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Revista Contigo!/Foto de Renata Xavier/Reprodução |
por José Esmeraldo Gonçalves
Em 2011, a Contigo! homenageou Bibi Ferreira no Teatro Poeira, em Botafogo. A noite era do 5° Prêmio Contigo de Teatro, mas se transformou em uma celebração do talento e da trajetória de Bibi.
A reverência da classe artística, no momento em que a eterna dama do teatro subiu ao palco, deu à fotógrafa Renata Xavier a oportunidade de registrar a imagem mais sugestiva e emocionante, aquela que abriu a edição especial da revista. Aos 89 anos, Bibi permanecia ativa com atriz e cantora, seduzindo todas as gerações. No palco, quando os aplausos cessaram, ela falou sobre a carreira, os momentos marcantes, os obstáculos e a força para superá-los.
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Tribuna da Imprensa - 1973 - Reprodução |
Enquanto Bibi ecoava em cada frase seu amor pelo teatro, rebobinei algumas lembranças dos encontros que, como repórter, tive com ela. Em 1974, cobri para a Tribuna da Imprensa, os ensaios do espetáculo "Brasileiro, Profissão Esperança", no Canecão, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, que Bibi dirigiu. Com muita firmeza, mas sem perder a serenidade, ela às vezes interrompia a cantora e o ator. Não lhes dizia didaticamente o que fazer. Mais parecia atrair Clara e Gracindo para a sua proposta cênica sem lhes tirar o espaço próprio de criação. Lembro que havia uma preocupação no ar: como dar ao espetáculo o clima intimista que as canções e o roteiro pediam em espaços tão vastos como o palco e a platéia do Canecão? (*). Durante os ensaios, Bibi observava constantemente a iluminação. Ali estava precisamente um dos seus segredos. A luz que incidia em Paulo Gracindo e Clara Nunes, projetada sobre um fundo de palco negro e vazio, dava ao público a sensação de "viajar" a uma pequena boate de Copacabana dos anos 1950, ouvindo "Ninguém me ama", "A noite do meu bem", "Fim de caso" e outras canções que se alternavam com o texto de Paulo Pontes. Acho que aquele "Brasileiro Profissão Esperança, sob a direção de Bibi, poderia ser levado até ao Maracanã que não perderia o clima.
Em 1975, no Teatro Tereza Rachel, dessa vez como espectador, reencontrei Bibi como a Joana, amante de Jasão, o casal que pontificava a tragédia urbana ambientada na favela carioca. Era "Gota d'água", escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes. Sob ameaça da censura em plena ditadura, a peça só estreou porque os autores negociaram alguns cortes. A "tesoura" não teve o poder de conter o impacto da montagem. Ao fim, o público deixava o teatro ainda sob choque.
No ano seguinte, 1976, fui entrevistá-la para a Fatos & Fotos, em Copacabana, em um apartamento na Barata Ribeiro, se não me engano, onde Bibi morava com Paulo Pontes e vivia um momento delicado. O dramaturgo lutava contra um câncer. Após uma breve separação, a atriz havia voltado para o companheiro a quem apoiou até o fim. Paulo Pontes morreu no fim de dezembro daquele mesmo ano. Ali era a Bibi vivendo seu drama da vida real.
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Prêmio Contigo! de Teatro homenageia Bibi Ferreira. Na foto de Dario Zalis, Danielle Winits, José Mayer, Sophie Charlotte, José Esmeraldo (então chefe de redação da revista) e Lília Cabral |
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Reprodução/Contigo! |
Ao final daquele Prêmio Contigo, enquanto os fotógrafos se preparavam para fazer a foto de capa, Sergio Zalis, diretor da revista, literalmente me levou a subir ao palco, onde me vi junto a Bibi Ferreira, Danielle Winits, José Mayer, Sophie Charlotte e Lilia Cabral. Eu não sabia, mas Sergio queria aquela foto para ilustrar o editorial que ele escrevia para a seção Carta, a "conversa com o leitor" da Contigo!. Dario Zalis fotografou.
Na hora foi um surpresa. Hoje, junto às pequenas lembranças da grande Bibi Ferreira, tenho a imagem do grupo onde só eu destoo como um desses privilégios que a profissão proporcionou.
(*) Bibi Ferreira dirigiu também no Canecão "Brasileiro, Profissão Esperança" , com Ítalo Rossi e Maria Bethânia. Existe um DVD gravado ao vivo em Porto Alegre, com a atriz fazendo dupla com Gracindo Jr. no mesmo espetáculo.
Além do talento o que mais admiro em Bibi foi a integridade. Viveu do seu trabalho digno, da sua arte. Não é fácil em um Brasil de sujos se manter limpa. Um exemplo para todos nós.
ResponderExcluirHomenagem merecida
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