"A mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou outros tempos. Somos a mudança que procuramos."
Barack Obama
"A mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou outros tempos. Somos a mudança que procuramos."
Barack Obama
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| Exu no topo do mundo da Grande Rio. Foto de Gabriel Monteiro/Riotur/Divulgação. |
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| Paolla Oliveira, de Pomba Gira reinando na terra. Foto de Gabriel Monteiro/Rio Tur/Divulgação |
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| ...A atriz ousou na avenida. Foto de Gustavo Domingues/Riotur/Divulgação |
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| Depois de dois anos a plateia do Sambódromo carioca pós-pandemia voltou a abraçar o samba da Imperatriz. Foto de Marco Antonio Teixeira/Riotur/Divulgação |
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| A cantora Iza em foto de Marcelo Piu para a Riotur/Divulgação. Por todos os motivos, ela foi o símbolo... |
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| da Imperatriz na alegria reconquistada após o cancelamento dos desfiles em nome da saúde. Foto de Marco Antonio Teixeira/Riotur/Divulgação |
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| Por falar em alegria, a Viradouro contou a vibração do carnaval de 1919, após a pandemia mundial de Gripe Espanhola naquele ano. Foto de Douglas Shineidr/Riotur/Divulgação |
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| O lado tragicômico também compareceu. Foto de Douglas Shineidr/Riotur/Divulgação |
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| No voo da ficção da Viradouro, a chave do Rio de Janeiro chegou via drone para o Rei Momo daquele ano. Foto de Rodrigo Gorosito/Riotur/Divulgação |
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| Um trio imbatível de gênios da Mangueira (Jamelão, Cartola e Delegado) reviveu na avenida através de sósias perfeitos. Foto de Douglas Shineidr/Riotur/Divulgação |
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| A Mangueira reocupa a passarela, agora com nova iluminação. Foto de Fernando Maia/Riotur/Divulgação |
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| Samba tem consciência. Veja o recado da Baija Flor na foto de Douglas Shineidr para Riotur/Divulgação |
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| Vila Isabel celebrou Martinho da Vila. E a plateia delirou. Foto de Marco Antonio Teixeira/Riotur/Divulgação |
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| E a mesma Vila plena e colorida no sambódromo carioca. Foto de Marco Antonio Teixeira/Riotur/Divulgação |
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| Vivane Araújo, grávida, no Salgueiro. Foto de Douglas Shineidr/Riotur/Divulgação |
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| Lucinha Nobre e a bandeira da Portela. Foto de Gustavo Domingues/Riotur/Divulgação |
"Se, pelo menos, pudéssemos viver duas vezes: a primeira vez, para cometer todos os inevitáveis erros; a segunda, para lucrar com eles.”
D.H. Lawrence
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| Veja "o fascista que vira jacaré no samba em SP. Clique no link. https://twitter.com/senadorhumberto/status/1518181908630364160?t=d3PZdXyIwpSacJhXsBYsiQ&s=19 |
Do Diário de Franz Kafka, dia 2 de agosto de 1914, início da Primeira Guerra Mundial:
"A Alemanha declarou guerra à Rússia. - À tarde, natação."
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| Um filósofo na redação. |
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| Casório à francesa comme il faut. |
Antes, com o jornalista Régis Debray, durante a cobertura da morte de Che Guevara na selva boliviana, Irineu foi preso e expulso do país. Fez questão de entregar pessoalmente ao irmão de Guevara, na Bolívia, os últimos testemunhos e fotografias daquele que iria se tornar um mito revolucionário do século.
“Conheci o Irina nos primeiros dias de 73 . Vinha de ressaca do Réveillon por aquela rua do Novo Mundo. Ajudei-o a chegar à Manchete. Era a rua Silveira Martins, que margeia os jardins do Palácio da República. Do outro lado havia um bar frequentado pelo pessoal da Manchete. Eu estava com meu fusca estacionado à porta desse bar e o Irineu, que já devia ter tomado umas e outras, falou bem alto:
– Olha aí uma candidata ao forno crematório!
