terça-feira, 15 de março de 2022

A paz não tem chance. Conheça o grande vencedor da Guerra da Ucrânia

Está aberta a temporada de venda de armas. Reprodução O Globo

por José Esmeraldo Gonçalves
Ucrânia e Rússia se reuniram hoje para mais um tentativa de por um fim à guerra. Um acordo agora ou em algum momento será possível até por exaustão militar e econômica das partes. Mas o desastre já se impõe. 
Putin está cercado por duas forças poderosas: sanções de proporções nunca vistas e o desgaste político interno que só tende a crescer. A Ucrânia perde a infraestrutura e vê milhões dos seus cidadãos se transformarem em refugiados. Ucrânia perde vidas aos milhares. A Rússia recebe os corpos dos soldados mortos e começa a enfrenta em casa um movimento de mães que perderam os filhos. 

Durante a Guerra do Vietnã, os Estados Unidos experimentaram os efeitos na opinião pública da dramática chegada dos corpos de volta do atoleiro mortal em que o país se meteu nas selvas asiáticas. Isso contou na época para a Casa Branca e vai contar agora para o Kremlin.
 
A guerra fria.2  esquentou de lado a lado. Nos últimos anos a OTAN se expandiu para o Leste europeu. Isso é fato. A Rússia reclamou do que considerou ameaça e reagiu agora de forma desastrada. Putin parece ter blefado mas não tinha Royal Straight Flush na mão. Acabou fazendo o jogo do Joe Biden.

O que surgiu no cenário geopolítico do planeta para o Leste europeu voltar a ser tão estratégico para os Estados Unidos? Algo que fica bem longe da região: a China. O Pentágono vê o gigante da Ásia como o mega e atual inimigo. A aproximação recente entre China e Rússia ligou o alerta nas duas frentes de tensão. No Leste europeu , com a Ucrânia virando peça do xadrez; e no Mar da China, agora uma "octógono" de provocações as forças navais estadunidenses e chinesas. 
A guerra na Ucrânia torna-se indutora da lucrativa venda de armas para os países que formam a OTAN. Alemanha já abre os cofres para adquirir caças F55 fabricados nos Estados Unidos. Reino Unido e Itália farão o mesmo. Às portas da China, no segundo foco, Austrália compra dos Estados Unidos submarinos de propulsão nuclear. Japão e Taiwan adquirem caças. 

O próximo conflito pode ser naquela região onde vários incidentes já acontecem. 

Na guerra que curiosamente envolve dois países governados por líderes da direita, Putin e Zelenski são perdedores. O VAR já tirou qualquer dúvida:  a indústria bélica da terra de Joe Biden fez o touch down e o shopping das armas abriu para ofertas. Os mortos serão em breve esquecidos, os negócios, não. Os canhões nem silenciaram e os CEO já festejam os lucros.

Frase do dia

"Políticos e fraldas devem ser trocados com frequência, e pelos mesmos motivos."

MARK TWAIN (1853-1910)

segunda-feira, 14 de março de 2022

Vamos voltar aos tempos do gasogênio? • Por Roberto Muggiati

Carro movido a gasogênio. Fot reproduzida ddo livro
 Der Käfer II, de Hans-Rüdiger Etzold

Bem-vindas à guerra, gerações pós-1945! A Segunda Guerra Mundial começou em 1º de setembro de 1939; em 6 de outubro eu completei dois anos. Apesar da tenra idade, senti na pele – como milhões de brasileiros – os efeitos do conflito global. A começar por meu nome. Como não pôde me batizar de Benito, em homenagem a Mussolini (minha mãe vetou), meu pai me chamou de Roberto, outro nome favorito de Il Duce. As três sílabas correspondiam às primeiras sílabas das capitais do Eixo:
ROma, BERlim, quio. O Eixo era a Itália de Mussolini, a Alemanha de Adolfo Hitler e o Japão do Imperador Hirohito contra o resto do mundo, os Aliados.

Um amigo de infância, descendente de alemães, começou a ser hostilizado pela vizinhança e sumiu para sempre da minha vida. Aos seis anos, em 1943, fugindo de uma epidemia de coqueluche, as crianças desceram de Curitiba para o nível do mar. Eu, minha irmã e um monte de primos ficamos hospedados com as respectivas famílias num hotel na Ilha do Mel, na Baía de Paranaguá. À noite, pesadas cortinas pretas eram cerradas para obedecer ao blecaute. Semprei julguei aquilo um mero ritual sem sentido, até atingir a idade da razão, quando aprendi um pouco mais sobre a guerra. As águas do Atlântico Sul viviam infestadas por submarinos alemães, os temidos U-Boots. Já em dezembro de 1939, o estuário do Rio da Prata foi o palco da primeira grande batalha entre as marinhas inglesa e alemã.

