sábado, 17 de julho de 2021

A olimpíada do vírus: medalhas no álcool gel

 

A Veja levanta a polêmica da realização da Olímpiada em plena pandemia. Já se sabe que a "bolha" não funciona. Já há casos em hotéis e até na cidade olímpica. 

E o Brasil deu sua contribuição para o risco sanitário. Parte da delegação brasileira se recusou a se vacinas. O COB calcula que 25% dos atletas apostaram no risco, outros, outros tomaram apernas a primeira dose. 

Tremenda falta de consciência social. O esporte não pode estar acima da responsabilidade cidadã.  

Com aparência de brinquedo, essa pistola mata

 

Reprodução Instagram Culter Precision

A empresa norte-americana Culper Precision desenvolveu um arma letal com aparência de brinquedo. Por força do poderoso lobby da NFA (National Rifle Association) muitas pessoas nos Estados Unidos talvez não se choquem tanto com o produto, mas o design da peça sinistra, com aparência de lego, é atraente para crianças. Criticada, a empresa diz que sua intenção foi prestigiar os esportes de tiro. 

O Brasil vive a era do liberou geral das armas de fogo. Inundado de pistolas e até armas de guerra, o país já constata os efeitos mortais das nova legislação nas recentes estatísticas. Parte dessas armas, a polícia alerta sobre isso, vai parar nas mãos de assaltante ou elementos do tráfico e da milícia.

Aqui, há casos de assaltantes desmonetizados que usam réplicas de armas. A polícia também aconselha ao cidadão não reagir nunca, mesmo diante da duvida se a arma é de brinquedo ou de verdade. Então, vale o aviso: se a arma parecer de brinquedo, não reaja. Pode ser a irresponsável pistola da Culter. O "brinquedo" dispara balas fatais.

Publimemória: quando a Varig era top, passageiro não passava fome e a Manchete pegava carona...

 


Anos 1960. O Boeing 707 da Varig voava absoluto para os principais destinos do mundo. O passageiro da empresa brasileira, que tinha à disposição o "diner a la carte", jamais imaginou que um dia empresas aéreas ofereceriam jejum a bordo ou amendoim ressecado como primeiro "prato" seguido de barra de cereal. 

No tempo das fotos analógicas em que o material dos fotógrafos era despachado por avião, a Varig era grande parceira da Manchete. Solícitos, pilotos e tripulantes traziam os envelopes com filmes para fechamento do material internacional das edições. Quando não era possível alcançar a tripulação antes do embarque, a solução era apelar para um passageiro. Com base na descrição que chegava por telex ou telefone - "homem alto, de óculos, cabelo reco" ou "mulher loura, magra, de blusa verde e minissaia", alguém da equipe dos Serviços Editoriais, da redação carioca, recebia o portador no velho Galeão. O jargão interno para despachar e receber fotos era "fazer um passageiro".

Hoje, com tanta segurança, seria bem difícil um passageiro abordado no aeroporto topar carregar um envelope entregue por um desconhecido. 

Outra resultante da parceria Manchete-Varig era a disponibilidade da edição semanal da revista para os passageiros de todos os voos da companhia. No anúncio reproduzido acima uma aeromoça - atualmente o correto é comissária de bordo - no seu beliche de descanso lê uma revista. 

A ilustração acima foi enviada ao blog pelo colega Nilton Muniz que trabalhou nos Serviços Editoriais da Bloch, precisamente o setor que durante décadas, até a chegada do digital, era encarregado de resgatar nos aeroportos filmes e fotos que a Varig transportava por cortesia e as redações das revistas aguardavam com ansiedade para fechar páginas abertas. Sem atrasar a happy hour no Novo Mundo. (José Esmeraldo Gonçalves)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Caparam o Capão, ou Aqui Jazz • Por Roberto Muggiati*

Festival de Jazz do Capão. Foto Divulgação



Os regimes totalitários odeiam o jazz, vejam o nazismo e o estalinismo. As facções racistas e reacionárias odeiam o jazz, vejam a quantidade de músicos norte-americanos que preferiu morar e tocar na Europa. 

Agora – retardado como sempre – o “Brasil oficial” adere à onda de ódio ao jazz, uma das manifestações de arte mais libertárias da nossa época, ao lado do cinema. A Funarte acaba de vetar apoio da Lei Rouanet à nona edição do Festival de Jazz do Capão, na Chapada Diamantina, Bahia. O motivo do veto foi que o evento se declarou “antifascista e pela democracia” – como se isso fosse algo nocivo à sociedade brasileira. Mais um vexame para nossa cultura aos olhos do mundo. Para Tiago Tao, o produtor do evento, a não aprovação tem viés ideológico: “Não houve um parecer técnico, nenhuma avaliação do programa. O governo usa argumentos que beiram a bizarrice. Aliás, o governo não foi citado, mas vestiu a carapuça.”

Raul de Souza. Foto Emmanuelle Nemoz/rauldesouza.net  

Realizado há dez anos, o Festival do Capão já reuniu Hermeto Pascoal, Raul de Souza, Ivan Lins, Naná Vasconcelos, Toninho Horta, Orquestra Rumpilezz, Egberto Gismonti e outros nomes de relevo internacional.


... E o Mago tirou um Coelho da cartola 

Paulo Coelho e Christina Oiticica. Foto paulocoelhoblog.com

• O jazz já foi chamado “o som da surpresa”. Enquanto essa matéria ia para nossas prensas digitais, foi anunciado que o escritor Paulo Coelho e sua mulher, a pintora Christina Oiticica, se ofereciam para bancar os custos do Festival de Jazz do Capão. (“Única condição: que seja antifascista e pela democracia”.) Como diria Shakespeare, bem está o que bem acaba... Bela notícia para um 14 de julho em que se comemoram os 232 anos da Queda da Bastilha.

