sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

ÁLBUM DA MANCHETE • Dez anos separam as duas Santas Ceias


Por Roberto Muggiati



• 1977 – Da esquerda: Alberto de Carvalho, Ivan Alves (o Pato Rouco), Wilson Cunha, Flávio de Aquino, Sammy Davis Jr (papagaio-de-pirata, ao fundo), Roberto Muggiati (a caráter), Heloneida Studart, R. Magalhães Jr., Wilson Passos, Argemiro Ferreira, Pedro Guimarães, Ney Bianchi de Almeida, Carlos Heitor Cony, Irineu Guimarães.


• 1987 – Da esquerda: Lorem Falcão, Murilo Melo Filho, Nelson Gonçalves, Raul Giudicelli, George Gurjan, Eduardo Francisco Alves, Roberto Muggiati, José Egberto, Alberto de Carvalho, João Américo Barros, Wilson Passos, Sérgio Gonçalves. Na extrema esquerda, ao fundo, David Klajmic e Ney Bianchi em altos conchavos. Atrás do Wilson Passos, na divisória de vidro da redação, dá para ver o nome da Manchete em letras de ouro a que me referi em matéria recente, 1968-2000 – A Manchete no Russell.


Algumas analogias e contrastes. A primeira foto foi feita no 804, a segunda no prédio novo, o 766. Da primeira, restam quatro sobreviventes: Wilson Cunha, eu, Argemiro e Cony; o Sammy, talvez. Da segunda sobraram o Murilo, eu, o Egberto, o Barros e o Serginho.

Na primeira foto, eram treze à frente da mesa, mas não havia nenhum Judas. Já na segunda havia um Judas, vocês sabem a quem me refiro, e o seu assecla, acumpliciados talvez pelo fato de não terem coragem de sair do armário. Ambos já pegaram a barca do Estige e foram direto para o canto mais aquecido do Hades.

Em 1997, quando editei o número comemorativo dos 45 anos da Manchete, não houve foto da Santa Ceia, provavelmente porque não existia mais uma figura central na direção da revista. O que havia era uma troika paulista, que não deixou saudades. 

E, àquela altura, a Bloch já havia iniciado sua descida sem retorno, que culminaria no pedido de falência em 1º de agosto de 2000.


Bye, bye 2017...

Do site da Federação Nacional dos  Jornalistas

Deu no New York Times: Temer queria abrir as portas da cadeia, Dodge tomou a chave.




Memórias da redação: Aventura de Natal na Fatos & Fotos Gente

por José Esmeraldo Gonçalves

Em 1975, a Fatos & Fotos fez uma parceria com a People americana e se transformou em Fatos & Fotos Gente. 

A revista publicava matérias com celebridades americanas e, aqui, replicava o mesmo estilo de perfis e de fotos com as figuras equivalentes brasileiras. Mas não apenas celebridades entravam na pauta. Tal qual a People, a FF/Gente também se interessava por pessoas "normais" que, por algum motivo, desfrutavam dos seus quinze minutos de fama.

Na noite de Natal daquele ano, o adolescente paulista Pedro Antonio, de 16 anos, que vivia nas ruas do Rio e se virava trabalhando em obras ou ajudando ambulantes na Central do Brasil, pulou o muro do pátio de manobras do antigo aeroporto do Galeão, escondeu-se sob uma lona, aguardou os passageiros e, na primeira chance, subiu a escada e embarcou como clandestino em um DC-10 da Varig. Escondeu-se no banheiro e ocupou uma poltrona logo depois da decolagem. Só descobriu o seu destino quando o piloto anunciou o tempo previsto para a chegada em Madri. No aeroporto de Barajas, na manhã do dia 25 de dezembro, foi abordado por um funcionário, mas escapou quando era levado para averiguação.

A aventura de Natal do menino brasileiro, que perambulou pela cidade até ser localizado, repercutiu nos jornais. Era um personagem perfeito para a Fatos & Fotos Gente naquela semana. Pedro Antonio comoveu até as autoridades espanholas, ganhou roupas, foi logo liberado e embarcado de volta para o Rio, onde ficou sob a guarda do Juizado de Menores. Levei um bom tempo para convencer o juiz Antonio Campos Neto a permitir a entrevista. Ele entendeu que nossa matéria não mostraria o menino como um "delinquente" ou "infrator", o foco seria a aventura de Natal, e deu OK. Conversei com o viajante, que se mostrou inteligente e articulado e contou sua jornada com alguma dose de imaginação. Após ouvir os argumentos do fotógrafo Hugo de Góes - que precisava fazer algumas fotos no aeroporto - o juiz autorizou o menino a voltar ao velho Galeão.

As primeira fotos, como pode ser visto na reprodução da matéria (abaixo), foram feitas no interior da Rural Willys da reportagem. Mostrá-lo ao lado de um jato era a foto obrigatória de abertura, mas a segurança do Galeão não permitiu. A outra opção, banal, era fotografá-lo com a fachada do aeroporto ao fundo ou ao lado do muro da Estrada do Galeão, de onde era possível ver alguns aviões no pátio. Ao chegar perto do muro, tomamos a decisão temerária de pulá-lo, como o menino o fizera. Havia uma guarita bem distante, talvez não fôssemos vistos. Naquela hora nem pensamos nas possíveis consequências. Escalamos a parede, o menino posou e Hugo de Góes fez a foto que queria. Pareceu moleza. O "clandestino" tinha razão. "Foi fácil chegar à Espanha. Difícil foi uma viagem que fiz de Brasília para o Rio. O motorista me descobriu escondido no ônibus e queria me dar um pau. No avião, o pessoal é educado", concluiu o aventureiro do Natal.

