terça-feira, 15 de março de 2016

Há 70 anos, o jogo era proibido no Brasil. O Congresso deve votar em breve projeto que legaliza cassinos. Curiosamente, em um país que costuma demolir a memória, antigos prédios que abrigaram roletas, mesas de dados e cartas, além de grandes shows, sobreviveram à especulação imobiliária...

No dia 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra mandou fechar todos os cassinos do Brasil. Foi há 70 anos. Na verdade, o decreto de Dutra, inspirado pela Igreja Católica e setores conservadores, proibia todos os jogos de azar.

Mas apenas os grandes cassinos legalizados sumiram do mapa. Loterias, jogo do bicho, bingo (sob o rótulo de "beneficente", esse tipo de jogo de azar continuou a ser realizado em quermesses promovidas pela própria Igreja Católica) não saíram da cultura popular.

Mesmo a roleta continuou a girar, embora clandestina, em mansões alugadas, sem os grandes shows que animavam os jogadores, em bairros mais remotos das grandes capitais. Muitos clubes elegantes, onde a polícia pensava duas vezes antes de entrar, fizeram de salões discretos um cassino para figuras ilustres e selecionadas. Diz-se que essa prática resiste até hoje.

O Brasil tinha perto de 100 cassinos, na época, que empregavam mais de 40 mil trabalhadores fixos, além de cantores e bailarinos contratados para shows.

Há vários projetos no Congresso pela legalização dos cassinos. Pelo menos um deles está em fase final de tramitação e deve ser votado em breve.

Assim como há um lobby pela aprovação, há setores que ainda se apegam ao moralismo hipócrita da década de 1940 e atuam para barrar a iniciativa. É uma discussão ultrapassada, já resolvida nos países desenvolvidos ou naqueles que vivem do turismo. A ilha do atraso é o Brasil.

O país perde significativa soma de recursos e exporta empregos já que muitos brasileiros viajam ao países vizinhos, como Uruguai, ou embarcam em cruzeiros que oferecem roletas, dados, bacará e afins. Isso, sem falar nos cassinos on line sediados lá fora e acessado por milhares de internautas brasileiros.

Proibir o jogo no Brasil, hoje, é burrice ou pressão corporativista de quem acha que poderá ter interesses eventualmente contrariados na área de entretenimento. A esses grupos se juntam alguns pastores e padres que acham que o pixuleco sagrado dos fiéis que os sustentam pode ir parar no pano verde.

Durante muitos anos, empresários que administravam cassinos no Brasil fizeram manutenção nos equipamentos e preservaram móveis e imóveis por julgarem que, em pouco tempo, o decreto seria suspenso. Governos se sucederam mas a proibição não foi levantada.

Talvez esteja nessa expectativa que jamais se realizou a explicação para um curioso fenômeno arquitetônico.

Em um país que não costuma respeitar muito a memória e demole facilmente prédios que contam a história das cidades, é surpreendente constatar que muitos edifícios que abrigaram o jogo permanecem em pé e sobreviveram à especulação imobiliária. Há vários desses antigos cassinos em capitais ou no interior, como no circuito das águas, em Minas, e cidades paulistas, incluindo Santos. Veja nas reproduções abaixo alguns desses prédios que abrigam atualmente instituições públicas ou privadas mas que durante décadas aguardaram, em vão, a roleta voltar a girar.

Cassino da Urca hoje abriga uma escola de desenho industrial

Cassino Icaraí, atualmente da Universidade Federal Fluminense.

Hotel Copacabana Palace operava um luxuoso cassino. Hoje, o Golden Room
e o salão principal onde ficavam as roletas recebem eventos. 

Hotel-Cassino Quitandinha, em Petrópolis, é, atualmente, um condomínio.

Cassino do Lago, em Lambarí, MG

Cassino da Pampulha, em BH, hoje é um museu.

Cassino Americano, Recife. Hoje é uma churrascaria.

Como exemplo de que os cassino não eram atrações apenas nos grandes centros,
 este é o Cassino Sul-Americano, em Crato, interior do Ceará. O prédio é até hoje preservado. 

Não faça bagunça: Airbnb vai lançar ferramenta para receber reclamações dos vizinhos sobre locatários eventualmente encrenqueiros...

Em vez de depender das leis locais ou de transformar reclamações em barraco policial, a Airbnb, o aplicativo que disponibiliza casas e apartamentos para aluguel temporário em todo o mundo, vai acoplar ao seu site uma ferramenta para que vizinhos incomodados com hóspedes encrenqueiros possa remeter suas queixas diretamente para o Airbnb. É o que um porta-voz da empresa revelou ao site Mashable. Ns últimos dois anos, aconteceram vários incidentes motivados por festas barulhentas e até orgias. Nas próximas semanas, o Airbnb passará a monitorar tais incidentes.

Cindy Crawford, 50 anos, 500 capas...


Capas comemorativas dos 50 anos da ex-modelo Cindy Crawford: com a filha e exibindo as linhas atuais. 
Aos 50 anos, a ex-modelo Cindy Crawford é capa, nas últimas semanas, de várias publicações internacionais. Nas décadas de 1980 e 1990, ela fez parte do grupo denominado supermodels. Ao longo da carreira estampou cerca de 500 capas, atuou em sete filmes e, em 1995, foi apontada pela Forbes como a modelo que mais faturou naquele ano. Duas das capas que fez chamaram atenção especial: a da Playboy, em 1988, quando tornou-se a primeira modelo de prestígio a posar para a revista e a famosa capa da Vanity Fair, em 1993, que provocou a ira dos conservadores: ela posou ao lado da cantora lésbica K.D.Lang em cena provocativa. Seus 40 anos foram celebrados em dezenas de capas, o que faz supor que os 60 ainda renderão ensaios internacionais.
Na Vogue Paris dessa semana, Cindy Crawford aparece ao lado da filha, Gerber, 14 anos, que dá os primeiros passos como modelo. A foto é de Mario Testino.

A capa que chocou os conservadores: com a cantora lésbica K.D.Lang

Cindy Crawford foi a primeira supermodelo a posar para a Playboy: um desafio às agências que previam prejuízos à carreira nas passarelas. 

Cindy Crawford não escapou do lugar-comum de foto grávida...


Aos 40 anos, na Vanity Fair


Na Manchete, em 1995.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Para ler ao som de Adoniram Barbosa: "SE VOCÊS PENSA QUE NOIS FUMOS EMBORA NÓIS ENGANEMOS VOCÊS FINGIMOS QUE FUMOS E VORTEMOS OI NÓIS AQUI TRAVEIS"



45 anos depois da Copa de 70, política e camisa da seleção voltam a jogar juntas. O uniforme da CBF foi
o preferido dos manifestantes que pedem o golpe. Foto Andre Tambucci/Fotos Públicas



Numa semana em que o verde e amarelo predominou, a Polícia Rodoviária Federal aprendeu ontem em SP  drogas "patrióticas".  A PRF não informou mas os jornalistas trabalham com várias hipóteses: os traficantes achavam, quem sabe, que assim seria mais fácil escapar das barreiras policiais dizendo que eram pacotes de camisetas para a manifestação; a polícia pintou a carga como uma forma de marcar sua posição no protesto; ou é apenas a reedição de um marketing que o tráfico utilizou na época da Copa quando o verde e amarelo indicava droga "padrão Fifa". Foto PRF.

por Flávio Sépia
Esse mar de gente de verde e amarelo pedindo a volta dos militares me dá pesadelo.

Golpe, segundo os velhos comentaristas políticos, é coisa que a gente sabe como começa mas ninguém sabe como acaba.

Multidões pedem o impeachment de Dilma Rousseff. Mas alguém sabe o que ou quem virá depois?

No início da década de 1960, a grande mídia se engajou no golpe para derrubar João Goulart. Editoriais, denúncias, reportagens forjadas, a difusão da "ameaça" comunista, valia tudo para levar o povo às ruas.

Até que os militares ligaram os motores do tanques "em socorro ao clamor público".

Políticos e empresários que se engajaram na conspiração imaginavam voltar ao poder tão logo as baionetas fossem recolhidas. A revista Manchete, por exemplo, que tinha notórias ligações com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, acreditava tão piamente que o poder voltaria aos políticos que, na edição de 4 de abril de 1964, exaltava JK como candidato natural à sucessão.