 *Roberto Muggiati é autor dos livros O que é jazz, New Jazz: de volta para o futuro e Improvisando Soluções.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

O país do enema

por O.V.Pochê
As redes sociais estão agitadas. A obstrução intestinal de Bolsonaro está entupindo os vasos digitais. Há quem ore pelo prevaricador, há quem faça piada e há que ache que tudo é encenação diante das acusações de corrupção, das pesquisas que atestam queda radical de popularidade, das revelações da CPI. Outros desconfiam que tudo não passa da sequência do episódio da "Facada", que desviaria a atenção da crise e provocaria a compaixão nacional. Oremos.

terça-feira, 13 de julho de 2021

A seleção triste...

por José Esmeraldo Gonçalves

A seleção conseguiu o que parecia impossível: tornar triste o futebol brasileiro. 

A CBF e alguns jogadores fizeram  a escolha de levar a política para o campo ao se associarem ao desgoverno Bolsonaro. Foi uma tomada de posição, okey, como diria o "mito" deles. Mas no momento em que o prevaricador se desgasta junto à maioria dos brasileiros é claro que ia sobrar para a popularidade da seleção. 

Apesar disso, esqueçamos aqui a política. Independentemente da adesão à figura cujo negacionismo e suspeitas de corrupção foram responsáveis pela morte de um número absurdo de pessoas - um recorde mundial de vítimas por habitante - a seleção tem outros ângulos desfavoráveis. Empatia não é o forte do time. Ao contrário, exala amargura, no que parece ter sido contaminado por Neymar, eternamente contra o mundo. 

O jogador do PSG critica a mídia por noticiar seu comportamento extracampo, quando se trata apenas disso: noticiar fatos. Fatos que são frequentemente gerados por ele mesmo. Reconhecidamente um craque, Neymar parece estar com o modo revoltoso em on por ultimamente acumular derrotas. As frustrações do PSG na busca do Santo Graal, a Champions; a perda do título regional francês; os problemas pessoais; as questões com o fisco. Talvez tudo isso junto explique porque ele, em campo, também parece em guerra contra adversários invisíveis e visíveis. Estes sabem que o brasileiro é sempre um alvo a desestabilizar. E conseguem neutralizá-lo, muitas vezes com deslealdade.  

Reparem,  a seleção é desgostosa, a bola rola com melancolia. 

Já se vão quase vinte anos do última Copa de 2002, a do penta. O futebol mudou. O drible já não é tão festejado. Os narradores parecem vibrar mais com as estatísticas, a posse de bola, o jogo de posições, a marcação alta. Não sei se Pelé, Garrincha, Rivelino, Gérson, Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno, entre outros, teriam liberdade nos campos de hoje. Se seriam convocados para a marcação alta ou baixa, na maior parte do tempo afastando-se da "zona do agrião", como definia João Saldanha as proximidades da grande área. (N.R. o terreno próprio para cultivo do agrião é quase um lamaçal, retém muita água, se bobear o sujeito que caminha por ali vai ao chão). 

Para os treinadores europeus, que influenciam o mundo, o passe dá velocidade ao jogo - e vimos na Eurocopa como as seleções são bem treinadas na troca de passes - já o drible é jogada de contato, se não é bem-sucedido implica em interrupção da sequência de ataque, coloca em risco a festejada posse de bola, interrompe a fluência do jogo. Por isso, a firula está em em crise. Sobrevive à custa do talento de poucos jogadores, um deles Neymar. 

Em entrevistas Tite valoriza o craque resistente, aquele que faz diferença, mas o treinador costuma descrever o modo de jogar da seleção brasileira como se estivesse no centro de controle da Nasa comandando uma viagem espacial e a complexidade de um pouso em Marte. O povão quer papo fácil e bola no filó.

Tite é vitorioso, não se negue. Tem poucas derrotas na seleção. Pena que duas delas fundamentais: diante da Bélgica, que tirou o Brasil da Copa da Rússia, e contra a Argentina de Messi, que nos relegou a vice na Copa América. 

Para se reconciliar com o torcedor, a seleção precisa jogar bola e dar um cartão vermelho pro prevaricador.

Em suma, o time tem 16 meses, antes da Copa do Catar, para mostrar que ainda gosta do jogo e é solidário com o Brasil que sofre.

sábado, 10 de julho de 2021

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo protesta contra ataques à repórter Juliana Dal Piva

Na tarde de 09.jul.2021, Frederick Wassef, que se apresenta como advogado do presidente Jair Bolsonaro, atacou Juliana Dal Piva, uma das jornalistas investigativas mais consagradas do país. A colunista do UOL foi xingada com rótulos pejorativos e recebeu ameaças veladas.

Demonstrando desprezo à liberdade de imprensa e sem temer possíveis punições, o advogado recomendou que a jornalista mudasse para a China:  "Faça lá o que você faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema político que você tanto ama faria com você. Lá na China você desapareceria e não iriam nem encontrar o seu corpo".

Há anos, Juliana Dal Piva investiga o esquema das rachadinhas envolvendo os filhos de Jair Bolsonaro. No início da semana, foi além. Revelou, por meio de áudios e de uma apuração minuciosa, conexões diretas do presidente com a apropriação de salário de servidores na Câmara dos Deputados.

