Conheci Zuenir Carlos Ventura no Rio em maio de 1960 quando fomos agraciados com bolsas do governo francês para estudar no Centre de Formation des Journalistes em Paris. Juenir trabalhava na Tribuna de Imprensa carioca, eu na Gazeta do Povo de Curitiba. Para se aclimatar à língua falada, bolsistas frequentavam aulas de conversação na Alliance Française no Boulevard Raspail., Zuenir conheceu a brasileira Cláudia Struwe; eu, a alemã Marlene Cremer.
Sem muito programa para o primeiro Révéillon que eu passaria
longe da família, decidi acompanhar Zuenir até Colônia onde Cláudia passaria o
Ano Novo com o irmão, que trabalhava na Deutsch Welle, nas transmissões para o
Brasil. Eu seguiria até Frankfurt para os braços de Marlene. Fiquei algumas
horas em Colônia, onde, à sombra da Grande Catedral, embarquei numa acirrada
discussão teológica com Zuenir: tomar ou não tomar banho? Ele queria
apresentar-se pimpão à namorada; eu, na temperatura abaixo de zero, dispensava
um banho, ainda mais sem dispormos de um bom chuveiro quente. Cheguei a
ponderar: “Mas Zuenir, estamos na capital mundial do bom aroma, a Köllnische Wasser 4711!” Ele não cedeu.
Caminhamos léguas, até encontrar, à
beira do Reno, já na periferia, uma placa türkisches
Dampfbad. Era um galpão decrépito com chão de cimento molhado. Dois
indivíduos saiam do local, aparentemente operários imigrantes. Recebemos duas barras minúsculas de sabonete
e uma toalha média. O calor da ducha era satisfatório, mas, assim que nos
afastávamos para botar as roupas no vestiário, éramos golpeados pelo choque
térmico do ar glacial.
Deixei Zuenir em Colônia com sua Cláudia e parti para o
encontro marcado em Frankfurt com a “minha” Marlene. Hospedei-me na mansarda de
um hotel barato e comecei a ligar para Marlene. O telefone não atendia. Depois
de várias tentativas, desisti e resolvi visitar a cidade. Museus fechados, tive
de me contentar com uma visita ao zoológico. A maioria dos animais estava
recolhida por causa do frio de três graus abaixo de zero. Na paisagem branca
também poucas pessoas sãs de mente, se entregavam àquele programa de esquimó.
Fiz amizade com um grande urso branco, que rolava na neve e dava mergulhos no lago
parcialmente congelado aos urros de satisfação. Como o bicho também não falava
alemão, mantivemos uma conversa amistosa e gratificante.
De volta ao hotel, recomecei minha
maratona telefônica. Nada de Marlene. Minha ceia de Ano Novo foi chucrute com
salsichas brancas e cerveja estupidamente gelada numa “Spelunken” quase vazia,
o único farol de vida na paisagem hostil. No hotel, insisti nas chamadas, sem
sucesso. À meia-noite encarei o meu primeiro Révéillon sozinho na vida, ao som
de um discreto repicar de sinos. Nada do nosso ruidoso foguetório, o barulho
das bombas ainda estava fresco na memória dos alemães. Em Paris, na Maison du
Brésil, encontrei um cartão postal – Fröhliches
Neues Jahr! - enviado da estação de
esqui de Garmisch-Partenkirchen por Marlene Cremer.
Zuenir e eu concluímos o curso no CFJ em julho de 1961 e, sem
mais bolsa, esticamos separadamente nossa estada na Europa até onde pudemos.
Nos restantes sessenta e quatro anos de carreira, não cruzamos caminho. Em 1965,
quando comecei na Manchete, como
repórter especial, ele acabara de sair da direção da Fatos&Fotos da mesma empresa, após uma briga homérica com o
patrão Adolpho Bloch. Em 1969, editor em São Paulo do caderno de cultura da
recém-lançada revista Veja –
empolgado pela época fabulosa que vivíamos – sugeri ao editor-chefe Mino Carta
uma edição especial sobre a década de 1960. Mino não se sensibilizou pelo
projeto. Fiquei decepcionado. A ideia não só era óbvia do ponto de vista
jornalístico, mas promissora em receita publicitária. Pouco depois, Roberto
Civita, dono da editora Abril, apareceu na redação com Zuenir Ventura e mandou
Mino publicar uma edição especial de Veja sobre
Os Anos 60. Foi um sucesso colossal.
Zuenir prosseguiu sua carreira brilhante publicando livros
marcantes como 1968, O ano que não terminou e Rio, Cidade Partida.
Por suas qualidades humanas e pelo talento pedagógico foi apelidado pelas
novas gerações de Mestre Zu. Voltei a encontrá-lo, informalmente, nas reuniões
anuais de Ceres Freijó, viúva do crítico de arte da revista Manchete, Flávio de
Aquino. Os saraus da Ceres se tornaram uma data tão importante no cenário
cultura carioca que sugeri serem nomeados Patrimônio Imaterial da República de
Ipanema e já chegaram à sua quinta década. Tardiamente, fui batizado de Mestre
Mu por Ricardo Linck, do jornal República [Independente de Laranjeiras], do qual sou colaborador regular.
Com muita saudade no coração, saúdo o
querido amigo usando o nome musical dos dias felizes de Paris: “Siga em paz, Messiê
Vantirrá!”

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