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| A psicanalista Betty Milan foi pra galera. Foto de Ruy de Campos |
Era inédito naquele Brasil um psicanalista analisando futebol. Ainda mais alguém como Betty, que escreve de maneira clara, em português escorreito, embora correligionária do sinuoso Jacques Lacan, o filósofo francês capaz de juntar parágrafos e mais parágrafos cifradíssimos, impenetráveis para os não-seguidores de sua seita.
Naqueles idos, havia, de quebra, o fato de ser uma mulher adentrando, sem pedir licença, as machistas quatro linhas do gramado. Hoje, elas pululam na imprensa — e não apenas. Muitas delas utilizam, sem jaça e com pleno domínio, termos como “último terço”, “transição rápida” e “quebra das linhas”.
Feita a entrevista, faltava o principal: uma bela foto de abertura, que permitisse ser sangrada em página dupla. Por sangrada entenda-se o aproveitamento total do papel, sem qualquer moldura.
Celso Arnaldo teve a ideia de levar Betty Milan para o Estádio do Morumbi, em São Paulo, em dia de glória. Nada menos que uma final de Campeonato Brasileiro. No caso, São Paulo contra o Vasco da Gama. O objetivo era fotografar Betty em primeiro plano. Atrás dela, as torcidas lotando o estádio. Clicada com lente grande angular, a foto ficaria ainda mais impressionante.
Celso Arnaldo unira o útil ao agradável. Ao levar Betty para as cabines de imprensa, completava assim a reportagem e, ao mesmo tempo, assistia à final, torcendo para o seu São Paulo. Tricolor assumidíssimo, acreditava na vitória do clube. Punha fé no time onde atuavam Ricardo Rocha, Bobô e Raí, embora o poderoso Vasco de Mazinho, Boiadeiro e Bebeto tivesse feito melhor campanha.
O primeiro tempo foi tenso, com poucas oportunidades de gol. Betty Milan a tudo admirava, com os olhos brilhando. Aos cinco minutos do segundo tempo, veio o baque: o lateral-direito vascaíno Luís Carlos Winck fez uma transição rápida, quebrou as linhas e cruzou para o centroavante Sorato marcar o gol, de cabeça, no último terço.
Embora tivesse 40 minutos para reverter o resultado, o São Paulo não conseguiu, para desespero de Celso Arnaldo. Vasco campeão brasileiro.
Ao caminhar para o carro de reportagem da equipe de Manchete, tão logo acabou a partida, dispensando as comemorações vascaínas, o cabisbaixo jornalista, ouviu de uma impávida Betty Milan:
— Tá bom. Foi zero a zero. E então? Quem ficou com o título?
Das 71.552 pessoas que assistiram à final naquele 16 de novembro de 1989, um sábado, Betty Milan era a única a ter escrito um livro psicanalítico sobre o futebol.
A única, também, a não ter visto o gol de Sorato.
Com a possível exceção dos policiais que acompanharam a partida de costas para o campo, para vigiar as torcidas.

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