Um trecho de um texto naquela edição da Manchete: "O que ele já fez antes faz de novo agora, ao pleitear que o Brasil lhe seja entregue para a execução do trinômio "Paz, Desenvolvimento e Reformas".

"Ele" era JK.

E JK, como Manchete, quebraram a cara. Castelo Branco que, segundo a mídia em geral, abriria uma "nova e brilhante" fase da República, seria apenas o primeiro de uma fila de ditadores por inacreditáveis 21 anos.

Mas esse atual exibicionismo verde-amarelo é preocupante. Ainda mais quando imagens desse domingo mostraram caminhões enfeitados pedindo a volta dos militares.

Há 45 anos, a propaganda do regime aliada à publicidade privada também se valeu dessas cores. No embalo da Copa de 70, essa mesma camisa amarela que inundou as ruas, ontem, deu o mote para a AERP dos militares (Assessoria Especial de Relações Públicas) surfar no "patriotismo".

Na época, nos Estados Unidos, era popular o slogan "Love It or Live It", uma "sugestão" para negros, estudantes ou jovens que se recusavam a lutar no Vietnã. O Brasil de Garrastazu Médici logo importou o "Ame-o ou Deixe-o". O conceito de Brasil Grande lançado a partir do Planalto ganhou força em jornais, revistas, TV e na publicidade.

Nessa semana, uma grife, a Reserva, da qual é sócio o apresentador da Globo, Luciano Huck, que pertence ao clã de amigos de Aécio Neves, lançou uma camiseta que também me lembrou a estética daqueles tempos. Trata-se de uma camiseta-exaltação a Moro.

Isso me fez teclar os anos 70 na máquina do tempo e fazer uma viagem às mensagens da época.

Por nada.

Apenas pelo desprazer de rever essa monótona onipresença dos símbolos como instrumentos de propaganda política.

Não por acaso, cores e dizeres geralmente associados ao autoritarismo.

2016: Camiseta da grife Reserva à venda 
para a manifestação de ontem.


Anos 70: O slogan autoritário do país dividido, 

As marcas aderiam ao marketing da ditadura e...

...adotavam a terminologia da repressão.
Mas um dos piores anúncio dos tempos dos militares foi este, publicado na Veja, em novembro de 1969: uma referência explícita e cruel às sessões de  torturas que aconteciam nos porões da ditadura. Isso para sensibilizar as famílias que marcharam "com Deus pela Democracia" a comprar um novo aparelho de TV.

Monica Iozzi critica mídia... Em rede social, apresentadora da Globo mostra sua indignação com o "momento triste' que o país vive


Reprodução

Hillary Clinton e Bernie Sandres criticam violência dos apoiadores de Donald Trump


Trump se enfurece contra manifestantes. Reprodução

Hillary Clinton e Bernie Sanders denunciaram a agressividade da campanha de Donald Trump no fim de semana. Segundo os pré-candidatos democratas, o republicano está incitando à violência em seus comícios.
"Ele está fazendo uma campanha cínica, de ódio e medo e encoraja seus apoiadores a brigar com quem não concorda com eles", disse Hillary. "Trump deve dizer que a violência na política é inaceitável", completou Sanders.
Apoiadores de Trump não admitem protestos contra o candidato por ocasião dos seus comícios. Foi o que aconteceu em Chicago. Um vídeo que circula na web mostra um adepto de Trump dando um soco em um negro, que protestava contra o republicano.
No vídeo, o agressor afirma que da próxima vez irar matar manifestantes contrários a Trump. O republicano, por sua vez, pede que a polícia prenda todos os manifestantes. "Se passaram a prender, eles não vão protestar contra mais nada", enfureceu-se Trump.
VEJA O VÍDEO EM QUE UM "COWBOY" PROMETE MATAR QUE FOR CONTRA TRUMP. CLIQUE AQUI

Em Copacabana, manifestantes vigiavam repórteres

O repórter Leonardo Mendes conta no site DCM que foi intimidado por um homem com a camisa da seleção ao fazer a foto acima. "Fui agredido na manifestação em Copacabana, quando tirava a foto de uma vendedora de cerveja. O que me chamou a atenção para a foto foi o contraste da cor de pele da vendedora com a de todos os manifestantes que apareciam na imagem".

