Os rapazes da mídia preferem uma primeira-dama (expressão horrorosa) domesticada. Uma espécie de "pet" da República. E isso vem de longe. Do tempo em mídia era chamada de imprensa, mas tão conservadora, sua característica mais perene, quanto hoje. A jovem Maria Teresa Goulart, nos anos 1960, sofreu na mão dos jornalistas, não por participar de decisões, mas por ser jovem, usar biquíni e roupas de estilistas. Foi vítima de fake news plantadas nos jornais. Na ditadura, foi maltratada pelos militares.
Por falar em ditadura, as primeiras-damas dos fardados eram reverenciadas pelos colunistas sociais. Vários, por exemplo, orbitavam em torno da mesa de Yolanda Costa e Silva nas melhores boates do Rio. Por motivos óbvios, todas elas foram muito bem tratadas pela press que, de resto, também apoiava os seus maridos ditadores. Institucionalmente, eram umas "plantas", não davam palpite na conjuntura.
Janja incomoda os coleguinhas por não ser invisível. Era militante do PT, tem opiniões e, como se diz, lugar de fala e de atos. Daí virou alvo dos jornalistas.
Gonçalves Dias foi demitido? Janja mandou. Janja, imaginem, comete o "crime" de ter agenda própria quando acompanha Lula em viagens. Ao sair para comprar uma gravata em loja de grife, com seu próprio dinheiro, diga-se, foi execrada e ganhou primeira página.
Diz a IstoÉ que Janja governa. "É a pessoa mais forte no governo Lula ocupa uma sala próxima ao presidente no terceiro andar do Palácio do Planalto, determina políticas de governo, escolhe ministros e coloca na geladeira os nomes da Esplanada dos Ministérios que a contrariem".
Não vai demorar muito para as famílias que controlam a mídia atribuirem a Janja tudo o que vier a acontecer no país. O governo não tem base no Congresso? Culpa da Janja. O BC não baixa os juros? Não. Janja incomoda o mercado e provoca insegurança jurídica por onde passa. O Banco do Brasil retirou o patrocínio ao evento de negócios que virou manifestação golpista de Bolsonaro? Janja mandou. A PF foi buscar um agressor de mulheres em Dubai? Janja convenceu Lula a mandar algemar o meliante.
Dizem que Janja iria assumir um cargo no Planalto, mas foi aconselhada a desistir porque se tivesse um posto formal poderia ser convocada para depor na Câmara dos Deputados. Até um CPI da Janja pode ser aprovada por deputados receosos de que suas mulheres "do lar" comecem a pensar por conta própria.