da redação, discursando sobre o materialismo dialético e tentando doutrinar os jovens repórteres, entre eles Tárik de Souza, que se tornaria importante crítico musical.
Guardei um episódio pitoresco daqueles tempos. Uma das raras coisas ianques que Tinhorão tolerava – na verdade, adorava – eram os carrões. Mal começou a trabalhar em Veja, comprou um daqueles modelos vintage. Antes de chegar à redação, no prédio da Abril na Marginal do Tietê, costumava navegar lentamente pelas ruas da Lapa. Um belo dia, um coronel do Exército se apresenta na portaria da Veja com uma grave queixa: um funcionário da revista estaria assediando sua nora, seguindo-a insistentemente de carro ao longo das calçadas. Nunca ficou provado que o agressor seria de fato o nosso José Ramos, embora um desafeto tivesse trazido à baila que o Tinhorão foi personagem da peça de Nelson Rodrigues Bonitinha, mas ordinária, um sujeito metido a conquistador.
Figura polêmica, uma coisa ninguém poderá tirar de José Ramos Tinhorão: a importância cultural de livros como Pequena História da Música Popular, História Social da Música Popular Brasileira e A Música Popular no Romance Brasileiro. Num comentário contra a Universidade de São Paulo, ele ironizou um dia: “Eles comem Tinhorão e arrotam Mário de Andrade”. E não é que tinha razão?
- É massa!
A curiosa gíria baiana remete a uma coisa legal, bonita, bacana. Uma boa música é massa! Um acarajé bem apimentado é massa! A skatista Rayssa é massa! Rebeca é massa!
Para os ex-funcionários da Bloch Editores, essas são, ao contrário, as cinco letras que choram, como dizia um antigo samba.
Neste agosto a Massa Falida da Bloch Editores completa 21 anos. O drama de milhares de ex-funcionários e suas famílias alcança uma triste maioridade.
Você já leu neste blog muitas matérias sobre o assunto. Também já foi dito aqui que massas falidas são empresas sob administração judicial e, em geral, são autofágicas. Consomem suas próprias entranhas. A autofagia, como se sabe, se realiza quando as células se mobilizam para eliminar as toxinas que envelhecem os corpos. Esse processo, a autofagia, tenta retardar ao máximo o envelhecimento e ganhar vida longa.
Assim são as massas falidas.
A MF da extinta Bloch Editores não é diferente.
É fato que ao longo de pouco mais de duas décadas a maioria dos trabalhadores habilitados recebeu os valores principais das indenizações. Também é fato que muitos foram levados a fazer "acordos" que reduziram esses valores. Posteriormente, segundo relatos de jornalistas que trabalharam na Bloch, receberam parte da correção monetária devida sobre o montante daquelas indenizações. Contudo, esses pagamentos, chamados "rateios", foram suspensos há cerca de cinco anos. Outro grupo de ex-funcionários da Bloch, numericamente menor, permanece habilitado aguardando ainda o pagamento dos valores chamados principais a que tem direito. E um terceiro grupo - daqueles ex-funcionários da Bloch que indicaram ter funções na Rede Manchete - optou por entrar com ações trabalhistas contra a TV Ômega, a adquirente das concessões das emissoras. A Ômega chegou a pagar indenizações a muitos ex-Bloch, mas quando a Justiça determinou que a empresa que controla a RedeTV não era sucessora da TV Manchete e muito menos da Bloch Editores a conta de muitos e muitos dígitos - apenas um desses "boletos" está em torno de R$ 4 milhões - foi espetada no caixa da Massa Falida da Bloch Editores.
A legitimidade e o volume dos custos da MF da Bloch. as disputas jurídicas, não estão em questão aqui. O que se constata é o que o tempo consumiu e consome dos bens destinados a garantir os direitos plenos dos credores trabalhistas. E o quanto esse mesmo tempo impactou os ex-funcionários, suas famílias, seus herdeiros.
Por fim: há meses ex-funcionários da Bloch pedem ao administrador da Massa Falida da Bloch Editores uma reunião para discutir a quitação da correção monetária e das indenizações trabalhistas ainda pendentes. Você recebeu uma resposta? Nem eles.
21 anos? Isso não é massa! (J.E)