A Abraji não reproduzirá aqui as hostilidades proferidas por Wassef por se tratar de afirmações toscas e ultrajantes. O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, disse que vai pedir à corregedoria do órgão que apure o fato e tome as medidas necessárias.

Defendemos a liberdade de imprensa como direito garantido pela Constituição e pilar do Estado Democrático de Direito. Todo o apoio a Dal Piva, ao UOL e a todos os veículos e profissionais de imprensa que vêm sendo atacados sistematicamente desde que o governo Bolsonaro assumiu o poder, em janeiro de 2019.

Exigimos que sejam tomadas as medidas legais cabíveis contra Wassef e todos os que vilipendiam o trabalho essencial da imprensa de levar à sociedade assuntos de interesse público. Esperamos que as instituições que defendem a democracia façam seu papel e resistam à destruição do espaço cívico promovida pelos autoritários de plantão e seus militantes.

Diretoria da Abraji, 10 de julho de 2021.

...para usar a linguagem do Planalto, a Democracia pede tratamento de dejetos

Do Valor: a escolha da elite...

A pergunta da semana: Por que o PIB faz historicamente as piores escolhas para o Brasil?

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Itália X Inglaterra: quem vai decidir esse jogo? O VAR ou a rainha?

 

Ingleses erguem os braços comemorando o gol e a Copa de 1966. O mesmo gesto dos alemães
é de revolta e indignação. Foto Manchete


Em 1986, nos meses que antecederam a Copa do México, Manchete publicou a série Brasil de 12 Copas, assinada por Roberto Muggiati. Um dos capítulos focalizava a Copa de 1966, na Inglaterra. Naquele ano, o torneio foi marcado por três fatos. A desclassificação do Brasil, com a dramática contusão de Pelé, caçado em campo; o roubo da Taça Jules Rimet, depois localizada; e a bola que não entrou no gol da Alemanha, mesmo assim validado pelo árbitro. A irregularidade foi decisiva para o título da Inglaterra no lendário Wembley e na final mais discutida de todas as copas.. 

Depois de amanhã, domingo, Inglaterra e Itália decidem a Eurocopa. No mesmo estádio, agora reformado mas sempre mítico. Os ingleses se classificaram(2X1) para a final com a ajuda de um pênalti polêmico que despachou a Dinamarca, marcado também na prorrogação quando o atacante Sterling teria simulado uma falta. 

A indignação dos dinamarqueses em campo lembrou a revolta do alemães em 1966. Naquele final, o jogo acabou em 2X2, no tempo normal. Veio a prorrogação e, aos 11 minutos, o inglês Hurst chutou de fora da área, a bola bateu no travessão e caiu à frente da linha de gol. O suiço Gottifried Dienst validou o lance. A Alemanha perdeu o gás e os ingleses fizeram mais um gol, fechando o placar em 4X2 e ganhando a Copa.

A Itália confia que, dessa  vez, o árbitro não vai repetir a patriotada que vitimou a Alemanha há 55 anos e a Dinamarca, na última quarta-feira. Mesmo assim, a Azurra teme que, em possível dúvida, Sua Senhoria despreze o VAR e consulte a rainha.

Cem anos esta noite • Por Roberto Muggiati


O filósofo e escritor nas filmagens de Edgar Morin, chronique d’un regard. Foto Reprodução @edgarmorinparis


Morin na Casa da Suíça, no Rio, em 1972. Foto Arquivo Nacional.

Em 1963 fez sucesso o filme de Louis Malle Trinta anos esta noite: ao completar essa idade, o protagonista – sem rumo existencial e sem nenhum apego à vida, se mata com um tiro no coração. Bem o oposto tem sido a postura do parisiense Edgar Morin, que chegou aos cem anos neste 8 de julho. 

Não vou enumerar aqui as múltiplas manifestações do seu brilho intelectual, nem sua cultura humanista, que marcaram nossa época. Antropólogo, sociólogo e filósofo, Morin soube se valer de sua admirável longevidade para embarcar num ambicioso projeto de estudos, conhecido como o “pensamento complexo” ou “paradigma da complexidade”. Dos mais de trinta livros que publicou, seis se concentram no âmago da sua filosofia, reunidos no título geral O método, entre eles Introdução ao pensamento complexo e Ciência com consciência. 

O que mais me fascina em Morin é como ele conseguiu aliar o homem de reflexão ao homem de ação, participando ativamente dos embates político-ideológicos do nosso tempo. Filho único de pais judeus sefaraditas não praticantes, nasceu na época em que era fundado o Partido Comunista Chinês, fato que persistiu durante décadas como um dos segredos mais bem guardados da História. Concebido em Moscou, a sete mil quilômetros de distância, o PCC foi criado por treze homens – nenhum operário ou camponês – e seu discurso de abertura foi em inglês, porque os chineses não falavam russo e os russos não falavam mandarim. 

Em 1936, aos quinze anos, no seu primeiro ato político, durante a Guerra Civil espanhola, Morin adere a uma organização libertária, a Solidariedade Internacional Antifascista.

Aos vinte anos, filia-se ao Partido Comunista Francês, como “uma força capaz de resistir à Alemanha nazista”. Na pátria ocupada, entra para a resistência e se torna tenente das forças combatentes francesas. Na época, Edgar Nahoum adotou o codinome Morin; na verdade, optou pelo nome do personagem Manin, do romance de André Malraux A condição humana, mas um mal-entendido transformou Manin em Morin e assim ficou. No pós-guerra, divergindo do autoritarismo estalinista, desliga-se do Partido Comunista. 