A escassez de gasolina levou o Brasil à adoção do gasogênio, os carros eram equipados de uma espécie de fornalha externa que queimava matérias sólidas ou líquidas para a produção de gás que alimentasse os motores de combustão. Esse “gás de síntese” podia usar como matéria-prima madeira, carvão e combustíveis líquidos também. Lembro que meu tio Rubens Bittencourt, um sujeito elegante casado com tia Lygia, irmã de minha mãe, tinha uma baratinha Ford conversível equipada com gasogênio. Foram muitos passeios e piqueniques pelos arredores de Curitiba, de fazer inveja à patuleia pedestre.

Eu tinha sete anos e sete meses quando a guerra acabou na frente europeia. Na capa interna do meu precioso álbum de fotografias escrevi convicto na minha caligrafia titubeante:


8-5-1.945 a ultima guerra. Dia da Vitória

Santa ingenuidade! Três meses depois, o Japão era vencido ao custo do massacre de duas bombas atômicas, em Hiroxima e Nagasaki. E o mundo entrava direto na Guerra Fria, vivendo durante décadas o pesadelo do apocalipse nuclear. Coreia. Indochina. Bloqueio de Suez. Baía dos Porcos. Os mísseis de Cuba. Vietnã. Os genocídios tribais na África. Afeganistão. Guerra do Golfo. Guerra do Iraque. Terrorismo global. Torres Gêmeas. Devo ter esquecido algumas, muitas, os terrorismos locais, o IRA, o movimento basco, as FARC colombianas. E, mais recentemente, os delírios expansionistas de Putin, a anexação da Crimeia e agora a invasão da Ucrânia.

Retiro o que eu escrevi, Roberto Fernando Muggiati, na ignorância dos meus sete anos. A última guerra será sempre a penúltima...

A cavalgada das zebras continua...

O Vasco, o Gigante da Colina, foi a Petrolina e se apequenou. Foi eliminado da Copa do Brasil nos pênaltis pelo Juazeirense, com direito a vexame do Nenê.

Os dois catarinas também dançaram. O Figueirense foi eliminado pelo Cuiabá nos pênaltis e o Avaí tomou um 2x1 do Ceilândia numa noite encharcada na Ressacada. A esta altura o torcedor número um do Avaí, o supercampeão de tênis Guga – está perdendo a paciência com o seu timinho. 

Cartolas do Ceilândia pagam promessa. Imagem reproduzida de vídeo do GE.
  

 Em compensação, os dirigentes do Ceilândia (DF) que acompanharam seu time a Floripa, atravessaram o campo da Ressacada de joelhos em gesto de agradecimento. A imagem do canal GE do Portal G1, viralizou nas redes sociais No primeiro jogo, o Ceilândia eliminou o Londrina. Já o Pouso Alegre (MG), que eliminou o Paraná, deu trabalho ao Coritiba na segunda fase e só perdeu nos pênaltis. Aguardem os próximos capítulos.

terça-feira, 8 de março de 2022

Carnaval total em abril? E sem máscaras?

por Ed Sá

A Prefeitura do Rio de Janeiro tornou opcional o uso de máscaras em ambientes fechados. Antes, havia liberado o acessório em situações ao ar livre. A decisão é criticada por cientistas. Embora o controle da pandemia esteja à vista, cidades do Grande Rio com enorme integração com a capital não exibem números expressivos de vacinação. 

Vale o bom senso. Ocorrendo aglomeração, use sua máscara em qualquer ambiente.

De qualquer forma, a decisão pode abrir alas para um carnaval total. A prefeitura já havia liberado os desfiles das escolas de samba em abril, segundo o calendário abaixo: 

20/04 (Quarta-feira) – Série Ouro – Liga RJ

21/04 (Quinta-feira) – Série Ouro – Liga RJ

22/04 (Sexta-feira) – Grupo Especial – Liesa

23/04 (Sábado) – Grupo Especial – Liesa

24/04 (Domingo) – Desfile das Crianças – Aesm-Rio

26/04 (Terça-feira) – Apuração

30/04 (Sábado) – Campeãs – Liesa

Com o fim da obrigação de uso de máscaras, caso as estatísticas da pandemia no Rio permaneçam em queda, é possível que os blocos de rua, até agora não oficialmente autorizados, recebam sinal verde para botar o carnaval nas ruas também em abril. A conferir.

Futebol: torcedores brasileiros violentos deveriam se oferecer para lutar na Ucrânia

por Niko Bolontrin 

Nos últimos meses, como os fatos indicam, aumentou a violência entre torcedores do futebol. Agressões, mortes, ofensas racistas já são contabilizadas em vários confrontos. Abel Ferreira, o vitorioso treinador do Palmeiras, revelou em coletiva que duvida se poderá permanecer em um país onde o hábito de ver futebol pode ser brutal e até mortal. Por tudo isso, os jogadores deveriam evitar provocar torcedores adversários. Isso piora a situação e amplia o clima de guerra. Resulta em conflitos.  Claro que há entre os torcedores grupos que não precisam de incentivo para brigar e matar: são os bandos ligados a faccões criminosas. Esses são um problema crônico de segurança pública. Em todo caso, ir à margem do campo para provocar torcedores, como fez um jogador do Flamengo no último domingo, em nada ajuda. 

Se as torcidas querem guerra bem que poderiam se voluntariar para lutar na Ucrânia. Garanto que a maioria que vai aos estádio ver o jogo ajudaria a pagar a passagem para Kiev. De ida. 


segunda-feira, 7 de março de 2022

Santo Henry, o menino mártir • Por Roberto Muggiati

Henry queria ser um menino feliz como os outros.Arquivo Pessoal

Neste 8 de março faz um ano a morte de Henry Borel, dois meses antes de completar cinco anos de idade. Foi um dos casos mais clamorosos e chocantes de brutalidade contra uma criança de que se tem notícia no país. 

O menino morreu de hemorragia interna quatro horas depois de sofrer uma laceração no fígado causada por objeto contundente. Nos documentos da perícia legal foram atestadas 23 lesões, que não foram causadas em um único momento ou num curto período. Ou seja, a criança seria um “saco de pancadas” do padrasto acusado pelo crime. A perícia revelou ainda detalhes de algumas lesões no rosto do menino: “As lesões na região nasal e infra-orbital esquerda são compatíveis com escoriações causadas por unha.” Seria uma mãe capaz disso? No caso desta criança, ficou evidente que até o impensável é possível. Na breve passagem pelo mundo, Henry Borel foi submetido às piores agressões e abusos – físicos, emocionais e morais – sujeitado ao silêncio dos inocentes, por sua total vulnerabilidade.

Em sua canção “God”, John Lennon diz: “God is a concept/ By which we measure our pain.”

“Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor.”

Por esse parâmetro, o sofrimento é a marca maior da santidade. O suplício de Henry Borel – por pouco que tenha durado, durou toda a sua vida – está à altura daqueles dos grandes mártires da história. Por uma coincidência impressionante, o dia de nascimento de Henry, 3 de maio, tem como santo padroeiro São Tiago Menor, um dos doze discípulos de Cristo, e um dos primeiros cristão martirizados em defesa de sua fé. No ano de 42 em Cesareia Palestina, Tiago foi perseguido por ordem do rei Herodes Agripa I, que mandou prendê-lo, decapitá-lo e jogar seus restos para os cães. 

Sou daqueles que advogam a beatificação de Henry Borel. O próprio Papa Francisco acompanha a história do menino carioca desde o seu início. Em 24 de abril de 2021 – pouco mais de um mês depois da morte de Henry – seu pai, Leniel Borel de Almeida, recebeu uma carta em que o Papa Francisco lhe presta solidariedade pelo que classifica como “massacre” causado pela “loucura humana”. 

Os pastorinhos que viram Nossa
Senhora em Fátima: a prima Lucia e
os irmãos Francisco e Jacinta
. D.P
As crianças beatificadas ou canonizadas são relativamente poucas na história do cristianismo. Os irmãozinhos pastores Francisco e Jacinta e a prima deles Lúcia, testemunhas das aparições de Nossa Senhora de Fátima em 1917, foram profundamente marcados pelo episódio e dedicaram a vida como sacrifício vivo a Deus pela conversão e salvação dos pecadores do mundo inteiro. Após o término das aparições, os pequenos foram vítimas da pandemia de gripe espanhola. Francisco morreu aos dez anos, em 1919; Jacinta morreu aos nove, em 1920. Beatificados por João Paulo II em 2000, Francisco, Jacinta e Lúcia tiveram um milagre aprovado pelo Papa Francisco, que os canonizou em 2017. Os irmãos são os mais jovens santos da Igreja Católica.

