terça-feira, 19 de março de 2019

Visita de um presidente aos Estados Unidos. Não é quem você está pensando...

Washington: Jango discursa ao lado de Kennedy. Roberto Campos, à esq., observa. 

Nova York: o presidente brasileiro desfila em carro aberto 

Jango e Kennedy.
Jango saúda operários em Nova York.




Em abril de 1962, o presidente João Goulart visitou os Estados Unidos. Foi recebido com pompa e circunstância, desfilou em carro aberto em Nova York, com direito a chuva de papel picado, discursou na ONU. 

Em Washington, hospedou-se na Blair House, discursou no Congresso, reuniu-se mais de uma vez com John Kennedy, recebeu na embaixada brasileira autoridades americanas, diplomatas, empresários e figuras da sociedade local. 

Mas não foi à CIA

Murilo Mello Filho e o fotógrafo Jáder Neves fizeram uma extensa cobertura para Manchete (reproduções acima). Adolpho Bloch acompanhou a comitiva como convidado. Ibrahim Sued cuidou do relato dos eventos sociais. 

Os repórteres brasileiros tiveram acesso praticamente irrestrito à agenda do presidente João Goulart. Nas fotos ao lado, Murilo Mello Filho e Jáder Neves cumprimentam John Kennedy. 

Jango e equipe - Walther Moreira Salles era o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas o do Exterior, Roberto Campos o embaixador em Washington -, defenderam interesses brasileiros, principalmente tentaram renegociar dívida externa. Não tiveram muito sucesso, até obtiveram alguma ajuda financeira, mas Kennedy queria que o Brasil se submetesse ao FMI e decretasse medidas fiscais rigorosas com forte impacto social, o que não foi aceito. 

Os Estados Unidos insistiam para que o Jango indenizasse as subsidiárias das empresas americanas Bond & Share e ITT, encampadas pelo governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. O presidente não condenou Brizola. Jango defendeu a não intervenção em Cuba, mas criticou em regimes marxistas. Em discurso no Congresso norte-americano, o presidente brasileiro falou sobre a situação na América Latina e alertou sobre as graves consequências das relações comerciais desiguais entre os sul-americanos e os Estados Unidos. 

sábado, 16 de março de 2019

Memória da redação - Contaram para você que Pelé nunca pensou em ser vendido para a Europa? Errado. Manchete revelou que ele quis ir para o Real Madrid



por Niko Bolontrin

Pelé passou sua vida profissional como jogador quase inteiramente no Santos. Só foi para o Cosmos, de Nova York, oito meses depois de pendurar as chuteiras como jogador da Vila Belmiro.

E nós sempre lemos por aí que Pelé jamais cogitou em jogar por um clube europeu. Uma antiga matéria da Manchete mostra que a história não é bem essa.

Apesar de ter jogado apenas no Brasil, Pelé ganhou dinheiro com o futebol e, principalmente, com publicidade. Mas nada que se compare ao que fatura qualquer jogador mediano que se firma no milionário futebol europeu de hoje. Os bens de Pelé em 1959, como relata a  matéria da Manchete (trecho reproduzido acima) seriam quase risíveis para um Neymar, um Philippe Coutinho, um Tiago Silva e outros que jogam nas ligas europeias. Olha só a qualidade da "lanchinha" que ele ganhou de presente!

Naquele dia, às vésperas de viajar em excursão com o Santos para Espanha, França e Itália, Pelé falou sobre uma proposta que o Real Madrid vinha fazendo ao Santos: levar o craque, então com 18 anos, por Cr$ 80 milhões, na moeda da época.

"Nesse caso, acho que vou ter de deixar o Brasil por algum tempo. Oitenta milhões não é brincadeira. Acabando o serviço militar, se o negócio estiver de pé, vale a pena fazer o sacrifício" - disse o jogador que ganhava Cr$120 mil mensais quando o salário mínimo era então de Cr$3.800.

O Santos recebeu essa e teria recebido muitas outras propostas, mas nunca fechou negócio. Talvez porque, na época, não havia um desequilíbrio econômico tão avassalador entre o futebol brasileiro e o mundo encantado da Liga dos Campeões. Atualmente, se quiser, qualquer clube médio da Europa leva qualquer jogador brasileiro e ainda pode importar, de brinde, o cartola presidente, sua mulher, sogra, o cachorro, o papagaio e o cunhado-problema. 

Na capa da Carta Capital, a guerra dos mundos...


O que muitos omitiram está na Superinteressante: Boeing 737, o avião engatilhado...


