domingo, 13 de setembro de 2026

O Corvo de Poe: “Sempre mais!” • Por Roberto Muggiati

 

Edgar Alan Poe. Reprodução Facebook



Impressionante a persistência de Edgar Allan Poe e de seu pássaro fatídico em nosso imaginário. Volta e meia, a troco de nada, aí vêm eles se imiscuindo no nosso cotidiano. Há poucas semanas, revi um favorito dos anos 60, Três histórias de Poe, filmadas por Vadim, Malle e Fellini. Eu estava escrevendo uma resenha da biografia de Mário Magalhães sobre Carlos Lacerda e lembrei que Samuel Wainer cravou no mercurial político o apelido O Corvo do Lavradio, com direito a uma cruel caricatura de Lan. Mais: o chefe da guarda pessoal de Getúlio – responsável pelo atentado da Rua Tonelero, que levaria o Presidente ao suicídio – o Anjo Negro, Gregório Fortunato, um afrodescendente gaúcho, ostentava o improvável sobrenome do personagem do conto de Poe O barril de Amontilado, no qual era morto e emparedado numa adega. (E ainda: Fortunato em italiano quer dizer “afortunado”...)



Deu na TV: a NFL, a National Football League norte-americana – a liga esportiva mais rica do planeta – vai programar este ano partidas fora dos Estados Unidos, em Londres, Madri, Melbourne, México, Munique, Paris e Rio de Janeiro. O Maracanã – devidamente adaptado, com as riscas de jardas, o grande gol sem redes em forma de H e a bola oval –  receberá no dia 27 de setembro o duelo entre os Dallas Cowboys e os Baltimore Ravens. Assim que ouvi Ravens (Corvos), pensei logo em Poe, que nasceu e morreu em Baltimore (1809-1849). Acertei: o nome do time foi escolhido por votação popular em homenagem a Poe e tem até um mascote vivo, o corvo Poe, devidamente paramentado nos jogos em casa (não dará o ar de sua graça no Rio, em obediência aos direitos animais, não o  deixam  se estressar em viagens.)


Entre 1949 e 2009, um estranho ritual ocorreu em Baltimore: nas primeiras horas da madrugada de 19 de janeiro, aniversário de nascimento de Poe, uma figura vestida de preto, usando um chapéu de abas largas e um cachecol branco para ocultar o rosto depositava  sobre o túmulo do escritor uma garrafa de conhaque e três rosas vermelhas.

Holden Caulfied diz no Apanhador: “O que realmente me deixa louco é um livro que, quando você termina de ler, a gente fica desejando que o autor fosse um grande amigo seu e que você pudesse telefonar para ele toda vez que dessa vontade”. É exatamente assim que sinto em relação a Poe desde que comecei a ler seus contos na adolescência.

 E os corvos? Interessei-me por esses pássaros desde que informações sobre sua inteligência começaram a extrapolar de revistas cientificas para a grande imprensa. Aqui um resumo do que aprendi:

“Os corvos possuem uma inteligência equiparada à de primatas superiores e crianças de até sete anos, destacando-se pelo uso avançado de ferramentas: conseguem usar gravetos para caçar larvas, dobrar arames em formato de gancho para puxar recipientes e até utilizar múltiplos instrumentos em sequência. Entendem conceitos de causa e efeito, como jogar pedras em recipientes com água para elevar o nível do líquido e alcançar comida. Memorizam rostos humanos por anos, distinguindo pessoas amigáveis daquelas que representam ameaças, além de alertar o bando sobre o perigo. Possuem noções numéricas: estudos da Universidade de Tübingen mostram que eles conseguem compreender conceitos abstratos de quantidade e ‘contar’ até quatro. Seus cérebros são densos e possuem uma grande concentração de neurônios na parte frontal, área ligada ao planejamento e à tomada de decisões, rompendo a ideia de que cérebros pequenos não podem realizar tarefas complexas. A inteligência dos corvos vai muito além da sobrevivência: dotados de uma curiosidade natural, eles pegam atrevidamente o equipamento dos cientistas que os estudam. ”

E o O Corvo de Poe? Com seu ominoso refrão (“Nunca mais! Nunca mais!”) é um dos poemas mais populares do mundo. Os maiores atores já o recitaram e gravaram. Machado de Assis o amava e traduziu já em 1883, Emilio de Menezes em 1917. No Brasil, até em formato de cordel foi traduzido por José Lira. Fernando Pessoa também o verteu para o português em 1924, ouça aqui na voz do músico paulista Carlos Fernando.

OCorvo - Edgar Allan Poe - Tradução: Fernando Pessoa - YouTube

 

 

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