por Gonça
A mídia brasileira é parte da sociedade e, obviamente, reflete suas desigualdades e fatias de poder. E sempre foi partidária. Pertence ao segmento mais alto da pirâmide. Qual a novidade? Historicamente, grupos que detém os meios de comunicação atuaram em movimentos políticos, deram respaldo a quarteladas. Isso também não é novidade. Golpe de 64, a tentativa de manipulação da apuração de votos em 1982 na eleição de Brizola), o boicote à campanha para eleições diretas (só ganhou espaço quando o povo tomou conta das ruas nas grandes capitais) e a avassaladora operação de apoio a Collor (quando ficou claro que o “inimigo” a destruir era o Lula) são alguns fatos históricos que contaram com esse engajamento. Desde a redemocratização, a imprensa está livre para fazer circular fatos, opiniões e idéias. Os pesquisadores de comunicação ainda devem um estudo científico, amplo, estatístico, sobre as duas últimas eleições vencidas pelo presidente Lula, apesar de enfrentar uma inegável oposição dos principais jornais e redes de televisão. Na época, discutiu-se o “pensamento único” e mais nada. A imprensa é livre, mas é de fato democrática? Todas as correntes de opinião têm acesso aos meios? O teor dos editoriais ninguém discute, é a visão do controlador, mas e o noticiário? É contaminado pela ideologia? As análises de fatos políticos, econômicos, sociais são isentas? O recente discurso de Lula em Campinas trouxe essa discussão de volta. O presidente contrapõe uma nova “opinião pública”, a das ruas, das organizações sociais, das comunidades (na verdade, com relativa influência, já que não dispõem de meios para difundi-la em massa) à “opinião privada”. Um exemplo pode ser o contraste entre o forte apoio e a avaliação positiva que o governo passado teve da mídia, até o fim, e o índice de desaprovação aferido pelas pesquisas em outubro de 2002: 52% dos entrevistados disseram ao Datafolha que não votariam de jeito nenhum em um candidato que representasse a continuidade do governo anterior. E, bom lembrar, Lula não estava no poder para influenciar os “analfabetos manipuláveis” como tem sido definida com desprezo e preconceito a maioria dos brasileiros. As reações à fala do presidente, como previsível, são furiosas. Mais uma vez, nada de novo no horizonte. Gostem ou não do Lula, é preciso reconhecer que ele, nos seus dois mandatos, não fez de imprensa o alvo, foi ele a mosca de tiro. Mesmo assim, nessa reta final de campanha eleitoral, é chamado de “golpista”. Os mais exaltados já fazem até uma convocação gastando o latim: “si vis pacem, para bellum” (“se queres a paz, prepara-te pra a guerra”).




































