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quarta-feira, 18 de março de 2026

Adolpho e o Peixe-Diabo • Por Roberto Muggiati

 


Em outubro de 1995, um Adolpho Bloch trôpego me pediu para lhe dar o braço e ajuda-lo a descer a perigosa escada sem corrimão do restaurante até o elevador. Murmurou: “Você não queria ter a minha vida. ‘Tô fudido...” Parecia que ele estava sentindo se aproximar a morte, que chegaria na madrugada de domingo, 19 de novembro. Tocaia grande, a nova novela, inspirada em Jorge Amado, não tinha começado bem e não dava sinais de melhora. Àquela altura, as revistas também não iam bem e a Manchete sofria o mesmo sintoma de obsolescência que afetava as ilustradas semanais no resto do mundo. Dois meses antes, Adolpho interferiu diretamente na escolha da capa, contrariando a opinião geral de que um tema científico jamais esgotaria uma edição.

Um detalhe ignorado não só dos leigos, mas até dos próprios jornalistas, foi o de que Manchete detinha – desde os anos 1960 até sua falência em 2000 – os direitos exclusivos de publicar no Brasil os textos da Time, a maior revista de opinião do mundo. Nem as ofertas tentadoras da Abril, quando lançou Veja em 1968, demoveram Time do seu pacto de fidelidade com a Manchete. Um dos grandes problemas era que as provas da revista chegavam segunda-feira de manhã pelo malote do voo Nova York-Rio, ficando sujeitas a eventuais atrasos e aos engarrafamentos entre o aeroporto e a redação. Havia também uma exigência da Time: as traduções não podiam sofrer cortes. Não só Manchete era uma revista ilustrada com textos mais curtos, como a cobertura da Time em crises como o Caso Watergate e a Guerra do Vietnã comportava textos extensíssimos. E, além da ótica americana, havia o trabalho físico da tradução. Um texto de 30 laudas tinha de ser dividido por três ou quatro redatores, praticamente a metade da nossa equipe. 


Adolpho fez pé firme. Ele queria porque queria aquele peixe da Time na capa. Principalmente depois de saber que o monstro era vulgarmente conhecido pelo nome de Peixe-Diabo. Se ele, Adolpho, estava morrendo e sofrendo, que sofrêssemos junto! E todos nós tivemos nossa cota de sofrimento naquele longo fechamento. Os títulos prometiam OS MISTÉRIOS DO FUNDO DO MAR/Cientistas partem para a conquista da última fronteira: as profundezas do oceano – e o fato de ser uma matéria científica tornava as coisas mais complicadas. No meio daquela confusão, correr atrás de um oceanógrafo seria mais um problema do que uma solução.  Como editor da revista, eu tinha de ler as provas finais, antes de serem mandadas para a gráfica e elas só ficariam prontas depois de atravessar um lento e laborioso processo na fotocomposição, alta madrugada. Por uma questão de racionalidade, para me poupar física e mentalmente, eu ia para casa jantar, ficar com a família, ler um livro ou ver um filme, ou até mesmo dormir um pouco. As provas daquela matéria bateram o recorde, só chegaram às seis da manhã. Levei mais de uma hora, corrigindo e fazendo ajustes.

Tomei o café da manhã com a família, as crianças partiram para a escola. Depois de um bom banho, segui com a Lena para começar tudo de novo na Manchete. Longe de mim a ideia de dormir àquela hora: o Peixe-Diabo viria atrás de mim no pesadelo com aquela bocarra pavorosa...

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Filme rebobinado, história idem...

Foto de John Paul Filo


por José Esmeraldo Gonçalves 

A revista Time acaba de incluir a imagem acima entre as 100 mais influentes de todos os tempos.

A foto é de John Paul Filo, então aluno de fotografia, e foi feita no dia 4 de maio de 1970 com uma Nikkormat, versão mais simples de modelos profissionais da época.

O trágico cenário é a Kent State University, em Ohio, onde estudantes protestavam contra a escalada das ações militares no Vietnã e no Cambodja.

O republicano Richard Nixon era inquilino da Casa Branca.

A Guarda Nacional entrou no campus atirando e, em 13 segundos, matou quatro jovens e feriu outros nove.

Jefrey Miller, 20 anos, é o rapaz abatido; Mary Ann Vecchio, 14, é a menina que pede ajuda.

A foto ganhou o Pulitzer e tornou-se simbolo de uma época de esperanças vencidas por desesperanças. Filo contou que, no começo do tiroteio, achou que as balas eram de borracha ou de efeito moral. Mas ao apontar a câmera para um soldado este disparou o rifle e o projétil atingiu uma escultura bem ao seu lado. O primeiro impulso do fotógrafo foi fugir do local. Saiu em disparada mas, no meio da corrida, parou e voltou para fotografar a invasão. Percebeu, como revelou depois - que estava lá para isso. Foi quando registrou toda a violência da repressão no campus.

Uma curiosidade jornalística: um editor alterou a foto de Filo. Talvez por razões estéticas, simplesmente apagou o poste da cerca que aparece bem acima da cabeça de Mary Ann Vecchio.

Muitos jornais e revistas, como a própria Time e a People, chegaram a publicar a imagem retocada (foto à esquerda), até que a manipulação fosse percebida.

Nas últimas semanas, jovens americanos foram às ruas protestar contra Donald Trump. Provavelmente, apenas uma prévia de futuros embates. O presidente eleito está montando um staff sob medida para a execução das suas políticas. Tudo indica que cumprirá as promessas de campanha, do muro mexicano à implosão do sistema público de saúde, o Obamacare, do protecionismo econômico à agressividade geopolítica, sem falar nas políticas de gênero ou nas questões de implicação moral e religiosa.

Guardo na estante a edição da Time que foi para as bancas em 18 de maio de 1970, com a cobertura dos protestos em Ohio. A capa - um grito, foto de Michael Abramson - é bem representativa de um tempo em que ideias e expressões foram sufocadas a tiros.

Quando os Estados Unidos radicalizaram suas posições e ações, a partir do começo dos anos 1960,  o mundo foi junto. Para não ir muito longe, a América do Sul foi ocupada por ditaduras como parte de uma política de intervenção indireta formulada para evitar novas "Cubas" no continente. Com a atual ascensão da direita na América do Sul, na Europa Ocidental e no Leste Europeu não é difícil prever que o modelo Trump será bem recebido em muitas latitudes.

Mas a conta do  "Make America Great Again" não ameaça sobrar apenas para minorias, no próprio país. Promete atravessar fronteiras e alcançar povos, idéias, liberdades e direitos. Não apenas por capricho de Donald Trump mas por expectativa dos milhões que o elegeram exatamente para isso e pelo efeito clone que o personagem inspira a facções em vários países. O Brasil, por exemplo, já fala em um candidato para 2018 à imagem e semelhança do magnata e apresentador de reality show que vai mandar em Washington.

Compartilho, aqui, algumas páginas daquela Time histórica. Talvez uma das edições mais dramáticas da revista nos distantes anos 1970.

Não é por nada não, mas analistas preveem tensão na "América dividida" e riscos de a História rebobinar esse filme.