Crise política: o golpe foi às ruas no domingo. Na próxima sexta, será a vez da defesa da democracia...

Rio: As manifestações pela queda de Dilma reuniram a classe média, majoritária e visivelmente. Milhões de pessoas foram à rua em centros urbanos. Segundo pesquisa do Datafolha na Avenida Paulista - que recebeu o maior número de pessoas - mais da metade declarou renda entre 5 e 20 salários mínimos (números que ultrapassam em três vezes a média geral da capital paulista) e 12% se identificaram como empresário.  Foto de Tania Rego/AG Brasil. 

A ditadura foi lembrada. Como em 1964, às vésperas do regime militar, grande parcela da classe média convocada pela mídia conservadora lotou avenidas.
Foto André Tambucci/Fotos Públicas
Trio elétrico em Copacabana pede a volta dos tempos do choque elétrico. Reprodução DCM

Pressão pelo impeachment. Foto Andre Tambucci/Fotos Públicas

O fantasma do comunismo ainda assusta os conservadores. Fotos Públicas

Revoltosas na Av.Paulista. Foto André Tambucci/Fotos Públicas 

Alegoria de Lula morto. Foto André Tambucci/Fotos Publicas

Aécio Neves, citado várias vezes na Lava Jato,  e Geraldo Alkmin, à frente de um governo que acumula escândalos como o da merenda escolar, metrô, máfia de impostos etc, foram hostilizados ao tentar participar da manifestação pelo golpe em SP. Reprodução Facebook

Gucci em selfie no protesto. Foto Andre Tabucci

Bolsonaro em Brasília. Foto Wilson Dias/Ag Brasil

Marcha da Família em Brasília. Foto Wilson dias/Ag Brasil
A foto acima, no Rio, viralizou na web como uma espécie de símbolo colonial da classe alta indignada: família vai ao protesto com bebês e babá uniformizada. Debret faria disso uma gravura dos tempos da Corte. Reprodução Instagram

O golpe é fashion. Fotos Públicas




NO PRÓXIMO DIA 18, BRASILEIROS EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DAS POLÍTICAS SOCIAIS, CONTRA A ESPECULAÇÃO FINANCEIRA E O GOLPE DE ESTADO VÃO ÀS RUAS.
ONTEM, EM VÁRIAS CAPITAIS, LONGE DAS MANIFESTAÇÕES PELA QUEDA DE DILMA, TRABALHADORES, ESTUDANTES, MOVIMENTOS SOCIAIS E CIDADÃOS QUE NÃO CONCORDAM COM A DERRUBADA DE UMA PRESIDENTE ELEITA SE REUNIRAM EM VÁRIAS CIDADES PARA UMA PRÉVIA DAS MANIFESTAÇÕES MARCADAS PARA A PRÓXIMA SEXTA-FEIRA.
ASSIM COMO NESTE DOMINGO QUANDO  OS QUE DEFENDEM A DEMOCRACIA NÃO SE APROXIMARAM DOS PROTESTOS DOS CONSERVADORES, ESPERA-SE QUE, NO DIA 18, OS MILITANTES DO GOLPE NÃO INTERFIRAM NAS PASSEATAS.
A DEMOCRACIA AGRADECE.   
Jovens na rua contra a ameaça golpista. Foto Elifas Simas/Ag. PT

A convocação para as passeatas do dia 18 de março. Foto Elifas Simas/AG PT

E São Bernardo, manifestantes se solidarizam com Lula. Foto Paulo Pinto/PT

Disposição para lutar contra o golpe. Foto Adonis Guerra/SMABC
Foto Adonis Guerra/SMABC

domingo, 13 de março de 2016

Carlos Heitor Cony na Revista O Globo: "Anos atrás, no Nordeste, vi à venda uma camiseta preta com uma palavra em cinza, só dava para ler de perto: "Foda-se". Me arrependo de não ter comprado a tal camiseta. Seria ótima para meu aniversário de 90 anos"


Foto Ana Branco/Reprodução Revista O Globo




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Aos 90, Carlos Heitor Cony rejeita festejos e trabalha em 2 novos livros

por Alvaro Costa e Silva (para a Folha de Sâo Paulo)

Na próxima segunda (14), quando completa 90 anos, Carlos Heitor Cony vai fugir do mundo. Não permitiu que os confrades da Academia Brasileira de Letras lhe prestassem homenagem com uma exposição; e não gostou nada de ver uma caixa comemorativa com seus livros que estampava em grandes letras e números a data redonda –a ser lançada pela Ediouro, ainda sem preço definido.