O que eu chorei... Claro, ele pediu desculpas pela brincadeira de mau gosto. Na sequência viajou à Europa a serviço e me mandou uma carta linda “pour se faire pardonner”. Guardo a carta até hoje. Ficamos amigos para sempre. Ia às festas da família. Até o fim almoçávamos juntos uma vez por mês (Irineu morreu em 2005, aos 76 anos). Conheci o Michel e a Christine adolescentes. Michel tem 63 anos, é engenheiro aposentado e mora no Sul da França. Christine morreu no ano passado, demorei a saber. Pouco antes me deu um exemplar de Le Rouge et le Noir com anotações do Irineu, ela sabia que eu tinha paixão por esse livro.”
Irineu
ainda estava na Manchete em 1979 quando a abertura política azedou as relações
entre empregados e patrões na Bloch. Uma segunda-feira, dia de fechamento da
revista, em adesão ao movimento de todas as redações cariocas, os jornalistas
da Bloch fizeram uma greve simbólica de silêncio e paralisação dos trabalhos
durante uma hora. Adolpho Bloch investiu ensandecido contra a redação da
Manchete. Irineu foi seu principal alvo:
– E o
padre não quer rezar? Será que fez voto de silêncio?!
Ironicamente, Adolpho estava na pista certa. Assim que se aposentou Irineu traduziu, a pedido dos monges trapistas do Paraná – ordem conhecida por seu rigoroso voto de silêncio, o livro francês Les Mystères de la Trappe, edição bilingue em latim e português, uma obra-prima da paciência, fruto do seu conhecimento do latim, publicada no Brasil com o título de Os Cistercienses. Talvez o entrevero com Adolpho tenha pesado na decisão, mas há muito tempo Irineu sentia que devia ser mais valorizado profissionalmente. Acabou saindo da Bloch para ser produtor do noticiário internacional da TV Globo. Depois foi para o IBGE onde se aposentou como editor-geral das publicações.
Uma das últimas vezes que estivemos juntos foi numa feijoada de sábado na casa do Cícero Sandroni no Cosme Velho. Diverti-me à beça assistindo a um intenso duelo verbal entre ele e Mário Pontes, discutindo os méritos e apontando os defeitos de suas respectivas cidades, Tamboril e Nova Russas, distantes apenas 30 quilômetros uma da outra. Foi um misto de tiroteio verbal no OK Corral e desafio de repentistas nordestinos inesquecível.
"A crase não foi feita para humilhar ninguém.”
FERREIRA GULLAR, explicação de como a dúvida entre “a domicílio, em domicílio, à domicílio” gerou “DELIVERY”.
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Aos 65 anos, Angeli anunciou o ponto final da sua carreira. A informação foi divulgada pela Folha de São Paulo. O cartunista fez uma longa e brilhante trajetória de 50 anos. Após um diagnóstico de afasia progressiva, ele deixa um mundo de personagens que ajudaram várias gerações a decifrar o Brasil profundo, não o dos grotões, mas o que está em nós. Gerações que, uma a uma, Angeli desconstruiu com humor. Quem não se identificou com o universo do cartunista? Meia Oito, o esquerdista desbotado, Wood & Stock, os velhos hippies embalados por LSD vencido, os Skrotinhos, Mara Tara, Ritchi Pareide, Osgarmo e... a Rebordosa.
O único jornalista que conseguiu entrevistar a adorável porra louca foi um Benedito Paixão, um correspondente no Paraguai criado pelo pai da Rebordosa.
Não entrevistei a Rebordosa mas tive um date-supresa com a junkie mais chamosa do Brasil.
Em fins de 1986, a jornalista Regina Valadares, que editava a Criativa, me pediu para escrever um texto sobre o ano que terminava. Devo lembrar que 1986 foi uma merda. O Brasil era governado por José Sarney. Isso já diz tudo? Não. Foi também o ano em que a seleção perdeu a Copa; foi anunciada a passagem do cometa Halley e ninguém viu; a nova moeda, o Cruzado, pirou os brasileiros. E, por falar em Kiev, 1986 foi o ano do acidente nuclear de Chernobyl. É mole ou quer mais? Revista publicada passei em uma banca da Rua Voluntários e comprei a Criativa. Custava Cz$ 20,00. Estava lá a matéria "1986- O que já era sem nunca ter sido". A ilustração encomendada pela Regina não poderia ser mais adequada. Em charge criada especialmente, ocupando quase uma página inteira, a Rebordosa era minha parceira naquela sinistra retrospectiva do ano.
O Brasil era o próprio caos, mas o ano terminou bem pra mim, que vi de perto a Rebordosa na banheira virando a folhinha de um ano que ninguém aguentou. Só enchendo a cara. Valeu, Angeli.
* Angeli publicou hoje no Twitter a mensagem abaixo:
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| Roberto e Erasmo Carlos, 1966. Foto Manchete/Zigmunt Haar |
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| Campanha da Abril no começo da década de 1970. Clique na imagem para ampliar. |
por José Esmeraldo Gonçalves
Algumas poucas resistem bravamente. Eram pontos de referência da notícia. Acima, a reprodução de uma campanha publicitária da Editora Abril no começo dos anos 1970. A banca vista como uma biblioteca. O que, de fato era. Bem de época essa foto. O minivestido da jovem de verde contrasta com a formalidade de senhora, o engravatado da Av. Paulista, o rapaz que "tira uma casquinha", expressão da época, no jornal do dia. Claro que a cena é montada. a Abril escondeu todas as revistas da Bloch, incluindo a Manchete, então a semanal líder do país. Escapou uma Amiga, pouco acima da cabeça do jornaleiro.
As bancas estão em extinção, a maioria virou um arremedo de loja de conveniência, a Bloch que era sólida se desmanchou no ar, a Abril foi despedaçada, vendida para o mercado financeiro e perdeu relevância, os impressos agonizam em morte lenta há alguns anos e, no Brasil, aguardam apenas um samaritano que lhes desligue os aparelhos (*). A campanha da Abril é o TBT (Throwback Thursday.) de hoje, o regresso das quintas-feiras, como marca a famosa hastag das redes sociais. Ou, como escreveu Drummond sobre sua Itabira, "é apenas uma fotografia na parede".
Já o jornalismo foi renovado pela tecnologia, ampliou seu alcance e é cada vez mais importante para a democracia, como se vê nesses tempos de trevas e de aloprados no Brasil atual. As "bancas? Foram para a nuvem. Até a moça de verde, hoje provavelmente uma avó antenada, agora pode acessá-las com um simples clique.
(*) Vale observar que embora os veículos estejam em transformação em todo o mundo, em capitais como Paris e Lisboa a maioria das bancas ainda vende numerosos títulos de jornais e revistas... impressos. Em países subdesenvolvidos (sim, o rótulo que a mídia trocou por "em desenvolvimento", está de volta trazido pela realidade), a crise é bem mais aguda e agravada pela nossa péssima distribuição de renda, pelo desprezo à Educação.
A ultra direita pró-Donald Trump domina o Comitê Nacional Republicano que, na semana passada, votou para boicotar a Comissão de Debates Presidenciais em 2024. Essa ofensiva antidemocrática das facções de Trump era esperada. Em 2020, o então candidato não obedecia às regras acordadas para o primeiro, ignorava a cronometragem, gritava, xingava Joe Biden. No segundo debate, ausentou-se sob a alegação de estar com sintomas de Covid-19 e recusou a proposta de um debate virtual. Para o terceiro debate, os organizadores incluiram na mesa de som um botão "mute" para evitar que Trump ultrapassasse o tempo. Não é que os republicanos não gostem das regras dos debates, ele detestam debater simplesmente porque os conteúdos saem dos seus controles. Suas falsas versões para os fatos são expostas a uma grande audiência. A ultra direita fica mais confortável com a desenvoltura das fake news nas suas próprias redes sociais, com os robôs e o impulsionamento. Por isso, prefere que seu candidato não participe de debates na próxima campanha eleitoral.
