domingo, 27 de novembro de 2022

80 Anos - Deixem Casablanca em Paz! Por Roberto Muggiati




Tentativas de refilmar o clássico romântico de Bogart e Bergman, que foi lançado em 26 de novembro de 1942, deixam fãs à beira de um ataque de nervos

(Matéria publicada na Gazeta do Povo quando Casablanca comemorava os 70 anos da estréia)

Não é de hoje que Hollywood tenta repetir o que deu certo  e nem sempre se dá bem. O romance O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, publicado em 1925, já no ano seguinte ganhava uma versão no cinema ainda mudo. Refilmado em preto e branco em 1949 (com Alan Ladd), Gatsby conquistaria as plateias na versão com Robert Redford e Mia Farrow, uma visão anos 70 dos anos 20. 

No drama marítimo O Grande Motim, a versão de 1935 (com Clark Gable e Charles Laughton) ganha de longe das de 1962 (Marlon Brando e Trevor Howard) e 1984 (Mel Gibson e Anthony Hopkins). Há remakes que jamais deveriam ter sido feitos: o de O Fio da Navalha (1946, com Tyrone Power), refilmado em 1984 com Bill Murray; e A Carga da Brigada Ligeira (1936, dirigido por Michael Curtiz, de Casablanca, com Errol Flynn), refeito em 1968 com David Hemmings. O personagem mais vezes levado à tela é Sherlock Holmes, interpretado por vários atores desde a primeira versão, em 1922, com John Barrymore. O detetive Charlie Chan, que também estreou no cinema mudo, aparece em dezenas de filmes. Ironicamente, seus maiores intérpretes foram falsos chineses: o sueco Warner Oland e o americano (de origem escocesa) Sidney Toler. 

O exemplo mais bem-sucedido de sequels foi a saga O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (1972, 74, 90). 

O charme macabro de Norman Bates gerou as sequências Psicose II e Psicose III e a prequel Psicose IV O Início, todas estreladas por Anthony Perkins, que dirigiu Psicose III. Desperdício total foi Gus Van Sant copiar em cores, em 1998, quadro por quadro, o Psicose original de Hitchcock, de 1960. Mas aguardem: vem aí Alfred Hitchcock e a filmagem de Psicose, com Scarlett Johansson fazendo a bela do chuveiro e Anthony Hopkins (não Perkins!) como o Mestre do Suspense. Hopkins, a propósito, brilhou nas sequels de O Silêncio dos Inocentes, Hannibal e O Dragão Vermelho, mas não aparece na prequel, Hannibal A Origem do Mal.

Existe coisa pior no cinema do que remakes, sequels e prequels? Existe, sim. Já imaginaram um Casablanca  The Musical? Vamos torcer para que a história de amor de Rick e Ilsa continue fechada eternamente entre as quatro paredes do encantado café marroquino.

Rick e Ilsa deixam o heroico Victor Laszlo a ver aviões e têm o seu happy end. Casam, têm filhos e se tornam mais uma família afluente numa cidade-satélite da Sociedade de Consumo. Ou então, numa virada de enredo digna do nosso tempo, Rick e o capitão Renault se aprofundam (literalmente) na sua "bela amizade" e saem pelo mundo em busca de destinos gay-friendly. Laszlo larga a política e se torna gerente de uma rede de hotéis, vivendo pra lá de Marrakesh num harém de dançarinas do ventre. Dooley Wilson, que canta "As Time Goes By" no filme, faz sucesso com um clube de jazz na rive gauche de Paris, o Sam's Café Américain.

A história de amor do século entre Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Berman) pode ser resumida num tweet: "Paris: invasão alemã separa amantes. Ela casa com herói da Resistência. Casablanca: mocinho faz amada fugir com marido por um mundo melhor."

O filme era para ser mais uma produção rotineira da Warner. Baseou-se numa peça de teatro não encenada, Everybody Meets at Rick's. O texto passou por muitas mãos e modificações. Casablanca foi rodado em apenas 71 dias, de 25 de maio a 3 de agosto de 1942. As filmagens começaram com apenas metade do roteiro pronta. Depois, as falas e marcações eram escritas na véspera por Howard Koch e pelos irmãos gêmeos Jules e Philip Epstein. Ingrid Bergman não sabia quem devia amar: Rick ou Laszlo? Há quem defenda que essa confusão toda foi uma das causas principais do sucesso de Casablanca.

Frases

O filme é o campeão das frases de efeito, de humor cortante, um tipo de cinismo gerado pelo pathos da guerra. 

