sexta-feira, 26 de junho de 2026

Kubrick e a Copa • Por Roberto Muggiati

 

Cruyff não ganhou a Copa de 1974, mas conquistou o título de craque eterno.
Na foto do jogo final, ele vence a blitz da Alemanha e sofre a falta que levou ao golde Neeskens. Foto FIFA 

Stanley Kubrick filma a cena forte do estupro em Laranja Mecânica.Reprodução


Alguém achou a seleção holandesa tão impactante que apelidou
o jogo revolucionário de Cruyff e equipe de Laranja Mecânica. No cartaz do filme, a imagem clássica 
do personagem Alex Delarge (Malcolm McDowell)

Revendo (e redescobrindo) nestes dias os filmes de Stanley Kubrick, lembrei como as obras de arte muitas vezes deixam sua marca indelével em episódios da história. Um exemplo notável é o apelido dado à seleção holandesa da Copa de 1974, Laranja Mecânica, em alusão ao filme de Stanley Kubrick, de 1971, baseado no romance de Anthony Burgess.

Na Copa da Alemanha, os holandeses de Cruyff e Neeskens surgiram do nada, com suas camisetas alaranjadas e seu futebol desconcertante, para eliminar o Brasil e disputar a final com os donos da casa. Fizeram 1x0 no primeiro minuto, de pênalti, mas a Alemanha virou em 2x1. Na Copa seguinte, os holandeses perderam a final na prorrogação para os donos da casa, a Argentina. E na de 2014, bateram o Brasil por 3x0 na disputa pelo terceiro lugar. E a Holanda segue firme na Copa atual, já goleou até a Suécia por 5x1.

Voltando à Laranja Mecânica do Kubrick , eu assisti ao filme nos primeiros dias de exibição em dezembro de 1971 em Nova York. O escritor que tem a mulher estuprada e fica paraplégico ao sofrer as botinadas dos meliantes, Patrick Magee, eu já tinha visto ao vivo em 1964 na estreia no palco, em Londres, de Marat/Sade, ao lado da estreante Glenda Jackson.

Já no Brasil, a Laranja chegou podre. Foi proibida por cerca de seis a sete anos. A censura oficial do regime alegou que a obra continha cenas excessivas de violência explícita, sexo e comportamento subversivo que ameaçavam a “moral e os bons costumes”. Liberada finalmente por pressão da sociedade, foi exibida com cortes e tarjas pretas, efetuados com precisão cirúrgica pelo ‘Gauleiter’ da Censura, o general Bandeira. Assisti a uma das primeiras sessões, nos anos 1980, no lendário Cine Paissandu, sala cheia, a plateia às gargalhadas acompanhando a dança frenética das tangas pretas que saltitavam na tela para cobrir as genitálias expostas. Acrobacias que nem os atletas da Laranja seriam capazes de executar...


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