Odetinha morreu aos oito anos já com
uma aura de santidade.
A.P
O Rio de Janeiro já tem uma pequena santa em potencial, Odette Vidal Cardoso, conhecida como Odetinha. Nascida no bairro carioca  de Madureira em 1931, ia à missa toda manhã e rezava o terço à noite. Dedicada à caridade, ajudava a mãe a servir feijoada aos pobres nos sábados. Aos cinco anos frequentou o catecismo na Igreja da Imaculada Conceição, em Botafogo. Em 25 de novembro de 1939, aos oito anos, morreu de tifo, com fama de santidade. Odetinha já era considerada “serva de Deus” quando, em 2021, no dia dos 82 anos de sua morte, o Papa Francisco lhe concedeu o título de “venerável”, um passo a mais no caminho da beatificação. Depois de rezar uma missa na Imaculada Conceição – onde repousam os restos mortais de Odetinha – o Cardeal Dom Orani Tempesta a descreveu como “uma menina que rezava, cuidava dos pobres, tinha grande preocupação com os necessitados e que deixou belos exemplos.”

Guido Schäffer, o Surfista
Santo de Ipanema
. A.P.
Já ouviram falar no Surfista Santo de Ipanema? Nascido em Volta Redonda, em 22 de maio de 1974, Guido Schäffer veio morar muito cedo no Rio. Começou a participar de grupos de oração jovens. Em 1998, quando se formou em medicina, decidiu fundar um novo grupo de oração, o Fogo do Espírito Santo, na paróquia de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, onde o padre Jorjão tinha um jeito especial de congregar jovens para suas ações. Segundo sua irmã, a partir dali "ele se desenvolveu rápido na pregação da palavra de Deus". Até então, Guido era apenas surfista e médico, tinha até uma namorada e planos de casar. A vocação religiosa só seria externada com clareza dois anos depois.

No dia 1º de maio de 2009, Guido saiu para surfar no seu trecho preferido da praia, no Recreio dos Bandeirantes. Uma prancha desgarrada atingiu sua nuca, ele desmaiou e morreu afogado, vinte dias antes de completar 35 anos. Faltavam alguns meses para ele concluir os estudos de teologia no Seminário Arquidiocesano de São José. 

Seu túmulo no cemitério São João Batista tornou-se lugar de devoção, principalmente na data do seu aniversário. Diante do culto do "Surfista Santo", a Arquidiocese do Rio de Janeiro transferiu seus restos mortais para a Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema e abriu um processo de beatificação junto à Santa Sé em 2014. Guido tornou-se um "Servo de Deus", primeiro título num processo de canonização. O próximo título, que deve vir em breve é o de “Venerável”, quando se conclui que a pessoa viveu as virtudes cristãs de forma heroica, ou sofreu realmente o martírio; o terceiro título é o de Beato, quando se comprova a existência de um milagre obtido pela sua intercessão e o último e mais importante é o de Santo, quando um segundo milagre é reconhecido. Alguns milagres já foram atribuídos a Guido Schäffer nos últimos anos.

Odetinha – por mais breve que fosse seu tempo de vida – e Guido, que desfrutou seus anos da juventude, tiveram oportunidade de praticar o bem. Já Henry Borel, nos 1723 dias que viveu, não teve sequer a oportunidade de se definir como pessoa; e a maior parte dos seus dias e noites foi ocupada pelo sofrimento causado pelas brutalidades praticadas em sua própria casa, pelas pessoas próximas que mais deveriam protegê-lo. 