Quando a China botou os Boeing 737 Max 8 no chão, após a queda do jato da Ethiopian Airlines, com 149 passageiros a bordo, jornais ocidentais atribuíram a decisão a uma "guerra comercial" com os Estados Unidos. Logo depois, dezenas de países e companhias aéreas cancelaram todos os voos com aviões do mesmo modelo. Os Estados Unidos, não por acaso porque a Boeing é empresa poderosas. foram um dos últimos a levar seus 737 Max para os hangares.

O acidente com o avião da Ethiopian é o segundo em apenas seis meses com o novo modelo: em outubro do ano passado 189 pessoas morreram na queda de um aparelho da Lion Air.

Sobre o assunto, os principais veículos da mídia brasileira se limitaram a reproduzir reportagens internacionais. Coube à revista Superinteressante publicar uma matéria, assinada por Rodrigo Ribeiro, que recria a carreira dos modelos 737 que vêm sendo reconfigurados há cerca de 50 anos e mostra que a decolagem para os dois recentes acidentes começou há muito tempo. Conheça o vilão MCAS... e boa viagem.
LEIA AQUI  

A mídia brasileira adotou a expressão infantilizada "bumbum" por ter vergonha de "bunda". Já os portugueses são mais criativos: vão de rabiosque.



por José Bálsamo 

A mídia brasileira, em geral, prefere usar a palavra "bumbum", com essa conotação infantiloide. Uns poucos veículos assumem o "bunda" para falar de... bunda, que é palavra de origem africana. Como donos do rico idioma do qual o Brasil é apenas franqueador, os portugueses usam no dia a dia muito mais palavras do que os ex-colonos. Para definir glúteos ou nádegas, também empregam "traseiro", que adotamos por aqui, e "cu", que para os brasileiros é vocábulo de uso restrito ao próprio. Lá eles usam tranquilamente a frase "tomar uma pica no cu” para dizer que tomaram uma injeção na bunda, sem provocar histeria em facções religiosas.

O portal Sapo, português, noticia hoje uma dessas polêmicas em torno de celebridades. A modelo e atriz Emily Ratajkowski publicou no Instagram a foto de um par de bundas, a de uma amiga mais robusta e a dela. A atriz foi acusada de, com isso, tentar humilhar a amiga. Ela respondeu às críticas, falou que não existe apenas um padrão de corpo bonito e chamou os haters de malucos.

Mas o que importa aqui é a bunda. No título da matéria, o Sapo usou uma palavra que a mídia brasileira bem que podia adotar e que é menos tatibitade do que "bumbum", que aliás é exclusiva do Brasil. Para os portugueses, bumbum é "estrondo repetido", "som de bombo". Alguns dicionários da terrinha registram "bumbum" como bunda, mas advertem que é uma forma brasileira.

O Sapo tem razão: todo o poder ao vocábulo rabiosque devidamente consagrado nos dicionários lusos. É mais sonoro, dá ideia de curva, de sinuosidade.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Internet contra o crime - Elementar, meu caro nerd


por Ed Sá 

O Globo de hoje publica uma boa matéria (de Gabriela Goulart e Lucas Altino) sobre o desdobramento das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

É sobre o rastreamento de emails, históricos de navegação, sites, aplicativos, arquivos na nuvem e análise de localização e movimentação de celulares dos suspeitos Ronnie Lessa e Élicio Queiroz. A investigação feita pelo Núcleo de Busca Eletrônica da Delegacia de Homicídios levanta uma vasta quantidade de pistas virtuais.

Ao comprometer a privacidade dos usuários, todos nós, a tecnologia também joga uma rede digital implacável sobre os criminosos. Além da internet, a malha de câmeras urbanas associada aos softs de reconhecimento facial pode criar armadilhas para o crime. No mesmo Globo, a repórter Vera Araújo mostra como a imagem de uma câmera levou a polícia a identificar um dos acusados, Ronnie Lessa, através de uma tatuagem que apareceu em uma fração de segundos.

Esse tipo de pista digital encurrala suspeitos, mas, indiretamente, fará algumas vítimas improváveis: os autores de livros policiais.

Obras clássicas do gênero levam o leitor, devagar e sutilmente, a seguir pistas que só se revelam aos detetives que têm aguçado senso de observação. O personagem Sherlock Holmes era capaz de dizer em que parque londrino um suspeito passou apenas ao ver a coloração da lama em botas. Usava a lógica dedutiva.  Agora, com um smartphone e alguns cliques na nuvem e uma investida no Google Maps, qualquer nerd pode revelar em segundos muito mais do que isso.