Assiste ao esvaziamento do império colonial francês, marcado pela humilhante derrota militar em Dien Bien Phu, na Indochina, que se torna problema norte-americano com o nome de Vietnã. Empenha-se pessoalmente no embate final da descolonização, a libertação da Argélia, que acaba ocorrendo em 1962.

Mais recentemente, Edgar Morin se envolveu com a questão israelense-palestina, mostrando-se crítico da política adotada pelo governo de Israel. Lamentou que um povo perseguido e oprimido ao longo de séculos tenha assumido o papel de opressor em relação aos palestinos. O artigo em que expressou essa opinião, publicado em 2002 no jornal Le Monde, lhe valeu um processo por difamação racial e apologia de atos de terrorismo, movido pela Associação França-Israel. O processo provocou protestos, inclusive de outras entidades judaicas. Morin acabou sendo inocentado pela Corte de Cassação, a mais alta instância judiciária francesa.

Como no poema Uivo de Allen Ginsberg, Morin viu algumas das melhores cabeças da sua geração destruídas de maneira trágica. Viu Louis Althusser, o maior teórico do marxismo, estrangular a mulher enquanto massageava seu pescoço. Viu Roland Barthes, abalado pela morte da mãe, atravessar distraído o bulevar e ser atropelado por um ridículo furgão de tinturaria. Viu Michel Foucault ter seu nome conspurcado ao se tornar a primeira celebridade francesa morta de AIDS. Na ressaca midiática de Maio de 68, Morin ficou sabiamente ao largo da fogueira das vaidades de estruturalistas e “nouveaux philosophes”.

Teve tempo para viver o que Graciliano chama “uma sucessão de estados monogâmicos”. Casou aos 25 anos com a filósofa Violette Chapellaubeau, com quem teve duas filhas, Irène Nahoum e Véronique. Em 1970, casou com Johanne Harelle. Em 1982, com Edwige Lannegrace, da qual enviuvou em 2008. É casado desde 2012 com a socióloga Sabah Abouessalam, com quem escreveu o livro L'homme est faible devant la femme/O homem é fraco diante da mulher (2013) e, em 2020, Changeons de voie - Les leçons du coronavirus/Mudemos de rumo – as lições do coronavirus. 

Diante de uma biografia dessas, só podemos tomar fôlego e desejar: longa vida para Edgar Morin.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

FOTOS ABANDONADAS NOS ANTIGOS ESTÚDIOS DA REDE MANCHETE. VIDEOMAKER LANÇA DOC SOBRE O COMPLEXO FANTASMA DE ÁGUA GRANDE

Cromos largados nos estúdios abandonados de Rede Manchete - Reprodução Vouglar

Abandonados: o que resta dos antigos estúdios da Rede Manchete em Água Grande.
Reprodução Vlougar

Nota reproduzida do Jornalistas & Cia


Jornalistas & Cia publicou há poucos dias uma nota sobre a estreia no You Tube, Canal Vlougar, de um documentários sobre os estúdios abandonados da Rede Manchete em Água Grande, no Rio de Janeiro. Vinte e dois anos depois do fim da TV dos Bloch, o enorme complexo ainda guarda restos de roteiros e de cenários, rolos de gravações e até um cofre. 
Rafael Ramos
Uma das descobertas do autor do documentário, o videomaker Rafael Ramos, é uma pequena mostra de cromos que pertenciam ao Arquivo Fotográfico da Bloch Editores, provavelmente parte do material de divulgação das novelas e demais programas da Rede Manchete. O narrador cita fotos de Ricardo Beliel, Cristiana Isidoro e Sergio Zalis, fotógrafos que trabalharam na revista Manchete

VOCÊ PODE VER O DOC "OS ESTÚDIOS DA REDE MANCHETE" 
NO CANAL VLOUGAR AQUI

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Rita, perdoe o rango! • Por Roberto Muggiati

Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sergio Dias. Foto de Antonio Trindade/Manchete

Em março de 1968 troquei o Rio por São Paulo para trabalhar no projeto da revista Veja, que seria lançada em setembro. Editar um newsmagazine nos moldes da americana Time era o sonho dourado de Victor Civita, tão importante que ele aposentou sua galinha dos ovos de ouro – a revista mensal de reportagens Realidade, o maior sucesso da Abril – para concentrar todas suas forças e finanças na semanal de atualidade. 

Numa estratégia equivocada, o velho VeeCee, 61 anos, adotou a grade funcional da Time, copiando seu expediente, preenchendo centenas de empregos com os melhores jornalistas do Brasil. O êxodo das redações cariocas para a Pauliceia somava algumas dezenas de editores, redatores e repórteres. Acontece que a Time – iniciada com um punhado de bravos em 1923 – evoluiu palmo a palmo até sua configuração de 1968, ao longo de cinco décadas, num cenário sociocultural específico, atravessando os crazy twenties, o crack da Bolsa, a Depressão, a Segunda Guerra, o boom dos anos 50, a Guerra Fria e os swinging sixties, ou seja, um cenário tipicamente norte-americano. 

Ainda: a campanha publicitária dava a impressão de que a Veja seria a Manchete da Abril. Esse erro foi bombasticamente reforçado na véspera do lançamento: transmitido pela TV em cadeia nacional às 20 horas de domingo 8 de setembro (a revista saía às segundas com a data de capa de quarta), um documentário de Jean Manzon mostrava a Veja cobrindo todas as frentes de guerra do mundo, que não eram poucas na época. A Abril se deu conta da imagem truncada ainda na fase dos “números zero” e – pior a emenda que o soneto – acrescentou ao veja do logotipo as palavras e leia. Fez ainda uma maciça distribuição de brindes para meio Brasil: uma lupa num estojo com a logomarca veja e leia.

