sábado, 29 de julho de 2017

Bloch Editores: há 17 anos, a falência, o drama, a humilhação e a luta dos ex-funcionários


por José Esmeraldo Gonçalves

Acho que ninguém mais confere data em  "folhinha". Mas veja no calendário do seu celular: o próximo dia 1.º de agosto 'cai' numa terça-feira.

Foi também em uma terça-feira, há 17 anos, o 1.° de agosto mais dramático nas vidas dos ex-funcionários da Bloch Editores.

Ao longo da década de 1990, a Rede Manchete, do mesmo grupo, enfrentou grave crise. Foi vendida, devolvida, vendida de novo, voltou à Bloch e, afinal, foi comprada definitivamente por empresários paulistas, em 1999.

Se o fechamento da editora de revistas fundada em 1952 parecia àquela altura inevitável, tantas as dívidas, talvez a venda da TV injetasse alguma esperança, pensaria um otimista.

Mas, como disse Millor Fernandes, "o otimista não sabe o que o espera". Nem o pessimista, acrescento.

Há muito eram tensos os dias no prédio da Manchete na Rua do Russell. E, naquela manhã de terça-feira de agosto de 2000, a atmosfera estava mais pesada do que nunca. Talvez nem o mais pessimista entre aqueles que estavam no meio do furacão da Bloch esperasse o que estava por vir. Não naquela intensidade e nível de vexame.

Em questão de minutos, um "comando" bem treinado de oficiais de justiça percorreu os andares e ordenou que os funcionários que ainda estavam nos seus postos de trabalho abandonassem o local, levando seus pertences, e fossem literalmente para a rua após passar por uma humilhante e minuciosa revista. Não foram poucas as lágrimas que desceram de elevador.

Em depoimento no livro "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou" (Desiderata), o coordenador de reportagem José Carlos Jesus recordou aquela terça-feira sombria:
“Quando o telefone da minha mesa tocou, me veio um estranho pressentimento. Tive a certeza de que aquela ligação estava me trazendo alguma coisa de muito grave. Do outro lado da linha, a voz, um tanto autoritária, logo confirmou. A ordem era que juntássemos todos os nossos pertences e nos retirássemos da sala e deixássemos o prédio o mais rápido possível. Só nos restava obedecer. Foi o que fizemos. A Bloch acabava ali. Para aqueles profissionais, uns, como eu, com trinta anos de trabalho, outros com quarenta, era o ponto final de um longo tempo de dedicação a uma empresa que já fazia parte da nossa vida, do nosso corpo e da nossa alma. Levei algum tempo para administrar o choque. ‘E agora?'”.

Bloch Editores: abandonada
às pressas em um triste 1° de agosto de 2000.
Há 17 anos... Foto bqvMANCHETE
Quem viveu aquela cena que não deixou selfies jamais a esquecerá. Anos depois, algumas fotos mostraram o que restou após o vendaval que varreu vidas profissionais e objetos que eram parte daquele que foi um dos maiores grupos de comunicação do país.

São imagens que dão uma ideia do que ficou para trás além das memórias.

Nos anos seguintes, os mais novos foram à luta e reconstruíram suas carreiras, outros não tão jovens, experientes, tentaram se adaptar a novos modelos e tecnologias ou descobriram alternativas fora do ofício e um número expressivo de antigos funcionários, os mais idosos, principalmente, passou a viver dias difíceis. Para muitos e saudosos colegas, difíceis e últimos.

José Carlos Jesus conta que o choque persistiu por meses. Processos de falência costumam ser longos e exasperantes para quem depende da quitação dos seus direitos. A legislação brasileira permite, infelizmente, que massas falidas se arrastem e acabem praticando autofagia. Quanto mais tempo levam mais consomem os bens que deveriam garantir suas dívidas. Era do conhecimento de todos que a Bloch Editores dispunha de um patrimônio importante e capaz de atender aos credores prioritários, que são os ex-funcionários. Mas nada atestava que tal patrimônio seria uma garantia irrefutável para o justo resgate dos direitos trabalhistas ou que a burocracia não o consumiria vorazmente.

Quem disse que pedra no caminho é apenas um verso de Drummond?

Ao mesmo tempo, sabia-se dos imprevistos e sombras que podem afetar e postergar um processo daquela magnitude. E a inércia e omissão dos principais interessados não ajudariam a torná-lo mais rápido e transparente. Coube a José Carlos propor iniciativas para acompanhar o desenrolar das ações da Massa Falida da Bloch Editores.

Por sugestão da Juíza da 5.ª Vara Empresarial da Comarca da Capital, Maria da Penha Nobre Mauro, foi formada uma comissão de ex-funcionários para tornar mais efetiva a comunicação entre os credores trabalhistas e aquela instância. Designado presidente da Comissão dos Ex-Empregados da Bloch Editores (CEEBE), José Carlos passou a se inteirar das etapas do complexo processo, promover assembleias regulares no Sindicato do Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, reunindo centenas de ex-funcionários, e a conduzir diplomaticamente as reivindicações do grupo - cerca de 2.500 pessoas -  junto ao Juízo, ao Síndico da MFBloch e ao Ministério Público.

