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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Importância de se chamar Ernesto • "O Último Repórter dos Anos de Chumbo lança biografia - Por Roberto Muggiati

Luarlindo Ernesto, 82 anos: o contador de histórias tem sua história contada.




Luarlindo de costas, camisa branca, na capa da Fatos & Fotos que trouxe a matéria exclusiva da apreensão recorde de heroína.


Nada a ver com a peça de Oscar Wilde, Ernesto é o sobrenome. O nome é Luarlindo. Nada a ver com os raios românticos do nosso satélite. O próprio desnominado esclarece: “Meus pais me sacanearam. Nasci num 13 de agosto, numa noite de enchente na Praça da Bandeira (que o carioca chama Praça da Banheira, alaga até em dia de garoa.) Não tinha luar lindo nenhum. Só uma chuva dos infernos. Mas eu dei o troco nos sacanas. Sou filho de um banqueiro do jogo do bicho e uma dona de casa. Nunca soube jogar no bicho, só jogo na loteria. Comecei na Última Hora com catorze anos por castigo do meu pai, para não jogar bola de cueca na rua. Toda vez que jogava, acabava na polícia. Aí ele me colocou para trabalhar no jornal, que ficava ao lado de casa. Já me passei por mendigo, camelô, lixeiro e até soldado da PM para fazer boas matérias. Foi assim que ganhei meus três Prêmios Esso. ” Ainda foca, Luarlindo foi iniciado pelo veterano Amado Ribeiro em casos notórios como a Fera da Penha e o assalto ao trem pagador em Japeri, onde caiu nas graças do famoso facínora Tenório Cavalcanti. Trabalhou também nos jornais O Globo, Folha de São Paulo, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Luta Democrática, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, O Jornal e nas revistas Manchete, Fatos&Fotos e Amiga – muitos destes veículos já se foram, ele continua firme. Em 1964, cobrindo a morte do bandido Cara de Cavalo, Luarlindo foi obrigado, como os demais repórteres, a atirar no corpo do meliante com o revólver do lendário policial Milton LeCoq, que fora assassinado por Cara de Cavalo. Nascia, naquele ato de vingança, o Esquadrão da Morte. Amigo de infância de outro bandido famoso, Lúcio Flávio Vilar Lírio, tinha o relato exclusivo de seus assaltos e fugas espetaculares. Assassinado na prisão aos 30 anos, virou livro e filme. Foi também graças a uma reportagem de Luarlindo que o mafioso italiano Tommaso Buscetta, foragido muito tempo no Brasil, teve sua extradição decretada para a Itália.

Na Bloch, Luarlindo começou na redação da Amiga, mas logo Manchete e Fatos&Fotos o botaram a fuçar as frinchas e frestas de figuras e fatos fedorentos como repórter policial. Mostrou o que valia embarcando como clandestino no navio americano Mormac-Altair, que vinha da Argentina, e cobriu com exclusividade a apreensão no Rio de uma carga recorde de heroína destinada aos EUA. Nos corredores, apadrinhou um contínuo que o admirava, encaixou-o na reportagem do Domingo Ilustrado e o fez trocar o nome de Arcanjo pelo apelido de Tim, por causa da cabeleira à Tim Maia. Foi assim que nasceu um dos maiores repórteres investigativos do país, Tim Lopes.

Por estar sempre na hora certa nos lugares onde as coisas aconteciam, foi até chamado de Forrest Gump. Mauricio Menezes, ex-colega em O Dia, diz: “Não sei o que faz as pessoas levarem a sério um cara como ele, um gênio da ironia, da gozação, da chacota. Um sujeito capaz de nos mostrar o inusitado toda a vez que abre a boca. Luarlindo é o Woody Allen da imprensa brasileira. Se eu tivesse que pagar 10 centavos cada vez que me diverti com ele, deixaria arruinadas as próximas cinco gerações de Menezes!”

Aos 72 anos, Luarlindo se queixava: “Hoje só fico triste em ver os amigos morrendo. Acho uma sacanagem porque ainda temos muito boteco para conhecer. Tenho diverticulite, duas hérnias, catarata e um fígado zangado. E vou morrer na redação porque é o meu lugar. O corpo tem que ir para o IML. De casa seria muito chato. Se eu morrer na redação o enterro sai mais rápido e mais barato. Não sei se vou durar muito. Fiz uma loucura recentemente e isso tem me preocupado: resolvi tomar juízo e larguei a esbórnia. Tô com medo de não aguentar...” Luarlindo vai durar mais do que pensa. Aos 82 anos, em maio de 2026, foi brindado com a biografia Luar: O último repórter dos Anos de Chumbo, 300 páginas de ação (e diversão) assinadas pela jornalista Elenilce Bottari. E segue em frente, mais ativo e furão do que nunca. 

*Este perfil é parte do livro de Arnaldo Niskier e Roberto Muggiati O humor na Manchete/Histórias do Grande Circo Adolpho Bloch, a ser lançado em breve.