O que isso tem a ver com o Brasil? Bolsonaro também tem aversão ao debate. Mostrou isso em 2018. É possível que o exemplo dos formuladores da campanha de Trump, de quem eles copiam a estratégia digital, leve Bolsonaro a desistir de vez do formato, sem sequer fingir que vai participar. Ele também se sente mais à vontade produzindo fake news em cascata.
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”
GEORGE ORWELL, A revolução dos bichos
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| Estádio Durival Britto e Silva. Foto Acervo Cid Destefani |
Eu estava lá, posso afirmar com orgulho. Assisti aos dois jogos da Copa de 1950 em Curitiba. Não exatamente da arquibancada coberta, mas, pela primeira vez, nas gerais. Eu era sócio do Clube Atlético Ferroviário e o seu estádio, o Durival Britto e Silva, era o meu quintal.
Na verdade, ficava longe de minha casa, no alto da Carlos de Carvalho. Em 1949, no primeiro ano do ginásio, com o Colégio Estadual do Paraná ainda ocupando o acanhado prédio da Ébano Pereira, nossas aulas de educação física eram no estádio da Vila Capanema.
Naquelas manhãs frias de Curitiba, eu pegava dois ônibus até a estação da RVPSC (parece a sigla de répondez sil vous plaît, mas era a da Rede Viação Paraná-Santa Catarina, que durou de 1942 a 1957). Ali começavam os domínios da Rede, que incluíam o estádio e o time do Ferroviário, fundado em 1930 por funcionários da ferrovia.
Para não pegar um terceiro ônibus, eu escalava as bases da Ponte Preta (segundo Dalton Trevisan, "a única ponte da cidade sem rio por baixo") e seguia através e ao longo dos trilhos até os muros dos fundos do Durival Britto, que eu pulava acrobaticamente e ganhava acesso às quadras de esporte (até hoje o estádio é rodeado por uma pista de corrida).
Assisti ali a muitos torneios-início, um ritual da época, tipo de apresentação dos times na abertura do campeonato. Numa espécie de quermesse dominical, a partir das dez da manhã, cerca de 15 a 20 equipes se enfrentavam em jogos-relâmpago de 20 minutos. No caso de empate, decidiam nos pênaltis. E assim iam se classificando e eliminando até só restarem duas, que decidiam no fim da tarde numa partida de uma hora.
Projetado pelo arquiteto Rubens Maister, o Durival Britto e Silva (nome do superintendente da RVPSC) foi inaugurado em 23 de janeiro de 1947, numa partida noturna que confirmou a excelência do sistema de refletores, mas não a do time da casa, o Ferroviário, que apanhou do Fluminense por 5 x 1 (com gol inaugural de Careca).
Na época, o estádio era o terceiro maior do Brasil, depois de São Januário e do Pacaembu. Tinha uma bela concha acústica, onde assisti certa vez a um show da orquestra de Xavier Cugat, o Rei da Rumba, estrela dos musicais da Metro. O espetáculo foi uma lástima, com meia dúzia de gatos pingados e um torcedor fanático e mentalmente desequilibrado importunando o maestro a toda hora.
O Paraquedista era uma espécie de Fantasma da Ópera e Corcunda de Nôtre Dame de plantão no Durival Britto. Cugat tinha seus cacoetes consagrados: casava sempre com suas rumbeiras (a da ocasião era a curvilínea Abbe Lane), mas suas relações mais estáveis eram com os cãezinhos chihuahua que levava sempre no bolso do bem cortado summer-jacket. Como passou a infância em Cuba e a juventude em Los Angeles, eu o considerava um latino típico. Só tempos depois soube que era Catalão, da mesma região de Salvador Dali, onde fora batizado com o sonoro nome de Francesc dAsis Xavier Cugat Mingall de Bru i Deulofe.
Foi a qualidade das instalações do Durival Britto que garantiu a Curitiba a escolha como uma das sedes da Copa de 1950 (as outras, além de Rio e São Paulo, foram Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre). Assim foi que, no domingo, 25 de junho, eu e meu pai nos instalamos nos bancos de madeira das gerais, à esquerda da torre do relógio, para acompanhar Espanha versus Estados Unidos. (Pedro Stenghel Guimarães, que assinava a coluna "Do meu degrau nas gerais", postulava que a geral era o lugar correto para se apreciar bom futebol).
O futebol não foi grande coisa. Houve quem gostasse mais da preliminar, na qual o Internacional de Campo Largo bateu o União da Lapa por 1 a 0, numa empolgante peleja. Os EUA, que tinham disputado a primeira Copa em 1930, voltavam a participar. Souza fez o primeiro gol, aos 17 minutos. Os espanhóis viraram no segundo tempo, com dois gols de Basora e um de Zarra. O juiz, ou referee (ainda se usava a expressão) foi o polêmico Mário Vianna, mas não teve muito trabalho. Os espanhóis com seu uniforme grená, os americanos de camisa branca com faixa diagonal e calções azuis.
Na quinta-feira seguinte, os EUA se tornavam a maior zebra na história das Copas. Inventores do esporte, os ingleses participavam pela primeira vez de um Mundial e chegaram como favoritos. Os americanos tinham uma equipe amadora, formada por imigrantes e eliminaram os ingleses por 1 a 0, em Belo Horizonte. O autor do gol foi Gaetjens, nascido no Haiti. Em 2005, um filme celebrou o feito, The Game of their Lives/Duelo de Campeões. (As cenas do jogo em Belo Horizonte foram rodadas no campo do Fluminense, nas Laranjeiras, no Rio.)
Naquela mesma quinta-feira, 29, Paraguai e Suécia empatavam por dois gols em Curitiba. Os suecos com camisas amarelas e calções azuis, meias amarelas e azuis, o Paraguai com calções escuros e camiseta listrada branca e vermelha, a única seleção de mangas curtas. A Suécia se classificaria para a fase final, ganhando por 3 a 1 da Espanha, mas perdendo do Brasil (7 x 1) e do Uruguai (3 x 2).
A goleada do Brasil e o escore apertado do Uruguai indicavam uma barbada brasileira na finalíssima do Maracanã em 16 de julho. E tinha mais: pelo critério de pontuação da época, o Brasil só precisava de um empate para ser campeão e foi campeão até os 34 minutos do segundo tempo, quando aconteceu o fatídico gol de Ghiggia. Este jogo ouvi pelo rádio ao lado do meu avô Eugênio, cego, e choramos lágrimas copiosas.
Tudo bem, o Brasil foi o único país a participar das 19 Copas até agora. É pentacampeão, com uma taça a mais do que a Itália, duas a mais do que a Alemanha, três a mais do que Argentina e Uruguai, quatro a mais do que França e Inglaterra "a taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem possa..." Tudo bem, mas até hoje ainda sinto o gosto amargo daquelas lágrimas de 60 anos atrás.
(*) Artigo publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo em 29/05/2010.
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| Henrique Koifman, que foi repórter da Manchete e EleEla lança programa na BandNewsFM e no streaming. |
por José Esmeraldo Gonçalves
"Quem uma vez pratica a tortura se transtorna diante do efeito da desmoralização infligida. Quem repete a tortura quatro ou mais vezes se bestializa, sente prazer físico e psíquico tamanho que é capaz de torturar até as pessoas mais dedicadas da própria família".
D.Paulo Evaristo Arns ouviu o comentário de um general contrário à tortura. O cardeal usou a advertência no texto de apresentação de "Brasil; Nunca Mais - Um relato para a História". Lançado em 1985, o livro resultou da pesquisa "Brasil: Nunca Mais (BNM), onde um pequeno grupo de especialistas dedicou mais de cinco anos a trazer à luz uma das págionas mais trágicas do Brasil.