Escritores policiais terão que apurar a técnica? Talvez, mas por falar em técnica, sempre haverá honrosas e clássicas exceções. Os livros de George Simenon, por exemplo, nem sempre investigam se o acusado é culpado, preferem levar o leitor, por páginas e páginas, a se perguntar do que o acusado é culpado.

De qualquer maneira, os novos autores não poderão ignorar que a busca eletrônica vai dispensar muitas das voltas que o romance policial dá. Que o digam os suspeitos do assassinato de Marielle e Anderson. Resta saber se o mandante da execução também deixou suas pistas no vasto universo digital.

Suzano: o choque e a tristeza...

O massacre de Suzano, ontem, chocou o Brasil. As primeiras sondagens em redes sociais mostraram que os assassinos Guilherme Monteiro e Luiz Henrique participavam de fóruns virtuais nos porões da internet, em sites de extrema direita que fornecem tutoriais sobre violência e terrorismo, pregam nazismo, racismo etc. A informação foi publicada no portal R7. Monteiro era declarado fã de armas, de pena de morte e outros "valores" de "homens de bem" atualmente em voga no Brasil.

O segundo choque, que veio no rastro da tragédia, foi constatar que importantes autoridades brasileiras, conforme não se negaram a demonstrar em comentários à mídia, têm uma lado a defender na chacina da Escola Raul Brasil: o das armas.

O que só aumenta a tristeza diante do massacre que deixou dez mortos.

Doodle faz justa homenagem a Carolina de Jesus. Alô Google, ainda dá tempo lembrar Marielle Franco...

O doodle do Google faz hoje uma justa homenagem aos 105 anos de Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de Despejo: diário de uma favelada". Publicado em 1958, o livro é de uma atualidade chocante. O Google só perdeu a oportunidade de duplicar a homenagem para incluir a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, vítima de um atentado político há um ano - ao lado do seu motorista Anderson Gomes - -  por defender causas sociais, incluindo a luta das mulheres negras contra as injustiças, muitas das quais expressas por Carolina de Jesus no seu dramático diário.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Fotomemória da redação: quando Gervásio Baptista "assediou" Miss Universo. Calma aí! Para a capa da Manchete, naturalmente.

Gervásio Baptista combina com a Miss Universo, Akiko Kojima, a capa da Manchete

por José Bálsamo 

Em tempo de mercado de trabalho precário, a jornalista Júlia Horta se reinventou Miss Brasil. Foi eleita no último sábado e representará o país no Miss Universo. Tem remotas chances de ser capa de revista.

As misses já deram mais ibope. Estampavam publicações nacionais e internacionais e saíam das passarelas já com carteirinha de celebridade e jet-set. Atualmente, a maioria desponta para o anonimato. O próprio concurso de Miss Universo desgastou-se tanto que já foi até propriedade do Donald Trump. Perdeu status na grande mídia, mas a empresa que organiza o concurso diz que a audiência na TV ainda é expressiva.

Akiko Kojima na Manchete ao lado da brasileira Vera Ribeiro, 5ª colocada. 

Nas décadas de 1950 e 1960 era um acontecimento para a "imprensa escrita, falada e televisada", como se apregoava na época. Que o diga Gervásio Baptista, o fotógrafo da Manchete que cobriu muitas edições.

Em julho de 1959, Gervásio estava em Long Beach quando a japonesa Akiko Kojima foi eleita Miss Universo. Em meio à correria de fotógrafos de todo mundo, Gervásio tirou partido dos olhos ligeiramente puxados, herança de índios baianos, e ganhou antes a atenção da japonesa. Apresentou-se como um brasileiro nissei e mais por gestos do que por palavras garantiu a pose exclusiva para a capa da Manchete.

Na Conversa com o Leitor, a revista vibrava com a logística montada para a cobertura ao informar  que entre o momento em que Gervásio jogou conversa na miss e a chegada da revista às bancas do Rio de Janeiro e São Paulo transcorreram pouco mais de 70 horas. "É evidente que os aviões de hoje são ultra-rápidos. Mas o que dizer das oficinas gráficas de Manchete que nos possibilitam a transposição quase instantânea de fotografias em cores? A foto de Akiko e Verinha representa uma vitória técnica admirável, da qual nos orgulhamos e para qual chamamos a atenção dos leitores" - escreveu o diretor Justino Martins.

terça-feira, 12 de março de 2019

Futebol - Coutinho, o maior parceiro de bola que Pelé já teve, foi também um dos craques mais discretos do futebol brasileiro.

Sob o olhar de Pelé, Coutinho marca contra o Nacional, do Uruguai.


Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe


Um ataque que só pensava naquilo: o gol. Eram "os tarados da pelota", no dizer de Nelson Rodrigues em crônica para a Manchete Esportiva. 
Fotos: Manchete Esportiva

por José Esmeraldo Gonçalves 

Ele era a outra extremidade da tabelinha mais poderosa da história do futebol. Na ponta mais famosa estava Pelé.

Aos 75 anos, Coutinho morreu em Santos, ontem.

Foi o atacante que formou ao lado de Dorval, Mengálvio, Pelé e Pepe aquele que é tido como o mais forte ataque já montado por um time de futebol. Para os adversários, eram os imperdoáveis.

Não há registro de queixas de Coutinho à hegemonia de Pelé naquele ataque. Que jogador não gostaria de trocar passes com um gênio e de fazer parte de um quinteto que era reconhecido como lenda em tempo real, enquanto a bola rolava, sem esperar o aval da história? Você já ouviu algum craque do Barcelona se queixar por ter Messi ao lado? Pois é. Coutinho apenas reclamava, dizem, quando nos jogos noturnos em estádios de luz de boate os locutores davam como de Pelé alguns gols que ele fazia. E não foram poucos. Não apenas fez história no Santos: fez gols, 368 ao longo da sua carreira no clube, sem deixar de dar incontáveis os passes para Pelé, que só no Santos goleou 1091 vezes. E, bom lembrar, Pepe, ali ao lado esquerdo, fez mais de 400 gols pelo Santos e também recebeu muitas bolas de Coutinho.

Ele tinha apenas 16 anos quando estreou na seleção brasileira em 1959. Foi convocado para a Copa de 1962, estava em grande fase, provavelmente seria o titular, mas uma contusão o tirou de campo ainda no período preparatório. Foi substituído por Vavá, o experiente centro-avante campeão na Suécia.


Em 1959, Coutinho foi o Personagem da Semana de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva, após o jogo Santos 3 X 0 Vasco, que deu o título do Torneio Rio-São Paulo ao time da Vila Belmiro. O Santos começava a escalada irresistível que o levaria a conquistar quase todos os títulos que disputou entre 1958 e 1967, nacionais e internacionais, incluindo os Mundiais de clubes de 1962 e 1963.

Leia um trecho da crônica de Nelson Rodrigues

"E, além de Pelé, o ataque do Santos tem o Coutinho. Lembro-me que ao ouvir falar em Coutinho, pela primeira vez, tomei um susto. Comentei, então de mim para mim. ‘Coutinho não é nome de jogador de futebol’. De fato, o nome influi muito para o êxito ou para o infortúnio. Napoleão, se tivesse outro nome, já seria muito menos napoleônico. Outro exemplo: por que é que Domingos da Guia foi o que foi? Porque esse “Da Guia” dava-lhe um halo de fidalgo espanhol, italiano, sei lá. Ainda hoje o sujeito treme ao ouvir falar em ‘Da Guia”. Mas o Coutinho tem contra si o nome. O sujeito que se chama apenas Coutinho dá logo a ideia de pai de família, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a  simpatia pungente de um barnabé. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana é um monstro, um Drácula, um “Vampiro da Noite” de futebol. Eu não sei se me entendem a imagem. Mas o Coutinho não sugere outra coisa, senão o sujeito que come a bola de uma maneira, por assim dizer, material, física. Ao sair de campo, parece-lhe escorrer dos lábios o sangue, ainda vivo, ainda efervescente da bola recém-vampirizada.
As inteligências simples, bovinas, atrevo-me mesmo a dizê-lo, vacuns, hão de rosnar. “Literatura!”. Parece, amigos, parece. Mas o povo, com seu instinto agudo, sua vidência terrível, reconhece e aponta os jogadores que “comem” a bola, como se a estraçalhassem nos dentes, fazendo esguichar o sangue da redonda. E se, na verdade, existem os “tarados” da pelota, Pelé ou Coutinho há de ser um deles. Com o doce e inofensivo nome de Coutinho, o meu personagem da semana fez, ontem, contra o Vasco, barbaridades sem conta. A um confrade que veio, de avião, do Pacaembu, eu perguntei: “Que tal o Coutinho?” O colega baixa a voz: “Bárbaro!” Insisti: “E o Pelé?” Resposta; ‘Bárbaro” Fui adiante; “E Dorval? Pepe?” A tudo o sujeito respondia, de olho rútilo; “Bárbaro!” Então eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que não respeitam, pelo contrário, brutalizam a bola e cravam, nela, seus caninos de vampiro. Só o Coutinho fez, contra a velhice genial e quase imbatível de Barbosa, dois gols. Dizem que nas bolas altas ele e tornava elástico, acrobático, alado. O seu salto era realmente um voo.
Guardem esse nome de pai de família e de barnabé: Coutinho. Ou muito me engano ou estará ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampeão, no Mundial do Chile."

Nelson quase acertou a previsão feita com três anos de antecedência. O Brasil foi bicampeão no Chile. Coutinho, que ele saudou na Manchete Esportiva, não jogou.

A contusão o tirou da seleção, mas não o eliminou da história do futebol.

Foi um dos grandes e, talvez, o mais discreto entre os craques brasileiros. 

segunda-feira, 11 de março de 2019

Fotomemória: Cartola, mais um herói do povo brasileiro - por Guina Araújo Ramos

por Guina Araújo Ramos (do blog Bonecos da História)

No Rio de Janeiro, a absoluta campeã do Carnaval 2019, com um desfile consagrador, foi a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.
O enredo História Pra Ninar Gente Grande, dentro do tema "História que a História Não Conta", apresentado pelo samba “Eu quero um Brasil que não está no retrato”, destacou a participação, com uma postura decididamente política, de heróis negros, indígenas e pobres na História do Brasil, a maioria desconhecidos da população brasileira.
Na história da própria Mangueira, há muitos exemplos, além dos que estão no enredo.
Um deles, foi, durante alguns anos no início da idade adulta e por quase dez anos na maturidade, apenas mais um herói anônimo do povo brasileiro, vivendo de biscates, como guardador de carros etc., até ser “redescoberto” pela intelectualidade carioca...
Só que se trata de um dos fundadores da Mangueira, um dos seus maiores compositores, e que, mais tarde, já na velhice, atingiria a máxima glória como sambista e cantor, com a obra reverenciada por críticos e público: Cartola.


Cartola - Rio, 1979 - Foto Guina Araújo Ramos

Ao me que lembrava, fotografara Cartola uma única vez, e por conta própria. Comprara todos os seus discos, cantarolava suas canções, mas ainda não tivera, fotojornalista profissional, a chance de fotografá-lo, muito menos assisti-lo cantar.
Na época, 1979, ele fez alguns shows individuais. Quando eu soube de um, que foi muito simples, no auditório do Colégio Bennett, no Flamengo, peguei a Nikon que usava na Bloch, fui até lá resolver minha carência, tanto a de assistir quanto a de fotografar Cartola. Daquela noite, guardei esta e mais algumas poucas fotos.


Cartola canta - Rio, 1979 - Foto Guina Araújo Ramos

E já me esquecera disso, mas descobri no meu sofrido acervo que, em algum outro momento dessa fase final de sua vida (que Cartola morreu no final de 1980), eu o fotografei em outro show, só que a trabalho, para as revistas da Bloch, talvez a Manchete, que fiz em cor.
Restaram-me apenas dois slides manchados e descorados, e, deles, publico o melhorzinho...

E não há deixar de citar, da própria história do herói, as suas heroínas (que também são nossas), as paixões de Cartola, mulheres que o salvaram (quando não arrasaram), sustentaram, inspiraram e o estimularam a produzir sua bela obra. No final da adolescência, órfão de mãe, expulso pelo pai, encontrou, doente, a salvação nos braços de Deolinda, sete anos mais vivida do que ele. Com a sua perda, o abandono com Donária. E na maturidade, a nossa D. Zica, antiga conhecida que o resgatou das ruas, levou-o de volta à Mangueira, onde viveram na casa verde e rosa, vizinha à de Carlos Cachaça, outro herói local.

E nem se pode dar um merecido crédito a Sérgio Porto, o instigante Stanislaw Ponte Preta, o autor da redescoberta de Cartola, mais um herói do povo brasileiro. Um bom exemplo de como a integração (e a superação de barreiras socioeconômicas) faz um grande bem ao país, o que parece, mas não é outra história...

Fotografia: um livro mostra imagens raras da Revolução Cubana e revela o que os guerrilheiros liam

Foto: Cortesia da Oficina de Asuntos Históricos - Havana ainda fervia com seus cassinos e clubes de striptease quando...

jovens cubanas aderiam à guerrilha e... (Foto: Cortesia da Oficina de Asuntos Históricos/Havana) 


...recebiam treinamento do próprio  Fidel Castro. Célia Sanchez, que observa o comandante, foi a primeira guerrilheira a chegar a Sierra Maestra. Foto: Cortesia da Oficina de Asuntos Históricos/Havana 


Fidel e Che Guevara na prisão, no México. Foto: Cortesia da Oficina de Asuntos Históricos/Havana 



por Flávio Sépia 

O escritor e jornalista Tony Perrottet visitou Cuba, pela primeira vez, em 1996. Desde então, voltou várias vezes à Ilha. Fascinado com a história do pequeno país do Caribe, ele passou a vasculhar arquivos fotográficos, documentos e a levantar relatos sobre a Cuba do fim dos anos 1950, quando a ação do guerrilheiros nas montanhas ainda convivia com a face Sin City de Havana, seus cassinos e clubes de striptease.

A pesquisa de Perrottet resultou no livro "Cuba Libre!: Che, Fidel e a Revolução improvável que mudou o mundo"", lançado há poucas semanas, com imagens raras e crônicas reveladoras sobre o período.

Além das fotos pouco conhecidas, o escritor reuniu informações não exatamente bélicas sobre a guerrilha. Um desses aspectos inéditos é o dos livros que estavam "infiltrados" entre balas e fuzis. Che Guevara, por exemplo, admitiu que a vida nas montanhas, quando não havia combates, tinha momentos de extremo tédio. E a melhor maneira de combater o monotonia era ler. Ele mesmo quase foi morto em um ataque aéreo porque estava distraído lendo "A história do Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon. Fidel recomendava aos guerrilheiros a leitura de "A Pele", de Curzio Malaparte, sobre as brutalidades das tropas que ocuparam Nápoles depois da Segunda Guerra Mundial. O comandante esperava que o livro ajudasse os homens a se comportarem quando entrassem vitoriosos em Havana. Um livro de Émile Zola, "A Besta Humana", também circulava nas trincheiras. Ainda sobre a face literária da campanha, o livro conta que Fidel Castro extraiu lições de guerrilha em "Por quem os sinos dobram". Por abordar as Brigadas Internacionais, na Guerra Civil Espanhola, Ernest Hemingway passa na obra a experiência de uma luta irregular, do ponto de vista político e militar, em muito semelhante àquela que os combatente de Sierra Maestra enfrentavam.

Em Cuba Libre! não tem edição em português ainda, mas está disponível na Amazon, Perrottet cobre o período entre 1956-1959, quando o mundo ainda estava fascinado com a Revolução Cubana e com os jovens que derrotaram os 40 mil homens do sanguinário ditador Fulgencio Batista.

Milícia paradigital governista divulga mentira e ataca repórter do Estadão

Jair Bolsonaro compartilha mais uma fake news no Twitter. Dessa vez, com base em uma invenção do site "Terça Livre", o inquilino do Planalto afirmou que a repórter Constança Rezende, do jornal Estado de São Paulo, "diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do presidente".
O site bolsonarista divulgou a acusação falsa com base em gravação onde a repórter conversa em inglês com um suposto estudante americano que estaria fazendo um estudo que compararia duas figuras toscas: Trump e Bolsonaro.  Na conversa, Constança Rezende comenta que o caso Fabrício Queiroz "pode comprometer" e "está arruinando" Bolsonaro. Em nenhum momento a repórter revela na gravação que é sua intenção de "arruinar" Bolsonaro. Sabe-se que entender inglês não é o forte das legiões bárbaras, mas somando isso à missão das milícias paradigitais de fazer circular mentiras, a jornalista tornou-se o alvo do ataque.  O Estadão divulgou nota desmascarando a mentira.

domingo, 10 de março de 2019

Propaganda burra

por Niko Bolontrin

Em matéria de comerciais de televisão a gente vê cada coisa que chega a perguntar o que se passa pela cabeça dos criadores dos anúncios? – se é que se passa alguma coisa.


Agora mesmo são veiculadas maciçamente, nos intervalos do tênis de Indian Wells (Sport TV3) duas “joias” destas que investem contra dois animais inocentes e fofíssimos: o macaco de Java e o filhote de leão.

A primeira parte do anúncio deprecia as habilidades financeiras de cada bichinho, enquanto ele aparece na tela. Ora, o macaco de Java e o filhote de leão têm coisas muito mais importantes a fazer na vida do que investir no mercado de capitais. O locutor então ameaça: “Não seja um macaco de Java. Não seja um filhote de leão. Invista no Fundo BTG Pactual digital” e depois dá algumas herméticas ilustrações na tela de um celular. Eu é que não botaria meu dinheiro num (sem) fundo destes... E a agência que criou o anúncio que se cuide: daqui a pouco vem aí uma ONG de proteção animal e bloqueia sua veiculação.


Fotomemória da redação: o carnaval de René Burri e Bruno Barbey, da Magnum, para a Manchete

No Carnaval de 1977, o fotógrafo René Burri, da Magnum, foi incorporado à equipe Manchete para cobertura especial da folia.

Registrou escolas de samba, blocos e fechou seu ensaio com a foto acima, manhã de Quarta-Feira de Cinza, quando a realidade renasce após os dias de fantasia.

O suíço Renê Burri, um dos maiores fotógrafos do pós-guerra, cobriu praticamente todos os conflitos da segunda metade do século passado, morreu em 2014, aos 81 anos.

Em outras temporadas brasileiras, ele fotografou também para a Manchete Brasília, São Paulo e Amazônia.


O primeiro fotógrafo da Magnum a cobrir um carnaval para a Manchete foi Bruno Barbey, em 1973. A edição 1092 publicou um seleção das melhoras imagens que ele produziu nos desfiles das ecolas de samba. Uma delas, que mostra a ala das baianas, foi publicada em página dupla e chamou atenção pelo ângulo: Barbey mostrou do alto a roda das saias das damas do samba.

sábado, 9 de março de 2019

As fotos do ano. Veja aqui...



VEJA OS VENCEDORES AQUI

Paris - Uma rua em guerra contra os instagrammers...

Rue Crémieux. Foto: Instagram

por Jean-Paul Lagarride 

Aberta em 1865 e atualmente reservada para pedestres, a rua Crémieux, nas proximidades da Gare de Lyon. em Paris, declarou guerra aos instagrammers.

Os moradores estão pedindo formalmente à prefeitura para instalar portões nas duas vias de acesso: Lyon e Bercy.  O problema é que fotografar as casas coloridas de Crémieux é algo irresistível para os influencers e turistas comuns. A queixa é que fotografam, comentam detalhes em voz alta e riem, às vezes estão com taças de vinho, enquanto postam fotos e respondem aos seus seguidores.

"Nós estamos almoçando e eles na janela tirando fotos. Até rappers vêm aqui para fazer vídeos. Francamente, é exaustivo isso", disse um morador à BBC.

Se você quiser visitar os parisienses da Crémieux e fotografar suas casas incomuns, use a linha 5 do metrô e salte na estação Quai de la Rapée.

Lava Jato, 5 anos: dinheiro na mão é vendaval...

Reprodução Facebook
por Flávio Sépia

A Lava Jato completou cinco anos e, se não fosse o vídeo pornô que Bolsonaro distribuiu para o mundo, teria sido o assunto largamente dominante nos meios de comunicação. Foi médio. Falou-se dos políticos presos, dos empresários livres, a maioria, já que viraram caguetas premiados e estão de boa, das propostas de novas leis, das irregularidades e dos projetos eleitorais dos personagens da operação.

Desde que a Lava Jato começou, o Brasil já produziu novos fatos - como se pode notar nos galhos do laranjal do partido do novo governo nas últimas eleições -, que poderão abastecer novas investigações. Não é possível garantir que ocorrerão ou se haverá seletividade recorrente.

Na mídia, faltou explorar um aspecto da Lava Jato: o da operação como geradora de business e produtos de marketing cultural. Sim, se algumas empresas e empreiteiras indutoras da corrupção tiveram prejuízos após o escândalo, a operação, sob outro ângulo, tornou-se uma 'indústria' a gerar lucros.

Filmes, séries em streaming, livros, circuito de palestras, consultorias, expansão do setor de compliance em empresas, debates a cachês em universidades, eventos de premiação bancados por marcas, seminários e cadernos editoriais patrocinados nos grandes veículos e até camisetas e banners à venda compuseram ou compõem o portfólio do novo negócio.

Enquanto a edição impressa da Veja teve tempo de registrar o caso bizarro do vídeo pornô, a Época dessa semana destacou "A boa vida dos delatores", com o notório Léo Pinheiro na capa. Segundo a revista, a Lava Jato conseguiu recuperar quase 14 bilhões de reais de empresas e executivos criminosos. Parte desse dinheiro veio das contas dos delatores que meteram a mão no bolso secreto para se livrar das grades. Apesar disso, a Época reconhece que houve casos de "colaborações" com resultados pífios em termos de denúncia comprovadas. O preço da liberdade pode ter sido alto, mas os X-9 pagaram sem reclamar e, a julgar pelo que se vê, valeu a pena. Pelo menos um deles, já voltou a operar no mercado. Vida que segue.

Outra consequência econômica da Lava Jato resultou em nova polêmica - esta que estourou nas redes sociais nos últimos dois dias e que ficou fora do alcance das revistas semanais impressas - sobre o destino e a gestão dos bilhões recuperados. Ocorre que procuradores  do MPF e juízes têm decidido com relativa autonomia encaminhar valores para pagamentos de aposentados e pensionistas do estado e reforma de escolas (casos do Rio de Janeiro) e para setores do Ministério da Educação. Até aqui, injeção de recursos públicos em órgãos públicos

A polêmica mais recente surgiu quando as redes sociais descobriram que, no Paraná, o MPF criou uma fundação privada para receber R$2,5 bilhões devolvidos em acordo pela Petrobras. Supostamente, o dinheiro será destinado para projetos que "reforcem a luta da sociedade brasileira contra a corrupção". Ainda não há informações definitivas sobre quem irá gerir os recursos, executivos, estrutura, funcionários etc ou como se dará a seleção de beneficiados. A própria cúpula do MPF diverge sobre a criação do fundo privado.

Talvez por saber os riscos.

Já dizia Paulinho da Viola:

"Dinheiro na mão é vendaval. É vendaval. Na vida de um sonhador. De um sonhador. Quanta gente aí se engana. E cai da cama. Com toda a ilusão que sonhou"...

sexta-feira, 8 de março de 2019

Admirável Novo Mundo • Por Roberto Muggiati

A primeira vez que vi o Novo Mundo foi em junho de 1962, quando eu e um colega – depois de uma viagem de dois dias de Curitiba ao Rio de carona numa vistosa Bentley  – fomos praticamente desovados na porta do hotel, entre os dois severos leões, pelo não menos severo diretor teatral Gianni Ratto: “Bom, rapazes, deixo vocês aqui, agora vou subir para Santa Teresa.”

Eram tempos de Jango, tínhamos participado de um efervescente festival de CPCs em Curitiba.

Naquele momento, eu mal podia imaginar que, em menos de três anos, estaria trabalhando na Manchete e, depois da mudança de Frei Caneca para o Russell, participaria também ativamente dos “trabalhos” no Novo Mundo, nosso Posto Avançado Etílico.

Em foto recente, Ana Lúcia Bizinover, Martins,
o lendário barman
do Novo Mundo, e Roberto Muggiati.
Nos últimos cinco anos, frequentei assiduamente o bar no mezanino do hotel, onde rolaram belos shows do “pianista da casa”, Osmar Milito: numa fase anterior com meu mestre de saxofone Mauro Senise, mais recentemente com a carismática cantora Indiana Noma.

Momentos mágicos de jazz e bossa nova.

Enfim, mais um gigante que não resistiu à crise. Mais uma marca carioca que se apaga...

Rádio anuncia que Hotel Novo Mundo, que foi um posto avançado etílico das redações da Manchete, fechará as portas

Segundo a BandnewsFM, o Hotel Novo Mundo, um dos mais tradicionais do Rio, fechará as portas no próximo dia 23 de março. Inaugurado em 1950 para receber delegações e visitantes para a Copa, o hotel tornou-se uma espécie de puxadinho informal da Manchete.

Mais precisamente, o bar era o posto avançado etílico das redações da Bloch.

O anfitrião era o discreto barman Martins, que trabalha lá até hoje.

Quando apagar a luz e deixar o seu posto, Martins levará muitas histórias de várias gerações de jornalistas. Assim como o leão silencioso (*) que guarda a portaria, o barman mais longevo do Rio foi uma testemunha daquele universo paralelo à Manchete.

Os incontáveis bate-papos jogados fora e que ecoaram ou foram sussurrados naquele bar mereciam o título de patrimônio imaterial dos bastidores do jornalismo carioca.

Para a cidade, é uma referência histórica e cultural que passa o ponto.

(*) Sobre os leões (são dois) que vigiam a entrada: foram doados ao hotel em 1960 por uma entidade francesa e seriam obras do escultor francês Henri Alfred Jacquemart, do Século XIX, que tem várias esculturas em jardins e museus parisienses.