terça-feira, 2 de junho de 2026

Minhas noites de autógrafo na Argumento • Por Roberto Muggiati

 

Com Celso Blues Boy, comentado no capítulo sobre o blues no Brasil.



Os dois livros lançados na Argumento


À noite passada sonhei que voltava à Argumento. Foi na livraria do Leblon que tive os dois lançamentos mais felizes da minha vida.

O primeiro, em 20 de setembro de 1995, desafiou (e venceu) a fúria dos elementos numa quarta-feira de tempestade implacável. Na sala lotada, a fila de autógrafos de Blues: da lama à fama escoava lentamente ao longo de três horas ao som de uma banda de jovens, Os McKays. Ilhado em São Paulo, meu amigo Ruy Castro se fez representar pela mulher, Heloisa Seixas. Pessoas de um passado remoto apareciam diante de mim. Regina, ex-namorada de um sobrinho que foi morar do outro lado do mundo casado com uma australiana, era agora uma arquiteta de sucesso. A carioca Tânia, um crush da adolescência na praia paranaense de Guaratuba, se tornara uma psicanalista, casada, com quatro filhos. O guitarrista Celso Blues Boy, autor de Aumenta que isso aí é roquenrol e personagem do meu livro, levou-me um abraço caloroso.

O outro livro, lançado na Argumento em 1997, foi A Revolução dos Beatles. Em 11 de setembro de 1962 eu morava em Londres, mas passei anos ignorando solenemente que naquele dia os Beatles faziam sua primeira gravação em Abbey Road. Eu estava tão perdido como Fabrizio Del Dongo em A Cartuxa de Parma: atordoado no fragor de uma batalha, desconhecia que era a de Waterloo. Esse meu texto está conscientemente eivado(!) de clichês e citações literárias, por conta da emoção. Alain Robbe-Grillet, adepto ferrenho da escrita objetiva e enxuta, lambuzou-se em adjetivos ao narrar um acidente de avião do qual escapara milagrosamente. Penitenciei-me de minha falha jornalística descrevendo meticulosamente aquele dia na vida dos Beatles:

            Naquela terça-feira, 11 de setembro de 1962, Ringo Starr saiu cedo do hotel em Londres. Saiu sem guarda-chuva, nem tinha um. Como não lia o Times, ignorou a previsão de tempo nublado, com períodos de sol, chuvas esparsas durante a tarde, ventos moderados, temperatura máxima de 20 graus. O inglês acreditava no Times e na meteorologia. Ringo achava tudo aquilo uma bobagem: afinal, não chovia todo dia naquele maldito país? ”

O sonho de ontem tem uma explicação: volto hoje mais uma vez à Argumento para um lançamento histórico: a biografia do fundador da livraria, Fernando Gasparian, pelo jornalista Márcio Pinheiro, livro inspirado pela presença de Gasparian no filme Ainda Estou aqui. Graças a defensores da democracia como o “homem de opinião”, todos os brasileiros de caráter podem dizer hoje: “Ainda estamos aqui. ”


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Trump vai sancionar o Brasil e quer roubar o pix. Favor dirigir reclamações ao guichê dos Bolsonaros.

O pupilo e o vacilo. Depois da visita, as tarifas e o ataque ao Pix



por José Esmeraldo Gonçalves
Agora entendemos. As cifras Zero 1, 2, 3, 4 referem-se ao quociente de inteligência dos respectivos Bolsonaros juniores. Vejamos: dois deles, Eduardo e Flávio valeram-se de ligações  com el seementos da extrema direita estadunidense para levar Donald Trump a declarar como terroristas duas organizações criminosas brasileiras. Combater as facções é tudo que os brasileiros querem. Curiosamente há evidências públicas por fotos, vídeos e atos políticos de relacionamento do clã com acusados de atuação no crime. Juntos, por interesse eleitoral, eles traíram o Brasil, deram um tiro no pé no país. Nos próximos meses, muitos setores irão pagar a conta desse show de subserviência e burrice. Repararam que a milícia não será atingida pelas medidas de Trump? Pois é.

Os Estados Unidos já enfrentaram o crime organizado em grande escala militar na Colômbia. A estratégia não deu certo. Também o fizeram, até de forma clandestina, no México. Fracassaram. Agora, bombardeiam barcos que supostamente levam drogas para os Estados Unidos. Não vi no noticiário qualquer matéria sobre combate ao contrabando de fuzis de fabricação americana que abastecem as organizações criminosas da América do Sul. Também não há operações vistosas contra a lavagem de dinheiro do crime em território americano que é tão somente o maior consumidor de drogas do planeta. Além disso, o drama mais evidente nas ruas do país é o dos "zumbis" que usam drogas farmacêuticas à base de opioides, como fentanil, responsável por uma epidemia de overdose que oferece cenas lastimáveis e degrada vidas e áreas urbanas. Opioides não florescem nos Andes. Outra questão mal explicada: quem comanda os cartéis que atuam na distribuição de drogas dentro dos Estados Unidos, o braço mais lucrativo da operação? 

Ao determinar que o Brasil abriga organizações terroristas, Trump, inspirado pelos Bolsonaros, abre uma caixa de ferramentas de sanções e  retaliações. A estrutura digital do Pix pode ser a primeira vítima. Remessas de dólares dos Estados Unidos para o Brasil serão afetadas. Negócios, relações de empresas, o agronegócio, viagens e relações de brasileiros com o sistema bancário americano serão alvejados. Uma consequência que não pode ser descartada: fluxo de  remuneração de youtubers poderá ser comprometido tal qual acontece no Irã e na Rússia. A intensidade da reação dependerá do grau de influência da ala republicana radical sobre os humores de Donald Trump. Os Estados Unidos podem recorrer a fatores militares e jurídicos. Interesses da extrema direita tanto lá quanto cá, em ano eleitoral, vão contaminar o quadro ainda mais. 

Um recado aos setores e pessoas atingidos Favor encaminhar reclamações ao guichê dos Bolsonaros. Os primeiros resultados da visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca estão prestes a acontecer: Trump vai ordenar tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. E também quer roubar o pix. Parabéns aos envolvidos.

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