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| ... Vic levantou a câmera e fez a última foto, um retrato do neto Lucas e da bisneta. |
Foi na redação da sucursal da Manchete, em 1978, que o fotógrafo Vic Parisi me mostrou um dos seus orgulhos. Era um impressionante retrato, em preto e branco, do então jovem boxeador Eder Jofre em ação, tirado em uma reportagem para o jornal Gazeta Esportiva. Vicente de Paula Parisi, o Vic, flagrara um demolidor soco de Eder em um pobre adversário. O impacto do punho do campeão no rosto do rapaz foi tamanho que tirou do chão os pés do fulminado. Ele estava no ar — ao pé da letra. Parecia voar, entregue inerte, sem forças, à mercê do golpe certeiro.
Ainda mais fascinante: Vic fizera a foto com uma Rolleiflex, muito mais difícil de acionar do que as modernas câmeras reflex. Para complicar ainda mais, funcionava com filmes de apenas 12 chapas, obrigando o fotógrafo ao capricho compulsório de jamais desperdiçar um clique. Claro que à altura da foto de Eder em ação, no início dos anos 60, não havia o motordrive, dispositivo eletrônico que faz a câmera disparar várias fotos em sequência, com um único aperto no obturador. Nem se pensava nisso.
Dias depois, na mesma redação da Manchete, Vic me mostrou outra foto esportiva. Era um retrato de Bjon Borg, feito no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Desta feita, um cromo recente, um
slide colorido. O tenista sueco, em notável trabalho de composição, aparecia, com o rosto expressivo, tenso e o instrumento de trabalho nas mãos. Em primeiríssimo plano cintilava, esplêndida, a bolinha amarela, centralizada bem no meio da tela da raquete, do golpe e do retrato. Encafifado, perguntei ao Vic como fizera o flagra, magnífico. Para sacar aquela foto, o fotógrafo precisaria estar sentado em plena quadra, bem diante do Iceborg — como o gélido sueco era tratado pela imprensa. Algo mais do que improvável — a rigor, impossível durante uma partida. A alternativa seria clicar de longe, com uma potente teleobjetiva. De qualquer maneira, congelar a bolinha no centro do golpe, em movimento, revelava-se uma rara e quase aleatória conquista. Diante da minha estupefação, Vic explicou, gaiato: o clique havia sido feito um dia antes da partida, nos treinos. Na ocasião, Borg achara graça do expediente de fotógrafo brasileiro. Criativo, ilusionista, o senhor de longas barbas com a amada câmera em mãos levara rolos de fita crepe e fita isolante. Com este recurso, “grudara” a bolinha na raquete antes da pose.
Vic Parisi morreu na semana passada, aos 90 anos. Era um exímio fotojornalista, sempre atento aos desdobramentos de uma cena, com o dedo pronto para acionar, como os heróis dos westerns. Mais do isso, foi um criador em tempo integral, com um extraordinário domínio técnico de luz e composição. Um prestidigitador. Era, sem favor nenhum, um dos melhores fotógrafos da Manchete, esquadrão onde atuaram craques como Sérgio Jorge, Frederico Mendes, Carlos Humberto TDC, Indalécio Wanderley, Gervásio Baptista, Ricardo Beliel, Nilton Ricardo, Mituo Shiguihara, Sérgio Zalis, Ed Viggiani e Gil Pinheiro — restrinjo-me a onze nomes para formar um time de fato.
Capaz de eternizar golpes como o de Eder Jofre e forjar outros, como o de Bjon Borg, o intrépido Vic Parisi acabou fulminado, no ano 2000, por um golpe inesperado (ou nem tanto): o fechamento de Bloch Editores, onde trabalhara por mais de 25 anos. Uma porrada e tanto. Já estava com 64 anos. Resignado, recolheu-se à semi aposentadoria, limitando-se ao papel de pastor protestante, função que abraçara, em paralelo, havia décadas. Assim permaneceria não fosse a intervenção de Ronny Hein, à época diretor de redação da então recém-lançada (pela Editora Peixes) Próxima Viagem, revista especializada em viagens, como o nome adianta. Ronny, ótimo jornalista, havia trabalhado com Vic em priscas eras (leia-se final dos anos 1970) e lembrava-se não só da qualidade das fotos como também da satisfação quase infantil do fotógrafo ao mostrar aos colegas de redação o resultado de cada reportagem.
Depois de enquadrar cromo por cromo com denodo, Vic os dispunha com rigor geométrico na mesa de luz — chamávamos de “churrasqueira” — e fazia a convocação, em fingida autoindulgência no seu inesquecível sotaque ítalo-paulistano: “Olhem esta aqui. Até que ficou bonitinha”. Ou: “Pensando bem, esta outra não ficou tão ruim”.
Admirávamos com óbvio prazer. Até cantávamos uma paródia da marchinha ufano-militarista encomendada pelos milicos para o anúncio de TV da Expoex - Exposição do Exército: “Expo Vic, exposição do Vicente/ Leve seus filhos para ver/ Eles vão adorar”.
Tive o privilégio de viajar com Vic para diversos países fazendo matérias para a Próxima Viagem. Pela primeira vez ele atravessava o Atlântico, em visita aos rincões dos antepassados. Também ganhou um prêmio que lhe permitiu irpara a Europa com a mulher, Márcia — irmã do grande dramaturgo Plínio Marcos. Vic parecia melhor a cada viagem. Todos nós, da redação, ficávamos pasmos, em especial, com o seu domínio da técnica ao clicar o fim de tarde, começo de noite, o popular lusco-fusco. Prédios e paisagens ganhavam um sutil tom dourado, de sonho. Lembro-me também de Vic clicando banhistas na praia de Varadero, em Cuba, com o recurso do flash, em dia de muito sol. A mim pareceu inusitado. Ele explicou que era o mais indicado para retratar afrodescendentes.
A volta triunfal já ocorrera com outros grandes artistas. Recordo-me do caricaturista Nássara no Pasquim, redescoberto por Jaguar após longo ostracismo. Também do gênio do cavaquinho Waldir Azevedo, de volta aos palcos e gravações depois de reimplantar a maior parte do dedo anular da mão esquerda, decepada por um prosaico cortador de grama. Tal como eles, Vic Parisi teve esta segunda chance — e brilhou.
Infelizmente, Próxima Viagem fechou as portas, uma década depois. Outro golpe. Vic Parisi já passara dos 75 anos. Ainda estava forte, sacudido. Aos poucos, no entanto, chegaram as notícias de que vinha perdendo a saúde. Alzheimer — bravo. Aqui e ali, fiquei sabendo dele pelas publicações de seu filho no Facebook, o versátil e bom artista plástico André Parisi. Não eram alentadoras.
Ao invés. Por fim, o desfecho.
Dias após sua morte, publiquei um breve texto no Facebook. Foi quando Lucas Parisi, neto de Vic e o único de seus descendentes a abraçar a carreira de fotógrafo, me escreveu agradecendo. Conversamos pelo inbox. “Eu me tornei fotógrafo por causa do meu avô”, contou-me. “Ele me ensinou tudo o que podia. Foi a minha maior inspiração.” Neste papo virtual, Lucas relatou que, dois meses antes da morte, Vic foi contemplado pela família com uma festa íntima pra comemorar seu aniversário de 90 anos. “Meu avô já não falava, e nem esboçava maiores reações;”
Ainda assim, Lucas Parisi teve o insight, a súbita sacada, de colocar uma câmera fotográfica nas mãos daquele que fizera daquele instrumento ganha-pão, profissão e, sobretudo, arte.“Ele ficou horas com a câmera na mão. Acredito que aquela máquina trouxe de volta muitas recordações” Foi então que Lucas parou na frente do avô, com a filha —sim, a bisneta de Vic Parisi. O velho fotógrafo, um ancião com Alzheimer, não fez por menos. Levou a câmera ao olho direito e clicou.
Foi a última foto do grande Vic Parisi.

