terça-feira, 27 de outubro de 2026

71 anos votando pela democracia • Por Roberto Muggiati


O encontro de Adolpho Bloch e Lula (1989)
Na pequena platéia, Osias, assistente do Bloch,
Carlos Heitor Cony,  Roberto Muggiati e Jorge Bittar. Foto Manchete


Com o jornal do grande dia. Foto Miriam Alves

Votei pela primeira vez em 3 de outubro de 1955 elegendo Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eu completaria dezoito anos no dia 6, o que já me tornava apto a votar. Em 1960 votei no candidato de JK, o marechal Lott, mas o líder populista Jânio da Silva Quadros – o “Homem da Vassoura” – venceu com uma avalanche de votos. Desta vez, eu fazia 23 anos a bordo de um avião da Panair para estudar jornalismo em Paris e trabalhar no Serviço Brasileiro da BBC em Londres.

 Inebriado pelos ares do Planalto, Jânio, nos 206 dias do seu desgoverno proibiu os biquínis nas praias e piscinas e limitou o tamanho dos maiôs em concursos de misses e desfiles nos clubes e TVs; proibiu o uso de lança-perfume nos bailes de Carnaval; as corridas de cavalos nos dias úteis e as brigas de galo; instituiu o uso obrigatório nas repartições públicas de um uniforme bege de calça e jaqueta que acabou apelidado de “pijânio”; restringiu toda comunicação oficial ao uso de bilhetinhos escritos à mão; colocou dois jumentos a pastar nos gramados do Palácio da Alvorada. Aproximou-se de China, União Soviética e Cuba, recepcionando Ernesto ‘Chê’ Guevara em Brasília e concedendo-lhe a Ordem do Mérito do Cruzeiro do Sul. Sua surpreendente renúncia, no Dia do Soldado, 25 de agosto de 1961, ele atribuiu a “forças terríveis”, ou “forças ocultas” – segundo seus adversários no bojo de garrafas de uísque.

De volta ao país em 1965, já em plena ditadura militar, pude ainda votar e eleger Francisco Negrão de Lima governador do estado da Guanabara. Repórter da Manchete, fui escalado para cobrir sua posse, em 1º de janeiro de 1966, na antiga Câmara dos Vereadores – a Gaiola de Ouro – na Cinelândia. Os jornalistas ocupavam um pequeno curral do outro lado da Avenida Rio Branco, nos degraus da Biblioteca Nacional. Havia uma tensão insuportável no ar, parecia que a qualquer momento um tiroteio ia irromper ou uma bomba ia explodir.

Dos onze candidatos a governador naquele “teste das urnas” arriscado pelos militares, seis da oposição obtiveram vitórias expressivas, notavelmente Negrão de Lima na Guanabara e Israel Pinheiro em Minas Gerais. Pressionado pela “linha dura”, Castello Branco assinou o Ato Institucional Nº 2, suprimindo as eleições pelo resto do regime. Para manter as aparências, o ditador, da “linha ligh” – bizarramente chamada de “Escola da Sorbonne”, por ser formada por graduados da Escola Superior de Guerra – permitiu aos eleitos que cumprissem seus mandatos.

O Brasil só voltaria a votar para Presidente 24 anos depois, em 15 de novembro de 1989. De um festival de candidatos, restaram Lula e Collor de Mello para o segundo turno, em 17 de dezembro. Chamo aqui a atenção para a participação da Manchete na escolha de Collor. Daniel Tourinho, diretor de RH da gráfica da Bloch em Parada de Lucas, fundou o Partido da Juventude, agremiação ficha limpa que foi cooptada por Collor e rebatizada de Partido da Renovação Nacional. Outro fato importante ligado à Manchete: até o final do prazo de inscrição da candidatura a vice, Collor insistiu para que Márcia Kubitschek aceitasse concorrer. Já imaginaram? Com o impeachment e a  renúncia do “caçador de marajás”, o Brasil teria a filha de JK como sua primeira mulher na Presidência...

Com seu infalível faro político, Adolpho Bloch desconfiava de Collor. E via com simpatia o metalúrgico nordestino do ABC paulista. Lembro de um jantar oferecido no Russell a Collor, os vices Pedro Jack Kapeller e Oscar Bloch Sigelmann representaram a empresa. Com uma desculpa esfarrapada, Adolpho fez forfait. Inopinadamente, convidou Lula para almoçar com ele no Rio na véspera do segundo turno. Lula chegou num jatinho no sábado 16 de dezembro. Adolpho o levou logo para visitar o escritório que JK ocupava no prédio da Manchete até sua morte trágica em agosto de 1976. À mesa do almoço, Adolpho me sentou à sua esquerda, entre ele e Lula. Costumava usar-me como intérprete, não só para línguas estrangeiras como para seu português críptico, inteligível apenas a quem o conhecesse muito bem.

ADOLPHO: E o senhor gostaria de ter outro mais moço do que o senhor?

LULA: Não entendi bem, Seu Adolpho... Ter outro o quê?

ADOLPHO: Sogro, porra!!!

Aludia ao general Abraham Ramiro Bentes, pai de sua mulher, Anna Bentes.

Quando Lula se elegeu Presidente pela primeira vez, em 2002, Adolpho não pôde votar nele, tinha morrido em 1995. Teriam feito uma bela dobradinha, como Adolpho fizera com JK e Brizola. Segui votando no candidato certo, no candidato do povo e da legalidade. Confesso que vivi momentos de ansiedade e até mesmo pânico nesse segundo turno, mas exultei com a voz das urnas e a vitória final às 21:08 de domingo. Telefonei para minha cuidadora Miriam Alves às seis da madrugada para que comprasse o jornal antes que esgotasse nas bancas. Ela fez a foto que abre esta matéria. Primogênita de 17 filhos de um modesto lavrador de Escada, a cem quilômetros do Recife, pegou na foice no canavial até os catorze anos. Votou pela primeira vez aos vinte anos, em Lula. Alfabetizou-se sozinha pelo celular. Ajuda-me não só nas coisas da casa, como em questões práticas que para velhos intelectuais como eu são um mistério indecifrável. Miriam rompeu com os bolsonaristas de sua família e batalhou para convencer muitos indecisos a votarem em Lula. Foram pessoas assim que, como enalteceu Lula, ajudaram a manter viva a democracia brasileira.



 

Um comentário:

  1. show de bola, caro Muggiati. Na eleição de JK, eu tinha 1 anos, mas, me lembro de meus pais votando em Lott (a espada contra a vassoura), do Golpe de 64, quando meus irmãos e eu ficamos algumas semanas sem mãe nem pai. Grande abraço

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