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| Rio: com Temer a bordo, o helicóptero presidencial sobrevoa o "campo de batalha". Foto Alan Santos/PR |
por Flávio Sépia
Não se fala em outra coisa. As Forças Armadas nas ruas do Rio. Não é a primeira vez, provavelmente não será a última. Depois do fracasso das UPPs, os bandidos partiram de vez para um blitz pra cima da cidade. Explosão de caixas bancários e roubos de cargas para fazer caixa para o tráfico. Ao mesmo tempo, os chefões soltaram seus 'cães' nas ruas para arrastões, assaltos, assassinatos de policiais.
O Rio tem mais de 600 favelas, cada uma delas é território dominado por traficantes bem armados que há anos oprimem a maioria dos moradores enquanto cooptam alguns. São as Aleppos cariocas.
Não é fácil resolver isso, hoje, com as fortalezas já montadas e armadas. Muitos argumentam que a solução não passa apenas pela questão policial, que é preciso levar a cidadania às áreas carentes. E isso é verdade. O problema é como levar escolas, saneamento, saúde, serviços a locais onde a lei só entra se for conduzida por carros blindados. Escolas têm seus equipamentos roubados; UPAs nas proximidades de determinadas favelas são "vetadas" a moradores de outros locais. "Alemão" não entra, diz o traficante, e fica por isso mesmo. É trágico reconhecer, mas o fato é que o Estado, mesmo que queira, não tem condições de levar aos redutos do tráfico os serviços que as populações locais precisam. Mesmo conjuntos habitacionais populares se rendem à lei do tráfico e não raro criminosos expulsam proprietários e se apropriam de casas e apartamentos. É possível serviços públicos conviveram com o tráfico na favela ou a cidadania só vai entrar quando o tráfico for retirado? E a situação se agrava diante de informações de que redutos de traficantes já influem em eleições, com apoio a candidatos escolhidos.
As ações da PM do Rio de Janeiro são, como oficiais reconhecem, "enxugamento de gelo". Não apenas porque para cada traficante preso logo aparece um substituto como mesmo aquele encarcerado monta estrutura de comunicação para continuar dando ordens. Isso quando fica realmente preso, porque a rotina é ganhar algum benefício, descolar uma condicional ou progressão de pena e logo voltar ao batente.
A atual operação conjunta, embora com um claro viés político do acossado governo Temer, promete agir pelo lado da "inteligência". Será? Isso incluiria rastrear as enormes somas de dinheiro que circulam entre o asfalto e a favela para a compra de droga e armas, identificar os bens oriundos do lucros do tráfico e sufocá-lo não apenas militarmente mas financeiramente. É o que os cariocas esperam. Eliminar os redutos do tráfico teria como efeito imediato a diminuição dos "crimes de ruas" hoje coligados. Vai acontecer? Difícil especular. E ainda faltaria o mais importante: o Brasil discutir seriamente a política de combate às drogas, ver a questão do ponto de vista da saúde, debater a legalização? Há modelos em andamento no Uruguai, nos Estados Unidos, na Europa.
As Forças Armadas ficaram pouco mais de um dia nas ruas, apareceram no JN e quase sumiram no dia seguinte segundo O Globo constatou ao percorrer zonas perigosas do Rio, à noite.
Apesar disso, imagens da TV mostram cariocas tão carentes por segurança aplaudindo os militares com a esperança de que a operação não seja cenográfica.
Já tem gente achando que Temer é o novo Churchill e o ministro Jungmann é Montgomery reencarnado.
Um porta-voz falou que os soldados "precisavam descansar". Bom, parece-me que o Ministro da Defesa tem usado expressões de combate, do tipo "golpear", "sufocar" etc. Mas, peraí, em uma guerra soldado descansa ou é substituído por tropa descansada? Temer fez um voo de helicóptero sobre o Rio, pegou alguns releases da assessoria e garantiu que os índices de criminalidade já haviam diminuído. Horas depois os bandidos fizeram arrastões, roubo de carga e incendiaram uma viatura policial, só pra contrariar. Está claro que não é uma "guerra". Até porque nesse dificilmente combatentes entrarão na briga de cachorro grande que é tomar território, uma das premissas das batalhas.
Outra autoridade falou que neste 1° de agosto só metade dos soldados foi pra rua porque é dia de "volta às aulas". A operação não quis tumultuar a cidade. Se é assim, o Brasil, se um dia for ao campo de batalha, vai acabar inventando a guerra de meio-expediente, de feriado e dias santos. Tente entrar em uma favela a qualquer hora do dia ou da noite. As sentinelas do crime não descansam, vai ter sempre um pelotão de olheiros se revezando pra defender o reduto conquistado. E não param em dia de aula. Ao contrário, fazem a aula parar.





