A "Árvore" no topo da antiga
sede da Abril, na
Marginal Tietê
Não importa: o investimento foi tão maciço que a Veja, no início, se tornou um farol para a classe cultural brasileira. A tal ponto que seus jornalistas não se davam a pena de ir até os entrevistados, os artistas é que tinham de peregrinar até a Meca da Marginal do Tietê. Foi assim que – como editor de Artes e Espetáculos – recebi Rita Lee, Sérgio e Arnaldo Baptista em fins de 1968 para uma conversa na hora do almoço. Os Mutantes eram um foguete em ascensão nos céus da MPB. Em 1967 brilharam no Festival da 

Record acompanhando Gilberto Gil em Domingo no Parque; no ano seguinte fizeram história na final paulista do FIC, cantando sob vaias o polêmico É proibido proibir de Caetano Veloso. 

O recente anúncio da doença de Rita Lee me fez voltar àqueles tempos e me sentir, de certa forma, culpado. Não havia nenhum espaço decente na Abril para receber celebridades. Tinham de comer no horroroso galpão de madeira comunal dos jornalistas e demais empregados, que ficava num anexo ao lado do prédio da editora – quando chovia, e amiúde chovia  grosso, todo mundo se encharcava. Senti-me vexado ao receber os garotos – Rita e Arnaldo tinham 20 anos, Sérgio 18. Ainda não tinha aflorado ao sangue da ruivinha a rebeldia sulista de seus antepassados que lutaram na Guerra da Secessão – as irmãs, Mary Lee e Virginia Lee também foram nomeadas em homenagem ao general confederado Robert E. Lee – mas cheguei a recear, da parte de uma Rita Lee afrontada, algum protesto, como batucar numa panela, igual à matriarca dos filmes de faroeste, e chamar os caubóis para o rancho: “Come and get it!” 

No ano e meio que passei na Veja em São Paulo só uma vez fui convocado por Seu Victor para receber um convidado VIP, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, recém-consagrado “Velho Guerreiro” por Gilberto Gil em Aquele abraço, o hino de despedida do baiano ao partir para o exílio em Londres. Foi um almocinho tacanho naquele pequeno anexo na cobertura do prédio encimado pela árvore da Abril. Um cardápio tão banal que não guardo a menor lembrança do que foi servido. Não podia haver maior disparidade de temperamento entre o Civita e o Chacrinha, o motivo do encontro era um negócio, os dois iam ganhar muito dinheiro à custa do outro. Chacrinha era tão genial que tinha resumido toda a teoria do Marshall McLuhan num bordão: “Quem não se comunica, se trumbica.”

Glauber Rocha na capa da Veja, 1969

Recebi ainda outra celebridade, sem o menor aviso: uma tarde Glauber Rocha adentra meu cubículo de editor, avisado de que a Veja preparava uma grande matéria sobre seu “cordel Western” O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que concorria ao Festival de Cannes de 1969. Além da alma de cineasta, Glauber tinha feeling de marqueteiro e faro de repórter e me encheu de mil detalhes sobre o making  of do filme: por exemplo, como uma pesada câmera foi perigosamente içada por meio de cordas a uma escarpada montanha no sertão baiano. Glauber ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes, ganhou também a capa de Veja, a única que assinei, enriquecida pelas informações de cocheira do cineasta. Nem um cafezinho morno lhe foi oferecido no prédio da Abril.

Na Veja, em 1968. Foto Acervo Pessoal

Guardo da época uma única foto, um melancólico instantâneo, de paletó e gravata, no cubículo que dava para a terra devastada do Tietê. Rita Lee, em troca, era a glória, com seu olhar safado debaixo das franjinhas, rosto sardento, margaridas nos cabelos, bochechas rechonchudas, um fininho entre os dentes.

Pouco depois, eu voltava ao “balneário da república” para dirigir a Fatos&Fotos, na empresa que Adolpho Bloch definia como “um grande restaurante que, por acaso, imprimia revistas”. Em breve, aguardem no Panis Cum Ovum – até o título do nosso blog é uma referência culinária – um suculento relato sobre o Império Gastronômico da Manchete

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Há 50 anos Jim Morrison morria em Paris • Por Roberto Muggiati

Jim Morrison, 1967. A famosa foto de Joel-Brodsky. Reprodução San Francisco Art Exchange (link)


O túmulo no Cemitério Père Lachaise. Reprodução Facebook



E afluência dos fãs no 50ª aniversário da morte do artista. Reprodução You Tube

No curto período de dez meses e meio, o mundo do rock – o mundo, enfim – foi abalado pela morte da Santíssima Trindade dos Js: Jimi Hendrix, sufocado no próprio vômito, em Londres, 18 de setembro de 1970; Janis Joplin, overdose de heroína em Los Angeles, 4 de outubro; e Jim Morrison, de parada cardíaca, em Paris, 3 de julho de 1971. Entraram todos para o Clube 27, a confraria dos músicos mortos com aquela idade.

(Veja matéria recente no Panis:

https://paniscumovum.blogspot.com/search?q=CLUBE+27+ROBERTO+MUGGIATI)

Em meados dos anos 70, o editor de Manchete, Justino Martins – embora próximo dos sessenta anos, portanto duplamente “careta”, segundo a máxima da contracultura “não confie em ninguém acima dos trinta” – se mostrou particularmente sensível ao “poder jovem” e pediu-me que escrevesse uma série na revista, Os jovens que sacudiram o coreto. A série acabou virando livro, pela L&PM, em 1984, Rock: do sonho ao pesadelo. 