A matéria foi publicada na primeira edição de 1976 há quase  - e inacreditáveis - 42 anos.



Fatos & Fotos Gente, janeiro,1976. Reproduções. Clique nas imagens para ampliar.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Viu isso, Romário? Um boleiro na Presidência: ex-craque George Weah ganha eleição na Libéria

Reprodução The Gãuardian
por Niko Bolontrin
Ex-jogador do PSG, do Milan, do Manchester City e do Chelsea, George Weah foi eleito presidente da Libéria com 61,5% dos votos.

Ele foi o único africano a ganhar, até hoje, a Bola de Ouro da Fifa.

O problema é Romário, Edmundo, Sheik, Renato Gaúcho, Felipe Melo, Adriano, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Muralha se empolgarem em repetir a dose por aqui em 2018.

Já viu? Em anúncio da revista Condé Nast Traveller 70 pessoas de 70 países imitam gestos e falas dos americanos...



CLIQUE AQUI 

Revistas fazem campanha para valorizar o jornaleiro

Editoras de revistas (Abril, Alto Astral, Caras, DJ, EdiCase, Ediouro, Escala, Europa, Globo, Pais & Filhos, Três e Radh) participam de uma promoção de verão "Juntou, Trocou" da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), em parceria com a distribuidora Total Publicações. 

A campanha começa em janeiro. As revistas que se reúnem nessa ação de marketing terão nas capas o logo da promoção e um selo no código de barras. O leitor deverá juntar três selos de cores diferentes e colar na cartela que vem dentro dos exemplares.

Com isso, terá direito a uma nova revista. A promoção vai até março de 2018. A intenção é estimular o leitor a voltar às bancas de jornais de todo país.
MAIS DETALHES NO SITE DA TOTAL PUBLICAÇÕES, CLIQUE AQUI

No lugar certo, na hora exata. Foto dos casais reais garante o Natal de mãe solteira britânica...


por Jean-Paul Lagarride
A britânica Karen Anvil foi à missa de Natal na Igreja de Santa Maria Madalena, em Sandringham, e saiu com uma das fotos mais visualizadas no mundo neste fim de ano. Ela fez o que as agências de fotografia estavam à caça: uma imagem casual de William, Kate Middleton e o novo casal Meghan Markle e Harry. Karen explicou que se surpreendeu ao ver o grupo caminhando em sua direção, apontou o celular e gritou "Feliz Natal!" O quarteto, que já ganhou o apelido de "fab four", não teve como não olhar e sorrir. Ao publicar a foto no twitter, ela recebeu elogios e o conselho dos próprios fotógrafos da família real: registrar logo os direitos da foto. De fato, choveram propostas em seguida. Uma agência adquiriu e vários jornais, como The Independent, abaixo, publicaram a imagem. Karen, que é mãe solteira, afirmou que o dinheiro será útil para pagar a faculdade da filha..





Leitor paga multa porque falou que jornal estava "uma merda"

por O.V.Pochê

Se por acaso você estiver lendo um jornal qualquer e achar que o dito está muito ruim, não fale isso em voz alta. Jamais diga ou escreva em rede social "esse jornal hoje tá uma merda". Um advogado lia a Gazeta, de São Bento do Sul, quando se indignou com uma matéria que transcrevia a opinião do escritor Umberto Eco de que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis" e foi desabafar no Facebook. O leitor escreveu que o jornal era útil para seus cachorros nele depositarem fezes e xixi e, quando isso acontecia, havia "uma simbologia" em ver "merda misturada com merda". Um juiz condenou o advogado a indenizar o jornal em 10 mil reais. A informação está no DCM.

Com o Brexit, Grã-Bretanha apaga a União Europeia dos passaportes. E o documento brasileiro continua incluindo a caricatura de "comunidade" Mercosul na capa. É mico!


por Jean-Paul Lagarride

A Grã-Bretanha se prepara para mudar o passaporte. Como uma das numerosas mudanças provocadas pelo Brexit, o documento de capa vermelha com a referência à União Europeia será aposentado e voltará o antigo, em azul.

No passaporte brasileiro, Mercosul é tosca caricatura da União Europeia. 
O Brasil deveria se inspirar no exemplo e eliminar a referência ao fracassado Mercosul nos passaportes nacionais. É um mico internacional. Primeiro, o Mercosul é um tratado comercial e não uma comunidade de nações. E nem como união aduaneira funciona plenamente. Além de incluir o nome da falsa "comunidade", o Brasil eliminou o brasão da República e botou na capa do passaporte as cinco estrelas que simbolizam os países da união aduaneira Mercosul. Algum burocrata viajou com dinheiro público à Europa e se encantou com a ideia de imitar o documento europeu, provavelmente ignorando que quando era apenas um tratado econômico a União Europeia não alterou a designação de origem nas capas dos passaportes.
O passaporte dos "hermanos" também
paga o mico do Mercosul

O Mercosul foi gestado durante o desastrado governo de José Sarney e oficializado no igualmente esculhambado governo Collor. O que explica o monstrengo. Nunca decolou de fato, serve para governantes posarem para fotos de "estadistas" quando se reúnem ao som de La Cucaracha. Ou pra igualar seus portadores como potenciais usuários da revista íntima em aeroportos.

Praticamente nada aconteceu nas trocas comerciais entre o Brasil e alguns países da América do Sul que não tivesse acontecido se o Mercosul não existisse. E ainda criaram o Parlatino (cujo nome incorpora ingenuamente a expressão racista aplicada aos sul-americanos), que não funciona e é apenas uma caricatura do Parlamento Europeu.

Hoje, o Mercosul é uma pesada âncora que impede o Brasil de assinar acordos comerciais bilaterais com a União Europeia. Pelo tratado, ou todos assinam ou ninguém. Ou seja, é o abraço dos afogados ou dos borrachos. 

O nome Mercosul deveria constar apenas dos passaportes do políticos e autoridades. Estes sim indicados para a fila do scanner que flagra dólares escondidos nas cuecas públicas.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A síndrome das retrospectivas

por José Esmeraldo Gonçalves

Já participei de muitas, mas não havia nada mais entediante do que as edições retrospectivas de fim de ano. Eram revistas especiais talvez menos úteis aos leitores do que às redações.

Em função do número frio - as notícias eram descongeladas no freezer - eram ótimas, na verdade, para antecipar fechamentos e facilitar o revezamento das equipes nas folgas de fim de ano.

As pautas eram quase robóticas, iam se montando sem muito esforço. Os fatos políticos, as tragédias, as vitórias esportivas, os melhores livros, as músicas do ano, as peças, os filmes, as personalidades, as conquistas da ciência e um quesito inevitável: os mortos vips do ano. Trabalhei em várias revistas e todas se rendiam aos "especiais" da virada. Geralmente, não vendiam bem. Chegavam às bancas entre Natal e Ano Novo, um período em que os leitores andavam meio desligados ou ligados em outras e prazerosas perspectivas.

Várias publicações ainda investem em retrospectivas, mas esses "especiais" estão sumindo aos poucos. Até as revistas impressas, aliás, estão rareando. A tradição de rever o que passou fica por conta, principalmente, dos veículos digitais e da TV.

Em 2018 - e não apenas no começo, mas ao longo do ano -, o jornalismo não vai escapar de megas e sucessivos retrospectos: 1968 completará 50 anos. Sei lá porque, números redondos inspiram pautas desde que os tipos móveis de Gutenberg estimularam a criação de panfletos em Estrasburgo, Antuérpia e outras cidades da Europa a partir de 1605.

E 1968 pede pra ser retrofitado, é uma marca. As barricadas da contestação, as mortes de Robert Kennedy e Martin Luther King, o assassinato do estudante Edson Luis pela ditadura, a Primavera de Praga, a Ofensiva do Tet na Guerra do Vietnã, a assinatura da Lei dos Direitos Civis, nos Estados Unidos, e o AI-5 fechando aquele ano por aqui, só para citar alguns fatos, vão ganhar espaço na mídia.

Embora tenha sido um ano agitado, 1968 começou meio devagar, como o carioca Correio da Manhã noticiava nos primeiros dias de janeiro.

Nos recortes das edições iniciais, abaixo, há até um certo jeitão de 2018. O tempo não passou ou o Brasil parou?

Essa é a contribuição do blog: a retrospectiva que retroage.

Assim como Temer aguarda passar o carnaval para botar 
uma meia-sola na sua equipe e profetiza um quadro econômico de dias felizes, 
Costa e Silva anunciava novo ministério e fim do arrocho.

Não havia Lava Jato mas a busca por dólares expatriados era notícia. 



O governo admitia o óbvio



Racismo no boteco.
A palavra feminicídio não era usual, mas
a violência machista sim.  E permanece rotineira.


Ontem como hoje, a histeria moralista


Universidades na penúria e a pesquisa como vítima.
Partido criado pela ditadura para fazer figuração de oposição amiga, o MDB virou PMDB
e hoje, 50 anos depois, volta ser MDB. 


Pagamento atrasado  no Rio ... mas só por um dia


Delatores ainda não premiados



O Rei da Vela chegava ao Rio. Atualmente está em cartaz em São Paulo, 50 anos depois da estréia.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Roberto Muggiati: Natal na Bloch

Por Roberto Muggiati

Já instalado na espaçosa sede do Russell, com o apoio gastronômico do chef Severino Ananias Dias, Adolpho iniciou lá pelos anos setenta um ritual natalino. Costumava enviar aos funcionários mais graduados um opulento – e suculento – peru de Natal. Por “mais graduados” entenda-se um grupo heterogêneo que incluía as pessoas profissionalmente mais importantes, aquelas que o ajudavam a ganhar dinheiro; e figuras avulsas que ocupavam um lugar no seu coração: por exemplo, o Marechal, o chefe dos contínuos, que certa vez figurou nas lista dos Dez Mais Elegantes do Ibrahim por seus ternos de linho branco; o Layrton, seu secretário e factótum: para cobrir a Copa do Mundo e as Olimpíadas, a Abril criou uma agência de viagens, já o Layrton embarcava sozinho as equipes das revistas e de TV da Bloch; ou o ator Grande Othelo, que nem funcionário era, mas havia feito um papel excepcional em O Homem de La Mancha, o musical que inaugurou o Teatro Adolpho Bloch. Adolpho se gabava da sua cozinha e inventou um bordão: “Nós somos um grande restaurante que, por acaso, também imprime revistas...”

A boa culinária e a vista cartão postal da baía de Guanabara transformaram a sede do Russell também num importante ponto de visitas ilustres. Muitas vezes ajudei Adolpho a receber celebridades como a irmã do Xá do Irã, a Princesa Alexandra de Kent, Liza Minnelli, Roman Polanski, o tenor Placido Domingo (que fez um dueto na sacada com Mário Henrique Simonsen), a proprietária do Washington Post, Katherine Graham (pouco depois que seu jornal derrubou Richard Nixon), o ator do filme Amadeus, Tom Hulce e incontáveis outros. Alfredo Machado, editor da Record e amigo de Adolpho, levou lá escritores famosos como o best seller Sidney Sheldon e Doris Lessing, depois Prêmio Nobel.

Voltando ao peru: no dia 24 de dezembro você ficava em casa, por volta de meio-dia, esperando a chegada do carro da Bloch com a sua ave. Se por algum motivo você estivesse em baixa na ocasião, o peru não vinha. Se a sua cotação estava em alta, o peru não só vinha, mas acompanhado de um tender ou até mesmo de um caprichado pernil. A dádiva natalina do Adolpho era uma maneira de você aferir a quantas andava o seu prestígio com o Titio, como era chamado pelos comandados mais próximos, como o Arnaldo, o Zevi e o Murilo.

O departamento chamado de Expedição era uma coisa muito confusa e estas deliveries da Bloch às vezes criavam encrencas terríveis. Certa ocasião, num fim de semana, o Cony recebeu no seu apartamento da Lagoa, uma caixa de madeira nobre com uma dúzia de garrafas de um vinho francês de casta raríssima. Presente do Oscar Bloch Sigelmann. Não entendeu nada – principalmente porque o Oscar o hostilizava – mas incorporou a preciosidade à sua adega. Dias depois, o Oscar aprontou um barraco monumental na Expedição, demitindo uma dezena de funcionários. O mimo se destinava ao Colin, presidente do Banco do Brasil, mas como a ordem do Oscar fora verbal, a Expedição tomou Colin por Cony, que era mais conhecido e o queridinho do Adolpho. Oscar implorou ao Cony que estornasse a caixa de vinhos, mas àquela altura o Cony já tinha entornado todas.

Adolpho Bloch tem duas biografias curiosamente relacionadas aos seus dois casamentos.
O primeiro O pilão, de 1978, foi supervisionado por Luci Bloch. 

Dez anos depois, Anna Bentes, sua segunda mulher, coordenou
a edição de O pilão, segundo volume.

Outra delivery desastrada ocorreu quando Adolpho estava para completar o que chamava seus “quatre- vingts” – os oitenta anos – Anna Bentes organizou de surpresa a edição do segundo volume de O pilão. O primeiro Pilão fora lançado em 1978, na Era Lucy. O pilão de Anna Bentes, em edição esmeradíssima, com capa dura, seria distribuído durante a festa de aniversário, à noite +a beira da piscina. Inadvertidamente, porém – talvez para agradar o patrão, um funcionário da gráfica em Parada de Lucas telefona de manhã cedo para o aniversariante: “Seu Adolpho, o caminhão com os livros vai sair agora. É para entregar no Russell, mesmo?” Estragada a surpresa, Anna Bentes ficou passadíssima.

O peru de Natal vinha
sempre acompanhado
de um cartão semelhante ao
da reprodução, que
agradecia comparecimento
a aniversário de
Adolpho.

Sendo goy, eu não entendia muito as festividades judaicas, mas aos poucos fui me embrenhando no assunto. Havia uma lenda de que Adolpho, irreverente quando mais jovem, costumava provocar os rabinos nos dias de jejum botando uma carrocinha de cachorro quente na frente da sinagoga da Rua Tenente Possolo, a mais tradicional, perto Praça da Cruz Vermelha. No Dia do Perdão, o Yom Kippur, a troika – Adolpho assim chamava o trio Adolpho/Jaquito/Oscar – comparecia ao trabalho de terno escuro e gravata por uma ou duas horas, com um ar compenetrado. Num destes Kippurs resolvi dar uma de Adolpho pra cima do próprio. Era manhã cedo, estava sozinho na sua sala, cheguei a ele e perguntei: “Adolpho, nunca entendi direito essa coisa do Dia do Perdão. Quem é que tem de perdoar: eu a você, ou você a mim? Falar nisso, Adolpho, estou fudido, meu salário não está dando mais para viver...” Atordoado pela ousadia, com um olhar de criança inocente, ele me perguntou: “Quanto é que você está precisando?” Eu chutei uma quantia alta, sabendo que ele iria regatear. Foi assim que comecei a ter meu aumento salarial anual a cada Yom Kippur. Política salarial na Bloch nunca existiu. Cada um tinha de garantir o seu num corpo-a-corpo com o chefão. A grande maioria não tinha sequer acesso ao Adolpho e assim ficava a ver navios anos sem fim. A Bloch – apesar do talento incrível que por lá passou, do jornalismo e da literatura brasileiros – era uma tremenda mixórdia, que deu no que deu. Mas foi divertida, enquanto durou.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

1982 • Antes do começo do fim

por Roberto Muggiati

Os editores reunidos: de pé, a partir da esquerda: Janir de Hollanda, Roberto Muggiati, Lincoln Martins (Geográfica Universal), Edson Pinto (Amiga), Roberto Barreira (Desfile), Daisy Prétola, Gervásio Baptista (Fotografia). Sentados: Marília Campos (Carinho), Justino Martins (Manchete), Vera Gertel (Desfile), José Resende Peres (Agricultura de Hoje) e Teresa Jorge (Pais & Filhos).

A foto – posada no estúdio do Russell para a edição de 30 anos da Manchete – irradia uma alegria contagiante. Era 1982 e ainda corria nas veias de Adolpho Bloch tinta de impressão, como ele costumava dizer.

A Bloch se candidatara a um canal de televisão em 1975. Naquele mesmo ano, 23 de outubro, uma dupla derrota para Adolpho. O Presidente Ernesto Geisel concedia a outro judeu, o Abravanel de Niterói, Sylvio Santos, o canal 11 de televisão. E do Petit Trianon chegava a notícia de que um escritor quase desconhecido, o goiano Bernardo Élis, era eleito para a Academia Brasileira de Letras, derrotando Juscelino Kubitschek. Foi o único Presidente da República rejeitado pela Academia (Getúlio foi eleito em 1941, Sarney em 1980 e Fernando Henrique em 2013). A derrota se deveu pura e exclusivamente à pressão da ditadura militar, que não o queria ver Juscelino eleito sequer síndico de condomínio...

Adolpho e JK decidiram não chorar sobre o leite derramado. Abriram o salão de festas, estouraram algumas garrafas de champanhe e o ex-presidente pé-de-valsa dançou o Peixe Vivo até altas horas. Anos depois, assumiu o último Presidente militar, João Baptista de Figueiredo, com uma postura mais simpática. Ao receber D. Sarah Kubitschek em Brasília em meados de 1979 para a construção do Memorial JK, começaram as tratativas para conceder uma TV à Bloch. Em 1980, Figueiredo distribuiu entre Adolpho Bloch e Sylvio Santos nove concessões das extintas Redes Tupi e Excelsior. Cinco delas couberam à Bloch: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. Era a Rede Manchete de Televisão que surgia e iria ao ar na noite de domingo, 5 de junho de 1983, com o fabuloso logotipo do M voador.

Era a crônica de uma morte anunciada. A TV viera para sepultar a editora. O segundo de publicidade na telinha valia mais do que milhares de metros quadrados de páginas duplas impressas. Uma morte ao mesmo tempo real e simbólica marcou esta transição. Em 10 de agosto de 1983, dois meses depois da estreia da TV, Justino Martins chegou à redação uma terça-feira, lá pelas dez da manhã, era o dia mais calmo, depois do fechamento na segunda e antes da saída da revista nas bancas na quarta. Com sua clássica sacola da Air France a tiracolo, falou comigo, que era o seu “segundo”: “Toma conta das coisas, tchê, que vou fazer um exame no Hospital dos Servidores.” O Servidores era uma referência, o Presidente Figueiredo internou-se lá quando teve sua crise cardíaca, e o diretor, Raymundo Carneiro, era um grande amigo do Adolpho. As notícias não foram nada boas. Justino tinha um câncer de pâncreas fulminante. Duas semanas depois, foi transferido para a Clínica Sorocaba, em Botafogo, onde morreu na noite de domingo, 28.


A Rede Manchete fez uma televisão de alto nível, com programas de qualidade e novelas esmeradas e de repente topou com um filão de ouro ao lançar a novela Pantanal, sucesso absoluto de março a dezembro de 1990, com um ibope devastador. Ironicamente, a novela, Amor pantaneiro, ficou engavetada na Central Globo de Produções, e acabou cancelada na estação de chuvas de Mato Grosso. Quando a Rede Manchete contratou Benedito Ruy Barbosa, ele veio com Pantanal debaixo do braço. Os elevados índices de ibope assustaram a todo-poderosa Globo. Por que a novela das oito da Globo começa depois das 21 horas? Porque a Globo não ousava iniciar a sua novela das oito enquanto Pantanal estivesse no ar. Ia então esticando interminavelmente o Jornal Nacional.


Infelizmente, a Bloch – prisioneira da cultura da empresa familiar – não soube tirar proveito do êxito de Pantanal. Ao contrário, mergulhou em águas turvas e foi se complicando cada vez mais. Investiu em fracassos estrondosos como Brida, novela baseada no livro de Paulo Coelho, e Tocaia Grande, de Jorge Amado (não era uma Gabriela, nem um Dona Flor nem uma Tieta.) Tocaia foi ao ar em 16 de outubro de 1995.

Poucos dias depois, descendo do restaurante do 12º andar para o elevador do 11º, Adolpho me pediu que o amparasse naquela escada terrível sem corrimão com piso de tapete felpudo. Enquanto eu segurava seu braço com todo cuidado do mundo, ele se lamuriou: “Muggiati, estou fudido. Você não queira ter a minha vida de jeito nenhum...”

Um mês depois, no Dia da Bandeira, 19 de novembro, na madrugada de domingo, ele morria num hospital de São Paulo.

Outra ironia: foi por ter sido avalista de uma dívida irrisória da TV, coisa de uns dez mil dólares, que
acabou se transformando numa bola de neve, que a Bloch Editores se encaminhou para a concordata e a falência final.



Antes do fim da editora, a TV foi passada adiante. Um arremate sórdido que diz tudo da novela: em 2010, o M voador que era o símbolo augusto da Rede Manchete, foi encontrado em alto estado de corrosão num brechó de beira de estrada na BR-465, antiga Rio-São Paulo.

Ainda não apareceu ninguém para arrematar a peça.



Uma liminar, urgente! Para o "incerto amanhã" de 2018, Carmen Lúcia recomenda muita autoajuda ..

por O.V.Pochê

Neste 2017 que se apaga, a ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, não trouxe muita luz às trevas constitucionais. Ao contrário, recebeu críticas por promover alguns apagões, como os votos de desempate no caso da obrigatoriedade do ensino religioso em escolas públicas e ao passar a bola para o Legislativo como instância a decidir o destino dos seus próprios e muitos corruptos. Deu no que deu e o STF ainda tenta botar ordem no terreiro.

A pedido do Globo, Carmen Lúcia escreveu um texto sobre o que devemos fazer em 2018. Ela descreve os tempos atuais como "desensofridos". O Houaiss diz que a palavra não existe. Mas isso não tem importância. Guimarães Rosa, conterrâneo da ministra, também gostava das veredas do neologismo.

Parece claro que 2017 realmente não foi o ano da ministra. O texto, ressalvando que a ministra tem todo o direito de exercer seu espírito natalino, é uma espécie de previsão em estilo de diário de normalista ou de discurso de apresentador do Big Brother Brasil. Tem mais pérolas do que o tesouro do Marajá de Baroda. Vale registrar alguns destaques:

* "Gente é feita para ser feliz, por isso espera o agrado"
* "Em tempos tão desensofridos é difícil planejar. Que venha o ótimo"
*  "Certeza é nenhuma, só a esperança pousa em forma de louva-a-deus na janela".
* "Mas e esse ano mal acabado? Calma filha, amanhã as coisas se ajeitam"
* "Não há colo materno a acalmar o incerto amanhã nessas tão enevoadas noites brasileiras"
* "Talvez no mundo as trevas tenham sido densas.É que vivo brasileiramente. Ando meio amarrotada"

Não me ajudou. Já me conformei a entrar em 2018 mais confuso e do que esse 2017 me deixou. Parodiando Cazuza, "quero uma liminar pra viver".

Primeira capa: 2018 é o Ano do Cão. Mas o mundo continuará fingindo que não vê o elefante na sala


No horóscopo chinês, 2018 é o Ano do Cão. O elemento é a Terra, que indica um período de forças conservadoras ainda prevalecendo no mundo. Mas, por conta do perfil do Cão, as pessoas tenderão a ser mais tolerantes e solidárias. 

Não se sabe se as energias milenares interpretadas pelos sábios da China alcançarão a Casa Branca, com o elefante (o símbolo do Partido Republicano do Tio Trump) dominando as salas, como a New Yorker retrata, plantando guerras e enquadrando o Cão, que vai precisar de muita sabedoria para sair das enrascadas. 
O Cão tentará aproximar opostos, é o que dizem. 
. O Ano do Cão acontece a cada 60 anos. Segundo a tradição chinesa, o animal favorece novos projetos, abre perspectivas em todos os campos. 

Se servir de estímulo, 1958, a última vez que o Cão deu as caras, foi considerado um período favorável ao Brasil. Não que fosse um paraíso, mas a barra estava bem mais leve. A seleção era campeã na Suécia,  João Gilberto lançava "Chega de Saudade" e a Bossa Nova ia junto, a Manchete mostrava ao Brasil as linhas e colunas já definidas do Palácio da Alvorada, Nelson Pereira dos Santos inaugurava o Cinema Novo com "Rio Zona Norte", o Fusca nas ruas anunciado o boom da indústria automobilística, estradas e hidrelétricas em construção, havia denúncias de corrupção, claro, mas sem fotos de malas de dinheiro e apartamentos entupidos de grana, a inflação ficou em menos de 12, 4%, um pouco mais mais baixa do que em 1957...

Se 1968 foi o ano que não terminou, 1958 é comemorado como o ano que acabou bem. 
A tarefa não é fácil, mas bem que o Ano do Cão podia repetir o celebrado alto astral da época.

Roma: exposição comemora 100 anos de Fotografia Leica

Foto de Christer Strömholm,  Place Blanche Paris, 1961.  Exposição "I Grandi Maestri,
100 Anni di fotografia Leica". Divulgação


Foto de Ramón Masats, Madrid, 1960. Exposição "I Grandi Maestri. 100 Anni di fotografia Leica". Divulgação

Se a sorte o levar a Roma até 18 de fevereiro de 2018, um bom programa é visitar a exposição "I Grandi Maestri. 100 Anni di fotografia Leica" no Complesso del Vittoriano - Ala Brasini, na Via de San Pietro in Cacere.

A Ur-Leica original criada pelo engenheiro alemão Oskar Barnack.


A mostra celebra a primeira câmera 35mm e os fotógrafos que a usaram desde a década de 1920 até os dias de hoje. A Leica surgiu em 1913, criada pelo engenheiro alemão Oskar Barnack, mas só se popularizou entre os fotógrafos depois da guerra, especialmente às vésperas dos agitados anos 1920. O Complexo Vitoriano reúne em quatro salas cerca de 350 fotos, de Cartier-Bresson e Robert Capa, de Eliot Erwitt a Robert Frank, René Burri e Sebastião Salgado, além de câmeras, revistas, livros e documentos originais.
Se Roma não estiver no seu roteiro até fevereiro, a editora Contrasto lançou um livro (veja capa no foto acima), organizado pelo fotojornalista Hans-Michael Koetzle, que organizou uma exposição sobre o mesmo tema, em 2014, em Hamburgo. São 191 páginas  com 130 fotos selecionadas. O livro custa 29 euros.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Manchete no Russell, 1968-2000 • A HISTÓRIA DA TORRE DE PAPEL

Por Roberto Muggiati

No final de 1968, a Bloch tornou-se a primeira grande empresa editorial a ter sua sede na Zona Sul. O Jornal do Brasil se mudara de um prédio da belle époque na Avenida Rio Branco para o mastodonte do começo da Avenida Brasil. O império do Chatô, que tinha como carro-chefe a revista O Cruzeiro, ficava numa péssima vizinhança, na Rua do Livramento, quase na zona do cais do porto. O Globo se escondia na Rua Irineu Marinho, nas proximidades do antigo IML.