"Jamais comemorei meu aniversário. E, nas poucas vezes em que cantei parabéns, nunca disse o último verso: 'Muitos anos de vida'. Não desejo isso para ninguém", afirma o escritor, que planeja viajar para uma cidade pequena: "Quem sabe Iguaba Grande?".

Cony está com o rosto corado de cigano e demonstra disposição. Desde que levou um tombo na Feira de Frankfurt, em 2014, não se sente tão bem. A queda fez um coágulo na cabeça, "do tamanho de uma maçã", e aumentou os cuidados com a saúde: ele está superando um câncer linfático que o obrigou a fazer tratamento quimioterápico e enfraqueceu movimentos de braços e pernas.

Anda de cadeiras de rodas. A mão direita ainda está meio presa. "Quando me pedem para sentar ao piano, só consigo tocar uma peça: 'Concerto para a Mão Esquerda', de Ravel", brinca.

"Meu apartamento virou uma UTI, vivo entupido de remédios, um deles ainda em experiência nos Estados Unidos, que custa R$ 18 mil a dose. Com exceção da família e alguns poucos amigos, só converso com médicos, enfermeiros e fisioterapeutas. Passo horas na máquina de drenagem linfática. Mas o pior já passou. A vida é muito estranha, mas eu continuo nela."

A cabeça está tinindo; a fala característica, meio atropelada, esforçando-se para acompanhar a velocidade do pensamento a mil. A motivação é tanta que Cony –que afirmara já ter pendurado as chuteiras depois de publicar mais de 80 livros, entre romances, contos, crônicas, ensaios, crônicas, adaptações de clássicos –está às voltas com dois novos romances.

Retomou o projeto de "Messa pro Papa Marcello", espécie de continuação de "Informação ao Crucificado" (1961), que tenta escrever desde o século passado. Tem 100 páginas prontas.

"Será minha biografia espiritual. A ideia central é que dobrar uma esquina errada é fatal. Dobrei duas: quando entrei no seminário e quando saí dele, aos 20 anos, sem saber nem pegar um bonde, para entrar na vida de pecado que tenho levado até hoje".

Cony conta que, em seus conflitos com Deus, chegou a um acordo: "A única maneira de justificar Deus é não acreditando nele. Mas às vezes me pergunto: por que um ser tão poderoso iria criar um ser tão repugnante como o Aedes aegypti? Aí sinto a presença dele".

Com mais tempo livre e menos trabalho –continua a assinar uma coluna da Folha, mas agora só aos domingos"", aproveita para reler Santo Agostinho, autor das "Confissões", que considera um dos dez livros mais importantes da literatura universal: "Cada vez mais estou com Santo Agostinho quando diz que a vida não é mortal; a morte é que é vital".

"Cinco Prudentes Virgens" –que o autor quer começar logo a escrever – será o 20º romance. É inspirado na história bíblica contada segundo Mateus: 10 mulheres estão à espera do noivo; cinco delas levam a candeia acesa, enquanto as outras cinco não têm óleo para manter a chama e acabam preteridas.

"É claramente uma parábola sobre se preparar para a morte", diz Cony. "Além de modernizar a história, quero misturá-la com a do Barba Azul e de sua mulher curiosa que descobre os quatro cadáveres das mulheres anteriores trancados no quarto. Barba Azul tem mais a minha cara."

Algumas das opiniões literárias do escritor cristalizaram-se ao longo do tempo: Machado de Assis é o maior escritor brasileiro, e seu melhor romance é "Quincas Borba". Curiosamente, não aponta Machado como o melhor romancista, e sim Lima Barreto, que foi "mais fiel ao gênero".

