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Em novembro de 2008, por ocasião do lançamento da coletânea "Aconteceu na Manchete, as histórias que ninguém contou" (Desiderata), Cony e os demais autores revisitaram o prédio onde funcionou a Bloch Editores, na rua do Russel. O edifício estava fechado, empoeirado, uma espécie de casa-fantasma desde a falência da editora, em 2000. O motivo da visita ao local - cenário do livro que conta a história não-oficial da Manchete, Fatos & Fotos, Amiga, EleEla etc, revela bastidores de reportagens e focaliza personagens que fizeram nas história nas revistas da Bloch - era fotografar os autores para divulgação do lançamento. Mas em meio às poses formais, o fotógrafo J.Egberto flagrou Cony tentado ver o passado através do portal de vidro, vislumbrando o hall do prédio onde tantas vezes passou a caminho da redação. O escritor percebeu que o momento nostálgico estava registrado e sorriu para o fotógrafo. |
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Carlos Heitor Cony. Foto de J. Egberto |
Não
passa um dia sem que o leitor, ouvinte ou telespectador tope com uma opinião de
Carlos Heitor Cony na mídia. Aos 88 anos e com 40 livros publicados, contador
de histórias compulsivo, é jornalista, cronista, escritor, pintor bissexto,
pianista idem e “imortal”
por ROBERTO MUGGIATI (texto especial para a revista Contigo, publicado na seção Gente & Histórias)
O Cony salvou a minha vida. Ou, pelo menos, minha carreira. Em 1970,
incorri na ira do Adolpho Bloch porque deixei passar um texto do Magalhães Jr
que dava JK como nascido em 1900. O ex-presidente — amigo do peito do dono da Manchete — se dizia nascido em 1902.
Adolpho queria demitir sumariamente a mim e ao Magalhães. Cony, que eu mal
conhecia, veio em meu socorro: “Muggiati, mude sua mesa, esconda-se atrás de
uma coluna.” As pilastras de mármore da redação da Manchete ofereciam amplo refúgio. Escapei assim do olho do Adolpho
(e da rua) e continuei no prédio do Russell para me tornar o mais duradouro
diretor da revista Manchete. E,
ironicamente, para me tornar o “chefe” do Cony. Antes disso, fui chefiado por
ele na redação de EleEla, revista
mensal “masculina” — um oásis de paz em meio às outras redações, sempre à beira
de um ataque de nervos. Não tínhamos nem a angústia de procurar mulheres nuas
maravilhosas para esgotar cada edição: a censura só deixava publicar mulheres
em biquínis largos. Vivíamos uma bela rotina: às cinco e meia Cony fechava as cortinas da
redação e lotava seu carro de caronas para Copacabana, com direito a uma parada
no Chuvisco do Leme para comer doces. Foi nos intervalos de ócio da EleEla que Cony escreveu seu romance
mais transgressor, Pilatos. Foi lá
que comecei meu Rock: o grito e o mito,
cujo título ecoava O ato e o fato, o
livro de Cony que foi o primeiro berro de protesto contra a ditadura.
Aquela dolce vita não podia
durar. E voltamos à rotina das crises e demissões. Cony logo se tornou a Madre
Teresa dos demitidos. As demissões na Bloch vinham em ondas, como os pogroms dos cossacos na Rússia, pogroms que a família Bloch sofreu,
antes de escapar para o Brasil. O alerta geral nas redações era: “O passaralho
está voando!” Cony conseguiu salvar 90% dos demitidos. Uma bela ação
humanitária para quem se professa desencantado do mundo. Em seu último livro, Eu, aos
pedaços, ele reitera: “Sou contra a exata compreensão dos meus direitos de
cidadão e contra o impostergável dever de solidariedade.” No fundo, Cony se
envergonha de ser um homem bom.
Volto a ficar cara a cara com Carlos Heitor quarenta anos depois que nos
conhecemos. Apesar de insistir nos últimos vinte anos em se dizer “terminal”,
continua com a saúde firme. Só foi levemente prejudicado recentemente por um
desgaste na cabeça do fêmur. Implantaram-lhe um pino de titânio e hoje nos
aeroportos e em outros locais com detetores de metais o Cony é uma festa, BIP!
BIP! BIP! sem parar. Aliás, a palavra “aeroporto” lembra a Cony outra
deficiência sua, que moldou muitos aspectos de sua vida:
— Não sei se você reparou, eu falo areoporto,
nunca consegui pronunciar corretamente a palavra. Esta e outras.
Como o monarca de O discurso do
rei, procurou até um terapeuta, o fonoaudiólogo Pedro Bloch, primo do
Adolpho. Cony explica:
— Fui mudo até os cinco anos, Não dizia nada. Também, não tinha nada
para dizer. Era uma criança que vivia debaixo da mesa, vendo o mundo como o Tom
e o Jerry, vendo os personagens humanos de desenhos animados só da cintura para
baixo. Não tinha vontade nem necessidade de falar.
Dois dias depois, vou com Cony ao chá das quintas-feiras na Academia
Brasileira de Letras. (ele é “imortal” desde 2000.) Falante e cordial, oferece um belo contraste
ao menino calado foi outrora.
Nos primeiros tempos de escola, com seu mutismo e as palavras
tartamudeadas, Cony sofreu a perseguição dos colegas, aquilo que hoje se
cataloga como “bullying”. E aí estaria
a explicação para outro comportamento seu. Todo jornalista que se preza odeia o
patrão. Cony foi quase sempre “o amigo do Rei”. Particularmente com Paulo
Bittencourt no Correio da Manhã e com
Adolpho Bloch na Manchete. Ele me diz
que sua intimidade com o poder foi uma compensação pelos traumas e perseguições
dos tempos escolares.
