terça-feira, 22 de setembro de 2026

Com Zuenir(*) nos banhos turcos de Colônia • Por Roberto Muggiati

 


Conheci Zuenir Carlos Ventura no Rio em maio de 1960 quando fomos agraciados com bolsas do governo francês para estudar no Centre de Formation des Journalistes em Paris. Juenir trabalhava na Tribuna de Imprensa carioca, eu na Gazeta do Povo de Curitiba. Para se aclimatar à língua falada, bolsistas frequentavam aulas de conversação na Alliance Française no Boulevard Raspail., Zuenir conheceu a brasileira Cláudia Struwe; eu, a alemã Marlene Cremer.

Sem muito programa para o primeiro Révéillon que eu passaria longe da família, decidi acompanhar Zuenir até Colônia onde Cláudia passaria o Ano Novo com o irmão, que trabalhava na Deutsch Welle, nas transmissões para o Brasil. Eu seguiria até Frankfurt para os braços de Marlene. Fiquei algumas horas em Colônia, onde, à sombra da Grande Catedral, embarquei numa acirrada discussão teológica com Zuenir: tomar ou não tomar banho? Ele queria apresentar-se pimpão à namorada; eu, na temperatura abaixo de zero, dispensava um banho, ainda mais sem dispormos de um bom chuveiro quente. Cheguei a ponderar: “Mas Zuenir, estamos na capital mundial do bom aroma, a Köllnische Wasser 4711!” Ele não cedeu. Caminhamos léguas, até  encontrar, à beira do Reno, já na periferia, uma placa türkisches Dampfbad. Era um galpão decrépito com chão de cimento molhado. Dois indivíduos saiam do local, aparentemente operários imigrantes.  Recebemos duas barras minúsculas de sabonete e uma toalha média. O calor da ducha era satisfatório, mas, assim que nos afastávamos para botar as roupas no vestiário, éramos golpeados pelo choque térmico do ar glacial.

Deixei Zuenir em Colônia com sua Cláudia e parti para o encontro marcado em Frankfurt com a “minha” Marlene. Hospedei-me na mansarda de um hotel barato e comecei a ligar para Marlene. O telefone não atendia. Depois de várias tentativas, desisti e resolvi visitar a cidade. Museus fechados, tive de me contentar com uma visita ao zoológico. A maioria dos animais estava recolhida por causa do frio de três graus abaixo de zero. Na paisagem branca também poucas pessoas sãs de mente, se entregavam àquele programa de esquimó. Fiz amizade com um grande urso branco, que rolava na neve e dava mergulhos no lago parcialmente congelado aos urros de satisfação. Como o bicho também não falava alemão, mantivemos uma conversa amistosa e gratificante.

De volta ao hotel, recomecei minha maratona telefônica. Nada de Marlene. Minha ceia de Ano Novo foi chucrute com salsichas brancas e cerveja estupidamente gelada numa “Spelunken” quase vazia, o único farol de vida na paisagem hostil. No hotel, insisti nas chamadas, sem sucesso. À meia-noite encarei o meu primeiro Révéillon sozinho na vida, ao som de um discreto repicar de sinos. Nada do nosso ruidoso foguetório, o barulho das bombas ainda estava fresco na memória dos alemães. Em Paris, na Maison du Brésil, encontrei um cartão postal – Fröhliches Neues Jahr! -  enviado da estação de esqui de Garmisch-Partenkirchen por Marlene Cremer.  

Zuenir e eu concluímos o curso no CFJ em julho de 1961 e, sem mais bolsa, esticamos separadamente nossa estada na Europa até onde pudemos. Nos restantes sessenta e quatro anos de carreira, não cruzamos caminho. Em 1965, quando comecei na Manchete, como repórter especial, ele acabara de sair da direção da Fatos&Fotos da mesma empresa, após uma briga homérica com o patrão Adolpho Bloch. Em 1969, editor em São Paulo do caderno de cultura da recém-lançada revista Veja – empolgado pela época fabulosa que vivíamos – sugeri ao editor-chefe Mino Carta uma edição especial sobre a década de 1960. Mino não se sensibilizou pelo projeto. Fiquei decepcionado. A ideia não só era óbvia do ponto de vista jornalístico, mas promissora em receita publicitária. Pouco depois, Roberto Civita, dono da editora Abril, apareceu na redação com Zuenir Ventura e mandou Mino publicar uma edição especial de Veja sobre Os Anos 60. Foi um sucesso colossal.

Zuenir prosseguiu sua carreira brilhante publicando livros marcantes como 1968, O ano que não terminou e Rio, Cidade Partida. Por suas qualidades humanas e pelo talento pedagógico foi apelidado pelas novas gerações de Mestre Zu. Voltei a encontrá-lo, informalmente, nas reuniões anuais de Ceres Freijó, viúva do crítico de arte da revista Manchete, Flávio de Aquino. Os saraus da Ceres se tornaram uma data tão importante no cenário cultura carioca que sugeri serem nomeados Patrimônio Imaterial da República de Ipanema e já chegaram à sua quinta década. Tardiamente, fui batizado de Mestre Mu por Ricardo Linck, do jornal República [Independente de Laranjeiras], do qual sou colaborador regular.

Com muita saudade no coração, saúdo o querido amigo usando o nome musical dos dias felizes de Paris: “Siga em paz, Messiê Vantirrá!”

(*) Zuenir Ventura, jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, morreu hoje, no Rio, aos 95 anos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário