quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Carnaval carioca em crise? Chora tamborim...

Entre os anos 1970 e a primeira metade da década de 1980, bastava ao carioca que quisesse ignorar o Carnaval manter distância do desfile das Escolas de Samba. Ou evitar a Rio Branco e a Cinelândia, onde o Bola Preta, os blocos de embalo, como Bohêmios de Irajá, Bafo da Onça, Cacique de Ramos, blocos de sujos e foliões fantasiados davam alguma vida ao Centro da cidade.

Para quem preferisse pegar um cineminha, ir a um museu ou visitar a titia, melhor não passar na Visconde de Pirajá, território da Banda de Ipanema, que sempre arrastou uma multidão, ou desviar dos pequenos blocos de bairros, como Cachorro Cansado, no Flamengo, e mais uns poucos resistentes.

No mais, carnaval era ver na TV, ir ao Sambódromo ou comprar as edições especiais de Manchete e Fatos & Fotos. Ah, sim, os bailes também persistiam, mas aconteciam em ambientes fechados. Em muitos bairros da Zona Sul, as ruas mais pareciam um feriadão comum para ser curtido na praia e nos botecos.

A partir de 1986 e com mais força nos anos 1990, as ruas foram retomadas. Surgiram dezenas de blocos - autênticos e sem bandeiras comerciais, simples iniciativas de moradores, de vizinhos e de frequentadores de botecos - e milhares de cariocas foram atrás das baterias. Blocos tradicionais, como o Bola Preta, foram revigorados. Na outra ponta da folia, o espetáculo das escolas de samba tornou-se mega, uma superprodução quase hollywoodiana.

As multidões dispostas a brincar o carnaval não foram embora, ao contrário, mas tudo isso  parece agora em crise. 

O Globo de hoje revela que volta a ser discutida uma proposta para passar para uma empresa privada o desfile das escolas de samba hoje comandado pela Liesa. Já houve uma tentativa nesse sentido. A negociação não será fácil. Não é como um empresário contratar um show e exibi-lo no Sambódromo. Embora o samba há muito já tenha se profissionalizado - carnavalescos, destaques, mestres de bateria, madrinhas e rainhas, intérpretes, compositores etc são contratados - a grande massa dos mais de 2 mil e tantos desfilantes das grandes escolas ou está ali de graça ou paga para entrar em alas. Digamos que um concessionário assuma o Sambódromo e apenas contrate as escolas para participar do desfile. Os desfilantes terão direito a um cachê do show? Ou continuarão a sambar apenas pelo amor às cores da sua escola? Independentemente do novo formato e do debate sobre quem paga o que e quem recebe o que, o fato é que o espetáculo do Sambódromo precisa de uma injeção de autenticidade, modernizar não significa artificializar. Até a criação dos sambas da maioria das escolas é industrial ou fast food, foi terceirizada, com os compositores das comunidades perdendo a vez para fornecedores de letras e músicas por encomenda.

Muita água deve rolar. É hora de agir e não esquecer que na primeira metade do século passado ninguém imaginava que Democráticos, Fenianos e Tenente do Diabo fossem acabar. As Grandes Sociedades eram as estrelas do Carnaval e foram desbancadas exatamente pelas Escolas de Samba.

Coincidentemente, o mesmo Globo noticia que um impasse entre autoridades e organizadores de blocos está levando ao cancelamento de alguns desfiles. Como consequência do sucesso, que cada vez atrai mais turistas, observa-se que carnaval de rua cresceu demais e que é preciso equilibrar a folia com o funcionamento da cidade. Acredita-se que a maioria dos blocos admite que organização, estrutura, segurança etc devem estar em harmonia com a diversão.

Ocorre que ao se recuperar por iniciativa dos cariocas, o carnaval de rua despertou a atenção de empresários que viram no extraordinário palco da cidade uma oportunidade para promover cantores, shows, bailes, celebridades, eventos e marcas. Vieram os blocos chamados comerciais, como Favorita, Preta Gil, Chora me Liga, entre outros. Alguns foram desestimulados, mas chegaram a fazer tentativas de impor ao Rio o "abadá" baiano, o avental que equivale a privatizar a rua e cobrar um arremedo de ingresso aos foliões. As autoridades criaram a Arena dos Blocos, na Barra, para receber esse tipo de show, mas nem todos os empresários aderiram. Ou, talvez por força de prestígio, conseguiram permanecer na Zona Sul e no Centro da cidade. Em 2018, foram quase 600 desfiles de blocos. Esse ano, o número caiu para pouco mais de 500.

A Prefeitura pretende tirar das ruas mais blocos ano que vem.

Que o critério de eliminação pelo menos privilegie as manifestações autênticas dos bairros e controle a ofensiva dos chamados blocos comerciais.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Chapado por dinheiro público - O terrível vício dos propinômanos...

por O.V. Pochê

O ex-governador Sérgio Cabral finalmente revelou o motivo pelo qual cobrava propina adoidado.

Era vício.

Não podia ver uma obra que ia lá faturar um por fora.

Precisava de ajuda então, mas ninguém se tocou em apoiá-lo.

Se um pastor desses que exorciza safadeza por módica quantia houvesse lhe estendido a mão na época em que ele estava doidão por grana, o Estado do Rio de Janeiro teria economizado pra mais de bilhão de reais. 

Fez falta também um instituição do tipo Corruptos Anônimos, onde Cabral e seus parceiros da política, da justiça e do empresariado pudessem reconhecer o vício e cumprir os doze passos para se livrar da terrível síndrome de embolsar dinheiro público.

Não sabe se Cabral tentou se curar, se passou por crises de abstinência dramáticas, se se debatia angustiado, se babava pelos corredores do palácio até que alguém lhe comprasse uma joia, um diamante que fosse, uma privada sofisticada, algo que finalmente o acalmasse.  Não há registro de um médico caridoso que tenha lhe receitado doses decrescentes de propina como terapia para desintoxicar o corpo sedento por reais, dólares, mansões e lanchas.

Cabral sofreu calado, guardou para si o drama de manter contas na Suíça para alimentar seu vício.

E nós aqui pensando que o Sérgio Cabral que protagonizou a "farra dos guardanapos" em Paris era apenas um brasileiro que comemorava a Légion d'Honneur com que a França lhe enfeitou o peito. Nada disso. Ali estava um homem chapado pelo seu vício. Um ser humano rendido aos seus mais íntimos demônios.

Então tá. Se a moda pega, os corruptos de ontem e os "laranjas" da "nova era", que estão estreando agora, vão revindicar o direito a rehab. Não são corruptos, são propinômanos.

Jornalistas criam força-tarefa para revelar documentos que foram classificados como sigilosos. Escondeu por quê?


Diante da derrota na Câmara e da iminente rejeição pelo Senado, o governo desistiu do suspeito decreto que ampliava para milhares de funcionários a prerrogativa de tornar sigilosos documentos oficiais.

Apesar da medida que ampliava o top secret ter sido cancelada, a legislação ainda permite aos burocratas empurrar pra baixo do tapete uma série de documentos de vários setores públicos.

Segundo o blog Jornalismo nas Américas, em matéria assinada por Alessandra Monnerat, "entre junho de 2017 e maio de 2018, mais de 73 mil documentos foram colocados sob sigilo pelo governo brasileiro, mas há pouca transparência em relação aos motivos dessa classificação.

Diante disso, um grupo de jornalistas do site Fique Sabendo "se propôs à hercúlea tarefa de revelar qual o teor de documentos que tiveram o sigilo levantado nos últimos anos — e descobrir qual a justificativa dada por funcionários para reservar essas informações do olho público".

Em um primeiro levantamento, foram encontradas "curiosidades" que ganharam carimbo de sigilo. Exemplo: pesquisas da Universidade Federal do Mato Grosso sobre violência contra travestis e documentos sobre zika vírus.

Por aí se vê como a burocracia tende a impedir a transparência, sem justificativa aparente.

LEIA A MATÉRIA NO BLOG JORNALISMO NAS AMÉRICAS, AQUI

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Carnaval 2019 - Simpatia é Quase Amor - 35 anos no cordão da liberdade

Simpatia 2019 na Vieira Souto. Foto de Fernando Maia/Riotur
Nos 35 anos do bloco, homenagem a Marielle abre o desfile. Foto bqvMANCHETE

E encerra a maratona já ao cair da tarde. Foto bqvMANCHETE
No espírito do samba de Beto Fininho, Janjão, Jorgito, Leandro Fregonesi, Melinho e Mestre Penha, o Simpatia ocupou a Vieira Souto e fez Ipanema cantar a liberdade e a democracia: "Vou pelas ruas da cidade/no cordão da liberdade/já são tantos carnavais/ Sou de Ipanema a simpatia/minha alma é harmonia/ todos nós somos iguais" (...) ""O mar banhava os botequins/ A poesia aplaudia o sol de por/ 35 anos se passaram/ e ninguém cala o Simpatia é quase Amor". E no refrão, espaço para a crítica bem-humorada: "Fui tomar a saideira/Acho que bebi demais/Vi Jesus na goiabeira/De amarelo e lilás".

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Me aqueça nesse inverno - Alô, madame Damares, Roberto Carlos veste rosa!


Xurxil na Amazônia...

por O. V. Pochê 

"Iremos até ao fim. Lutaremos em Paracaima. Lutaremos nos rios e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nosso país, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos, lutaremos no caminhões com ajuda humanitária,  lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos". 

Há que jure que ouviu essa frase ser pronunciada no gabinete de crise que gerencia os problemas na fronteira do Brasil com a Venezuela. Não se engane, embora o Brasil ande meio maluco, é fake news. Trata apenas de um trecho adaptado do famoso discurso de Winston Churchill na Câmara dos Comuns, em 1940. Também não é verdade que um dos caminhões brasileiros de carga com a ajuda aos venezuelano foi roubado pelo PCC.

Na capa da Carta Capital: a troika que manda...


Jornal Nacional: e o estagiário não apurou direito...

JN divulga como autêntica declaração do general Augusto Heleno publicada no twitter sobre possível reação armada do Brasil contra a Venezuela. O perfil não foi checado, era falso e William Bonner pede desculpas. Foi ontem. Falhas à parte, a situação na fronteira da Venezuela é tensa. Teme-se que o Brasil embarque em uma operação do tipo "Tempestade na Amazônia". Uma das novidades na política do Planalto é que o Brasil tem agora seus "falcões", o time que deseja botar pra quebrar e marchar até Caracas.
Veja a gafe do JN AQUI

Aposentadoria vira auxilio funeral. A charge abaixo é do Jornalistas Livres


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Fotografia - World Press Photo 2019 anuncia os indicados para premiação mundial

Foto de John Moore, uma das indicadas para o World Press Photo 2019, retrata o drama da pequena imigrante detida na fronteira do México com os dos Estados Unidos.e forçada a se separar da mãe. 

O World Press Photo 2019 anuncia os fotógrafos indicados para a disputa das melhores imagens globais de 2018, em várias categorias. O resultado do concurso será anunciado no dia 11 de abril.
VEJA NO SITE DA ORGANIZAÇÃO, AQUI

O meio é o Mercado

A entidade chamada Mercado é cada vez mais onipresente em todos os setores. No ramo jornalístico um exemplo foi a trajetória da Abril. Quando os Civita venderam 30% das ações para um fundo americano, inicialmente, e para sul-africanos, depois, com direito a um assento na diretoria, foi inoculado no DNA da editora o vírus do Mercado. Mesmo no nível de editores de redação, quando por ocasião de alguma medida drástica como corte de custos ou de pessoal, vinha junto a justificativa: "o acionista está pressionando por melhores resultados". Esse tipo de interferência enlouquecia os gestores, que passavam a improvisar "reformulações" que quase sempre davam errado e podiam se refletir na qualidade do jornalismo praticado. Vê-se que não deu certo e levou a Abril a pique.

O Mercado também dita o rumo das editorias de economia da grande mídia, o que dá para entender já que os controladores dos principais veículos estão integrados à especulação financeira e suas demandas. Considerando o conceito de Economia como ciência social que busca a racionalização dos recursos utilizados pela população e o consequente bem-estar da sociedade, é fácil constatar que a grande mídia não tem editorias nem colunistas de Economia, apenas editoria e formadores de opinião de Mercado.

Mercado pinta, borda e derruba governos. Mercado pode, por exemplo, como no caso do Brasil, impor um cartel de bancos que manda a competitividade pro espaço e dita altas taxas de serviço e de juros. Mercado tem força para ir buscar no caixa público recursos que eventualmente perde em crises que ele mesmo provoca, como durante o caos especulativo de 2008. Mercado governa. Mercado faz cabeças e pode conduzir o comportamento da sociedade. Está nos jornais hoje, a informação de que o Flamengo recusou acordo com Ministério Público e Defensoria Pública sobre a reparação aos familiares dos dez jogadores mortos em um contêiner-dormitório. As famílias pedem um total de R$57 milhões e o clube oferece R$5 milhões. A diferença é grande e, sem acordo, o Flamengo vai tentar nova negociação no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que imagina ser mais favorável. Um diretor afirmou ao Globo que "o MP não representa as famílias e estava agindo com uma postura em tom ameaçador". Já há alguns anos o Flamengo é dirigido por executivos oriundos, em sua maioria, do Mercado. Uma administração que admitiu privilegiar a contabilidade. Há quase seis anos o time não ganha título relevante, mas está com as finanças em dia. Talvez seja essa mentalidade - a de minimizar o prejuízo e baixar a cotação da tragédia, típica de "homens do Mercado" - que conduz a linha de negociação com as famílias vítimas da absurdo incêndio do contêiner-dormitório que tinha apenas uma porta de saída.

A reforma da Previdência é uma forte demanda do Mercado e, segundo sua porta-voz, a grande mídia, o futuro mamão-com-açúcar dos brasileiros depende de sete guardiões: reforma trabalhista, já feita em parte, reforma tributária, a caminho, pacote de privatização ampla, a caminho, reforma orçamentária, política do Estado mínimo, em andamento, abertura irrestrita do comércio exterior, à vista... e reforma da Previdência. Quando tudo isso for feito, pregam o Mercado e a mídia, até o vendedor do carro do ovo terá a vida mansa de um norueguês (*). 

Os jornais noticiam a chegada do projeto da reforma da Previdência ao Congresso. Dão grande espaço ao acontecimento, isso talvez seja comparável apenas ao número de páginas que teria a seleção brasileira quando e se hexacampeã. A reforma é elogiada em editorial, colunas e reportagens. Destaca a suposta "redução de privilégios", mas os analistas não explicam porque consideram "privilégio" um benefício pago a um idoso ou julgam ser "mordomia" um abono salarial, nem porque alardeiam reduzir o déficit do sistema ao mesmo tempo em que aliviam patrões de contribuições como a dos 8% para o FGTS de quem se aposenta e continua trabalhando. Passam ao largo da crítica em nome de uma defesa mística do cálice sagrado. O governo anuncia que a reforma trará uma economia de R$ 1,1 trilhão em dez anos. Mas o Mercado acredita que essa suposta economia ficará em torno de R$ 500 bilhões. Só a dívida dos sonegadores da Previdência chega a R$ 590 bilhões e crescendo. O governo diz que mandará ao Congresso em 30 dias um projeto de lei para agilizar a cobrança. Diz também que outro PL enquadrará categorias que ficaram de fora. O Congresso tem ampla maioria de empresários, muitos eleitos com o apoio  do Mercado, além de diversos outros grupos de pressão. Aprovará?

Dizem que são grandes as chances de deputados e senadores - que pra variar receberão agrados do governo - aprovarem a reforma. Assim como são enormes as chances de bancadas de setores corporativos defenderem seus interesses, livrarem a cara e deixarem a conta com o velhinho de pijama. Isso sem falar que o caixa do governo é único, mas poderes endinheirados como Judiciário e Legislativo, que mamam na chupeta das aposentadorias milionárias, não estão sendo chamados a colaborar com a "vaquinha" que, segundo promete o ministro Paulo Guedes, vai fazer com que o Mercado despeje investimentos no Brasil.

Paulo Guedes diz que a Previdência é um "avião destinado a cair". Um projeto que mexe com um e não mexe com todos não vai salvar o avião. Apenas dará paraquedas a uma minoria e direito a salto em queda livre para a maioria.

(*) A Noruega ocupa a primeira posição no ranking global de IDH 2018 (Índice de Desenvolvimento Humano). O Brasil está no 79° lugar. Comparando com o Brasileirão, que é disputado por 20 clubes, o patropi estaria na quarta divisão mundial.

ATUALIZAÇÃO em 22/2/2019 - Quando à citação à negociação do Flamengo com os familiares da tragédia do Ninho do Urubu, ontem houve a rodada de conversas no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A postura e a proposta do Flamengo revoltaram os parentes dos meninos mortos no incêndio contêiner-dormitório que virou uma armadilha mortal. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

E la nave va


Deu no Jornalistas Livres: terra arrasada...


O Brasil Bizarro passando na sua timeline. É a reedição do shockdoc Mondo Cane

por O. V. Pochê 

Nos anos 1960, fazia sucesso nos cinemas o documentário italiano Mondo Cane (*). Era um longa metragem colorido que registrava bizarrices através do mundo. Os críticos logo criaram um termo para enquadrar a novidade: shockumentary. O filme era sensacionalista ao extremo, focalizava curiosidades, violência, hábitos e culturas exóticas, o grotesco e o incomum.  Só usava cenas reais que faziam jus ao título. A Netflix, quem sabe, podia se inspirar no Brasil atual e lançar uma série sobre o mundo paralelo em que estamos mergulhados.

O Brasil perdeu o sentido e isso rende um Mondo Cane só nosso. Sintam a bizarrice dos fatos:

* Dinheiro bronzeado mostra seu valor - Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do esquema de corrupção do PSDB, guardava em uma casa e em um apartamento cerca de R$ 100 milhões em cédulas. Ao contrário do político baiano Geddel Vieira de Lima (não são parentes, apesar do Vieira em comum), que mantinha em um apartamento R$ 55 milhões em notas acondicionadas de qualquer jeito em malas e caixas de papelão, o contador do tesouro dos tucanos tinha especial carinho pela grana. Ele se dava ao paciente trabalho de expor as cédulas ao sol, como se fossem finas folhas de chá, para evitar mofo e ataque de traças, pegar um bronze ou, talvez, pelo simples prazer quase orgástico de olhar a dinheirama acumulada. Daria uma cena ótima. Lembra Peter Sellers em "Muito Além do Jardim" que se isola do mundo - seu único contato com o exterior é a TV - e passa os dias a cuidar do jardim, recolher folhas secas, manejar a terra e as plantas.

* Retardados - O Brasil acaba de passar por sua primeira grande crise política que se desenrolou inteiramente nas redes sociais. A baixaria passou na timeline do país. WhatApp e twitter foram as tribunas em tempo real de um medíocre jogo de poder. Tanto nas gravações divulgadas quanto nas mensagens do ministro defenestrado, do paipai e do pimpolho, o conteúdo é de briga de adolescente. Tal qual teenager que desiste de "ficar". Após o bate-boca, os contendores bloquearam contas, mudaram fotos de perfis, eliminaram álbuns de imagens onde apareciam juntos e revisaram likes e deslikes. A crise que evoluiu em dois dedos - os de teclar - também daria um cena didática e inusitada.

* O massacre do contêiner - Mondo Cane tinha cenas reais de tragédias. Não havia a profusão de imagens que os smartphones proporcionam hoje, mas sequências de incêndios, inundações e avalanches tinham lá seu espaço. No Brasil, um clube de futebol, o Flamengo, alojou garotos em contêineres que tinham apenas uma mísera porta de saída. Um incêndio devastou o precário dormitório que se transformou em um forno de gás e chamas e fez dez vítimas fatais. Uma cena forte. O Brasil Bizarro tem disso.

* A goiabeira sagrada - Monde Cane focalizava, às vezes, seitas e misticismo em regiões remotas. O Brasil Bizarro também teve seu recente episódio transcendental. Uma ministra da "nova era" revelou que certa vez deparou-se com ninguém menos do que Jesus trepado em uma goiabeira. É a filmagem da cena pronta. A ministra não chegou a ser original. Em 1917, a mãe de Jesus apareceu para três pequenos pastores em Fátima, Portugal. Nossa Senhora, segundo os meninos, escalava uma azinheira. Em Portugal, a árvore virou local de peregrinação. O doc Mondo Cane, ou Brasil Bizarro, relacionaria as duas aparições e mostraria ao mundo a goiabeira sagrada que o nosso jornalismo investigativo ainda não localizou. 

* Curso de engenharia à distância - Ainda na linha dos desastres, o novo Mondo Cane poderia dedicar uma sequência à engenharia cabocla. O povo gosta de cinema-catástrofe. Ciclovias que desabam, viadutos que racham, lama de barragens que desce encostas, prédios que se implodem, estádio que ameaça desabar e é interditado poucos meses depois de inaugurado... nem precisa filmar, tudo isso foi registrado em vídeos amadores.

* Fogo na Cultura - Nessa mesma linha, o novo Mondo Cane poderia abordar a mania que os brasileiros têm de tocar fogo em museus. Se não acendem o pavio efetivamente, deixam rolar por pura negligência. São cenas impactantes para o shockdoc.

* Tempestade na Floresta - Essa cena o novo Mondo Cane tem que esperar para ver se acontece. Mas não é impossível. Com Donald Trump à frente é cada vez maior a ameaça de invasão à Venezuela. Brasil e Colômbia, princialmente, seriam acionados pelos falcões de Trump. Esses países estão esperando Bogotá cair de maduro. Se não, a coalizão cucaracha vai agir. Dizem que os dois prováveis aliados dos americanos só teriam munição para uma hora de guerra e pouca vacina contra febre amarela, malária, dengue, zika e chikungunya. Nada que Tio Sam não resolva. As câmeras do Mondo Cane vão adorar.

* Territórios ocupados -  Uma das coisas que o Brasil se orgulha é do seu imenso território, que se manteve íntegro e soberano apesar de invasões francesas, holandesas, paraguaia. A República era una e indivisível. Não mais. O novo Mondo Cane mostrará que em várias regiões organizações criminosas que dominam territórios que já pertenceram ao Brasil têm armas, exércitos, leis, taxas, serviços, setores de importação e exportação, estrutura financeira, religião, políticos e justiça próprios. Se instituir  passaporte e criar bandeira e hino podem reivindicar uma cadeira na ONU..

*Ciência dos 'doidim' - A parcela de brasileiros que acredita que a Terra é plana já existia mas era, digamos, tímida. Agora eles chegaram ao poder, têm representantes no primeiro escalão. Fazem reuniões, seminários, planejam levar a teoria às escolas e preparam excursões náuticas para explorar o fim do mapa mundi, o local onde, segundo eles, a água do mar desaba em um uma cachoeira infinita. Mondo Cane poderá acompanhar uma dessas expedições.

Difícil vai ser editar esse shockdoc. O Brasil Bizarro escreve diariamente novos capítulos do seu roteiro surreal.

(*) Apesar do estilo tosco, "Mondo Cane" foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original de 1963. "More", de Riz Ortolani e Nino Oliviero, contrastava com a violência e até o mau gosto do documentário.  
Ouça AQUI

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Deu no G1 - Esse jogo não é um a um



por O. V. Pochê 

A EA Sports elegeu recentemente os melhores zagueiros do 2018: Bonucci,Thiago Silva, Hummels, Godín, Boateng, Piqué, Alderweireld e David Luiz.

O juri que escalou essas feras não conhece os advogados de Michel Temmer. Por eles, não passa nada. Formariam a retranca mais poderosa do mundo.

Reveja o último lance: o inquérito que apura um jantar no Jaburu em que, segundo denúncias, a sobremesa foi um quindim de R$10 milhões ofertado pela Odebrecht, foi enviado à Justiça Eleitoral.

É como mandar Íbis de Pernambuco, com a camisa da Justiça Eleitoral, jogar contra o Manchester United, representando as cores de Temer. Detalhe: com mando de campo dos Red Devils, jogo no Old Trafford e juiz inglês.

Duvida?

Ouça Jackson do Pandeiro AQUI

Mídia: Quem vai podar o laranjal? Só a Folha deixa a fofoca de lado e remete hoje à origem da crise Bebiano


O nome da crise é corrupção. Pimpolhos, telefonemas, gravações, foro íntimo, ciúmes freudianos, traição, roupa suja, espionagem, X-9 no Planalto, humilhação e tudo o mais que saiu do balaio da comadre fofoqueira renderia um samba-canção. Só que o buraco é mais em cima.

O imbroglio envolvendo Gustavo Bebiano foi deflagrado pela Folha de São Paulo ao denunciar um esquema de desvio de verbas eleitorais por candidaturas laranjas do PSL, partido de Bolsonaro, presidido, na época, pelo agora ex-ministro. Os indícios são de apropriação de dinheiro público, o que deveria ser investigado e não minimizado. Aparentemente, o novo laranjal entrou no bonde do caso Queiroz, também em ponto morto.

A fofoca armada por Carlos Bolsonaro, que acusou Bebiano de mentir ao dizer que havia falado com o presidente por telefone, desviou o foco e favoreceu o governo. Os principais veículos da grande mídia, com exceção da Folha, embarcaram na jogada. A partir daí, tudo se transformou em um bate-boca de baixíssima categoria. Picuinha no clã que tutela o patriarca tem sido a rotina.  Mas foi este enfoque que prevaleceu entre os comentaristas políticos por mais de uma semana. Carlos jogou a isca e a mídia deixou-se pescar.

Confirmada a demissão de Bebiano, que sai elogiado por Bolsonaro, a Folha, hoje, foi novamente a única a colocar no principal título de capa a referência ao laranjal do PSL.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Fotografia - Morreu ontem o último personagem da famosa e polêmica foto "The Kiss"

Na foto da capa da Life,  de Alfred Eisenstaedt, a enfermeira Greta Zimmerman aparece já rendida ao beijo do marinheiro George Mendonsa. . 


Em quadro anterior, a foto de Eisenstaedt mostra que Greta Zimmerman tenta resistir ao mata-leão de Mendonsa. 
por Ed Sá 

No último domingo, morreu o ex-marinheiro George Mendonsa, aos 95 anos, o último dos três personagens envolvidos em uma das mais famosas fotos da Segunda Guerra, celebrizada como "The Kiss".

O fotógrafo Alfred Eisenstaedt faleceu em 1995, aos 96 anos. A mulher, a enfermeira Greta Zimmer Friedman, morreu em 2016, aos 92 anos. Em comum, a longevidade, o trio passou dos noventa, e a polêmica.

A foto foi feita no dia 14 de agosto de 1945, quando o Japão anunciava sua rendição e a multidão comemorava a vitória na Times Square em Nova York. Eisenstaedt fazia a cobertura para a Life quando Mendonsa agarrou Greta, praticamente deu-lhe um mata-leão e tascou um longo beijo registrado em uma sequência de fotos na qual vê-se que ela tenta escapar, mas acaba se rendendo ao marujo parrudo.

Era um dia feliz e a mídia preferiu apenas o suposto e ocasional romantismo da cena. A Life colocou na capa a foto em que a enfermeira aparece sem reação, como se estivesse inebriada. Em fotograma anterior ela leva a mão ao pescoço do rapaz mas não tem força para afastá-lo.

O casal só voltou a se encontrar 67 anos depois durante uma entrevista para a CBS.

Hoje, em tempos de "não é não", a foto seria um símbolo de assédio sexual.

Foto Sarasota Police Department

ATUALIZAÇÃO EM 24/2/2019 - Uma estátua inspirada na foto de Alfred Einsenstaed foi vandalizda em Sarasota, na Flórida, dias depois da morte do ex-marinheiro George Mendonsa. Ativistas do movimento Me Too, que denúncia casos de assédio sexual, gravaram em tinta um protesto contra o beijo forçado em Greta Zimmer.

A rede social como ela é. E se Nelson Rodrigues navegasse na internet...

Reprodução Twitter


por Ed Sá 

Nelson Rodrigues morreu em 1980. Na época, o mundo ainda estava longe de trocar relacionamentos por conexões digitais. De 1950 a 1961, ele escreveu na Última Hora a coluna "A vida como ela é", crônicas sobre dramas cotidianos, de preferência adultérios, crimes passionais, cobiça da mulher do próximo, crises de ciúmes em velórios e virgens seduzidas e abandonadas.

Nelson lia as notícias na página policial e a partir daí fazia um retrofit literário de pecados e paixões.

A coluna fez sucesso e, nos anos 1970, ganhou um revival durante pouco mais de um ano na revista Fatos & Fotos.

O post acima foi publicado ontem no twitter. Observem que é um conto contemporâneo real em poucos caracteres.

A dinâmica da rede social produz milhares semelhantes a esse, por hora, talvez. Fico imaginado como Nelson Rodrigues lidaria com os pequenos dramas em proporções diluvianas que hoje trafegam no Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter e outro outdoors da condição humana.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Imprensa que Eu Gamo 2019: tem que respeitar...




Foto Divulgação

Passaporte para a folia. Fotos bqvManchete

O Imprensa que eu Gamo 2019 espalhou Democracia nas ruas de Laranjeiras. Cerca de 10 mil pessoas cantaram o refrão "nesse mar de lama não vou me calar/eu sou imprensa, tem que respeitar/ninguém vai censurar a nossa alegria/a pauta hoje é democracia.

Ramiro Alves lembrado no bloco.

O bloco homenageou o seu diretor Ramiro Alves, ex-editor de política do Globo, que faleceu em agosto do ano passado.