Em uma das mesas no hall da Manchete, em noite de gala que Ibrahim Sued apontou como a mais espetacular do ano,
os casais Denner e Maria Stella, Walinho Simonsen e Regina Rosemburgo (de vermelho),
então musa do society  carioca. Regina casou-se depois com o empresário Gérard Léclery.
Ela foi uma das vítimas do acidente do Boeing 707 da Varig, nas imediações do
Aeroporto de Paris/Orly, em 1973.
Clique nas imagens para ampliar. Reproduções Revista Manchete

Em 1965, ao voltar de Londres, comecei a trabalhar como repórter do Globo. Fui cobrir um congresso da Interpol no Hotel Glória, voltei, bati a matéria, deixei na mesa do chefe de reportagem Alves Pinheiro, peguei o paletó e me mandei. Achei o ambiente opressivo. Não posso dizer que a redação da Manchete em Frei Caneca fosse muito diferente. Para se chegar à redação era preciso caminhar meio quilômetro através de um galpão cheio de máquinas sucateadas e pegar um elevador de carga até o terceiro andar. Quase não havia janelas, o calor sufocava e os ventiladores de poste só ajudavam a circular o bafo quente. As salas da reportagem e da redação eram separadas por tapumes de madeira barata e vidro chapiscado. No entanto, ali fiquei, mesmo porque repórter vivia na rua. E havia uma promessa no ar. Em dezembro de 1965, Adolpho Bloch promoveu o que seria o maior evento do ano, no prédio do Russell parcialmente pronto: um jantar de gala com o anúncio da lista das Dez Mais Elegantes de Ibrahim Sued e o leilão para fins de caridade do modelo número um do carro Willys-Itamaraty.

Lembro que Zevi Ghivelder, chefe de redação da Manchete, tomou as dores da reportagem, que não foi convidada para a festa. Nem seria o caso, mas o bom Z’vi, para reparar o que considerava uma injustiça, ofereceu um almoço de sábado para os repórteres em seu apartamento na Hilário de Gouveia, em Copacabana. Lembro do jovem Roberto Barreira, recém-chegado de uma temporada na Sucursal de Milão, e já ligado em moda, ousando exibir meias cor de abóbora. Afinal, já eram os tempos das cores cítricas de Carnaby Street.

Antiga sede da Manchete, Rua do Russell. Foto de Gil Pinheiro

Em março de 1968, troquei Frei Caneca pela redação da Veja (seria lançada em setembro), na Marginal do Tietê. Em setembro de 1969 voltei para dirigir a Fatos&Fotos no prédio da Rua do Russell, 804. O terreno foi conquistado após anos de dinamitagem para cavar espaço no imenso rochedo. Com isso, o terreno adquiriu uma profundidade notável: depois do prédio, vinha o platô do terceiro andar, com o restaurante à beira da piscina dando para a fachada monumental do Teatro Adolpho Bloch. Na verdade, o público não entrava por ali: saía, nas noites de gala, pelos fundos do palco, para a piscina e a ceia luxuosa servida no restaurante.

A fachada do Niemeyer era um portento, o prédio todo tinha assoalhos de tábua corrida, banheiros de mármore de Carrara com torneiras de latão reluzente, móveis de jacarandá desenhados por Sérgio Rodrigues, as telas dos melhores pintores brasileiros nas paredes, tapetes persas no hall dos elevadores de cada andar. Um detalhe que me tocou: um dia chega um senhor de aparência simples, calça marrom e camisa branca, para pintar as palavras BLOCH EDITORES nas divisórias de vidro com tinta de ouro. Eu o via dias a fio, apoiando o pincel numa vareta, pintando com a mesma concentração com que Michelangelo pintara a Capela Sistina.

Apesar da beleza externa, o prédio, no seu interior, era todo problemas. Niemeyer era um poeta, um escultor, mas descurava do conforto e dos aspectos funcionais. O excesso de madeira concentrava brutalmente o calor. O sol nascia na entrada da baía de Guanabara apontando seu canhão para a Bloch. As belas janelas de vidro, que compunham a estética da fachada, só abriam poucos centímetros para dentro, impedindo a ventilação. Mesmo no inverno, a temperatura interna era dez graus a mais do que a da rua. Manter o ar ligado o tempo todo implicaria em custos astronômicos. Era nestas horas que surgia a figura heroica de R. Magalhães Jr. Irritado e suarento, o acadêmico tirava a camisa – exibindo seu torso nada apolíneo – colava uma lauda na testa e descia ao primeiro andar, onde Adolpho Bloch começava o dia despachando com o financeiro, descascando pepinos e abacaxis, empinando papagaios e maldizendo os banqueiros. Mas a fúria do Magalhães pegava o Adolpho de surpresa e imediatamente ele ordenava que o ar condicionado fosse ligado... só no andar da Manchete. Eu costumava comentar que o Oscar Niemeyer, comunista velho de guerra, era coerente: havia aplicado a teoria da luta de classes à sua arquitetura.