Grafiteiros da Zona Norte do Rio homenagearam
Henry com asas de anjo num mural. Foto Facebook
Um sinal de culto ao menino-mártir surgiu já apenas um mês depois da sua morte. Um grupo de artistas e grafiteiros do bairro de Rocha Miranda, na Zona Norte do Rio, pintou um painel em homenagem a Henry. O artista responsável, Murilo Lemos, 33 anos, conta: “Esse mural, na verdade, a gente estava para fazer desde que saiu o caso na televisão. Aí, ontem, foi o estopim, na verdade. Entramos em contato, fizemos o grupo, começamos neste sábado às sete da manhã e terminamos agora, às cinco da tarde, sem almoçar, sem beber nada. O comércio da região toda hora vinha, trazia uma maçã, trazia um café, e foi o combustível para conseguirmos terminar a obra". Murilo expressou ainda sua indignação: "Toda vez que eu via reportagem, eu queria desligar a televisão, queria quebrar a televisão. Eu não queria imaginar se fosse com o meu filho, da mesma idade, me impactou muito, e aí eu tomei essa iniciativa".

Fotomemória: foi um Rio que ficou em nossas vidas

Uma das fotos da Manchete, no modo "juntar todo mundo", como a revista gostava de fazer,
reuniu atores e equipe do filme Todas as Mulheres do Mundo. Vejam aí Joana Fomm. Hildegarde Angel, Mário Carneiro, Irma Alvarez, Flávio Migliaccio, Regina Rozemburgo, Ivan Albuquerque, Isabel Ribeiro, Ionitas Salles Pinto, Marieta Severo, Paulo José, Domingos Oliveira, Ana Cristina Angel, Norma Marinho, Vera Vianna, Leila Diniz e Maria Gladys. Não seria exagero dizer que Ipanema estava toda representada aí. Foto de Paulo Scheunstuhl, Reprodução Manchete

por Ed Sá

Os arquivos desaparecidos da Manchete guardam fotos históricas de todas as áreas. Da política à cultura, das conquistas no esporte às tragédias, o acervo registrava uma Amazônia quase intocada e também flagrava o começo da destruição que hoje é crítica. Na área cultural, especialmente da música popular, a revista publicou fotos memoráveis a partir de um tipo de pauta que juntava os destaques do momento em um encontro no estúdio da Bloch. Os repórteres conseguiam levar à Manchete, em grupo, por exemplo, os ídolos da música. Fizeram isso com o pessoal da Bossa Nova, com a Jovem Guarda, com a turma da chamada música de protesto dos anos 1960 e com os tropicalistas. Em 1966 chegava aos cinemas o filme Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. Manchete repetiu a fórmula e levou as "mulheres do mundo" e parte da equipe do filme ao estúdio da Rua Frei Caneca. Paulo Scheunstuhl fotografou, a reportagem foi de Maurício Gomes Leite. 

O Brasil já teve a sua "Ucrânia". Em 1965 tropas da ditadura invadiram um país soberano

 

Tropas brasileiras desembarcam em São Domingos.
Foto Esko Murto/Manchete
Essa sofrível reprodução de uma página da Manchete registra outra página ainda menos edificante da história do Brasil. Em maio de 1965, com a ditadura já implantada, tropas brasileiras invadiram uma nação soberana. O fotógrafo Esko Murtto, da Manchete, registrou o desembarque dos soldados em Santo Domingo, capital da República Dominicana, na América Central. 

 Os militares chamaram a tropa - cerca de 4 mil soldados, a maioria recrutas - de "Pracinhas". Uma injustiça com a Força Expedicionária que lutou na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião, combatia-se o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. Em São Domingos, o sinal foi trocado: a invasão atendia a um pedido ou ordem dos Estados Unidos para apoiar um golpe político de direita. Em 1961, um atentado matou o ditador Rafael Trujillo, que comandava o país desde 1930. Com a convocação de eleições livres em 1962 -  as primeiras desde 1914 - foi eleito Juan Bosch, um político de oposição. Sete meses depois, acusado de adotar políticas esquerdistas, Bosch foi deposto e a Constituição cancelada. Um triunvirato assumiu o poder. E em abril de 1965, um grupo de jovens oficiais se rebelou, botou algumas tropas nas ruas e distribuiu armas à população exigindo a volta do eleito Bosch. Os Estados Unidos, que apoiaram a longa ditadura de Trujillo, organizaram uma operação para conter os rebeldes. e implantar um "governo amigo". Lyndon Johnson temia uma "nova Cuba" e os brasileiros foram "convidados" a participar da operação Power Pack, juntando-se a tropas dos Estados Unidos, Paraguai,  Honduras, Nicarágua, Costa Rica e El Salvador. No fim, a insurreição foi derrotada e  eleições controladas  colocaram no poder o caudilho Joaquin Balaguer, político amestrado pelo Estados Unidos. Ele manobrou para ser sucessivamente reeleito impondo novo regime autoritário à República Dominicana.  

Na operação, o Brasil submisso contabilizou quatro mortos e dezenas de feridos. A ditadura acumulou mais uma vergonha na sua folha corrida de desprezo pela democracia. E a imprensa brasileira, Manchete inclusive, como se vê, assumiu o vexame de tratar uma intervenção que reimplantou um regime autoritário como de épico heroismo. 

Não diga “bánquer”, o certo é “búnquer”!

Bunker na Normandia.
Foto Pixabay
Os apresentadores medalhados da TV estão escorregando na maionese com uma palavra que não sai dos noticiários em função da guerra na Ucrânia. Pronunciam erradamente “bánquer”, como se a palavra fosse de origem anglo-americana.

Os grandes impérios da comunicação, como a Globo, não investem o mínimo nessa área particular. Gastam montanhas de dinheiro em futilidades. No caso, bastaria contratarem uma pessoa culta e/ou poliglota para orientar seus apresentadores quanto à pronúncia correta das palavras estrangeiras. Cujo uso, aliás, deveria ser limitado ao essencial, quando não houvesse equivalente em português. 

E há também a preguiça dos próprios comunicadores, quando tais questões podem ser esclarecidas com uma rápida navegação da internet. Vejam aí:

Um búnquer (do alemão bunker, possivelmente de origem ânglica-escocesa; pronúncia em alemão: [búnkәr]) é uma estrutura ou reduto fortificado, parcialmente ou totalmente construído embaixo da terra (subterrâneo), feito para resistir a projéteis de guerra. 

Se quiserem aprofundar, vejam aí:

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/bunker-bunquera-historia-e-pronuncia-bunker-inglesbunquerportugues/33909

A palavra entrou para o vocabulário internacional quando Hitler e sua cúpula se suicidaram no Bunker* de Berlim quando a cidade foi tomada pelas tropas russas na 2ª Guerra.

 *  Todo substantivo alemão leva maiúscula. 


domingo, 6 de março de 2022

Do Estadão: o muro da vergonha

Reprodução Twitter
O candidato não explica o que fará exatamente para conter os imigrantes. Se construirá um muro em torno das fronteiras de São Paulo. Se vai instalar uma gigantesca cerca elétrica, se colocará snipers no perímetro. Também não revela a estratégia para acabar com a "favelização". Só dá a entender que, se eleito, vai botar pra quebrar.


A palavra da moda é... Oligarca

 


Um piano contra a guerra

Em vez de gatilhos, teclas. Kviv, Ucrânia, 2022.

Deu no LeHuff Post. Uma jovem não identificada toca a música What a Wonderful World na estação ferroviária de Lviv, no oeste de Ucrânia. Para a platéia improvisada e em fuga, a música é a trilha sonora que - se isso é possível - ameniza o drama de uma guerra absurda. Remete à uma tragédia, em outras circunstâncias, quando a orquestra do Titanic permaneceu tocando enquanto as águas geladas do Atlântico Norte invadiam o navio. (José Esmeraldo Gonçalves)

Veja no You Tube o vídeo e ouça o piano que desafia a estupidez dos senhores da guerra. AQUI

Também no You Tube, ouça Imagine, que recebe os refugiados na fronteira com a Polônia AQUI

A HORA (A ERA) DOS HOMENS OCOS

O discurso-“empolgação” do deputado Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas foi desastroso até na data: Dia Internacional da Mulher. do Val junta-se à imensa legião dos “homens ocos” que, infelizmente, enchem cada vez mais todas as áreas e camadas do nosso mundo. São sociopatas incapazes de captar o sentimento e a dor do próximo. “Os homens ocos” é o poema de T.S. Eliot que termina com a famosa estrofe: “This is the way the world ends/Not with a bang but a whimper.” Literalmente: “Assim acaba o mundo/Não com uma explosão, mas um choramingo.” O poema de Eliot faz cem anos em 2025. O mundo gira, mas o homem não sai do lugar... (Roberto Muggiati)

