sábado, 20 de junho de 2026

Mídia: onde acaba o humor e começa a noticia

Márcio Canuto: o repórter que foi pioneiro em levar humor à notícia. Foto: Memória TV Globo 
 

por José Esmeraldo Gonçalves 

Uma breve análise sobre a atuação da mídia na Copa do Mundo expõe um fenômeno interessante, não exatamente positivo. Não é segredo que nos últimos 15 anos a internet promoveu um facelifting radical no jornalismo. 

As redes sociais definem as mudanças nem sempre para melhor. Milhões de canais no YouTube, no Instagram, X, Telegram e Tik Tok,  para citar os principais, conquistaram audiências que  superam em muito os meios tradicionais. A cobertura da Copa mostra, agora, que a nova era impõe novos tons e ritmos na linguagem jornalística. O meio é a mensagem, lembrem- se de McLuhan, o guru visionário que virou moda nos anos 1970.

As redes sociais democratizaram a comunicação, mas é alto o preço a pagar. Fake news, golpes, ofensas, radicalismo antidemocrático, novelinhas banais para atrair cliques, influencers a serviço do crime, invasão de privacidade, roubo de dados etc. Por falar em linguagem, o lead está desaparecendo dos textos das redes. O mecanismo criado nos anos 50, na imprensa estadunidense, também conhecido como "pirâmide invertida", com o mais importante da matéria entregue logo nas primeiras linhas, parece obsoleto na internet. Agora, para prender o leitor conectado por mais tempo - e isso vale engajamento e monetização - a "pirâmide" volta à posição tal qual os faraós criaram. Nos sites e portais a matéria só revela o mais importante da notícia no pé do texto.Se lead agoniza, o new jornalism que privilegiou textos mais literários a partir dos anos 1960, renasce na net como farsa. Há sites especializados em contar histórias romanceadas, mas em geral à base de enredos piegas, sensacionalistas e terrivelmente cafonas e bregas.

A influência das redes sociais chegou com força à cobertura jornalística da Copa do Mundo e passou a exigir dos repórteres criatividade humorística quase semelhante às performances dos recordistas de acessos nos canais digitais, daí  a frequência de pautas engraçadinhas. 

É justo lembrar que o repórter Márcio Canuto, da Globo, fazia esse estilo muito antes da informatização da mídia. Era único no ramo jornalismo/humor. Agora essa fusão é quase padrão. A diferença em relação ao Canuto é que os (as) repórteres vão além e até se fantasiam e pintam o rosto eventualmente para cumprir o toque de humor na notícia. Alguns levam jeito para a coisa, como o jornalista Alex Escobar, outros parecem deslocados no personagem. A dúvida é saber se as escolas de comunicação vão incluir a disciplina comédia no currículo ou se os futuros repórteres farão estágio no circo do Marcos Frota, com todo respeito.


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