Nos almoços naquele platô do terceiro andar rolavam discussões homéricas, mesmo porque Homero Homem era um dos participantes, ele o poeta Ledo Ivo, também repórter especial da Manchete, e o Magalhães. Uma das controvérsias era se a mulher de Oswald de Andrade Patrícia Galvão, a Pagu, tinha mesmo trazido a soja da China para o Brasil. Outro tema de debate acalorado versava sobre quem teria desvirginado Carmen Miranda, no qual intervinha o Rodrigo Miranda, tradutor da Embaixada americana, que se dizia sobrinho da cantora, mas não esclarecia nada. Magalhães apontava para o terreno vizinho e dizia que o dono dele foi quem deflorou a Pequena Notável, o Maciel Filho, a quem também era atribuída a redação da carta-testamento de Getúlio Vargas. Advogado matreiro, que também trabalhou para Assis Chateaubriand nos anos 1930, Maciel tinha erguido ali um bizarro castelinho, imenso apesar do diminutivo. Maciel morreu em 1975 e Adolpho comprou o terreno. Demolido o castelo, ali seria construído o segundo prédio, o Russell, 766. Uma extensão da fachada do 804, mas alguns metros mais longo do que ele. Quando o novo prédio ficou pronto, em 1980, não foi imediatamente ocupado, lembro que Adolpho costumava promover lá um chá das cinco, com uma meia dúzia de gatos pingados – eu, o Cony, o Geraldo Matheus.

A ocupação do 766 teve efeitos irreversíveis. Morreu o restaurante do terceiro andar ao ar livre, vicejou o chique restaurante com ar condicionado no décimo segundo andar do novo prédio; morreu também o décimo andar do 804 como sala de visitas, as recepções agora eram no décimo segundo do 766. Esta era a nova entrada no térreo para as redações, com vários Krajcbergs nas paredes, mas nenhum com a monumentalidade do 804, que tinha um pé direito altíssimo. A televisão foi ao ar em 1983, construiu-se um banheiro exclusivo para o PH, filho do Presidente FH, que tinha um emprego na TV, como muito antes o irmão do Collor, o Leopoldo, também ganhara uma sinecura na TV em São Paulo.

O castelinho foi demolido para a construção do segundo prédio do conjunto
desenhado por Niemeyer para a Manchete. Um contínuo, o Sammy, convenceu a proprietária
a vender a casa vizinha ao castelo para Adolpho Bloch, onde foi erguido o terceiro prédio. A expansão parou aí. A terceira casa, obra do arquiteto italiano Antonio Virzi, com cúpulas, mastro e colunas retorcidas, ao lado do prédio de apartamentos, foi tombada pela prefeitura do Rio de Janeiro. Foto Acervo RM

A promiscuidade – ou vamos chamar de democracia – unia contínuos aos donos da empresa. O Sammy Davis Jr. prometeu ao Adolpho que ia conseguir para ele o terreno contíguo ao 766, cantando a senhorinha que era dona. Depois de anos, Adolpho comprou a casa e construiu ali, em 1986, a terceira fatia do bloco do Niemeyer. (Ignoro se o Sammy levou o dele.) Entre o primeiro e o segundo, havia um afastamento, uma fresta discreta. Já o terceiro era colado ao segundo e não tinha entrada autônoma. Foi ali que embarquei numa roubada: fazer para o programa da Anna Bentes, com a presença da própria, uma entrevista chapa branca com o grande especialista em fertilidade, Roger Abdelmassih, o médico paulista que foi condenado a trocentos anos de  prisão por abusar das pacientes. E foi no topo dessa terceira fatia que vivi meu ano e pouco de Santa Genoveva (matéria recente no Panis). Enfim, a história é esta, confiram as fotos – a do castelinho do Maciel acho que é inédita.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Tem gente hipotecando casas para investir em moedas digitais. Economistas dizem que isso pode não acabar bem

Express alerta sobre bitcoins
e  relembra o "crash" das tulipas. 
por Pedro Juan Bettencourt

Que os americanos costumam se endividar para consumir não é novidade. O problema é quando essa dívida tende a crescer exponencialmente, como aconteceu na crise de 2008.
Pois é, analistas de economia, lá, apontam novo salto no pendura dos consumidores da terra do Tio Trump.
Dessa vez, com um componente de alto risco: pessoas que hipotecam casas para investir em moedas digitais. Se essa bolha for perfurada - avaliam -, o mundo vai tremer.
Alguns artigos estão comparando as moedas digitais, como a bitcoin, com a famosa e devastadora crise das tulipas holandesas no século 17. Na época, um tipo de contaminação viral produziu uma raríssima tulipa púrpura que se valorizou no mercado. Por ser rara, óbvio, fez disparar as cotações. Acontece que os bulbos só floresciam no fim da primavera. Os produtores criaram então uma espécie de mercado futuro. O sujeito comprava um papel, que podia revender, que dava direito a um determinado número de tulipas quando estas florescessem. A cadeia financeira tornou-se especulativa e os preços dispararam. Muitas pessoas tomaram empréstimos ou venderam bens para comprar certificados de tulipas que passavam adiante horas depois por muito florins a mais. O negócio era tão bom que os agentes financeiros passaram a vender mais títulos do que a produção de tulipas garantia. A partir dos primeiros caso de investidores que não conseguiram resgatar seus capitais, a bolha estourou e abalou a Europa.
Como as tulipas na febre de 1626, a moeda digital não tem lastro. Diz a City londrina que muita gente pode ficar com o bulbo na mão.