sexta-feira, 16 de setembro de 2022

É HOJE: LANÇAMENTO DO LIVRO "1979 - O ANO QUE RESSIGNIFICOU A MPB" - ÁS 19 HORAS NA LIVRARIA DA TRAVESSA, LEBLON

 


Virou meme: o erro de Bolsolnaro ao assinar o livro de condolências da Rainha Elizabeth II.

 


Segundo Bolsonaro, a rainha deixa um legado de 'estabelidade".  

Frase: modo Suassuna de viver

 

D'après Pablo Moraes

Fotografia: Elizabeth segundo Leibovitz: pompa e circunstância


Elizabeth II, solene, no Palácio de Buckingham em 2007
fotografada por Annie Leibovitz


Em 2016 a rainha recebeu a fotógrafa no Castelo de Windsor.
Mais descontraída, posou ao lado dos seus adorados cães da raça corgi.
Foto de Annie Leibovitz


Após a sessão de fotos, Annie Leibovitz e a rainha passeiam
no jardim do Castelo de Windsor. Foto de Kathryn MacLeod



O site da Vogue americana publica um álbum de fotos de Elizabeth II. Não é uma coleção qualquer . São imagens de Annie Leibovitz, que foi convidada a fotografar a rainha duas vezes: em 2007 e em 2016. As fotos também estão disponíveis no Instagram oficial @theroyalfamiliy.

Leibovitz escreveu em seu livro At Work, de 2008, “Tudo bem para mim ser reverente. Os britânicos estão em conflito sobre o que pensam do monarca. Se um retratista britânico é reverente, ele é percebido como apaixonado. Eu poderia fazer algo tradicional.”

Leibovitz fez fotos conservadoras, principalmente as de 2007, quando a fotógrafa teve apenas 25 minutos para retratar a soberana. A rainha parecia apenas cumprir seu papel de posar como parte do dever de public relations dos royals. A produção fotográfica nos ambientes do Palácio de Buckingham é solene, com pompa e reverência. Leibovitz teria preferido o cenário do Castelo de Windsor, o que só lhe foi concedido no segundo ensaio, em 2016, quando Elizabeth surge serena e receptiva.   


VEJA O ÁLBUM COMPLETO NO SITE DA VOGUE, AQUI

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Mídia - A verdade inconveniente - Leia no UOL (link) - Milly Lacombe escreve sobre Vera Magalhães

por  Milly Lacombe 

Colunista do UOL 15/09/2022

Vera Magalhães virou alvo da violência Bolsonarista. Não são lobos solitários que investem contra o corpo e a dignidade da jornalista. São agentes bem orientados por um tipo de lógica de morte que há mais de quatro anos controla esse país em todos os níveis. O Bolsonarismo precisa da violência de gênero como um vampiro precisa de sangue. Esse é um dos pilares que estruturam a sociedade que bolsonaristas querem erguer. 

Bolsonaro tem, mais do que um plano de governo, um projeto de sociedade. Nessa sociedade bolsonarista, homens andam armados, mulheres se curvam. Homens mandam, mulheres obedecem. Nesse projeto de sociedade, florestas viram pó, corrupção tá liberada (chamam rachadinha que é para não assustar), pessoas negras não apitam muito, LGBTQs podem morrer porque não fazem falta. Nessa sociedade, a lógica é miliciana do começo ao fim. Vera Magalhães foi escolhida por essa turma covarde para virar, literal e simbolicamente, o rosto do inimigo. A experiente jornalista foi, durante os 13 anos de administrações petistas, oposição bastante eloquente. E, ainda assim, seguiu podendo falar abertamente o que pensava de Lula, de Dilma e do PT sem ser agredida. 

A Lava Jato nunca teve um olhar mais atento por parte dela, que deixou de ver o enviesamento escancarado da operação. Não precisaríamos da Vaza Jato para notar que alguma coisa errada estava se passando. Não precisaríamos da Vaza Jato para perceber quem era Sergio Moro. Bastava recorrer ao episódio do Banestado, aliás.

Enquanto Dilma foi alvo da fúria covarde da extrema-direita, Vera calou. Quando Cora Ronai e Miriam Leitão ridicularizaram a roupa e o andar de Dilma na posse, Vera calou. (...)

LEIA A MATÉRIA COMPLETA NO UOL,  NESTE LINK 

https://www.uol.com.br/esporte/colunas/milly-lacombe/



"1979, o ano que ressignificou a MPB" - Tem Manchete em megalançamento



Nós do Panis Cum Ovum costumamos comentar brincando que a Manchete é um vampiro velho que resiste a todas as estacas no peito e balas de prata do mundo. Passados 22 anos da falência da revista e de Bloch Editores, seus jornalistas continuam adentrando os mais nobres gramados culturais do país e fazendo e acontecendo. 