Eram 15 perfis, o de Jim Morrison, o vocalista-poeta de The Doors, intitulado Arrombando as portas da percepção. Cito aqui a parte relativa ao seu estranho fim:

“Cansado do rock, das gravações e dos concertos, esgotado e desiludido após uma série de processos – no principal deles acusado de obscenidade durante um concerto em Miami – ele embarcou para Paris com Pamela no começo de março de 1971. No dia 3 de julho foi encontrado morto na banheira do seu apartamento, perto da Place des Vosges. Sua morte continua um mistério até hoje. Não foi feita nenhuma autópsia, não se encontrou o médico que assinou o atestado de óbito. O empresário de The Doors, Bill Siddons, foi chamado de Los Angeles e, ao chegar em Paris, encontrou um caixão lacrado e o atestado de óbito. Só seis dias após a morte do cantor, Siddons divulgou uma notícia à imprensa:

“Jim foi enterrado numa cerimônia simples, na presença de poucos amigos íntimos. Guardamos silêncio em torno do acontecimento porque aqueles que o conheciam e amavam queriam evitar a badalação e a atmosfera circense que cercaram as mortes de outras personalidades do rock como Janis Joplin e Jimi Hendrix. Jim morreu serenamente de causas naturais – ele estava em Paris desde março, com sua mulher, Pamela. Tinha consultado um médico em Paris para tratar de um problema respiratório no sábado – o dia de sua morte.”

Pamela, a única testemunha da morte de Jim, nada esclareceu. E acabou morrendo de uma overdose de heroína em maio de 1974. Jim foi enterrado no cemitério do Père Lachaise, em Paris, o mesmo que abriga os corpos de músicos e escritores famosos como Edith Piaf, Chopin, Bizet, Balzac, Oscar Wilde e outros. Seu túmulo, sempre coberto de graffiti, é até hoje o centro de uma peregrinação interminável de jovens. Outros preferem acreditar que tudo não passou de uma farsa, que Jim Morrison ainda vive numa fazenda qualquer do Texas ou num buraco gelado do Alasca.”

Neste ano do cinquentenário – 3 de julho caiu num sábado – por conta da pandemia apenas cem fãs foram autorizados a visitar o túmulo, atrás de barreiras e vigiados por dois policiais.  Vindos de todos os cantos do mundo, alguns deles têm a certeza de que o túmulo está vazio. Vieram apenas para homenagear o ídolo que, no vigor dos 77 anos, apascenta suas cabras e ovelhas em algum lugar remoto da terra, ou nem isso: dedica-se simplesmente a cultivar a nobre arte do dolce far niente...

Mídia: palavras mutantes...

Fatos & Fotos, 1982

por José Esmeraldo Gonçalves

Estão falando alto pelos botecos... Delta, a cepa. Voto, o impresso.

Delta é a nova cepa da Covid-19, capaz de impulsionar novo ciclo de contaminação. Segundo os infectologistas, a lentidão da vacinação pode deixar o país exposto à Delta. O risco só diminuirá quando a imunização alcançar 80% da população. 

Voto impresso é o golpe que o governo prepara contra as eleições de 2022. Poderá ser usado, se aprovado, como uma espécie de comprovante do voto vendido. Algo a ser mostrado a quem pagou pela "mercadoria" entregue, como se fosse um boleto quitado e carimbado.   

Quase 40 anos depois, as duas palavras, Voto e Delta, voltam a se encontrar no noticiário, agora nas circunstâncias descritas acima. Mas em 1982 Delta era o elemento-chave do escândalo Proconsult, um complô contra a eleição de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio de Janeiro. A palavra estava em todos os jornais e revistas. E o voto (impresso) era o alvo daquela enorme tentativa de fraude eleitoral.  

Em 1982, o voto era analógico, não havia a maquininha do "confirma". O eleitor preenchia a cédula e depositava na urna. Era comum políticos donos de currais eleitorais entregaram ao eleitor "de cabresto" a cédula já preenchida com o "x" e os nomes do candidatos indicados. Se a cédula era o "impresso" da época, a totalização dos votos após a apuração manual dos mesários era feita por computadores. Grupos de mídia, políticos e empresários insatisfeitos com a liderança de Brizola nas pesquisas viram nesse sistema uma brecha para a fraude eleitoral. Os fraudadores ligados ao regime militar montaram um programa que transferia votos nulos e brancos para Moreira Franco, adversário de Brizola e o nome preferido pela ditadura. A variável que levava à fraude para a totalização foi chamada de Diferencial Delta. A maracutaia foi denunciada pelo jornalista Procópio Mineiro, da Rádio Jornal do Brasil. Em seguida, Brizola denunciou o golpe à imprensa internacional, abortou o crime e teve confirmada sua vitória por larga margem.

sábado, 3 de julho de 2021

A atriz Aline Moraes resumiu o espírito da coisa nas manifestações de hoje contra o meliante investigado

Rio, 03/7/2021. Reprodução Twitter

Há 60 anos Hemingway morria em Paris • Por Roberto Muggiati

Ernest Hemingway no Quênia, em 1953.
Foto: U.S. National Archives and Records Administration

Dois de julho de 1961, uma ensolarada manhã de domingo em Ketchum, Idaho. O velho levanta da cama às sete horas, pega um fuzil de caça de cano duplo e estoura a cabeça. Em Paris, são três horas da tarde e estou almoçando com Ruth Fleming, negra, intelectual de Nova York, vivendo um típico romance beat. Às nove da noite sentamos na amurada da rive gauche do Sena para assistir ao crepúsculo tardio do verão. Fumamos em câmera lenta um cigarro tibetano e depois vamos dormir num hotel da Rue de Seine. Na manhã seguinte, na primeira banca de jornal, dou de cara com as manchetes. "HEMINGWAY DEAD", grita o Daily Mail de Londres. "Alvejado quando limpava a arma. Foi suicídio?"