José Carlos sempre registra como fator decisivo para as conquistas dos ex-funcionários ao longo de 17 anos o respeito, a abertura ao  diálogo, a sensibilidade sob o rigor da lei e o preciso senso de justiça da Dra. Juíza Maria da Penha Nobre Mauro.

Ao lado dos diretores da CEEBE, como Nilton Rechtman e Jileno Dias, e com a força participativa dos demais ex-funcionários da Bloch, o esforço resultou em vitórias: o recebimento do valor “principal” das indenizações, em 2009, três rateios da correção monetária, em 2012, 2013, 2014.

Contudo, o trabalho da CEEBE não terminou: há processos trabalhistas não concluídos, a MFBloch não encerrou a quitação da correção monetária devida aos processos findos, há bens da Bloch ainda a leiloar, houve derrotas na Justiça, com a MFBloch assumindo discutíveis responsabilidades de outras empresas, sem falar que determinados bens de legítima propriedade da editora destinados à quitação das dívidas, sendo a trabalhista prioritária, são frequentemente alvos de investidas por parte de terceiros.

Esse 1.° de agosto de 2017, 17 anos depois, sinaliza duas coisas aos ex-funcionários da Bloch:

- a burocracia dos processos de falência agride direitos trabalhistas, é desumana;

- quem quiser justiça que faça barulho e fique atento e forte. Apenas esperar não vai resolver seu problema.

10 comentários:

Vera Gertel disse...

Muito bom Esmeraldo. Parabéns pelo texto e pela lembrança. Sim, foi trágico e continua sendo.
Quantos de nossos colegas já se foram esperando por uma reles indenização que sequer a família
pode receber. A Justiça é cara e lenta, como costumam dizer alguns advogados. Tão lenta que mata. Não queremos nos fazer de vítimas agora dessa Justiça que não acontece. Queremos que ela se apresse, honre os salários altos que ganham seus juízes e procuradores. O que acontece dentro dela? Poucos o sabem. Sobretudo num processo de falência. O que posso dizer agora é:
NÃO ESQUECEREMOS!
Vera Gertel.

bqvMANCHETE disse...

Mensagem enviada por Regina Baroni, via email, para José Carlos Jesus:

"Boa noite, amigo. Uma data muito triste de recordar , mas continuaremos lutando.
Bjs"

bqvMANCHETE disse...

Mensagem enviada por Roberto Muggiati, via email:
"Valeu, Esmeraldo
Preciso em todos os sentidos!
Um abraço"

Esmeraldo disse...

Olá Vera, obrigado. É certeiro o seu comentário quanto ao tempo absurdo do processo de falência, muita despesa burocrática e mesmo assim não foram efetivados todos os direitos que a lei garante aos trabalhadores. Que siga a luta de todos, bjs

Luiz Carlos Guidini disse...

“Quando o telefone da minha mesa tocou, me veio um estranho pressentimento...” O mesmo aconteceu comigo e, tenho certeza, que com aqueles que à época exerciam algum cargo de chefia. Fomos todos, de alguma maneira, surpreendidos. José Carlos é impossível não ficar emocionado. Já se passaram alguns anos, mas as lembranças estão vívidas. Lembranças dos dias de trabalho, dos amigos e companheiros, do “cheiro de gráfica”. Adolfo Bloch teria dito que nas veias de um gráfico não corre apenas sangue, mas também tinta. Saudades.
Em 2012 entrei no que fora o maior parque gráfico da América Latina. Chorei. Chorei ao ver o que o tempo e a incompetência (?) fizeram àquelas instalações. Fiz algumas fotos do que ainda restava. A seção que chefiei por alguns anos não tinha mais nada, apenas um silêncio fúnebre. Algumas paredes ainda guardavam resquícios dos dias de trabalho: avisos, placas, observações. No pátio, outrora cheio de vida, agora só escombros; um amontoado de entulhos impedia o livre caminhar. A torre da caixa d’água, um projeto de Oscar Niemeyer, no chão.
A Manchete, que sintetizava o que eram as empresas Bloch, não merecia um fim tão cruel.
Lindo o texto do Esmeraldo; trabalho de quem viveu na pele toda aquela angústia. Parabéns!

bqvMANCHETE disse...

Mensagem enviada por Marzullo, via email para José Carlos Jesus

"Zé e José Esmeraldo só tenho a dizer muito obrigado por lembrar que nós ainda existimos."

Isabela disse...

Não digo que seja o caso, mas massas falidas se eternizam porque acabam criando todo uma estrutura bem remunerada e nesse caso a pressa não interessa.

Edméia Z. Antunes disse...

Quem ficou com os programas da TV Manchete? Eu gostava do Bar Academia, bom em mpb

Marco Antonio Cozendei disse...

Valeu amigo por tudo que você fez pelo o grupo é ainda faz.e o que você falou tem que fazer barulho.

ubirajara marques disse...

Valeu amigão, por tudo que você fez e está fazendo, eu estava lá neste dia me chamo Ubirajara Marques e estava trabalhando na área de computação PRE-PRESS, foi muito triste mesmo. eu entrei na bloch em lucas no ano de 1966 sempre vesti a camisa da empresa, nosso diretor era o sr.Berlini. quanto tempo... época boa... Fiquem com Deus.