"O maior contista da língua é Guimarães Rosa. E seu melhor conto, 'Os Chapéus Transeuntes', da antologia 'Os Sete Pecados Capitais'. O tema, bem roseano, é a soberba".

No campo das influências, nem Flaubert nem Sartre ocupam o primeiro lugar. A escolha recai em uma figura insuspeitada: o padre Tapajós, seu antigo professor de direito canônico: "Ele me convidou a ser uma espécie de cronista das atividades no seminário e incentivou a leitura de clássicos proibidos. De alguma maneira, é ele o culpado por ter me tornado um escritor".

Na lista de suas obras, bate na mesma tecla: prefere "Pilatos" (1974): "Atingi meu zênite. É antiliteratura, antimoral, antifamília, anti-homem. Não à toa, o personagem principal inicia o livro castrado".

Com "Quase Memória" (1995), seu livro de maior sucesso –mais de 600 mil exemplares vendidos, segundo ele–, chega a ser desdenhoso: "É um romance circunstancial. Se não tivesse ganhado um computador da minha filha, gostado da brincadeira e começado a escrever um sonho que tivera na véspera, jamais o teria escrito".

Cony não pretende assistir à adaptação de "Quase Memória" para o cinema, feita por Ruy Guerra, com previsão de estreia este ano. "Na época em que negociamos os direitos, disse ao Ruy que não entendia por que ele queria fazer um filme do livro. Continuo sem entender. Minha história não tem enredo, nem conflito. Nem mesmo uma mulher bonita".

Com a experiência de ter acompanhado algumas das principais crises políticas do Brasil –o suicídio de Getúlio, o golpe de 1964, a renúncia de Collor– o escritor se confessa perplexo diante do cenário atual: "As acusações contra Eduardo Cunha, de ter recebido U$ 5 milhões numa conta da Suíça, são espantosas: esse dinheiro dá para comprar o Kremlin, não um simples deputado. Dilma está perdida. Aliás, nem deveria ter entrado na Presidência. Sua única saída é pedir para sair".

"Lula é um aproveitador, um espertalhão, e mesmo assim continua o nome de maior relevo em nossa política, simplesmente porque do outro lado não há nem sequer um 'cara'. Aguardo o dia em que Dilma fará uma delação premiada contra Lula, e Lula fará uma delação premiada contra Dilma."

Aos 90 anos, Cony ainda se pergunta onde estão os ossos de Dana de Teffé, referindo-se a um escandaloso caso da crônica policial carioca dos anos 1960:

"De origem judia, Dana foi bailarina clássica, e teria sido espiã de alemães e russos. Casou com diplomata brasileiro e depois teve um caso com advogado esperto, Leopoldo Heitor, quase meu xará. Um belo dia ela desapareceu. A polícia suspeitava de assassinato, mas o corpo jamais foi encontrado. Enquanto não acharmos seus ossos, seremos sempre essa bagunça. É um símbolo da nossa estranheza".

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Memórias da redação: Fatos & Fotos faz bullying com anunciante, que se queixa a Adolpho Bloch, e Cony (90 anos, amanhã) evita demissões

por José Esmeraldo Gonçalves (*)

Entre numerosas funções na Bloch, Carlos Heitor Cony foi diretor da Fatos & Fotos. Acho que nenhum outro editor nos deu tanta liberdade para escrever. Foi no começo dos anos 1980. A ditadura já dava sinais de que não se segurava nos coturnos. Depois da campanha pela anistia, o movimento pelas Diretas-Já apontava no horizonte.

A F&F não estava bem. Circulação caindo, poucos anúncios, parcos recursos. As atenções e os investimentos da Bloch já se voltavam para a TV Manchete. Cony criou uma seção chamada Sete Dias e deu espaço para que Nei Bianchi e eu escrevéssemos, em revezamento, os artigos que abriam a revista e abordavam os principais acontecimentos da semana.

Beleza. Gostamos da ideia e, nas edições seguintes, falamos bem de uns poucos, mal de muitos e incomodamos outros tantos “amigos” da Bloch.

Com Carlos Heitor Cony, na Livraria da Travessa, em 2008: lançamento
do livro 'Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou".
Foto Alex Ferro
Os artigos eram, em geral, irônicos.Toda semana alguém reclamava. Cony matava no peito e não dava bola para o adversário. Até que um dia Adolpho entra na sala com uma carta na mão.

