quinta-feira, 28 de maio de 2026

Alô, corruptos, vai um Macallan aí?


por José Esmeraldo Gonçalves

Corruptos gostam de beber e comer bem. Vão de uísque raro, não bebem cachaça.  "Experiência incrível", disse o carola Cláudio Castro após apreciar à mesa em Nova York as delícias de um uísque de 60 mil dólares a garrafa e um jantar milionário. Tudo coisa fina e legítima, mas produto de roubo. Nessas ocasiões, quando buscam dinheiro alheio ou vão buscar grana para fazer um filme, os comensais são ambiciosos e também são muito cordiais no trato. Os prints mostram.  "Obrigado, irmão", "Amigo de vida", "Estou e estarei contigo, sempre". "Você é meu amigo, não conta". Se não fosse a Polícia Federal, tais paixões durariam 50 anos, como o amor quase sempre platônico de Florentino de Ariza e Fermina Daza. 

Ao ouvir Vorcado susurrar a marca do uísque reservado para o jantar, Castro quase tem um troço. "Tô indo, tô chegando em meia hora". E disparou nas ruas de Manhattan.  Pense em uma corrida de galgos, aqueles cães de que disparam atrás de uma isca mecânica. Assim estava o antes pobre Castro (na penúltima campanha eleitoral ele declarou quase nada) rendido e seduzido pelo scotch The Macallan (a garrada de 700ml pode custar até cerca de 100 mil reais, dependendo da classificação. E isso aí é a versão burguêsas, menos nobre. A escala da prateleira ao alcance de raros honestos tem o scotch especial de mais de 80 anos ao preço da 1 milhão de reais. 

Para o ex-governador do Rio de Janeiro e seu mentor Daniel Vorcaro aquele era o scotch pago pelos bilhões assaltados da máquina público-privada montada enquando as instituições dormiam. O assalto do século foi promovido por Vorcaro em parceria com empresários e políticos até identificados como ocs "conservas", ao contrário do que o famosos power point picareta da Globo News tentou fazer. O alvo, no caso da intermediação de Cláudio Castro, foi o fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio. Em Brasília, a falcatrua gigantesca desviou montanhas de dinheiro público do Banco Regional de Brasília, arrebentou fundos privados, inundou o mercado de papéis falsos e valores fantasiosos etc. Na Faria Lima, o templo do mercado, em São Paulo, o rombo e os incautos são quase incalculáveis. 

A fraude desceu mal na garganta de milhares de vítimas, mas o The Macallan certamente caiu muito bem nas tripas de Cláudio Castro. 

Muitos funcionários públicos estaduais do Rio de Janeiro infelizmente votaram o ex-governador, tanto neste último quanto os que o antedeceram e também aprontaram na maior. Castro levou de bandeja para o Vorcaro os bilhões das aposentadorias do pessoal. 

O Rio, como se sabe, tem uma conhecida coleção de vagabundos que habitaram o Palácio Guanabara. Pra variar, os gatunos carolas dividem uma característica que não lhes livra as cara de pau: são  religiosos, são "homens de fé". Castro é um desses. Está entre os folgados que acreditam olhar os pobres mortais de cima do paraíso, creem nos enxergar no inferno. Estão enganados. Um áudio vazado do Juízo Final conta que não serão recebidos no recinto. O inferno se dá ao respeito, "hipócrita não entra", protesta o capeta que ainda vai cobrar o seu Macallan. Ou só o santo tem direito?        


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