Nas conversas entre o capitão Renault e Rick, por exemplo: "Que diabos o trouxeram a Casablanca?/ Minha saúde. Vim por causa das águas./ Águas, que águas? Estamos no deserto?/ Fui mal informado." 

Uma mulher pergunta a Renault que tipo de homem é Rick: "Rick é o tipo de homem que... se eu fosse uma mulher, e eu não estivesse à mão, eu me apaixonaria por Rick." 

E o fecho do filme, quando os dois, acumpliciados na vitória do Bem, se afastam em meio à neblina: "Isto poderia ser o início de uma bela amizade."

O choque de Rick ao reencontrar Ilsa no seu café: "De todos os botequins em todas as cidades do mundo, ela tem de entrar logo no meu!"

Evocando a invasão de Paris: "Lembro cada detalhe: os nazistas estavam de cinza, você de azul." 

Convencendo-a do acerto do seu sacrifício: "Ilsa, não sou bom em matéria de nobreza, mas não é muito difícil perceber que os problemas de três pessoinhas não valem coisa alguma neste mundo maluco." 

E quando Ilsa, perplexa, pergunta: "E nós?" Rick consola: "Sempre teremos Paris."

O complemento musical é perfeito: "As Time Goes By", composto em 1931 por Herman Hupfeld, pianista de uma taverna suburbana de New Jersey. A letra sublinha os sentimentos do filme: "É a mesma velha história/ A luta por amor e glória/ Um caso de vida e morte./ O mundo acolherá os amantes/ Enquanto o tempo passa..." "As Time..." sublinha o amor de Rick e Ilsa em Paris e o seu reencontro em Casablanca. O piano de Sam em Paris, que só aparece 70 segundos em cena, foi leiloado no dia 14 deste mês, por US$ 602 mil, pela Sotheby's NY.


Filmagens


O elenco era uma verdadeira "legião estrangeira": a sueca Bergman; os ingleses Claude Rains e Sidney Greenstreet; os austríacos Paul Henreid (nascido em Trieste) e Peter Lorre (celebrizou-se como O Vampiro de Düsseldorf); o alemão Conrad Veidt (atuou em O Gabinete do Dr. Caligari), fugiu dos nazistas, mas Hollywood o engessou em papéis de oficiais nazistas, como em Casablanca. E tem, é claro, o diretor Michael Curtiz, húngaro que se mudou para Hollywood ainda no cinema mudo. Durão, foi temido e odiado por todo o elenco, exceto por Ingrid, que Curtiz tratava como uma duquesa.

Bogart era cinco centímetros mais baixo do que Ingrid, o que o obrigou a pisar sobre blocos de madeira ou sentar em almofadas altas para compensar a diferença. O filme todo foi rodado num galpão da Warner em Burbank. A cena final usou um avião de compensado em miniatura, imitando um Loockheed Electra Junior, preparado para o voo por extras anões, para manter a proporção. A produção exagerou no nevoeiro, a fim de disfarçar a bizarra montagem. Havia finais alternativos A e B, até os atores principais só souberam qual deles seria usado dias antes da filmagem. Tentativas de corrigir as cenas finais se tornaram impossíveis depois que Ingrid Bergman cortou os cabelos bem curtos, para interpretar Maria em Por Quem os Sinos Dobram?. A filmagem de Casablanca foi uma comédia de erros em que tudo se encaixou à perfeição para criar uma obra-prima.

Culto

A première em Nova York em 26 de novembro de 1942 garantiu que o filme concorresse aos Oscars do ano. Com oito indicações, ganhou os prêmios de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro. Comunicólogos e semiólogos tentaram decifrar o "Efeito Casablanca" nas últimas décadas. Umberto Eco acha o filme medíocre, uma história em quadrinhos, uma colcha de retalhos, com baixa credibilidade psicológica e descontínuo em seus efeitos dramáticos." Mas Eco admite também que "Casablanca não é apenas um filme. É muitos filmes, uma antologia. Quando todos os arquétipos explodem desavergonhadamente, atingimos profundezas homéricas. Dois clichês nos fazem rir. Uma centena de clichês nos comove, pois sentimos que os clichês estão conversando entre si e celebrando uma reunião."

Intelectualismos à parte, Casablanca é um filme que fala basicamente à emoção. Cultuado por sucessivas gerações ao longo de 70 anos, deverá continuar, por muito tempo, contando "a mesma velha história da luta por amor e glória." Por tudo isso, depois de 70 anos, tornou-se também imune a remakes e continuações — um milagre impossível de se repetir.

Um comentário:

Leila disse...

Eu vi Filmando Casablanca e só depois vi Casablanca. Fiquei maravilhada. Filme gigante. Amei as informações aí