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terça-feira, 12 de maio de 2026

Memórias da redação - O dia em que o futebol deitou no gramado de uma psicanalista. Por Walterson Sardenberg

A psicanalista Betty Milan foi pra galera.
Foto de Ruy de Campos

Em 1989, o repórter Celso Arnaldo Araujo, um dos melhores textos da imprensa brasileira — dono de dois prêmios Esso —, entrevistou Betty Milan sobre futebol. Matéria para a revista Manchete. Explica-se: a escritora e psicanalista lançara havia pouco, pela Editora Record, um livro onde tecia teses sobre o dito esporte bretão e sua plena adaptação à cultura brasileira. Dera ao tratado o nome de O País da Bola, a exemplo de O País do Carnaval, de Jorge Amado, e O País do Futuro, de Stefan Zweig. 

Era inédito naquele Brasil um psicanalista analisando futebol. Ainda mais alguém como Betty, que escreve de maneira clara, em português escorreito, embora correligionária do sinuoso Jacques Lacan, o filósofo francês capaz de juntar parágrafos e mais parágrafos cifradíssimos, impenetráveis para os não-seguidores de sua seita. 

Naqueles idos, havia, de quebra, o fato de ser uma mulher adentrando, sem pedir licença, as machistas quatro linhas do gramado. Hoje, elas pululam na imprensa — e não apenas. Muitas delas utilizam, sem jaça e com pleno domínio, termos como “último terço”, “transição rápida” e “quebra das linhas”.

Feita a entrevista, faltava o principal: uma bela foto de abertura, que permitisse ser sangrada em página dupla. Por sangrada entenda-se o aproveitamento total do papel, sem qualquer moldura. 

Celso Arnaldo teve a ideia de levar Betty Milan para o Estádio do Morumbi, em São Paulo, em dia de glória. Nada menos que uma final de Campeonato Brasileiro. No caso, São Paulo contra o Vasco da Gama. O objetivo era fotografar Betty em primeiro plano. Atrás dela, as torcidas lotando o estádio. Clicada com lente grande angular, a foto ficaria ainda mais impressionante.

Celso Arnaldo unira o útil ao agradável. Ao levar Betty para as cabines de imprensa, completava assim a reportagem e, ao mesmo tempo, assistia à final, torcendo para o seu São Paulo. Tricolor assumidíssimo, acreditava na vitória do clube. Punha fé no time onde atuavam Ricardo Rocha, Bobô e Raí, embora o poderoso Vasco de Mazinho, Boiadeiro e Bebeto tivesse feito melhor campanha.

O primeiro tempo foi tenso, com poucas oportunidades de gol. Betty Milan a tudo admirava, com os olhos brilhando. Aos cinco minutos do segundo tempo, veio o baque: o lateral-direito vascaíno Luís Carlos Winck fez uma transição rápida, quebrou as linhas e cruzou para o centroavante Sorato marcar o gol, de cabeça, no último terço. 

Embora tivesse 40 minutos para reverter o resultado, o São Paulo não conseguiu, para desespero de Celso Arnaldo. Vasco campeão brasileiro.

Ao caminhar para o carro de reportagem da equipe de Manchete, tão logo acabou a partida, dispensando as comemorações vascaínas, o cabisbaixo jornalista, ouviu de uma impávida Betty Milan:

— Tá bom. Foi zero a zero. E então? Quem ficou com o título?

Das 71.552 pessoas que assistiram à final naquele 16 de novembro de 1989, um sábado, Betty Milan era a única a ter escrito um livro psicanalítico sobre o futebol. 

A única, também, a não ter visto o gol de Sorato. 

Com a possível exceção dos policiais que acompanharam a partida de costas para o campo, para vigiar as torcidas.