Alguns deles serão presença marcante no lançamento amanhã, 16 de setembro (Travessa Leblon, 19 h), do livro 1979: O ano que ressignificou a MPB, que analisa 100 álbuns daquele ano política e culturalmente marcante da vida brasileira. O organizador da obra, Célio Albuquerque (o mesmo de 1973: O ano que reinventou a MPB), foi colaborador assíduo das revistas da Rua do Russell. Ricardo Soares, que assina um dos prefácios, “Vanguarda Paulista ou A Lira do Delírio Paulistano”, atuou algum tempo no início de carreira na Sucursal da Manchete em São Paulo. Também vem desta praia Walterson Sardenberg Sobrinho, que comenta em 1979 o álbum de Caetano Veloso Cinema Transcendental. Roberto Muggiati, ex-editor e jornalista cultural da Manchete, escreve sobre zabumbê-bum-á, do ponto de vista privilegiado de quem viajou com Hermeto Pascoal e sua banda do Galeão até Montreux, onde o Bruxo lançou o LP no início de sua primeira turnê europeia. Sílvio Essinger, caçulinha da redação nos derradeiros anos da Editora Bloch, persistiu na nau dos insensatos até o naufrágio final, em 1º de agosto de 2000. Essinger, que continua brilhando nas páginas do jornal O Globo, assina o ensaio sobre o álbum Ronaldo Resedá em 1979, que, com seus 100 autores, mereceu dos lépidos e fagueiros blogueiros ex-Bloch o apelido de “lançamento-centopeia. ”


Na capa do Charlie Hebdo

 


Na capa do Libération...

Só a mídia acredita em fascismo "moderado"

 

Reprodução Twitter 



A linha do tempo do governo Bolsonaro e a capa multivisão da revista Le Monde Diplomatique

 

Para acessar Le monde Diplomatique:
https://diplomatique.org.br/



VEJA O VÍDEO EM 

"HQ SEM ROTEIRO" 

AQUI

Duas ou três coisas que sei de Godard • Por Roberto Muggiati

 

Godard filma manifestações estudantis em Paris, em Maio de 1968.


Uma das últimas fotos. O diretor, há dois anos, deu aula via Internet 
para a Ecole Cantonale d'Art de Lausanne. Foto Instagram ECAL


O cinema é a verdade 24 fotogramas por segundo” ele dizia. E se desdizia: “O cinema é a mais bela fraude do mundo.”  Uma apreciação à altura do complexo gênio de Jean-Luc Godard, morto na terça-feira 13 de setembro aos 91 anos, é impossível. Nascido em Paris em 3 de dezembro, Godard cresceu na Suíça de língua francesa, escolha de seus pais pacifistas. No final da adolescência, atraído pela paixão do cinema, voltou a Paris e logo fez seu nome como crítico dos Cahiers du Cinéma, uma revista de jovens cinéfilos que ditava as regras em matéria de “sétima arte” 

No final dos anos 1950, um total desconhecido, explorou os meandros do Rio de Janeiro, metrópole fascinante que desfrutava seus gloriosos últimos dias de capital federal. Baseado nessa experiência, foi a única voz dissonante contra o premiado Orfeu Negro, criticando seu exotismo "cartão-postal". Discordava da direção de fotografia ao tentar competir, através de filtros coloridos e rígidos, com a suavidade da luz natural do Rio. Principalmente, julgava um anacronismo a profissão escolhida para o protagonista, a de motorneiro de bonde, um meio de transporte já quase extinto. Godard ficara empolgado pelos audazes motoristas de lotação cariocas, dirigindo suas naves loucas a uma velocidade absurda e fazendo ainda o papel de cobrador, com aquele vistoso leque de notas de cruzeiro dobradas na horizontal entre os dedos, colorido como uma cauda de pavão. 

Cena de Acossado: (Michel) Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg (Patricia)
caminhando pela Champs-Élysées

De repente, aqueles jovens dos Cahiers trocaram suas máquinas de escrever por câmeras de cinema e começaram a fazer seus próprios filmes. François Truffaut, Claude Chabrol, Jaques Rivette, Éric Rohmer. Jean-Luc Godard – de quem se esperava mais do que de todos os outros – lançou À bout de souffle/Acossado em 1960, mas, passados 62 anos, seu primeiro longa ainda não foi completamente digerido. A narrativa entrecortada e a variedade das tomadas ainda desconcertam muita gente. Mestre do travelling, Godard cultiva, já a partir de sua obra de estreia, a câmera circular, rodando inquieta não só pelas cenas externas, como pelas internas, às vezes operadas em espaços claustrofóbicos, como na cena mais longa (cronometrei, ocupa 27% do filme) num quartinho de hotel: um demorado e provocante entrevero entre Patricia Franchini (Jean Seberg) e Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo). Bom frasista, Godard dizia que “tudo o que você precisa para fazer um filme é um revólver e uma garota (“a gun and a girl”) e usou a fórmula em Acossado. O enredo foi sugerido por François Truffaut, tirado de uma notícia de jornal. Com o roteiro rabiscado num caderno escolar, Godard antecipava: “Vai ser a história de um rapaz que pensa na morte e de uma moça que não pensa. ” Rodou o filme em 23 dias, com orçamento barato e poucos recursos técnicos – alguns dos envolventes travellings foram feitos com o fotógrafo, câmera na mão, sentado numa cadeira de rodas empurrada pelo próprio Godard, que faz ainda uma “ponta” de poucos segundos na fita. Na cena final, dedurado pela mocinha, Michel (Belmondo) se deixa matar pela polícia. Suas últimas palavras, depois de repetir os cacoetes labiais que encena ao longo do filme, são “Tu es dégueulasse” (“Você é nojenta!”). Patricia (Jean Seberg), aparentando inocência, pergunta: “Qu’est-ce que c’est dégueulasse?” (“O que quer dizer ‘nojenta’?”)

À bout de souffle (1960) - C'est vraiment dégueulasse - YouTube

Em 1965, já no seu ciclo com a musa e mulher Anna Karina, Godard reescreve em cores a saga do herói marginal com o mesmo Jean-Paul Belmondo em Pierrot le Fou/O demônio das onze horas. No final, o suicídio espetacular, com um toque de humor negro: Pierrot envolve a cabeça em duas camadas de bananas de dinamite; assim que acende o rastilho de pólvora, se arrepende e tenta apaga-lo, mas já é tarde demais.

Pierrot le fou l'art la mort - YouTube

Na década de 1960 Godard fez 19 filmes. Um dos três rodados em 1963 foi Deux ou trois choses que je sais d’elle, uma crônica banal do cotidiano de uma dona de casa da classe média, casada, com dois filhos pequenos, que se prostitui para matar o tédio e completar o orçamento familiar. Usa como epígrafe: “Quando levantamos a saia da cidade, enxergamos o seu sexo.” Amy Taubin, crítica de The Village Voice, o saudou como uma das maiores realizações na história do cinema. Numa das cenas, a câmera se fixa nos refluxos da espuma de uma xícara de café espresso que parecem reproduzir a criação do universo a partir do magma primal.

2 ou 3 choses que je sais d'elle (Jean-Luc Godard, 1967) - YouTube

Do mesmo ano, Weekend – inspirado em La Autopista del Sur, de Júlio Cortázar – é uma comédia macabra passada no engarrafamento de uma autoestrada francesa e pródiga em travellings.

 Jean- Luc Godard weekend car scene - YouTube

Em 1965, Godard fez Alphaville, une étrange aventure de Lémmy Caution, uma sinistra ficção cientifica distópica. Ricaços ignorantes cooptaram o nome para batizar o conhecido megacondomínio nos arredores de São Paulo. A propósito, num de seus filmes, Godard define o Club Méditerranée como “o conceito do campo de concentração aplicado ao turismo.”

Segundo o jornal Libération, Jean-Luc Godard morreu por suicídio assistido.   Sua terceira mulher, Anne-Marie Miéville, afirmou: "Ele não estava doente, estava simplesmente exausto. Foi uma decisão dele e é importante que se saiba. ” O suicídio assistido é legalizado na Suíça, desde que o paciente não tenha ajuda de terceiros no momento da morte. Godard morreu na cidadezinha de Rolle, às margens do lago Léman, onde morou nos últimos 45 anos.

Aguarda-se em clima de suspense o anúncio da lista decenal de melhor filme de todos os tempos promovida pela revista Sight & Sound. Em 2010, Vertigo, de Hitchcock, desbancou Cidadão Kane, de Orson Welles, que ocupava o primeiro lugar desde 1962. Acossado figurava em 13º, numa pesquisa recente subiu para 12º. É curioso contrapor a câmara circular de À bout de souffle à câmera vertical de Vertigo. O amor figura com destaque nos dois filmes, mas, no de Hitchcock, ele segue a cartilha clássica de Hollywood, enquanto no de Godard é mais descolado, pós-existencialista. Hitchcock viaja ainda pelo sobrenatural, em atmosfera gótica. Godard trafega pelos tempos nervosos e violentos que estamos vivendo. Poderia a morte de Godard vir a exercer alguma influência na escolha do panteão de críticos e cineastas para 2022? O sigilo é absoluto, mas nunca o anúncio decenal da lista da Sight & Sound demorou tanto para ser divulgado, o que subentende um clima de indecisão. Aguardem. Em breve, nas melhores redes sociais...


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Mídia - Marcos Uchôa diz que saiu da Globo porque não queria fazer "jornalismo de calçada"

Reprodução Folha de São Paulo 

A vida dos antigos correspondentes internacionais era mais fácil. Na era pré-internet, os tempos de propagação das informações eram bem mais lentos. Os jornalistas liam os jornais impressos do dia enquanto tomavam café da manhã. Para muitos, boa parte do trabalho do dia surgia assim entre entre croissants e ovos mexidos. Mas isso quando a idade tecnológica era jurássica. Na Manchete, Justino Martins chegou a criar um falso correspondente  - o Jean-Paul Lagarride - que assinava matérias "chupadas" dos jornais europeus e norte-americanos. O Lagarride era, aliás, mais ativo do que muitas sucursais de veículos brasileiros no exterior. 

A internet virou esse jogo confortável. Com um clique, um leitor brasileiro tem acesso ao New York Times, ao Guardian, ao Le Monde e, se quiser, até à "Tribuna do Butão". Antes mesmo do correspondente tomar seu café da manhã um brasileiro de Quixadá, no Ceará, terá acesso às notícias do dia em Londres, Paris, Roma. Se quiser manter o emprego, o coleguinha da sucursal deverá gastar sola do sapato e correr atrás de matérias originais e exclusivas. 

Mas ainda há quem tenha a tarefa facilitada. O jornalista Marcos Uchôa revelou à Folha de São Paulo, ontem, o motivo pelo qual devolveu o crachá e saiu da Globo.  Uchôa negava- se a fazer o que chama de "jornalismo de calçada". A modalidade consiste em ter um correspondente em Londres, por exemplo, que vai para a calçada em frente e narra como se in loco estivesse o acontecimento do dia em Pequim, Cabul ou Moscou.  O de Nova York vai na esquina e fala com desenvoltura de um fato em Varsóvia como se fosse um residente da capital polonesa. A Ucrânia está em guerra e não consegue exportar grãos? Fácil, o correspondente vai para um pier qualquer, mar ao fundo, e desanda a falar sobre embarques de milho e soja afinal liberados pelos russos. 

O "jornalismo de calçada" nada mais é do que navegar em sites, pesquisar matérias de agências e sair para um "externa" a alguns metros da sucursal. Um "correspondente de calçada" pode ser tão onipresente que no mesmo jornal fala na "calçada de Berlim", sobre a crise do gás, e, pouco depois, direto do "meio fio de  Taiwan", pode noticiar uma manobra militar da marinha chinesa.   

sábado, 10 de setembro de 2022

Ciro Gomes , o náufrago

 


Extrema-direita em campanha: os marqueteiros do sangue

 





As ameaças dos palanques de Bolsonaro ecoam nas ruas. A linguagem agressiva e antidemocrática adotada pelos extremistas da direita tem o poder de engatilhar pistolas e afiar facas. A impunidade faz o resto do serviço sujo e ajuda a multiplicar agressões. A mídia internacional registra os incidentes e aponta a violências eleitoral que surpreende o Brasil. A atual campanha eleitoral já resultou em dois assassinatos de petistas por parte de apoiadores de Bolsonaro. Ontem, em São Paulo, Boulos foi ameaçado por um bolsonarista armado. Em São Gonçalo (RJ) um bolsonarista provocador tumultou um ato com a presença de Lula e do candidato a governador do PSB Marcelo Freixo. O homem foi contido pela segurança do evento político.   

Na Carta Capital: a cena do crime e a impunidade anunciada

 


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

FRASE DO SEXO SABÁTICO


“Enquanto eu tiver língua e dedo, mulher nenhuma me mete medo.”

Vinícius de Moraes (com rima), evocado por Ruth de Aquino a propósito do autobiográfico “imbrochável” presidenciável.

Xô, inominável!



Como pode?

 

Reprodução Twitter 

"Que rei sou eu?"

Foto Yui Mook, Pool
via Reuters

Charles III acaba de fazer seu discurso de apresentaçãoDisse que Elizabeth II sempre será sua inspiração. Depois de tantos anos no banco de reserva da monarquia, Charles chega ao trono com a experiência assimilada do seu papel, mas i povo espera que ele imprima sua marca no trono. Mas que marca? Charles III também deu a entender que Camila, agora rainha consorte,  não será decorativo na monarquia.

O livro que quebra os sigilos do clã Bolsonaro

 

É tanta coisa que a jornalista Juliana Dal Piva levou três anos para investigar "O Negócio do Jair". O livro quebra sigilos escabrosos e revela antigas histórias dos anos 1990. São denúncias sustentadas em testemunhos, transcrição de gravações e autos judiciais. Taí, é um livro ideal para você levar para a sua seção eleitoral enquanto espera a hora de votar. 


Mídia em "luto" íntimo e pessoal pela morte de Beth II

 




Em certas coberturas, alguns jornalistas não resistem a virar personagens do fato que narram. Um caso clássico da tevê ocorreu na trtansmissão ao vivo da chegada do homem à Lua. Hilton Gomes, da TV Globo, apresentava o evento. À medida em que descrevia a histórica cena se emocionava com as próprias palavras. Tanto que ao encerrar a transmissão, ele e Murilo Ney, que também participava da cobertura, se parabenizaram no ar. "Parabéns, Hilton, parabéns, Murilo", concederam um ao outro quase em lágrimas. Nunca ficou clara a função deles na NASA ao levar Neil Armstrong à Lua, mas se tornou evidente que os dois se consideravam participantes da epopeia. 

Hoje, na Globo News, algo parecido aconteceu com a repórter Cecília Malan. Ela viveu seus minutos de súdita britânica ao aparecer vestida de preto para demonstrar seu luto pela morte da Rainha Elizabeth. Que, ao lado dos Windsor, a repórter receba os pêsames da audiência da Globo News.        

Elizabeth e Charles: cenas dos tristes trópicos


1968: Elizabeth e Costa e Silva 

Na Embaixada Britânica, a rainha foi acossada pela sociedade carioca em noite de muvuca.
Fotos Manchete

O reinado de Elizabeth II correspondeu, no Brasil, aos mandatos de 20 presidentes e ditadores. Juscelino Kubitschek a convidou para a inauguração de Brasília. A rainha não se animou. Perdeu a chance de prestigiar um dos raros governos democráticos no Brasil. 

Em 1968 arrumou as malas e fez sua única visita à Brasil. Foi a Recife, Salvador, São Paulo Brasília e Rio de Janeiro. Em cada uma dessas capitais viu-se obrigada a confraternizar com o pior do Brasil de então: os delinquentes da ditadura. Foi em outubro de 1968, dois meses antes do AI-5. Duas fotos são emblemáticas do tour real: uma pose ao lado do general Arthur da Costa e Silva (o que levou a mídia a títulos do tipo 'a rainha na corte do seu Arthur) e a imagem da sociedade carioca batendo cabeças coloniais no grande salão da Embaixada Britânica. Elizabeth refugiada em um canto - como se temesse um ataque dos zulus - e o society deslumbrado acotovelando-se como possível, pescoços contra nucas, pelves encoxadas em nádegas, uma típica viagem em uma trem lotado da Supervia. Em poucos dias, além do Arthur, Elizabeth apertou mãos sujas de governadores e empresários que, soube-se anos depois, se juntavam para montar centros de torturas em seus redutos. Não é uma página recomendável da sua longa biografia. 

A rainha Pinah em um gringo sambista. 

O então príncipe Charles, agora rei Charles III, deu mais sorte. Veio ao Brasil quatro vezes. A primeira em 1978, quando a abertura estava no horizonte político. Não precisou se encontrar com o general Geisel, que estava na Alemanda, mas conheceu alguns dos sabugos do regime. Pelo menos, tentou dançar samba com a bela rainha Pinah, da Beija Flor, o momento mais nobre da visita. 
Elizabeth se redimiu dos efeitos Costa e Silva ao receber Lula em Londres. A rainha teve vários encontros com o brasileiro. Em um deles, colocou Lula ao seu lado, à frente de Obama. Naquele instante, "princesa, não", o nível de Lula foi rainha.     

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

The Economist: "Il capo de cacca" na capa

 



Bolsonaro está na capa da revista The Economist dessa semana, que o define como "o homem que quer ser Trump" e acrescenta que o lambe-botas prepara sua "grande mentira" ao estilo deplorável do ex-presidente americano. A abertura da matéria da revista dá o tom da ameaça que ronda a democracia no Brasil.

"Joe Biden estava falando sobre os Estados Unidos quando alertou, em 1º de setembro, que “a democracia não pode sobreviver quando um lado acredita que há apenas dois resultados em uma eleição: ou vencem ou foram enganados”. 

Ele poderia muito bem estar falando sobre o Brasil.

No próximo mês, seu presidente, Jair Bolsonaro, enfrenta uma eleição que todas as pesquisas dizem que  ele provavelmente perderá. Ele diz que aceitará o resultado se for “limpo e transparente”, o que será. O sistema de votação eletrônica do Brasil é bem administrado e difícil de adulterar. Mas aqui está o problema: Bolsonaro continua dizendo que as pesquisas estão erradas e que ele está a caminho de vencer. Ele continua insinuando, também, que a eleição pode de alguma forma ser manipulada contra ele. Ele não oferece nenhuma evidência confiável, mas muitos de seus apoiadores acreditam nele. Ele parece estar lançando as bases retóricas para denunciar a fraude eleitoral e negar o veredicto dos eleitores. Os brasileiros temem que ele possa incitar uma insurreição."

Mídia - Jornal francês desvenda os porões educacionais das escolas militarizadas brasileiras e o método educacional da ultra direita


A mídia brasileira repercute hoje a comemoração do 7 de Setembro ao estilo 171 de Bolsonaro. A maioria explora o lado folclórico e marginal do elemento. "Imbrochável", "mulheres princesas" etc. Tem sido assim ao longo do governo do presidente da ultra direita. Os absurdos e a retórica tosca ganham mais espaço do que a construção subterrânea de instituições e métodos de inspiração fascista. Como um programa educacional que mais parece comandado pelo "talibã" religioso bolsonarista infiltrado no governo de ultra direita. "Ultra direita"? As oligarquias da mídia conservadora também não colam o rótulo de ultra direita em Bolsonaro, ao contrario dos principais jornais internacionais, talvez por se identificarem com muitas das posições do caudilho da Barra da Tijuca. Aliás, em algumas matérias traduzidas de informes de agências ou de jornais esrtrangeiros é possível observar que onde lá  fora escrevem ultra droite, far-right ou radical right aqui sai, no méximo, apenas direita e até centro-direita. Um assunto que a mídia não aborda com profundidade é, por exemplo, o dos colégios públicos militarizados. Ainda bem que veículos independentes do exterior costumam investigar esses assuntos. Desde a relação do regime com o incentivo ao crime quando bloqueia a fiscalização do narcogarimpo da Amazônia, do contrabando de madeira, das queimadas ao derrame de pistolas e fuzis sem controle, veículos do exterior demonstram maior interesse em investigar os porões não visitados pela mídia local. O jornal francês L'Humanité publicou recentemente uma alentada reportagem sobre a apropriação des escolas por organizações militares. 

Veja alguns trechos da matéria. 

 "Aproveitado para fortalecer o peso do exército na sociedade brasileira, o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro promove o modelo de escolas militares civis desde o berçário. No final do seu mandato, 500.000 menores deveram estar alojados nestas estruturas. Poucas semanas antes da eleição presidencial de 2 de outubro, professores e pais denunciam a disciplina dos alunos e uma séria ameaça à democracia "(...)

"Em um vídeo transmitido por um adolescente à TV Globo, um policial militar entra em uma sala e ameaça abertamente os estudantes que protestam: "Vocês estão presos, vocês têm o direito de ficar calados. Tudo o que você diz agora pode ser usado contra você no tribunal! Você tem o direito de chamar seu pai e sua mãe. A partir de agora, o silêncio é uma ordem! " (...)

"A escola em questão segue um modelo cívico-militar desde 2019 que permite que os policiais imponham a disciplina. Em tese, estes últimos não deveriam interferir no trabalho pedagógico, mas pouco a pouco invadem o campo educacional." (...)

"Em novembro de 2021, alunos da mesma escola estavam organizando uma exposição para o Dia da Consciência Negra. Seu trabalho, enfeitado com desenhos, evocava a violência policial contra jovens afro-brasileiros. Uma atividade que o diretor disciplinar da escola tinha muito pouco gosto, tanto que exigiu a retirada da exposição. Afirmando que a Constituição garante a pluralidade de ideias nas escolas, professores e os alunos se recusaram a cancelas a exposição." (...)

"As escolas militares civis, cujo modelo é promovido pelo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, não se reportam diretamente ao Ministério da Defesa, mas foi criada uma subsecretaria específica dentro do Ministério da Educação gerenciada por um militar responsável por fortalecer o movimento iniciado por alguns estados e municípios graças ao apoio financeiro da Defesa." (...)

"O objetivo do governo tornado público em 2019 é a criação de 54 dessas estgruturas em cada unidades federativa. Um programa ambicioso que, em última análise, visava acomodar 500.000 alunos. Um ano depois, sob a liderança da Secretaria-Geral da Presidência da República, foram criadas 203 escolas em 23 dos 27 estados. Os complexos escolares são construídos principalmente em regiões pobres."(...)

"A disciplina militar é ensinada, a partir do acolhimento na creche, conforme circular do Ministério da Educação. É um projeto de “criminalização da infância popular”, resume o sociólogo Miguel Arroyo. É a mesma lógica que levou, no início do século XX, à militarização da Força Pública (o embrião da atual polícia militar) devido à preocupação da burguesia paulista diante das revoltas operárias." (...)


"Braços ao longo do corpo!" O dia para os alunos do centro de Ceilândia começa com um curso de disciplina militar". (...)


"Esse modelo educacional responde finalmente à militarização da administração e do governo. Desde que o ex-capitão chegou ao poder, já são mais de 6.000 militares em altos cargos em ministérios, órgãos federais e empresas públicas. (..)

LEIA A MATÉRIA COMPLETA AQUI

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O lixo que Bolsonaro deixa

 

Reprodução Twitter

A FRASE DO 7 DE SETEMBRO

 

“Do ‘Eu tenho aquilo roxo’ ao ‘imbrochável’: 31 anos de #fake news.”


(BARÃO DE ITARARÉ, retorcendo-se indignado no túmulo.)

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Fotomemória: a Escadaria do Convento antes de ser do Salerón

 

A Escadaria do Convento, em 1958. Foto de Gil Pinheiro/Manchete.


Hoje, o local chama-se Escadaria Salerón e se transformou em atração turística.
Foto de Tania Rego/Agência Brasil 

Gil Pìnheiro, fotógrafo da Manchete, fez a foto do alto dessa página em 1958. Na época, o local era conhecida como Escadaria do Convento de Santa Teresa, construído em 1750. Assim como a expansão no bairro tem a ver com a instalação do convento, a escadaria foi construída para acesso à congregação e às missas abertas à população. Com o tempo, transformou-se na Rua Manoel.  Alguns sites atribuem ao artista plástico Jorge Salerón a construção da escadaria. Errado. Salerón fez um trabalho admirável de restauração dos degraus, que decorou com azulejos pintados. O local virou atração turística e ganhou um novo nome: Escadaria Salerón.   

sábado, 3 de setembro de 2022

Muggi das crises gourmet: Omelete de alcaparras • Por Roberto Muggiati

 


É fatal parecer faminto, as pessoas sentem vontade de lhe dar um pontapé. ”

GEORGE ORWELL

Na pior em Paris e Londres” (1933)




O apelido, é óbvio, ganhei do Alberto de Carvalho. Sua fabulosa máquina de inventar codinomes seguia critérios rigorosos: o apelido precisava ter um gancho na atualidade e caber como uma luva no recipiente. Mogi das Cruzes estava em evidência na época não lembro por que, e eu, como editor da revista Manchete, vivia assolado por todo tipo de crises. Passemos à receita:

Já ouviram falar de alguém que tenha feito uma omelete de alcaparras? “A fome é a mãe da invenção, ” reescrevo a frase de Platão.

Fiz recentemente uma meia-sola bucal que me custou os olhos da cara. O problema é que afiei os dentes para comer, mas fiquei sem comida para morder.

A situação lembra o conto de O. Henry, aquela troca de presentes de Natal dos pombinhos: a mulher corta as belas melenas e as vende para comprar uma corrente de ouro para o relógio de bolso do marido. Ele penhora o relógio para comprar uma luxuosa escova para os cabelos da amada.

Faltando ainda uma semana para o pagamento da aposentadoria a geladeira já está quase vazia. Encontrei ainda dois ovos, na medida para uma omelete pequena – mas do que? Restava um pote de alcaparras encostado, porque o peixe anda muito caro. Peguei uma dúzia de bagas, poupando a sobra para necessidades futuras. Aumentei o volume dos ovos batidos acrescentando um pouco de leite engrossado com maisena. Fiz a omelete na manteiga, ficou uma beleza. Nem precisei salgar, as alcaparras marinadas deram conta do recado. Achei ainda um restinho de cebolinha do cheiro-verde, piquei e salpiquei sobre a omelete.

Só o nome do recheio já me dava água na boca: al-ca-pa-rra, uma das centenas de palavras que herdamos dos quase oito séculos (711-1492) de ocupação árabe da Península Ibérica (Al-Andalus). Alcaparra nas outras línguas não leva o artigo al, confiram: câpre (francês), capperi (italiano), caper (inglês), Kaper (alemão), kappertje (holandês), kapari (turco), kapris (finlandês), kapribogyó (húngaro), keppā (japonês) – e vamos parando por aqui.

Ah, sim, ia esquecendo: o ingrediente principal que torna o prato apetitoso é a fome. Sim, devo admitir que nos últimos finais de mês tenho me juntado às hostes dos 33 milhões sem ação (sem ração, logo sem nação) que passam fome neste país. Como se trata, por enquanto, de uma condição provisória, eu até a glamurizo rotulando-me como um nouveau famélique, um upgrade (na verdade downgrade) do nouveau pauvre do século passado (Frantz Fanon, o autor de Les Damnés de la Terre/Os condenados da terra, teria adorado o conceito.) Mesmo de barriga vazia, nunca perdemos o humor...
  

O poderoso chefão está em cartaz em uma mídia perto de você

 


Lançado no Brasil em março de 1991, O Poderoso Chefão III tem no roteiro elementos presentes no atual momento político brasileiro, 31 anos depois. 

A capa da IstoÉ dessa semana apresenta duas chamadas: o título principal questiona o ódio de Bolsonaro às mulheres, a mais recente demonstração foi a agressão verbal à jornalista Vera Magalhães; a chamada menor, no alto da capa, trata do escândalo que envolve a família do presidente e os  107 imóveis do clã, muitos, quase a maioria, comprados em dinheiro vivo, não se sabe se entregue ao vendedor em sacos, caixas de papelão ou malas. 

Pois em O Poderoso Chefão Michael Corleone (Al Pacino) demostra ódio à mulher Kay Adams (Diane Keaton), que mantém em forçada submissão e a quem agride; Corleone 'mexe' com um império de imóveis ao fazer um acordo com o Vaticano, dono de enorme patrimônio de casas, palácios e terras, para criar a empresa Immobilaire dirigida pelo clã familiar mafioso. 

Francis Ford Coppola, diretor da trilogia dos Corleone, já pode cobrar pelo plágio. O Poderoso Chefão IV está em cartaz no Brasil em uma mídia impressa ou digital perto de você.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Mídia - "Tentar atirar", "tentativa de magnicídio", "aponta a arma"... Jornais evitam a expressão "tentar matar" e não chamam de terrorista o acusado do atentado contra Cristina Kirchner

 

A Folha é criticada nas redes sociais por minimizar em título na edição de 2-9-2022 o atentado e tentativa de homicídio contra Christina Kirchner. A arma do terrorista ficou a centímetros do rosto da vice-presidente, mas a Folha preferiu um "tentar atirar" em vez de "tentar matar". A pistola estava carregada com cinco balas. E o terrorista apertou o gatilho duas vezes. A arma falhou, a intenção, não.

O Globo usa a palavra atentado

O Estadão optou pelo "aponta a arma", mas usou o termo "atentado', no subtítulo. 

Clarín, que se opõe a Cristina, escolheu chamar de "atentado" 

La Nacion foi de "intenção de magnicídio'.



A polícia argentina investiga as ligações do brasileiro Fernando Andrés Sabag Montiel, que tentou assassinar a vice-presidente da Argentina Cristina Kirchner, com grupos neonazistas. Algumas dessas relações ele exibe no corpo. Há tatuagens so "Sol Negro", alegoria nazista que também enfeita membros do Batalhão Azov, da Ucrânia, e é adotada por grupos neonazistas da América do Sul. Há informações de que ele tem a tatuagem de uma suástica, mas os investigadores não confirmam ainda essa informação. Por postagens nas redes socias, o terrorista, no mínimo, se identifica com a ultra direita. 

ATUALIZAÇÃO em 3-9-2022: Nos títulos de hoje, Globo e Folha chamam o atentado de "ataque". Estadão dá destaque à palavra atentado. A palavra terrorismo ainda não foi usada.

WORLD PRESS INSTITUTE • Bolsas de estudos para jornalistas nos Estados Unidos

A turma 2022 de jornalistas bolsistas do World Press Institute.
Progama abriu inscrições para 2023. 

O World Press Institute (WPI) oferece bolsas de estudos nos Estados Unidos no período de março a maio de 2023 para jornalistas iniciantes ou já no meio da carreira com pelo menos cinco anos de experiência profissional. O programa está aberto a jornalistas de jornais, revistas de texto, agências noticiosas, rádio, televisão e organizações jornalísticas online. Os candidatos devem estar disponíveis para viajar durante nove semanas a partir de março de 2023 e ser fluentes em inglês falado e escrito.

O grupo consistirá de dez bolsistas do mundo inteiro. O programa de bolsas oferecerá imersão nas práticas de governo, política, negócios, mídia, ética jornalística e cultura dos Estados Unidos através de um rigoroso cronograma de estudos, viagens e entrevistas.

O programa terá sua base em Minneapolis-Saint Paul, Minnesota, com viagens a Nova York, Chicago, San Francisco, Washington, D.C., e outras cidades importantes.

A bolsa cobre as despesas de viagem, acomodação e alimentação diária.

As inscrições se encerram no sábado, 1º de outubro de 2022. O nome dos bolsistas selecionados será anunciado em dezembro de 2022.




Visite este link do World Press Institute na internet para detalhes sobre como se inscrever:

https://worldpressinstitute.org/how-to-apply/

  

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Mídia - A edição da Manchete que só existiu por causa da Glasnost de Gorbachev




por José Esmeraldo Gonçalves 

Roberto Muggiati, ex-diretor da Manchete, relatou em postagem anterior a curiosa história de uma edição especial da revista em russo. Os detalhes de bastidores desse inusitado projeto jornalístico estão no link 

https://paniscumovum.blogspot.com/2022/08/memorias-da-redacao-o-dia-em-que.html

O que acrescento aqui são algumas memórias daqueles três dias que abalaram a redação e uma breve visão do conteúdo da edição. 

Quando foi à Rússia em 1988, com uma agenda de quatro encontros com Mikhail Gorbachev, o então presidente José Sarney levou uma multidão de convidados. Tanto que o hotel Rossya, em Moscou, ao receber o pedido de reserva para 97 empresários, a maioria formada por presidentes ou vice presidentes de grandes empresas, e de 51 jornalistas, fora os diplomatas, informou que tinha apenas 120 quartos para receber os brasileiros. O Itamaraty partiu em busca de hotéis para acomodar os 21 sem-tetos. 

Adolpho Bloch foi convidado para integrar a comitiva presidencial. Provavelmente, deve ter sido avisado com uma ou duas semanas de antecedência, mas só a poucos dias do embarque teve a ideia de fazer uma edição especial da Manchete, em russo, para levar na bagagem. O objetivo era distribuir parte da tiragem na Exposição Industrial Brasileira, aberta em Moscou, além de encaminhar centenas de exemplares a universidades, bibliotecas e ministérios da URSS. Adolpho, que era movido a instinto, farejou uma oportunidade. O esperto ucraniano que adotou o Brssil sabia que, mesmo às pressas, conseguiria patrocínios. Seu alvo eram os mega empresários brasileiros que estariam em Moscou tentando abrir  para negócios as portas da "cortina de ferro" que Gorbachev implodia. O ideia e a viabilidade comercial eram da direção da Bloch: o pepino (que o Google diz ser "огурец", em russo), ficava com a redação.

O expediente da equipe que fez o mais inusitado projeto de revista do jornalismo
brasileiro: a Manchete em russo.

Em um fim de tarde Zevi Ghivelder me pediu para coordenar o logística editorial da revista. Não era tarefa difícil, estávamos acostumados a fazer essas edições especiais e a pauta da edição praticamente nascia pronta: destinava-se a mostrar aos soviéticos as belezas de Brasília, do Rio de Janeiro, a pujança de São Paulo, a Amazônia, a extração de petróleo em alto mar, Itaipu, o agronegócio, a Embraer, o carnaval carioca etc, em páginas duplas, com pouco texto (o conteúdo maior trazia dados estatísticos do Brasil) e muitas cores. 

O problema era, como Muggiati contou, a tradução e digitação das matérias em  А, Б, В, Г, Д, Е (Ё), Ж, З, И, (Й), І, К, Л, М, Н, О, П, Р, С, Т, У, Ф, Х, Ц, Ч, Ш, Щ, Ъ, Ы, Ь, Ѣ, Э, Ю, Я, Ѳ, Ѵ. A. Isso mesmo, em cirílico, o alfabeto russo. Janir de Holanda, que editava a revista Conecta, da Bloch, especilizada em informática. computação e tecnologia digital, uniu-se aos editores e redatores da Manchete para ajudar a desenrolar um imbroglio tecnológico: o setor de composição a frio da Bloch era computadorizado mas não dispunha de fontes gráficas para o idioma russo. Tínhamos três dias para mandar a edição para a gráfica. Carlos Affonso, o competente produtor gráfico, suava frio como se estivesse na Sibéria. Pode-se imaginar a correria. No fim, o projeto do Adolpho deu certo. Deu tudo certo? Quase. A edição especial saiu com um erro e uma omissão. O erro deu-se na tradução de um título logo na abertura da revista. Era para ser "Mensagem ao Povo Soviético", para quem a revista se dirigia, e saiu, nada a ver, "Mensagem ao Povo Brasileiro". Ainda bem que na chamada de capa ("Brasil: retrato de um país") não deu zebra. A omissão foi não publicar uma só imagem de Mikhail Gorbachev, a quem a revista seria solenemente entregue. Enfim, passou essa indelicadeza com o anfitrião da comitiva brasileira, embora houvesse foto e texto selecionados sobre o líder soviético. A Embaixada da URSS no Braskil apontou o erro do título. Já a ausência da foto do Gorbachev na edição em russo foi amplamente compensada pela grande cobertura que a edição semanal da Manchete fez do encontro Sarney-Gorbachev, do jantar no Kremlin e das reuniões para intensificar os laços comerciais entre os dois países.  

O objetivo do Adolpho foi alcançado: Grupo Pão de Açucar, Perdigão, Cutrale, Café Cacique, Citrosuco e Petrobras  anunciaram na edição e entregraram as peças publicitárias à redação já devidamente traduzidas para o russo. Como consequência da abertura política liderada por Gorbachev, a Manchete foi a primeira revista editada no exterior, no idioma russo, a circular livremente na União Soviética para divulgar um país estrangeiro. A edição foi mostrada na TV local.