A Copa do Brasil é para principiantes... • Por Roberto Muggiati

O "frago" de Daniel.
Reprodução Imagem Sportv
Maior competição de futebol do país, reunindo 80 times de quase todos os estados, a Copa do Brasil tem um  regulamento estranho. Na sua primeira fase, times menores, agraciados com a participação, entram praticamente como “bois de piranha”. Jogando em casa contra times maiores, têm a obrigação de vencer; o empate classifica o visitante. Nesta edição de 2022, os pequenos foram todos à luta e promoveram um festival de zebras. O Mirassol paulista eliminou por 3x2 o Grêmio, o segundo maior vencedor da competição. Pior sorte coube ao Internacional, que já foi até campeão do mundo. Com um frango antológico do goleiro Daniel e um gol em contra-ataque fulminante no final, foi eliminado pelo Globo FC de Natal, RN.  Num duelo gaúcho, o Brasil de Pelotas foi eliminado pelo obscuro Glória de Vacaria por 1x0. Já o Juventude fez a lição de casa: despachou o Porto Velho de Rondônia por 2x1.

O Vasco, acuado e sob forte pressão da Ferroviária de Araraquara, SP, conseguiu escapar da degola com um gol de cabeça de Raniel, uma de apenas quatro finalizações no jogo inteiro, em mais uma assistência milagrosa de São Nenê. O São Paulo se safou num empate de 0x0 com a Campinense.  

Timinho simpático em alta – na verdade é um timaço – a Portuguesa da Ilha do Governador, RJ, eliminou o veteraníssimo CRB de Alagoas por 1x0. Já o experiente Volta Redonda, da Cidade do Aço, foi ao Maranhão para ser eliminado pelo Tuntum por 4x2. Outro maranhense de garra, o Moto Clube, eliminou a Chapecoense por 3x2. 

Os pernambucanos se deram mal: o Sport foi eliminado pela quarta vez seguida na primeira fase, agora pelo Altos, do Piauí, por 1x0. O Náutico perdeu para o Tocantinópolis por 1x0. A capixaba Nova Venécia despachou o Ferroviário do Ceará por 2x1.  Outro time do Espírito Santo, o Real Noroeste, eliminou por 2x1 o Operário de Ponta Grossa, PR. O Londrina perdeu para o Ceilândia do DF por 2x0 e o Paraná deu adeus à Copa na derrota para o Pouso Alegre (MG) por 2x0. Outros paranaenses menos notórios despacharam equipes veteranas: o Cascavel picou a Macaca, ganhou da Ponte Preta por 1x0. Já ouviram falar no Azuriz, um clube-empresa de Marmeleiro? Eliminou o Botafogo de São Paulo por 1x0. Finalizando a festa, a Tuna Luso Brasileira de Belém do Pará mandou passear o paulista Grêmio Novorizontino, por 1x0.

O "caneco" do Brasil. Foto Divulgação CBF

Menos engessada e elitista do que o Brasileirão, a Copa do Brasil é um fator de integração no esporte nacional e promete suspense e surpresas sem fim nos seus embates, além de injetar muito dinheiro nos clubes e garantir ao campeão uma vaga na Libertadores. Quando rola, mesmo nos gramados mais remotos, um jogo da Copa do Brasil, a democracia de certa forma entra em campo.

sábado, 5 de março de 2022

Torcedor: a tua SAF vai jogar hoje?

por Niko Bolontrin

Tomando um shot de vodca russa - "seu"  Manoel do boteco ainda não aderiu ao boicote - soube que os times de futebol estão se transformando em empresas. Deve ser uma solução para a penúria da imensa maioria dos nossos clubes de futebol. Vá lá que seja. Pelo que entendi muita coisa vai mudar. 

Explico: andei meio ausente, isolado em um sitio, por conta da pandemia, e me desatualizei dos fatos. Confesso que não senti falta. Só se fala em SAF. Botafogo SAF, Cruzeiro SAF, Vasco SAF...  Quer dizer Sociedade Anônima do Futebol. Na prática, permite que um time seja vendido a investidores. 

Quem critica a nova lei afirma que essas empresas se tornarão ativas plataformas para formação e venda de jovens talentos. De fato, vender jogadores é a atividade mais rentável do futebol. No Brasil, onde patrocínios, direitos de TV, venda de ingressos e de camisas não sustentam nem 90 % dos clubes eternamente endividados, vender jogadores tem ajudado a pagar folhas salariais. 

O torcedor é que terá que se acostumar com mudança na cultura do futebol. Tudo vai virar business. Se as SAF não forem bem administradas poderão falir, como qualquer empresa. Diálogos assim serão possíveis.

- "Como é que tá teu time?"

- " Ih, irmão, faliu. Tá devendo na praça e um fornecedor entrou com pedido de falência. As torcidas organizadas estão discutindo a portabilidade, vão tudo pra outro time".

Outra mudança virá no próprio nome dos times. Claro, os contratos não permitem que um Vasco, por exemplo, deixe de ser Vasco. Já os names rights poderão ser incorporados às marcas. Vasco Havan, Cruzeiro Brahma, Botafogo Supermercados Guanabara, futuramente, quem sabe, Flamengo Lojas Marisa, Corinthians Caninha 51, Fluminense Copa d'Or, Grêmio Churrascaria Laçador. 

Os torcedores SAF- ou "clientes" - também entrarão na nova era.

- "Vai no jogo da tua SAF hoje?"

sexta-feira, 4 de março de 2022

Na capa da Carta Capital: a nova desordem mundial

Reprodução Twitter

Chelsea está à venda. Quem quer comprar? Aos interessados em visitar o clube: as chaves estão com o porteiro...


por Niko Bolontrin

O Flamengo sonha em abrir uma franquia na Europa. Antes ensaiou instalar uma filial na Flórida, um Fla-USA, mas aparentemente o projeto virou hamburguer queimado. A ofensiva, agora, é em Portugal. O rubro-negro carioca tenta adquirir o Tondela, um time lusitano de segunda divisão. Quer "internacionalizar' a marca, dizem. 

Um diretor do clube da Gávea revelou recentemente que pensa em comprar clubes em vários países. Podia começar pelo Chelsea. Pressionado pela repercussão da invasão da Ucrânia por Putin, o bilionário russo Roman Abramovich, dono do time inglês, resolveu vendê-lo a quem aparecer com grana na mão. Deve pedir até 3 bilhões de libras, algo que ultrapassa R$ 20 bilhões. Mas pode dar um desconto, desde que o comprador já venha com um contêiner de dinheiro e entregue a grana em algum banco a salvo das sanções americanas e europeias.

O Flamengo tem entre seus patrocinadores o rico bolsonarista conhecido como Véio da Havan, quem sabe ele se coça e banca essa transação? Também tem boas relações com Bolsonaro e pode descolar um empréstimo do BNDES, não custa tentar. Em último caso pode vender o estádio da Gávea quase nunca utilizado, a sede da Lagoa, Gabi Gol, Bruno Henrique, Felipe Luís, Arrascaeta... Pode também fazer um crowdfunding com a sua torcida tão apaixonada que poderá cair nessa. 

Maiores informações no site do Chelsea. 

Pede-se referências, nome limpo no Serasa, pagamento à vista. Moedas do Terceiro Mundo, como Real, nem pensar. PIX também não. Não serão aceitas trocas por terrenos, áreas do pré-sal, instrumentos da charanga rubro negra, títulos do Tesouro Direto ou cheques pré-datados. 

Se a compra for fechada, a chave do clube está com o porteiro, em horário comercial, no endereço Stamford Bridge - Fulham Road- SW6 1HS London-Inglaterra.

HH e MJ sabiam das coisas: o ar está irrespirável! • Por Roberto Muggiati

Hughes asséptico
O herói da aviação e magnata do cinema Howard Hughes (1905-76) era tido como excêntrico por causa de sua “mania de higiene”: usava máscaras cirúrgicas, só pegava nas coisas com toalhas de papel e lavava as mãos obsessivamente. Exigia protocolos sanitários de todos que trabalhavam com ele ou o visitavam. 

Michael Jackson paranoico
Michael Jackson (1959-2009), quando extraiu os dentes do siso, recebeu do dentista uma máscara cirúrgica para usar por alguns dia. Gostou tanto do artefato que começou a usá-lo no guarda-roupa do seu carnaval ambulante. 

Nos dois casos, as máscaras estavam certas. Anunciavam que a atmosfera ia se tornar irrespirável. Hoje, muitos de nós já estamos nos conformando com a ideia de que teremos de usar máscaras para o resto de nossas vidas. O ar ficou fétido, pútrido, não só por obra e graça dos maus tratos que cometemos contra a Natureza (e ela está dando o troco, na medida em que merecemos). 

Manifestação da Argentina desmascara Putin


Além dos infindáveis vírus e de suas pérfidas variantes, contamos hoje com o terror destrutivo da pior raça de líderes políticos que o mundo já teve a infelicidade de conhecer. 

Putin, Trump, Kim Jong-un e os fantoches nanicos que tentam imitá-los, para citar só alguns.