E não era um coringa.

Senta-se à frente da mesa do Cony, me chama - eu era, então, chefe de redação -, e vai logo disparando o seu bordão: “E como é que o senhor faz isso comigo”.

Era curioso esse bordão que o Adolpho usava com frequência. Era um misto de bronca e lamento, de reclamação e de decepção.

Ele me pediu que lesse a carta em voz alta. Não podíamos rir, jamais desrespeitaríamos o Adolpho que falava sério, mas que dava vontade de rir, dava.

A carta intentava ressaltar um "drama", mas as entrelinhas passavam involuntariamente um humor quase irresistível, puro Irmãos Marx. Um empresário do setor de materiais de construção queixava-se de que a F&F o ridicularizara perante sua família e os funcionários da sua fábrica.

Logo entendi a razão da reclamação.

Com Ney Bianchi, na redação, anos 80.
O Rio, na época, em função da cotação do dólar muito favorável ao turista americano, estava cheio de gringos. E gringo remediado. Com relativamente pouco dinheiro, um americano de classe média baixa podia se dar ao luxo de adquirir um pacote turístico, passar uma semana no Rio, hospedar-se em um hotel cinco estrelas e tirar uma onda de rico em férias nos trópicos. Copacabana estava cheia desses tipos. E naquela semana, o artigo da seção Sete Dias era exatamente sobre o tal fenômeno. Sob o título "Gari em NY, Rei no Rio", a crônica  - um texto do sempre brilhante Ney Bianchi - ironizava um sujeito fictício que atrasava o pagamento da hipoteca e dava um tempo no duro ofício de recolher o lixo do Bronx em troca de uma temporada nas terras cariocas, com direito a mulatas, caipirinha, sol e samba. Até aí, tudo bem.

O problema aconteceu na hora de ilustrar a página.

Ao editar a matéria, ao lado do chefe de Arte J.A. Barros, pedi ao saudoso e querido amigo Evaldo Vasconcelos, o boa-praça secretário de redação da F&F, que buscasse no arquivo fotos de turistas típicos. Havia centenas de cartelas de plástico com cromos 6x6 que mostravam visitantes em várias épocas. A maioria, claro, não identificada.

Escolhi uma foto de um sujeito que mais turista típico não podia ser. Um cidadão cinquentão, rosto vermelho, de tênis, bermuda estampada, meias branquíssimas no meio das canelas idem, boné, sentado, solitário, em um dos bancos de cimento da orla. Só faltava estar escrito na camiseta: “Mim ser de Long Island”. Botei lá, no meio da página, com destaque, a foto que simbolizava o “gari” que reinava no Rio e comia mulatas adoidado.

Foi mal: o “gari” era um rico empresário, judeu como o Adolpho, amigo da família Bloch e ainda por cima anunciante em algumas publicações da casa. “Isso não se faz”, repetia Adolpho, enquanto que eu continuava a ler carta.

Cony, como hábil mediador, procurava controlar a situação, antes que o Adolpho pedisse cabeças ou cabeça.

O empresário, a vítima do Sete Dias, pegava pesado na reclamação. Apelava para suas origens, o sofrimento do seu povo, colocava-se como alvo de preconceito. Relatava que ao chegar à sua fábrica tivera o desprazer de ver colada a página da revista em uma parede. Sentira-se ridicularizado, humilhado, mas apesar disso não pedia retratação.

Na carta pessoal dirigida a Adolpho dizia-se tão somente decepcionado com o tratamento que a revista lhe dera.

Assumi o erro, disse-lhe que, obviamente, não havia a intenção de ridicularizar o reclamante. Para nós, o "turista" era um genérico, entre tantos outros assim arquivados.

Adolpho pegou o telefone, ligou para o arquivo e disse que, a partir daquele dia, todas as fotos, inclusive as antigas, tinham que ser identificadas. Tarefa àquela altura impossível, eram milhões de imagens.

Ninguém foi demitido.

Com o tempo, a gafe caiu no esquecimento.

(*) Texto originalmente escrito para o livro "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou"