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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Memórias da redação: O Príncipe que virou sapo • Por Roberto Muggiati*


Roberto Muggiati. Foto Lena Muggiati

Revelo aqui detalhes de um escândalo duplamente real e de repercussão internacional. Na manhã de 23 de julho de 1986, escapei de virar notícia – eu e os 2000 homens e mulheres mais poderosos do planeta: a lista seleta das cabeças coroadas e dos líderes políticos das principais nações, que assistiam ao casamento do Príncipe Andrew  com Sarah Ferguson na Abadia de Westminster. O IRA (Exército Revolucionário Irlandês), no auge de sua campanha terrorista, tinha plantado explosivos meticulosamente ocultos nas fendas da catedral milenar. Informada a tempo, a contraespionagem britânica desativou os explosivos na madrugada do casamento e, para não criar pânico, só informou o fato discretamente uma semana depois. E a Manchete em tudo isso? Como sempre, fez a cobertura completa sem que os Bloch desembolsassem um mísero centavo. Eu e Lena, minha mulher fotógrafa, esticamos até Londres nossas passagens para o Festival de Jazz de Montreux (cortesia da Swissair). Também na base do 0800, o repórter Tarlis Baptista garantiu nossa hospedagem no Hotel Intercontinental de Marble Arch. Para comparecer à cerimônia na Abadia de Westminster, precisei alugar fraque e cartola. Quem pagou as 150 libras foi nossa correspondente em Londres, Marina Wodtke, casada com o diplomata da Embaixada do Brasil em Londres, Ricardo de Carvalho, filho de José Cândido de Carvalho, autor de O coronel e o lobisomem. Marina e Ricardo nos receberam regiamente nos cinco dias que passamos em Londres, até hoje a Bloch não a ressarciu das despesas, inclusive o aluguel do fraque e cartola.  No fim da tarde, depois do casamento, fui levar a Marina os trajes para a devolução. Marcou nossa despedida num pub próximo a sua casa, com um grupo de amigos. A alegre reunião foi interrompida por um telefonema do Rio, do chefe de reportagem Raul Giudiccelli – me obrigou a caminhar dez minutos até a casa da Marina para atender. Jubilante, me informou: “Fechamos a Fatos!” Raul e Eduardo Francisco Alves foram os principais sabotadores do projeto da revista de texto capitaneada por Carlos Heitor Cony e malograda pela morte de Tancredo Neves. Eduardo, meu desleal chefe de redação, fez de tudo para me derrubar e assumir o meu cargo. Passava até fins de semana, com a mulher e os filhos, preenchendo a solidão de Adolpho e Anna Bentes em Teresópolis, contando piadas de português em versão politicamente correta: “Era uma vez dois chineses chamados Manuel e Joaquim...” Dois anos depois , Eduardo tornava-se o único caso na história da Bloch de um jornalista demitido por pressão dos próprios companheiros.

Família York. Foto BBC/Reprodução

Fergie e as filha. Foto BBC/Reprodução

De volta ao casamento em Londres: numa passagem preventiva pelo mictório da Abadia, antes da longa cerimônia, trombei com um serelepe Elton John paramentado num fraque customizado cinza-chumbo.  Vaticinei: “Com amigos assim, esse casal não vai longe...” Cinco anos depois, Andrew e Fergie anunciavam sua separação. O divórcio veio no ano seguinte. Andrew acabou indo mais fundo para sujar a sua ficha: filho favorito de Elizabeth II, herói da Guerra das Malvinas pilotando um helicóptero, ele se envolveu – não só a si, mas também a mulher Sarah e as filhas Eugenie e Beatrice – nos escândalos sexuais de Jeffrey Epstein. A participação do Duque e Duquesa e das princesinhas de York nas atividades ilícitas de Epstein foi tão flagrante e incontestável que o Rei Charles III se viu forçado a destituir o irmão de todos os títulos, honrarias, propriedades e benesses. A gravidade foi tamanha que o ex-príncipe chegou a ser preso a certa altura do processo. Como diria Shakespeare, corrigindo-se, para tristeza das comadres de Windsor...

*Este texto é parte do livro O humor na Manchete/Histórias do Grande Circo Adolpho Bloch, de Arnaldo Niskier e Roberto Muggiati, a ser lançado brevemente.