Os pesquisadores levantaram os processos que passaram pela Justiça Militar, especialmente aqueles levados ao Superior Tribunal Militar (STM), entre abril de 1964 e março de 1979, e microfilmaram mais de 1 milhão de páginas. Todo o material foi copiado e guardado fora do Brasil em função das ameaças que o grupo recebia. O livro demonstrou que a tortura era uma prática inserida na política reressiva da ditadura. Fazia parte, não foi contestada, expandiu-se. Estava tudo lá na documentação reunida: "pau-de-arara", "pimentinha", "cadeira do dragão", "afogamento", "geladeira" etc. Tão comum que as Forças Armadas construíram até uma didática, um método educacional. Algumas instituições montavam cursos para torturadores diplomandos, uma espécie de submersão nas técnicas mais crueis. Um dos capítulos do livro extrapola o horror e detalha a tortura em crianças, mulheres e gestantes.
Nos últimos dias, o Brasil reencontrou esse passado recente e sangrento em áudios que o historiador Carlos Fico, da UFRJ, resgatou dos porões do STM (Superior Tribunal Militar). Fico encaminhou o material a Miriam Leitão - ela própria ex-presa política e vítima de torturas nos anos 1970. A jornalista - revelou o dossiê na sua coluna no jornal O Globo. A denúncia ganhou ampla e oportuna divulgação em todas as mídias. Nunca é demais mostrar às novas gerações a face da ditadura e o quanto é absurdo clamar pela volta de um regime criminoso, como se vê em escalões de arautos dos poderes atuais e de seus apoiadores. A mídia só vacilou no uso de títulos e chamadas que apontam os áudios como "as primeiras provas" que "atestam" que houve tortura no Brasil. Não são. A tortura foi comprovada antes em relatos, evidências,testemunhos e documentos. A Comissão da Verdade encontrou laudos falsos feitos por legistas da ditadura em corpos de presos torturados até à morte. Não restou dúvida, como atestam dois exemplos entre milhares, de que presos como Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho foram barbaramente torturados e mortos pela ditadura. Assim como não resta dúvida de que os áudios descobertos por Carlos Fico são um documento histórico impressionante. Ao lado de vozes de ministros militares, algumas formais outras que revelam certa indignação, é emocionante ouvir a fala trêmula e incisiva do advogado Sobral Pinto, que defendeu muitos presos políticos, ecoando graves denúncias de tortura.. Naquele dia, a Justiça Militar foi colocada diante da verdade mais incoveniente para a ditadura que todos ali exaltavam e patrocinavam: a barbárie.
Bolsonaro tem o seu cercadinho de apoiadores, uma tosca mas eficiente modalidade de "pronunciamento" - agora de campanha eleitoral - que ele criou e a mídia adora repercutir.
De tanto fazer bombar o curral bolsonarista, os principais jornais criaram o cercadinho do Mourão. Se Biden cochila no Salão Oval, os repórteres vão lá saber o que pensa Mourão da siesta presidencial; se um príncipe do Reino Unido "pegou" uma adolescente, é indispensável ouvir Mourão; se a megassena acumula, o que será que Mourão pensa disso; qual a opinião do Mourão sobre o mendigo que traçou a transeunte, o Luva de Pedreiro e o vereador bolsonarista que faz reality pornô? "Anitta mostrou a bunda no festival Coachella? Caraca, vai lá ouvir o Mourão!", comanda o editor ansioso.O objetivo é caçar cliques no lodo digital. O excesso da prática de "ouvir o Mourão" sobre qualquer coisa - o cara é fácil, está sempre disponível, o que facilita a vida dos jornalistas - é um marketing gratuito que o general inativo fatura. Ontem Mourão debochou dos áudios encontrados pelo historiador Carlos Fico, da UFRJ, nos porões do STM (Superior Tribuinal Militar), e revelados pela jornalista Miriam Leitão na sua coluna no jornal O Globo. No material, há dramáticas constataçoes sobre os crimes e a crueldade dos torturadores das Forças Armadas brasileiras durante a ditadura. Todos ficaram impunes, vários deles são nomes de ruas, viadutos, pontes e até cidades.
“Apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô... Vai trazer os caras do túmulo de volta?”, afirmou Mourão, rindo.
A mídia caça cliques e também votos para quem já homenageou torturadores.
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| Alô, passado! Chico Anysio de saltos, reparem, e Jô Soares ostentando ouro bem antes dos cantores de rap. Foto Manchete |