Paris, 3 de julho de 1961. Foto Acervo Pessoal

Vou a uma cabine de fotos automáticas e tiro uma 3x4 exibindo a primeira página do jornal. A sensação de perda é enorme. Numa carta a um amigo, Hemingway escreveu: "Se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, então aonde quer que vá pelo resto da vida ela o acompanhará, pois Paris é uma festa móvel."

Com Olli e Peter, em Paris, nos passos de Hemingway. Foto: Acervo Pessoal

Eu tinha dois amigos em Paris: o finlandês Olli Heikkinen e o norte-americano Peter J. Solomon. Com pouco mais de vinte anos, éramos um pouco os três mosqueteiros em busca de Hemingway. Olli foi viver em Paris com a mulher, uma ex-Miss Finlândia que virou dançarina do Crazy Horse Saloon. Separaram-se e Olli foi morar num pardieiro na Place de la Contrescarpe, onde Hemingway viveu em Paris nos anos 1920. Quando começou a passar fome, voltou para a casa do pai, operário de uma fábrica de vidros nas lonjuras do leste finlandês, perto da fronteira com a URSS. Fui visitá-lo na época do sol da meia-noite, pouco depois da morte de Hemingway.

Peter Jay Solomon era filho de uma tradicional família de banqueiros judeus de Nova York e estagiava num banco americano na região da Opéra. Em suas folgas de almoço, comíamos sanduiches no Harry’s Bar e folheávamos os livros da Brentano’s. Também voltou para a casa dos pais, mas marcou um encontro comigo em 1963 nas touradas de Pamplona, cenário do romance de Hemingway que retrata a "geração perdida", O Sol Também Se Levanta. 

Quase todo mundo que eu conhecia em Paris na primavera de 1961 estava com o pé na estrada a caminho de Pamplona. Americanos, canadenses, nórdicos, meridionais — aquela fauna estrangeira que se esparrama pelos boulevards e cafés de calçada quando o sol volta a brilhar. Muitos costumavam se reunir num café do Odéon frequentado por espanhóis para ouvir as guitarras, ver a dança flamenca e viver a fiesta por antecipação.

Naquela segunda-feira, 3 de julho, quando os jornais noticiaram a morte de Hemingway, já deviam estar todos em Pamplona, para a festa das San Fermines. Dois anos depois, morando em Londres, fui até Pamplona para o encontro marcado com Peter Jay. Quando cheguei à pensión designada, ele já havia partido com a noiva, até hoje não soube o que aconteceu e nunca mais o vi. Decidi ficar e aproveitar a fiesta. Comprei uma bota, aquele odre de couro que os espanhóis enchem de vinho barato e esguicham garganta abaixo. Eu errava sempre o alvo e o vinho espalhava-se pelas roupas claras, tinto como sangue. Pelo menos não era o sangue que manchava as roupas dos espanhóis mais afoitos, que corriam pelas ruas estreitas que desembocavam na arena, perseguidos por um tropel de miúras furiosos.

Quando não havia corridas, sentava-me em meio a uma horda internacional no centenário Café Iruña, frequentado por Hemingway e cenário do filme de 1957 O Sol Também Se Levanta. Hemingway estivera ali pela última vez no verão de 1959, imaginem, apenas quatro anos antes... Coerente com sua opção ideológica, chegando a lutar na Revolução Espanhola, ficou 14 anos sem pisar na Espanha franquista, só voltando a partir de 1953, por força de sua paixão pelas touradas.

No discurso que mandou para ser lido em Estocolmo quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954, Hemingway escreveu; "Na melhor das hipóteses, o fato de escrever implica numa vida solitária..." Mas ele não parou de escrever, mesmo minado por uma série de doenças: diabetes, hipertensão, arterioesclerose, obsessão da morte. A escolha final foi consciente. Como escreveu Carlos Baker na sua biografia de Hemingway: "Agarrara-se durante anos à máxima ‘Il faut (d’abord) durer.’ Agora ela fora trocada por outra máxima: ‘Il faut (après tout) mourir.’ "

Na obra de Hemingway, Paris é uma cidade mitológica. Pamplona também. As pessoas passam, Paris e Pamplona ficam. No espírito do Eclesiastes, seu texto favorito da Bíblia, a terra permanece e Hemingway vê as pessoas mais com piedade do que com ironia. Esse sentimento é sintetizado em O Sol Também Se Levanta pelo refrão de Mike Campbell, bêbado no meio da fiesta, comparando o ser humano aos balões (globos iluminados, em espanhol) e aos fogos de artifício que explodem à noite no céu de Pamplona:

"Globos iluminados” –  disse Mike. “Um bando miserável de globos iluminados."

Pet clics: bons pra cachorro! • Por Roberto Muggiati

Foto de William Wegman (link para site do fotógrafo indicado no post)

Foto de William Wegman. Link para site do fotógrafo indicado no post


Foto de Elliott Erwitt. Foto para Instagram do fotógrafo indicado no post


Foto de Elliott Erwitt. Link para Instagram do fotógrafo indicado no post

Assediado por distopias e pandemias, vendo gente feia e medíocre destilando ódio e burrice por toda parte, resolvi compartilhar com os amigos algumas coisas legais que nos levam para longe deste insensato mundo (nenhum rancor ou pessimismo da minha parte, estou numa boa.) Conheçam aqui dois fotógrafos geniais: William Wegman, um weimaraner-lover de carteirinha, e Elliott Erwitt, amigo de quatro-patas de todas as raças, inclusive dos geniais SRDs. Duas amostras de cada um como aperitivo: se gostarem, procurem mais nas redes caninas. Partidário da máxima “às vezes uma foto diz mais do que mil palavras”, eu me calo, aqui e agora.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Brasil vai às ruas amanhã contra o vacinoduto

Os mercadores da morte

Na capa da Piauí: a cepa 171 da Covid

Hasselmann e Hoffmann: leoas à caça

 

Reprodução O Globo



por O.V.Pochê

Recentemente, Bolsonaro gabou-se por ser “Sou imorrível, imbroxável e também incomível”. Não contava com a astúcia de duas felinas que a foto de capa do Globo mostrou ontem.  A deputada federal Joyce Hasselmann, ao microfone, e Gleise Hoffmann, à direita, de máscara vermelha, são ideologicamente distantes, mas o "incomível" conseguiu uni-las na apresentação do super pedido de impeachment.  Além da simetria dos sobrenomes, Joyce, 43, e Gleise, 55, têm afinidades geográficas. São paranaenses, a primeira de Ponta Grossa, a segunda, de Curitiba. O fato é que ambas, cada uma na sua trincheira, têm DNA de guerreiras. O pedido de impeachment tem notórias dificuldades para avançar em uma Câmara dos Deputados em sua maioria aparelhada pelo bolsonarismo. De qualquer forma, o "imbrochável" está no radar do pega pra capar das duas parlamentares. 

Assalto ao SUS

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Januário Garcia (1943-2021): o adeus de um militante da imagem

 

Reprodução Instagram


Reprodução Instagram


A devastação causada pela Covid-19 é dramática pelo número absurdo - mais de 520 mil brasileiros mortos - e choca quando o foco é cada vítima. São vidas individualmente valorosas que a cifra coletiva dilui. Permanecerá para sempre incalculável a enorme perda do Brasil em potencial humano, do mais humilde ao mais célebre. Por culpa da negligência criminosa da milícia dos insensatos, o país sangra como nenhum outro nessa trágica pandemia. Em nome das vítimas, o Brasil tem que cobrar essa conta.  

O fotógrafo e ativista do movimento negro, Januário Garcia, morreu ontem vítima da Covid-19. Tinha 77 anos e muito a cumprir na sua brilhante trajetória, com atuação em veículos como O Dia, O Globo, Manchete, Fatos & Fotos, Jornal do Brasil, O Dia e O Globo. 

Em 1994, Januário e o repórter Geraldo Lopes fizeram para a Manchete uma matéria com as baianas das escolas de samba reunidas no estúdio da Rua do Russel, poucos dias antes dos desfiles. Título: o rodopio dos orixás. Nunca o hall do prédio, onde elas rodaram saias e balandandãs, rivalizou tanto com a apoteose da ala das baiana no Sambódromo. 

Saravá, caro Januário.

O Pipoquinha está bombando! • Por Roberto Muggiati

 

Michael Pipoquinha - Foto: Divulgação\Reprodução YouTube

Limoeiro, Letônia, qualquer lugar vale para uma boa cepa do jazz. Este vídeo mostra o baixista brasileiro Michael Pipoquinha em ação vibrante com a Big Band da Rádio da Letônia tocando Teen Town, composição do baixista do Weather Report, Jaco Pastorius.

https://youtu.be/7BEgZLC05Vk

 Nascido há 25 anos em Limoeiro do Norte, no Ceará, 

Michael Pipoquinha começou no violão aos dez anos, mas, filho de contrabaixista, logo se apaixonou pelo instrumento. Mergulhou nos estudos, ganhou bolsas e conheceu seu ídolo, Arthur Maia – aos doze anos já estudava e tocava com ele. Aos treze anos, apresentando-se no quadro “De olho nele” no Domingão do Faustão, chamou a atenção do país em rede nacional. Já então Pipoquinha ganhava espaço com seus vídeos caseiros no YouTube e não parou mais – seus vídeos na internet chegam a milhões de visualizações.

Já na época, ao ouvi-lo pela primeira vez, um crítico exultou: “Pipoquinha é Pastorius puro!”, referindo-se ao gênio trágico do baixo, surrado até morrer, aos 35 anos, numa briga de bar na Flórida. Pipoquinha nunca escondeu sua admiração por Pastorius. “Uma gravação que realmente me marcou é Jaco tocando ‘Havona’ com o Weather Report. Tenho muitos heróis: na área do baixo seriam Jaco, Arthur Maia, Sergio Groove, Thiago do Espírito Santo, Victor Wooten, Nico Assumpção, John Patitucci e o grande Luizão Maia.”

Além dos milhares de ouvintes cativos da internet, Michael Pipoquinha tem conquistado fãs em apresentações ao vivo na Europa, África e América do Sul. Tocando o baixo elétrico com a velocidade de um cavaquinho, “Little Popcorn” fez uma feliz fusão das raízes nordestinas com o jazz, mais precisamente, com o bebop – um som que poderíamos chamar de forrop. “Minha maior alegria é comover as pessoas e leva-las à sensação de que realmente a música cura a alma”.

OUÇA MAIS: PIPOQUINHA NO XODÓ

https://www.youtube.com/watch?v=nfr7-f3Cr_8