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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A saga de Chorizo, resgatado da Ucrânia sob bombas - Por Natasha Muggiati

 

Chorizo desafiou fronteiras e logística. Foto: Arquivo pessoal 

Minha companheira Liliya, ucraniana, decidiu que nada expressaria melhor seu amor do que um filhote de dachshund — nosso popular “salsicha”, em alemão “caçador de texugo”, ao qual dei o nome gaiato de Chorizo, um nome que se impôs naturalmente — curto, sonoro e já anunciando que nossa vida jamais voltaria a ser insossa. Seria uma surpresa de Natal, algo delicado, festivo, envolto em laços e boas intenções. Mas Chorizo, sempre avesso a cronogramas e convenções humanas, antecipou sua chegada para outubro. Desembarcou com dois meses de idade, 1,3 kg de puro potencial destrutivo e os olhos estrategicamente treinados para dissolver qualquer acusação.

A travessia até Berlim, onde moramos, foi digna de um documentário narrado em tom grave. Três dias numa van em estado avançado de aposentadoria, saindo da Ucrânia em guerra, cruzando a Polônia — onde obteve um passaporte cuja procedência preferimos classificar como “criativamente interpretada” — e finalmente alcançando território alemão. Veio mal acomodado numa gaiola minúscula, compartilhada com um cocker spaniel igualmente perplexo, ambos a caminho de Berlim e provavelmente questionando sua destinação. Enquanto drones zumbiam no céu e estradas minadas prometiam emoções desnecessárias, os dois viajavam comprimidos como passageiros numa missão que desafiava fronteiras e logística. Tudo isso para transportar 1,3 kg de anarquia com orelhas longas.

Mas, como diria Shakespeare, tudo está bem quando termina bem. Ou quase. Aconchegado no apartamento, protegido do frio europeu, Chorizo rapidamente iniciou sua campanha de ocupação: degustou móveis como quem faz análise sensorial de madeira nórdica, estraçalhou seu coelho de brinquedo com eficiência cirúrgica e declarou guerra aberta aos chinelos das donas — que, ao que parece, simbolizam a autoridade doméstica que ele pretende derrubar.

Na primeira vez que viu neve, decidiu comê-la. Pela expressão, concluiu que a Alemanha ainda não estava pronta para seu refinado paladar. Agora aguardamos a primavera, quando poderá correr pelos parques vizinhos latindo para outros cães e fingindo inocência, enquanto nós fingimos que a casa sempre teve esse estilo “minimalismo pós-conflito”.

Chorizo sobreviveu a bombas, fronteiras, burocracias e transporte internacional alternativo. Enquanto isso, nos adaptamo-nos com elegância à intensidade de sua juventude e à troca de dentes. E assim, entre destruindo chinelos, devorando brinquedos e ensaiando suas primeiras investidas sobre a neve, aprendemos que toda casa precisa de um pequeno general… e nós, de muita paciência para a ocupação permanente.

*Natasha Muggiati, filha de Roberto e Lena Muggiati, é um típico “bebê Bloch”. Sua chegada ao mundo, há 40 anos, foi capa da revista Pais&Filhos.