Mas Cony precisaria buscar compensações bem maiores pelo fato de não ser
o verdadeiro Carlos Heitor Cony. Trata-se de uma fantasia que ele alimenta há
muitos anos, mas que, desta vez, me garante, é um fato incontestável. Aos dois
meses de idade, aconchegado no berço na casa de Lins de Vasconcelos — bairro
carioca onde nasceu — ele vive a sua experiência transcendental: é levado por
uma cigana. Sua mãe saiu de casa e deixou a irmã para cuidar do bebê. Duas
ciganas batem à porta, querem ler a sorte da tia solteira de Cony, ela se
recusa, quando pedem um copo de água a tia não recusa. As ciganas entram na
casa, uma distrai a tia, a outra faz a troca dos bebês. Quando a mãe volta e
vai ver o bebê, grita espantada: ‘Mas esse não é o meu filho!’ O pai é chamado
às pressas, o desespero é geral, mas não há nada a fazer. Sequer foi registrado
boletim de ocorrência. Muito sério, ele me garante que “é tudo verdade.” Não é
difícil perceber traços de cigano no rosto de Cony, descendente de franceses de
origem marroquina.
Outra decepção traumatiza o menino aos doze anos. Seminarista no
convento de São José, no Rio Comprido, é um dos doze meninos escolhidos para a
cerimônia de lava-pés na Semana Santa. Seu pai é redator do Jornal do Brasil e manda o fotógrafo do
jornal, Ibrahim Sued, fotografar a cerimônia. A foto do pé de Cony beijado pelo
cardeal sai na primeira página do Jornal
do Brasil, mas com a legenda totalmente equivocada, chamando-o de “um
pequeno órfão do Asilo de São José.”
Todo santo sofre seu martírio. Ainda nos tempos de batina, passando por
um botequim a caminho da igreja num domingo de manhã, Cony topa com um bando de
boêmios que prolongavam ruidosamente a noite em Vila Isabel “De
repente, um cara sem queixo, tuberculoso notório, larga o violão, pega uma
chapinha de cerveja e joga na minha direção. A chapinha raspa com força pela
minha orelha, passo a mão e sinto o sangue escorrendo. Corri até a sacristia.
Ao chegar, sem fôlego, exibi aquele sangue ao vigário. Era o testemunho da
minha fé. O vigário confirma: eu era um mártir.” O nome do agressor: Noel Rosa.
O caso do lava-pés provou a Cony que o jornalismo é uma mentira. Mas
isso não o impede de ingressar nas ditas lides, aos 19 anos, depois de largar a
batina. Ciente de que é muito tênue a fronteira entre fato e ficção, ele parte
para o jornalismo. Sem grandes ilusões. Na adolescência, apaixonara-se pelos
romances de Eça, Machado, Flaubert e Zola. Publica em 1958 o primeiro romance,
o único escrito a mão, O ventre.
— Por que resolveu escrever romances, Cony?
— Por nada. Excesso de imaginação e falta do que fazer.
A partir daí escreve outros romances, batucados nas teclas de uma
Remington portátil. Em 1975 dá uma parada e fica vinte anos sem publicar
qualquer livro. Em 1995, volta triunfalmente com Quase memória, o primeiro romance escrito ao computador e dedicado
à cachorra “Mila, a mais que amada.” Enquanto Cony digitava suas lembranças,
Mila morria a seus pés.
Também não lhe faltaram romances na vida real, muitos deles
transformados em
casamentos. Filhos (porque qui-los?): Regina Celi e Verônica
do primeiro casamento; André, de um relacionamento alternativo no início dos
anos 70. Em meados dessa mesma década, Cony aquietou-se no departamento
conjugal: casou-se com Beatriz, até hoje sua mulher eleita e companheira de
todas as horas.
Insisto em cobrar dele um romance longamente anunciado, mas que não
escreveu até hoje: Messa pro Papa
Marcello. Arredio, Cony diz que não tem mais energia para escrever
romances. Vai continuar publicando outros livros, mas não romances. Por falar
em Papa, pergunto a Cony se já alimentou a ambição de reinar no Vaticano.
— Quando era seminarista, sim. Eu era do ramo, por que não almejar o
topo? Mas, quando viajei no avião do Papa, em sua primeira visita ao Brasil, vi
que não gostaria daquilo. Você deve ter reparado no meu sorriso sarcástico, na
foto em que estou conversando com João Paulo II...
A certa altura, cansado da literatura, Cony resolveu pintar. Pinceladas
abstratas de acrílico sobre papel. O único óleo sobre tela é um pequeno
auto-retrato que mostra Cony como Raskolnikov — o estudante de Crime e castigo que mata duas velhinhas
a machadadas.
— Por que Raskolnikov?
— Nunca cometi um grande crime, apenas pequenos delitos sem importância.
Aspirava a um grande crime como o de Raskolnikov para poder expiar todas as
angústias que sempre me perseguiram.
Cony apega-se à vida, sem motivo justo. E não tem ilusões em relação ao
mundo. Sintetiza esta sua visão no final do romance maldito Pilatos. Um grupo de jovens canta e dança
na praia diante do sol carioca que nasce. Um passante comenta com o narrador:
— Estão felizes, hein?
— Estão mal informados — respondi. E afastei-me.
Humanista que se renega, Cony é brilhante no labirinto de suas
contradições e, apesar de tudo, insiste em escrever. Como ele
mesmo diz: “Um gesto tão infantil
como o de escovar os dentes, sentir na boca o gosto da espuma crescendo. Um
rito infantil que talvez nunca tenha mudado, é sempre o mesmo.”
(Publicado na revista Contigo
nº 1857, 21/4/2011)